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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Em terra de surdo quem tem um ouvido não ouve.

Ninguém ouve. 
Apesar de não ser sábio, escrevo já generalizando.



As pessoas falam demais e ouvem pouco ou nada.
Quando perguntam sua opinião raramente te ouvem, é apenas pró-forma. Geralmente te interrompem ou cospem as suas verdades. Se quisessem ouvir apenas o fariam.

Não sei se é a época ou é inerente ao ser humano - apesar de não ser totalmente um essencialista.
Sempre fui um bom ouvinte, muito porque não gosto de falar e um pouco para 'errar' menos.

Mas ando me cansando desses 'discursadores compulsivos', quero silêncio. Já que não serei ouvido, que pelo menos não seja depósito de bobagens pretensiosas e possa ouvir a mim mesmo com serenidade.

Ando descartando com certa facilidade os amigos.
Sempre os fiz e os mantive com facilidade. Saber ouvir, não tocar muito em feridas alheias, ser confiável e estar aberto a diferenças. Diria que a receita é fácil.
Apesar de portador de déficit de atenção sempre me esforcei para ouvir os outros, ou pelo menos, fazer de conta em respeito ao tagarela.

Mas essa sociedade competitiva parece que contamina as amizades. Óbvio, não poderia se esperar nada diferente, elas emergiram nesse contexto histórico.
Mas até certa idade tinha uma utopia a respeito do assunto, bem diferente do status quo atual.

Dizem que o homem é um ser sociável, muito se escreveu sobre o assunto.
Não sei se existem evidências.
Para Freud era a origem de todas as neuroses.
Se agrupar para suprir as fragilidades pode ser apenas uma conseqüência (necessidade) evolutiva.
A comunicação não é diferente.

Um forma alternativa mais rápida do que passar informações através dos genes.
Nada mais do que isso, quanto mais "sofisticada" a comunicação, mais rapidamente "passo as informações para frente".

O resultado do darwinismo associado a uma sociedade extremamente competitiva talvez desencadeie essa 'surdez' coletiva: preciso 'passar a minha verdade' pra frente, pois somente ela importa.



sábado, 13 de novembro de 2010

O ócio...

Puxa, ando tendo várias idéias para escrever, mas nenhuma vontade em ir as vias de fato.
Sabe como é, a preguiça, ócio, procrastinação, enfim, a vagabundagem mesmo.

A saída da mundana capital paulista tem vantagens e desvantagens.

Começando pela primeira, já cito a ausência de pressa, a quase extinção do stress, a redução drástica da ansiedade desnecessária, o ar infinitamente de melhor qualidade, a inexistência do estranho calor calcinante do centro (tipo "Não Verás País Nenhum" mesmo), o esquecimento do sentido da palavra trânsito, praias, cachoeiras, reservas ecológicas, trilhas pra motoca, silêncio, silêncio, silêncio, silêncio e, finalmente, silêncio.


Uns amigos me disseram que estavam com inveja e outros que "um dia chegam lá".
Respondi calmamente que eles sabiam o quanto eu não era milionário (muito pelo contrário) e que tudo o que é delicioso aqui é absolutamente de graça.

Mas claro, desculpem a expressão e a linguagem, tem que ter culhão para largar a pocilga.

Aff, já me deu sono... a minha wi-fi por aqui da prioridade a rede, não a local ou a net, mas a rede mesmo.


Ops, esqueci das desvantagens...
Bem, não me ocorre nenhuma agora.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

No país dos decibéis

Fim do carnaval.
Não passei incólume. Fui atormentado por todos os meios de comunicação, vizinhos, transeuntes, etc.
O massacre do dumdumbratecumdum anual.
O desfile dos silicones e das músicas medíocres.

Não tenho nada contra samba.
Confesso que sou um adorador do rock e do blues, mas cito facilmente Chico Buarque, Adoniran Barbosa e Pixinguinha como bons exemplos do samba de qualidade.
E apesar de que "gosto não se discute" (a frase feita preferida dos ignorantes de mal gosto), qualidades e virtudes podem ser discutidas sim.

Qualquer bípede com o mínimo de QI não pode afirmar que Cláudia Leitte, Ivete Sangalo, É o Tchan, Sandy e Jr., Fresno e mediocridades desse naipe tem qualquer coisa de bom. Pode até dançar ao som dessas anomalias musicais, mas escondido, pois deveriam ter vergonha.

Fora a debilidade mental institucionalizada, me vem em mente a bizarra associação entre barulho e felicidade.
Antes de mais nada que fique claro que ninguém "É" feliz, e sim "ESTÁ" feliz. Assim como qualquer outra emoção humana ela dança em iguais proporções com suas companheiras na psique humana..

Domenico Demasi, um filósofo italiano, disse que o rico do século XXI terá duas coisas: tempo e silêncio.
Entenda que o "rico" é aquele que tem mais do que a maioria de algo que está escasso, ou seja, por definição não necessariamente é dinheiro como o senso comum aponta.

Outro fator alarmante é o medo do silêncio. Por terem pavor do silêncio, não educam seus filhos para valorizá-lo.
Têm tanto medo de ouvir suas próprias vozes (aquelas internas, perigosas e assustadoras) que se submetem (e infelizmente me submetem) a tudo, afirmando até que não se incomodam, o que é a maior e mais descarada mentira, dados os efeitos físicos comprovados do barulho, como elevação da adrenalina, pressão arterial, estresse, insônia, aumento de 20% na probabilidade de infarto e obviamente os efeitos diretos sobre a audição.

Por quê essas mentes minúsculas confundem alegria com barulho?
Duvido que a Tati Quebra-Barraco seja mais "feliz" que o Dalai Lama...

Com a barulheira que nos rodeia, tornamo-nos surdos a nós mesmos. É mais uma das ditaduras modernas.

Como disse Cláudio de Moura Castro, colunista da Veja: "Eu vinha de uma Suíça onde em muitos edifícios é proibido tomar banho à noite e puxar a descarga depois das 22 horas. Os ônibus são silenciosos. Os cachorros não latem. As crianças não berram.
Nos restaurantes a barulheira não está no cardápio, mas é parte do serviço. É como se o objetivo de manter uma conversação relaxada e inteligente fosse coisa subversiva..."

Meu caro Cláudio, conversa inteligente nesse país?! Aonde?
E ainda procuram-se sinais de vida inteligente fora do planeta...

"Não quero que o silêncio só exista na calada da noite, no alto das montanhas, no ermo das matas. Quero-o no contato com as pessoas queridas, ricas e coloridas - meus semelhantes. Não quero ser misantropa, quero ruído normal que me permita falar, sentir e pensar." - Anna Verônica Mautner -
Psicanalista.