quinta-feira, 25 de março de 2010

Uma casa com jardim

Yuri veio pra casa há mais de dez anos.
Saiu de um pet shop cedo, bem menino, mas já orgulhoso, como seria o resto de sua vida.
Adotou a "mãe", eu, de bate-pronto. Identificação mútua.


Gatos são assim; eles é que te adotam.
Você não os tem, você os conquista.
Ao contrário dos cães, eles não tem um líder, e sim uma mãe.
Amigos, companheiros, sinceros e leais, mas com seu próprio senso de humor, independência, vontades e manias. Não espere que eles rolem ou deitem quando você quiser: sua autoestima e personalidade não permitem.


Yuri era ainda mais altivo e arrogante com os "estranhos".
"Como essas pessoas entravam na sua casa, atrapalhavam a sua rotina e tiravam a sua mãe dele?"
Era isso que ele demonstrava quando as visitas o incomodavam.


Como eu disse, a identificação foi mútua, afinal, O Coisa é o Coisa justamente por causa disso: duro por fora e mole por dentro.
O apelido surgiu durante a defesa dos gatos do IFUSP.
Ambos somos antipáticos e arrogantes para os estranhos. Aliás, pra nós, simpatia é quase uma medida de burrice.
Ambos, quando estamos angustiados, desaparecemos.


Qualquer gato, como todo predador, é limpo, silencioso, ágil, elegante, resistente, inteligente e capaz de agir em grupo ou individualmente de maneira igualmente eficiente.
Yuri levava a elegância ao extremo. A limpeza à obsessão. Sempre cheiroso.
A arrogância, bem, essa veio por direito.


Com a "mãe" era extremamente amistoso, carinhoso e companheiro.
Falava pouco mas dizia muito.
Compreendia a pobre fala humana rapidamente. Conversávamos muito.


Todo branco, alto, atlético, pernalta e com cauda longa, subia em qualquer lugar sem derrubar nada, mesmo que na maioria das vezes não soubesse o que teria sobre o seu destino.


Há poucas semanas começou a comer pouco e beber muita água. Fomos ao seu médico, fizemos um teste de diabetes que deu negativo e, devido à dificuldade em examiná-lo melhor (ele, assim como sua "mãe", odeia sair de casa), nada mais foi verificado.
Uns dois meses atrás ele já mostrava pequenos sinais "diferentes". Gatos são sutis até quando estão doentes.


Nunca perdeu seu olhar doce, mas eu já sabia que algo grave estava acontecendo.
Sempre admirei os felinos de um modo geral e sempre tive gatos. Aliás, tenho pena de quem não tem ou nunca teve.


Há uma semana parou de comer totalmente, entrou no banheiro quando eu estava lá e urinou no tapete (coisa que nunca fez e nunca voltou a fazer mesmo quando piorou). O recado foi claro: a comida estava fazendo mal e havia algo estranho com a urina.
Alguns podem dizer que foi coincidência ou uma ação isolada, mas não creio.


Apesar de não querer acreditar, por negação pura, sabia que algo muito grave estava acontecendo. 
Forcei rações especiais e vitaminas, algo que em outra ocasião eu havia prometido nunca voltar a fazer. Hoje, como eu já previa, me arrependo. 
Mas como conseguir suportar um filho definhar diante dos meus olhos?


Seu médico nos visitou e o examinou detalhadamente. Coletou seu sangue e cheirou sua boca. Pelo cheiro, já suspeitou de insuficiência renal.
Suas consultas duram até 2 horas, uma aula para os médicos dos bípedes.


Yuri já estava muito magro e cambaleante, uma tortura pra ele e pra mim. Parei de forçar as rações medicinais pois seria uma maldade desnecessária caso a insuficiência renal fosse confirmada.


O resultado do exame foi claríssimo: insuficiência renal aguda.
Daria meu rim a ele. 
Venderia tudo pra tratá-lo, mas seu médico, ao contrário dos nossos, não viu a chance de faturar.
Dr. Nivaldo foi claro, hemodiálise diária e experimentalmente um transplante de rim com pós operatório dificílimo. Uma tortura com resultados duvidosos e sobrevida (se é que se pode chamar assim) mínima.
Não queríamos agir de modo egoísta e contrário ao curso natural.


Mais uma vez Yuri havia me dado uma aula e havia sido claro: "Não há mais tempo para mim. Tenho que enfrentar a finitude de modo digno".
A eutanásia foi uma opção rápida. 
Mesmo sabendo que eu sentiria culpa infindável e dúvidas eternas quanto ao que poderia ter sido feito e ao que eu devia ter feito. Pela razão, a opção foi feita.


Dr. Nivaldo foi em casa a meu pedido.
Um sedativo forte foi aplicado. Yuri, cambaleante sobre a mesa, encosta a cabeça no meu peito. A carinha toda. Não consigo esquecer essa cena.
Tenho vontade de cancelar, mas sei que seria pior o seu sofrimento por mais alguns dias.
Ele deita, eu seguro sua cabeça com uma mão e o acaricio por inteiro com a outra.


Uma injeção letal é aplicada na veia. Não é uma coisa boa de se ver, mas era minha responsabilidade e dever acompanhá-lo até o fim.
Um milhão de sensações e pensamentos passam por minha cabeça.
Um suspiro fundo, e está acabado.


Não destino meus entes queridos ao lixo sanitário. Como poderia fazer isso com alguém que me acompanhou por dez anos?
Quando mudamos da casa para um apartamento eu havia prometido a ele que voltaríamos a uma casa com jardim.
Não deu tempo. Mais uma vez sinto que não cumpri algo com alguém.


Mesmo sendo meio de semana, embalo-o numa toalha e vou imediatamente para o litoral, na casa da minha mãe.


Apesar de não ser do jeito que nós queríamos, ele agora descansa novamente em uma casa com jardim.