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sábado, 25 de setembro de 2010

A MEDICINA DE TCHEKHOV

É muito bom!
Cortei para ler depois e se passaram meses... hehe, coisa de DDA...
Simplesmente reproduzirei aqui.

LUIZ FELIPE PONDÉ* (FOLHA DE SÃO PAULO – 28 junho 2010)
 
HÁ 150 ANOS, o escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904) nascia. Médico, Tchekhov tinha um sentido aguçado para a miséria concreta da vida humana. Partilho com ele de um grande ceticismo com relação à crença cega no progresso, tão comum entre os tolinhos de hoje em dia.
 
Qual a visão de mundo de Tchekhov? Qual é a marca profética (comumente referida na crítica especializada) dos autores russos do século 19 com relação à modernização? No caso de Tchekhov, contra o delírio de autossuficiência moderna, essa marca está na sua visão de que a humanidade vive contra um cenário infinito que ultrapassa cada um de nós e a cada “era histórica”, retirando-nos a possibilidade de avaliar o verdadeiro sentido de nossos atos. Apenas aqueles que viverão 500 anos depois de nós poderão, talvez, ver algum obscuro sentido em nossas vidas.

Ao contrário dos “ocidentalizantes” (termo comum na Rússia do século 19 para descrever os que abraçavam o avanço moderno sem dúvidas), que se viam como donos do próprio destino, Tchekhov logo percebeu que a modernização seria apenas mais uma experiência, como tudo que é humano, de fracasso com relação à posse do destino. Contra o ridículo orgulho moderno, ele vê que a modernidade seria uma série de encontros e desencontros com as eternas sombras do humano. Quais seriam as sombras “modernas”? Os ganhos sociais (a superação do “chicote”, como dizia Tchekhov, um descendente de servos) e técnicos (os ganhos da medicina no combate, por exemplo, à cólera, que tanto ocupou sua vida de médico de província) que cobrariam um alto preço (perda dos laços comunitários, mergulho na desumanização instrumental em busca de uma vida melhor, “bregarização da vida”), representado de forma cirúrgica em sua obra.

Esta paciência para com o obscuro sentido de nossas vidas é atípica em uma época como a nossa, marcada pela impaciência com o vazio da vida. Fingimos que sabemos o sentido de nossas vidas, vendo-o como sendo o “avanço” ou o “progresso” técnico, ético e social. Para cada avanço, um afeto se esvazia sob o dilaceramento das relações (burocratizadas) que se dissolvem no ar. Os afetos e não as ideias nos humanizam, e afetos não são passíveis de uma geometria do útil.

É exatamente da inutilidade dos afetos que fala Tchekhov em peças como “Tio Vânia” ou “Três Irmãs“, nas quais as pessoas são tragadas pelos avassaladores detalhes da vida numa marcha cega em direção ao desperdício da sensibilidade humana. Na peça “A Gaivota”, uma infeliz gaivota abatida torna-se metáfora de todo o drama: assim como é abatida uma gaivota (pelo diletante desejo humano da caça), somos todos abatidos ao longo da vida, por diletantismo do destino. Entretanto, que os tolinhos de plantão não pensem que um grande anatomista da alma humana como Tchekhov pensaria bobagens como “se não matarmos gaivotas o mundo será melhor”.

É no confronto com as contradições internas da sua obra que podemos perceber que Tchekhov não era um “tolinho progressista” que acreditava numa humanidade higienizada de suas misérias morais.

No conto “O Homem Extraordinário” , um homem insuportavelmente honesto, reto e justo (o “insuportável” fica por conta da fala de sua esposa na agonia do parto) destrói a possibilidade da vida cotidiana, em nome de uma vida absolutamente ética: sem luxos, sem desperdício, sem abusos. Este homem extraordinário dificilmente abateria gaivotas por diletantismo, mas, no lugar do diletantismo da caça, ele asfixiaria a respiração humana sob a caricatura morta de uma vida corretíssima.

No “Jardim das Cerejeiras“, uma família da pequena aristocracia rural russa empobrecida, dona de uma propriedade com um jardim de cerejeiras, perde a posse das terras para um descendente de servos, agora livre, burguês e crente no futuro. No lugar deste velho e inútil jardim será construído um loteamento de férias para a “classe média” vir com seu direito brega à felicidade e seu amor ao “futuro”. 

Pois é ele, o habitante brega desses loteamentos, o herdeiro da Terra e dele será o reino dos céus. 


* Atualização: o Pondé é um reacionário de merda e no meio acadêmico é geralmente desprezado, mas eventualmente se lê dele algo razoável.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Preciso de um pagé!

Fui no ortopedista semana passada.
Contra a minha vontade, mas como todo bom véio marombeiro estou na idade do condor. Com dor em tudo o que é lugar.

Há uns anos fiz uma aposta com minha companheira. Eu sempre pedia os exames, dava o diagnóstico e receitava o remédio pra confrontar com a resposta dos incapacitados dos médicos tecnicistas.
Nham, nham, nham... nunca errei.

Por favor eu não sou tão pretensioso assim. Não sou bom ou sábio demais, são eles é que são uma catástrofe!
Tudo bem que esse país virou uma fábrica de diplomas, mas pelo que me consta, eles não são um atestado de sabedoria suprema.


"Por mais que estudes não saberás nada se não atuas.

Um asno carregado de livros não é um intelectual nem um homem sábio.
Vazio de essência, que conhecimento tem, leve sobre si livros ou lenha." - Saad Shafi (não consegui confirmar a autoria)


Professor Serrano, seu alquimista maluco, nunca me esqueci disso.
Aposto que uns amigos de escola provavelmente, e assim espero, nunca tenham esquecido também.

Opa, pra variar dei uma viajada...

Como ser um "engenheiro de corpo", ou mais conhecido atualmente como médico:

1) Atenda rispidamente, com superioridade, afinal você é Deus;
2) No máximo dê a mão. Mas evite olhar para o "conjunto de órgãos" conhecido por alguns como "pessoa";
3) Vá perguntando qualquer coisa pra fazer de conta que está interessado, mas não olhe na cara do "conjunto de órgãos", afinal ele é apenas um um conjunto de tecidos vivos em desarranjo;
4) Não esquecer de ir riscando um papel qualquer. Pode ser desenhando um calunguinha num rascunho.
5) Por fim, como um ilusionista, faça a encenação e dê o veredito previamente decorado conforme as especialidades:

- ortopedista: raio X (em alguns casos, para dar um tom mais científico, ultrassom ou ressonância), seguido invariavelmente de antinflamatório e fisioterapia. Cortisona também é um clássico. No meu caso o sujeito ainda teve o disparate de dizer que era preciso fortalecer a parte em questão... são como os meninos de Olinda, o discurso é tão preparado que, apesar do tamanho do "conjunto de órgãos" em questão (eu) o discurso foi mantido.

- gastro: endoscopia e algum inibidor de produção de ácido estomacal. Algumas vezes mandam um antibiótico se a origem for bacteriana.

- psiquiatra: antidepressivo, ansiolítico ou ambos. Eles ainda não se livraram dos conceitos biomédicos do século XIX.

- oftalmologista: teste de "vista" e pressão ocular, seguido da clássica cortisona em alguns casos.

- dermatologista: raspa umas pintas, manda usar filtro solar e,  qualquer mancha esquisita (surpresa!), dá-lhe cortisona.

A "maravilhosa" medicina iluminista é linda!

Conseguimos combater com eficiência as doenças infecto-contagiosas do século XIX e algumas emergências (devo concordar que os ortopedistas engessam muito bem uma perna), mas as trocamos pelas "doenças da civilização" (Fritjof Capra), como cardiopatias, câncer, diabetes, depressão, ansiedade generalizada e sociopatias, que fundamentalmente tem origem no stress, dieta, vida sedentária, poluição ambiental e demais características da vida moderna. Resignados por não conseguir combater esses males, os ditos profissionais da saúde (que saúde?) os chamam de síndrome metabólica, virose e outras designações (ficaria mais contente se eles dissessem treco, troço ou xilique). É importante pra eles dar um nome bacana pra não falarem que não sabem.

Como o termo saúde deixou de ser discutido nas faculdades e foi simplificado para "ausência de doenças", o conforto e bem estar do paciente foi relegado a segundo plano. Sem a concepção de que a mente e o corpo são entidades inseparáveis não se pode conseguir saúde em seu amplo significado.

Morte, então, é de uma negação ímpar. Não sabemos morrer, e claro, negamos a morte. Mas essa parte é melhor deixar pra outro dia.

Mas ainda há esperança (se sobrar alguém vivo até lá).

A física, outrora apenas Newtoniana, que tornou-se a base do iluminismo (vou ter a pretensão de afirmar) e claro, do pensamento reducionista, agora também quântica (de Einstein, Bohr, Heisenberg, Bohm e companhia limitada), pode servir como base para uma nova era com novos valores nos próximos séculos (quem sabe décadas graças à internet?!). A chamada ciência da vida. Vou postar um pouco sobre isso em outra oportunidade.
Como pode ser entendido com Descartes: "Toda a filosofia é uma árvore. As raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos são todas as outras ciências".

Pra finalizar, Descartes era um matemático antes de mais nada.
O termo "filosofia" até o século XIX era usado pra tudo incluindo o que conhecemos como "ciência".
Daí sempre digo que a filosofia está em tudo e é parte essencial de todas as ciências, mas isoladamente, é apenas uma ferramenta de educação.

Como disse o biólogo Richard Dawkins em "Deus, um delírio": "Os filósofos, especialmente os amadores, com um aprendizado filosófico limitado, e mais especialmente ainda aqueles contaminados pelo 'relativismo cultural', podem levantar nesse ponto mais uma cansativa bandeira: a crença nas evidências é por si só uma questão de fé fundamentalista. Todos nós acreditamos em evidências em nossas vidas, independente do que professemos quando vestimos nosso uniforme de filósofos amadores. Se sou acusado de assassinato, e o promotor pergunta, sério, se é verdade que eu estava em Chicago na noite do crime, não posso me safar com 'Depende do que você quer dizer com "verdade"'. Nem com uma alegação antropológica e relativista: 'Só no seu sentido científico e ocidental de "em" é que eu estava em Chicago. Os bongoleses tem um conceito completamente diferente de "em", segundo o qual só se está "em" um lugar se se é ancião ungido com direito de aspirar o pó de escroto de bode".