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sexta-feira, 23 de março de 2018

Por que hoje a revolução não é possível?

Tudo foi tão naturalizado que dá calafrios...
Vamos com Byung-Chun Han:
 

Quando debati com Antonio Negri, um ano atrás, no Berliner Schaubühne, ocorreu um embate entre duas críticas do capitalismo. Negri estava entusiasmado com a ideia da resistência global ao império, ao sistema de dominação neoliberal. Ele se apresentou como revolucionário comunista e se autodenominava professor cético. Clamava com ênfase à multidão, à massa interconectada de protesto e revolução, a quem confiava a tarefa de derrotar o império. A posição do comunista revolucionário me pareceu muito ingênua e fora da realidade. Por isso tentei explicar para Negri por que as revoluções já não são mais possíveis.

Por que o regime de dominação neoliberal é tão estável? Por que há tão pouca resistência? Por que toda resistência se desvanece tão rápido? Por que a revolução já não é mais possível apesar do crescente abismo entre ricos e pobres? Para explicar isso é necessária uma compreensão adequada de como funcionam hoje o poder e a dominação.

Quem pretende estabelecer um sistema de dominação deve eliminar resistências. Isso é certo também para o sistema de dominação neoliberal. A instauração de um novo sistema requer um poder que se impõe frequentemente através da violência. Mas esse poder não é idêntico ao que estabiliza o sistema por dentro. É sabido que Margaret Thatcher tratava os sindicatos como o “inimigo interior” e os combatia de maneira agressiva. A intervenção violenta para impor a agenda neoliberal não tem nada a ver com o poder estabilizador do sistema.

O poder estabilizador da sociedade disciplinadora e industrial era repressivo. Os proprietários das fábricas exploravam de forma brutal os trabalhadores industriais, o que ocasionava protestos e resistências. Nesse sistema repressivo são visíveis tanto a opressão como os opressores. Existe um oponente concreto, um inimigo visível diante do qual a resistência faz sentido.

O sistema de dominação neoliberal está estruturado de uma forma totalmente diferente. O poder estabilizador do sistema já não é repressor, mas sedutor, ou seja, cativante. Já não é tão visível como o regime disciplinador. Não existe um oponente, um inimigo, que oprime a liberdade diante do qual a resistência era possível. O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido em empresário, em empregador de si mesmo. Hoje cada um é um trabalhador que explora a si mesmo em sua própria empresa. Cada um é amo e escravo em uma pessoa. Também a luta de classes se torna uma luta interna consigo mesmo: o que fracassa culpa a si mesmo e se envergonha. A pessoa questiona-se a si mesma, não a sociedade.

É ineficiente o poder disciplinador que com grande esforço oprime os homens de forma violenta com seus preceitos e proibições. É essencialmente mais eficiente a técnica de poder que se preocupa com que os homens por si mesmos submetam-se à trama da dominação. Sua particular eficiência reside no fato de não funcionar através da proibição e da subtração, mas através do deleite e da realização. Em lugar de gerar homens obedientes, pretende fazê-los obedientes. Essa lógica da eficiência é válida também para a vigilância. Nos anos oitenta, se protestou de forma muito enérgica contra o censo demográfico. Os estudantes até mesmo foram para as ruas. Da perspectiva atual, os dados necessários como função, diploma escolar ou distância do local de trabalho são ridículas. Era uma época na qual se acreditava ter pela frente o Estado como instância de dominação que arregimentava informação das pessoas contra sua vontade. É precisamente esse sentimento de liberdade que torna impossível qualquer protesto. A livre iluminação e o livre desnudamento próprios seguem a mesma lógica da eficiência que a livre auto exploração. Protestar contra o que? Contra você mesmo?

É importante distinguir entre o poder que impõe e o que estabiliza. O poder estabilizador adquire hoje uma forma amável, ‘smart’, e assim se faz invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer é consciente de sua submissão. Acredita ser livre. Essa técnica de dominação neutraliza a resistência de uma forma muito eficiente. A dominação que submete e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, é imunizado contra toda a resistência porque faz uso da liberdade, em lugar de submetê-la. A opressão da liberdade gera resistência de imediato. Ao contrário, isso não ocorre com a exploração com a liberdade. Depois da crise asiática, a Coreia do Sul estava paralisada. Veio então o FMI e deu crédito para os coreanos. Para isso, o Governo teve que impor a agenda neoliberal com violência contra os protestos. Hoje mal existe resistência na Coreia do Sul. Pelo contrário, predomina um grande conformismo e consenso com depressões e síndrome de Burnout. Hoje a Coreia do Sul tem a mais alta taxa de suicido do mundo. A pessoa emprega a violência contra ela mesma, em lugar de querer mudar a sociedade. A agressão ao exterior que teria como resultado uma revolução cede diante da autoagressão.

Hoje não existe nenhuma multidão cooperativa, interconectada, capaz de se transformar em uma massa de protesto e revolucionária global. Pelo contrário, a solidão do auto empregado isolado, separado, constituiu o modo de produção presente. Antes, os empresários competiam entre si. Entretanto, dentro da empresa era possível existir solidariedade. Hoje todos competem contra todos, também dentro da empresa. A concorrência total ocasiona um enorme aumento da produtividade, mas destrói a solidariedade e o sentido de comunidade. Não se forma uma massa revolucionária com indivíduos esgotados, depressivos, isolados.

Não é possível explicar o neoliberalismo de um modo marxista. No neoliberalismo não existe lugar nem sequer para a “alienação” a respeito do trabalho. Hoje dedicamo-nos com euforia ao trabalho até a síndrome de Burnout [fadiga crônica, ineficiência]. O primeiro nível da síndrome é a euforia. Síndrome de Burnout e revolução se excluem mutuamente. Assim, é um erro pensar que a multidão derrotará o império parasitário e instaurará a sociedade comunista.

E o que ocorre hoje com o comunismo? O sharing (compartilhar) e a comunidade são constantemente evocados. A economia dosharing deve suceder a economia da propriedade e a posse. Sharing is caring [compartilhar é cuidar], diz a máquina da empresa Circler no novo romance de Dave Eggers, The Circle. Os paralelepípedos que formam o caminho até a central da empresa Circler contém máximas como “busque a comunidade” ou “envolva-se”. Cuidar é matar, deveria dizer a máxima da Circler. É um erro pensar que a economia do compartilhar, como afirma Jeremy Rifkin em seu mais recente livro, A Sociedade do custo marginal nulo, anuncia o fim do capitalismo, uma sociedade global, com orientação comunitária, na qual compartilhar terá mais valor que possuir. É exatamente o contrário: a economia do compartilhar conduz, em última instância, à comercialização total da vida.

A mudança, realizada por Rifkin, que vai da posse ao “acesso” não nos libera do capitalismo. Quem não tem dinheiro, tampouco terá acesso ao sharing. Também na época do acesso continuamos vivendo no Bannoptikum, um dispositivo de exclusão, no qual os que têm dinheiro ficam excluídos. O Airbnb, o mercado comunitário que transforma cada casa em hotel, rentabiliza até mesmo a hospitalidade. A ideologia da comunidade ou do comum realizado em colaboração leva à capitalização total da comunidade. A amabilidade desinteressada já não é mais possível. Em uma sociedade de valorização recíproca a amabilidade também é comercializada. A pessoa é amável para receber melhor valorização.

Na economia baseada na colaboração também predomina a dura lógica do capitalismo. De maneira paradoxal, nesse belo “compartilhar” ninguém dá nada voluntariamente. O capitalismo chega em sua plenitude no momento em que o comunismo é vendido como mercadoria. O comunismo como mercadoria: isso é o fim da revolução.

Byung-Chun Han, filósofo

sábado, 24 de fevereiro de 2018

As contradições que permeiam a pratica das ecovilas


"As contradições que permeiam a pratica das ecovilas" - excelente artigo do Prof Luis Fernando de Matheus e Silva, professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Alberto Hurtado, Santiago de Chile; Doutor em geografia Humana pela Universidade de São Paulo.


Quando o "alternativo" é institucionalizado (GEN, Gaia Education, etc) e ao mesmo tempo cooptado pelo capital, o que resta da ideologia? E afinal, qual é a ideologia?

Nas minhas "andanças" nesse mundo "alternativo", houveram grandes desilusões.
Jovens cheios de ideais e grande energia, porém desprovidos de um mínimo de cultura e noção da realidade; grupos místico-religiosos (sim o veganismo entra bem aqui); desesperados sem plano; e por aí vai.

Não desisti e ainda acredito muito numa "sociedade alternativa", mas tendo em mente que é o núcleo sociopolítico que deve ser priorizado, "a natureza" (essa forma que conhecemos - lembrando que não existíamos na maior parte da vida do planeta) e à moral no trato dos outros seres vivos e às futuras gerações será consequência. 
Mas um grau de racionalidade, sensatez e real vontade de estabelecer um outro modo de vida está bem difícil.

Um dos últimos contatos/notícias de um dos fundadores de uma ecovila foi que ele "está vendendo sua cota porque engravidou uma moça". Ou seja, a vida real era outra. Foi a que subitamente bateu sua porta e lhe colocou diante do que ele realmente quer, do contrário, estaria montando sua família aonde seu (suposto) ideal estava.


Pra dar o tom:


"... a terceira fase da geografia histórica das contraculturas espaciais ganha envergadura a partir da década de 1990 e pode ser considerada uma espécie de continuum de toda a movimentação iniciada nos “rebeldes” anos 1960. Tal como ocorrido anteriormente, as experiências despontadas nesta etapa traduzem as questões próprias de seu tempo. Neste sentido, a privatização generalizada e a (quase) total mercadificação da vida, seguidas por todo tipo de desregulamentações e aventuras especulativas financeiras desencadeadas ao longo da globalização do capitalismo neoliberal, amplificaram, em muito, os problemas socioambientais já existentes desde os albores do capitalismo.
Assim, em virtude do recrudescimento dos mecanismos de acumulação por espoliação e do processo de “destruição criativa da terra” (HARVEY, 2010) que notabilizam o atual estágio de acumulação, não causa estranhamento que o acento na sustentabilidade esteja muito mais presente agora do que em outros momentos da geografia histórica das contraculturas espaciais, afinal de contas, “vivemos o paradoxo de jamais ter sido tão vasto e profundo o processo de dominação e devastação da natureza quanto nesses últimos 30-40 anos em que até mesmo uma questão – a ambiental – se constituiu” (PORTO-GONÇALVES, 2006, p. 65)...


...não obstante, ainda que possua uma série de fundamentos e elementos capazes de serem alocados positivamente em favor da transição a uma nova sociedade, mais ecológica e igualitária, faz-se necessário analisar o fenômeno das ecovilas de uma maneira um pouco mais cuidadosa, nomeadamente quando de sua institucionalização e consequente “adaptação funcional” ao mercado e à sociedade capitalista, visto que muitas das perspectivas adotadas pela GEN para edificar um “mundo sustentável” mostram-se limitadas e trazem consigo uma série de problemas e incoerências que devem ser esmiuçadas.

...em relação a isso, o filósofo e economista grego Takis Fotopoulos (2000) alerta para a incapacidade apresentada pelo movimento de ecovilas, tanto no plano teórico como no prático, para construir uma nova ordem mundial. Seguindo a tradição pacifista presente na geografia histórica das contraculturas espaciais desde sua gênese, os “ecovileiros” buscam edificar uma nova sociedade ecológica através da “força do exemplo”, sem confrontar diretamente o sistema hegemônico.

... Fotopoulos acusa ainda as ecovilas de não se posicionarem de forma contundente contra a verdadeira causa dos problemas socioambientais atuais, mostrando-se muito mais preocupadas em adequar-se às regras que regem a sociedade capitalista do que propriamente contrapor-se a elas. Sinais claros desta “adaptação funcional” ao atual estado de coisas podem ser percebidos na incorporação e na reprodução acrítica de um discurso “pró-empreededorismo”, bem como no desenvolvimento de uma multiplicidade de negócios, que, apesar do “selo verde”, não raro mantêm a mesma lógica capitalista.

Isto, porém, não chega a ser de todo uma surpresa, dado que muitos dos que estão ligados ao movimento institucionalizado de ecovilas pertencem às classes médias acomodadas e buscam, nas palavras de Fotopoulos, apenas construir melhores condições de vida para si mesmos, de uma maneira bastante autoindulgente.

'Não por acaso, os partidários das ecovilas não parecem influenciar os bilhões de desprivilegiados que lutam para sobreviver, tanto no sul como no norte, e sua influência parece estar concentrada entre aquelas pessoas que já têm seus problemas resolvidos e agora podem se preocupar com um estilo de vida e a espiritualidade (FOTOPOULOS, 2000).'

Contudo, o afastamento de parte considerável do movimento institucionalizado de ecovilas de um programa social e político verdadeiramente comprometido com os interesses das classes trabalhadoras, bem como a sua participação (direta e/ou indireta) na reprodução do sistema dominante, não podem ser explicados unicamente pela origem “burguesa” de seus membros. Deste modo, considera-se que a obliteração do “potencial emancipador” das ecovilas, traduzido em sua despolitização e, consequentemente, na sua bem-sucedida adequação ao status quo, repousa no fato de o dito movimento ter sido criado e desenvolvido paralelamente à ascensão do neoliberalismo. Por conta disto, resultam bastante comuns a apropriação e a reprodução acrítica de certos discursos, ideologias e práticas que compõem o “arsenal” capitalista (particularmente neoliberal), algo que fica explicitado em inúmeras ocasiões, apesar de muitas vezes ignorado por seus entusiastas.

A fé no utopismo do capitalismo verde professada por parte do movimento de ecovilas pode ser justificada quando se esquadrinham as origens da fundação dinamarquesa Gaia Trust – uma das maiores impulsionadoras da criação da Rede Global de Ecovilas (GEN) e, sem dúvida, sua principal mantenedora. Dita fundação nasceu como o braço filantrópico da companhia especializada no gerenciamento de linhas de fundos mútuos Gaia Corp, fundada em 1988 pelo empreendedor canadense-dinamarquês Ross Jackson. No ano 2000, após uma história empresarial de relativo sucesso, a Gaia Corp foi vendida ao grupo sul-africano Appeton, no entanto, a Gaia Trust, com Ross e Hildur Jackson à frente, continuou existindo, agora atrelada à Gaia Tech, empresa de venture capital responsável por investir recursos em pequenas e médias companhias “verdes” dinamarquesas, financiando seu desenvolvimento e contribuindo para levá-las a novos patamares mercadológicos.

O amálgama ambientalismo-capitalismo é assim apresentado na página web da fundação:
A estratégia da Gaia Trust sempre foi baseada numa dupla abordagem Yin e Yang. O componente Yin é o suporte ao movimento de ecovilas, através do seu subsídio, enquanto o componente Yang é o investimento de capital em recém-criadas companhias “verdes”, que complementam a política de subsídios, criando empregos e promovendo mais negócios sustentáveis. O principal projeto resultante foi o estabelecimento da Rede Global de Ecovilas e o da empresa de capital de risco Gaia Technologies S/A. Mais de 300 projetos em 30 países foram subsidiados. Um dos conceitos chave é o de suportar os primeiros cursos de permacultura em diversos países.

Sinais dos tempos: Gaia, a Mãe Terra dos gregos, tem seu significado alterado pelas mãos do Deus Capital e os mecanismos financeiros passam a ser utilizados em nome da transição rumo a uma nova sociedade mais “espiritualizada” e “ecológica”. Dessa maneira, sustentabilidade e capitalismo são explicados cósmica e naturalmente como forças antagônicas, mas complementares e interdependentes, que se integram em um todo orgânico indissolúvel. Ideologicamente, isto é da maior  relevância, visto que colabora para reforçar a ideia de que não existe alternativa para edificar uma sociedade “sustentável” sem passar pelo filtro do mercado capitalista. Sobre esta questão, David Harvey (2008) explica que muitas das mobilizações e movimentos contestatórios contraculturais surgidos a partir dos anos 1960/70 foram incorporados pelo capital e passaram a colaborar para legitimar popularmente, no nível da experiência cotidiana, a virada neoliberal. 'O efeito disso em
muitas partes do mundo foi vê-lo cada vez mais como uma maneira necessária e até completamente natural de ‘regular’ a ordem social'

 
"


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Vai um salmãozinho aí?

Nada como uma alimentação saudável...
Depois que vi o doc da industria de alimentos para pets acho que nada mais me surpreende.




E viva o neoliberalismo!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

As nossas pequenas canalhices cotidianas

Da penúltima vez que eu estava descendo (São Bernardo -> Peruíbe), ao parar no pedágio (uma das máquinas neoliberais de gerar milionários), um dos muitos rapazes que vendem coisas ali me pediu uma carona.

Nos pedágios do sistema Anchieta-Imigrantes é 'normal' esse comércio. O que não era normal eram os pedidos de carona.

Há um tempo me incomodava de fazer esse trajeto sozinho no carro. Acho uma certa indescência ter lugares vagos e saber que tem gente que paga - quando consegue - quase R$40,00 para fazer esse trajeto.

Uma pausa: R$ 80,00 ida e volta de ônibus é praticamente a mesma coisa que um motorista de carro gasta de combustível e pedágio para fazer este trajeto, o que, para não dizer outra coisa, é bastante "estranho", já que num coletivo, como a própria palavra designaria, o valor seria solidário entre os passageiros e portanto deveria ser bem mais barato. Sim, mais uma vez, algum asqueroso do "livre" comércio enriquece com exploração, legal, porém amoral.

Voltando ao causo, disse ao jovem que ele poderia embarcar.
Ele me diz que sua família também iria e aí não pude manter a oferta pois tinha um rolo de fórmica no banco de trás. Pra quem não sabe os laminados desse tipo vem num rolo grande, não podem ser dobrados e são mais ou menos delicados.

Ele agradeceu e eu segui viagem pensando no episódio.

Fora nossas pequenas canalhices cotidianas como essas individualidades recheadas de preconceito (sim, devemos assumir que boa parte da questão 'segurança' vem dele), conveniências e auto indulgências, me perguntei por que após tantos anos passando ali agora me pediram carona?



Ontem ao fazer o mesmo trajeto uma menina bem jovem me pede carona no mesmo ponto. Dessa vez não havia nada no carro e eu mais ou menos sabia que ela não viria sozinha.
Eu disse que encostaria o carro para não atrapalhar ninguém um pouco mais à frente e ela e seu marido poderiam carregar suas coisas e entrar no carro.

No porta malas colocamos seus itens de venda: seu isopor e suas embalagens de chocolates e salgadinhos.

De certa maneira fiquei um pouco apreensivo.
O massacre midiático (apesar de eu não ter televisão em casa) e os preconceitos nos rondam constantemente.

O máximo do perigo foi o rapaz adormecer segurando a cabeça no banco da frente e a moça ficar pescando no banco de trás.

Um casal muito jovem. Não diria mais do que 18 ou 19 anos se tanto.
Ela mulata pequenininha e ele um rapaz branco magrinho de feições comuns.

Estavam com certo odor forte, claro, um dia inteiro trabalhando na estrada sem banheiro e nenhuma outra condição digna qualquer um estaria.

Antes deles entrarem naquele estado de sonolência perguntei como era a condução e tal. Eu queria compreender o por que desse 'fenômeno' da carona estar aparecendo.

O jovem me disse que antes as vans davam carona pra eles porém agora eles cobram R$ 20,00 de cada um.

Vejam a que ponto a indecência humana em forma de monetização pode chegar!
Um 'empreendedor de vans' parte para explorar o inexplorável!
Talvez R$ 20,00 seja tudo (ou talvez nem isso) o que o rapaz consiga faturar no dia!

Paramos no caminho no bairro de Humaitá, à beira da estrada.
Eles desceram, me agradeceram e me ofereceram água e bolacha.
Neguei pois não seria justo surrupiar seu 'estoque' e nem dentro do conceito da generosidade e da dádiva a que tanto reclamo faltar no mundo. 
Um aperto de mão foi o que fiz questão de aceitar. De um humano a outro. Sem mais nem menos. Sem valoração, monetização ou julgamento.

Lembrei do meu jovem 'amigo' com seu discurso meritocrático e fascista, típico da atualidade.
Um sujeito branco, de família razoavelmente estável financeira e emocionalmente, numa sociedade que conspira para que ele tenha acesso a tudo, além da sorte e do acaso. Ele é o corredor bem nutrido, treinado e vestido que sai na frente da 'plebe' (que além de não ter nada disso nem sequer tem o "querer" incutido em sua criação) e depois branda alto seus supostos méritos.

Acabava de deixar dois brasileiros na estrada, que realmente trabalham, numa luta desigual e desumana pela sobrevivência.
Dois jovens cujos piores castigos sem razão - a não ser a cor da pele e as suas origens - a que são submetidos são a desesperança e a ausência de sonhos.

Bem nos lembra Amartya Sen, liberdade substantiva é algo mais amplo do que a simples liberdade formal (essa de ficção que temos). Sem a primeira não há justiça e portanto NINGUÉM pode arrotar suas supostas conquistas.

Não sei qual o limite da perversidão a que esse sistema sócio-econômico nos meterá.







domingo, 26 de março de 2017

Ah a hipocrisia... e a ignorância...

Essas últimas semanas recebi umas imagens via whatsapp justamente do meu "chefe" (cliente, mas é praticamente a mesma coisa) que nunca me manda bobagens desse tipo.


Conhecendo-o, imaginei o tipo de manifestação que seria...

Interessante como essas pessoas (e 99% das demais) como nos lembra bem o prof Karnal, sempre veem a corrupção dos outros. É aquela máxima da corrupção ser como a salsinha no dente: você só vê a dos outros.

O que se denomina como corrupção atualmente, nada mais é do que uma das práticas contumazes de todo o tipo de imoralidade que justamente esses ultraliberais (ou neoliberais, como queiram) apregoam, ou seja, pelo lucro/acúmulo tudo é válido.

Meu "chefe" pratica margens de lucro da ordem de 168%, assim como todo o tipo de manobra fiscal (legal ou não) para pagar menos impostos e "combinar procedimentos" com os concorrentes. Devemos sempre lembrar que os "concorrentes" são os amigos da mesma classe social, logo, sempre há um acordo de "cavalheiros" a cerca de certas práticas.

Se você pensou em "mas o mercado é que faz o preço" ou "todos são livres para escolher outro fornecedor", eu só posso imaginar que você ou é muito ignorante, crédulo ou é um deles (desses "corretos homens de bem")... o comum é que de uma maneira ou de outra seja um pouco de todas as opções.



Os liberais (lembro sempre que Adam Smith era professor de moral e sua obra mais conhecida - A riqueza das nações - foi, segundo ele mesmo, algo que nunca deveria ser lida sem a sua outra obra, Os princípios da moralidade humana) usavam a moral como limite do que seria justo e descente.

O ultraliberalismo necessitou que a moral fosse solapada para que houvesse liberdade total para qualquer tipo de prática econômica (por isso esse discurso insano de estado mínimo).
Apenas como exemplo, deixe-os lembrar que na década de 40 e 50, quando o CEO da GM elevou seus rendimentos acima do que se considerava razoável ele teve que depor no congresso norte americano.

Não, não existia e nem existe nenhuma lei que controle isso, porém existia a moral.

TODOS nós somos livres até certo ponto e nossas atitudes esbarram no limite da razoabilidade em nome do bem comum e da justiça. É a premissa básica do "o que EU NÃO DEVO FAZER ainda que me seja permitido e o que EU DEVO FAZER ainda que eu não seja obrigado e não ganhe nada em troca".

Hoje porém um CEO de uma Wallmart por exemplo, ganha muitas milhares de vezes o que o mais baixo cargo da mesma corporação (fator muuuito maior do que o caso da GM no meio do século XX), sem nenhuma justificativa funcional e muito menos ética (vide, por exemplo, Krugman - A moral de um liberal).

Por que uma passeata de classe média dessas é uma hipocrisia e defender tudo isso é um tiro no pé?

Se a moral é solapada da sociedade, ela não se restringe a um contexto, a ideologia dessa ética (ou falta dela) é incontrolável e contamina toda a malha social.

É uma dona de casa classe média que responde a cerca do valor pago a sua 'empregada' (aliás, resquício descarado do ideal escravagista): "é o que pagam por aqui".

É o patrãozinho que sabe que não é possível alguém manter uma família com "o salário legal da categoria" mas paga assim mesmo.

É a "comissão" ou "sistema de recompensas" que alguns profissionais recebem e aceitam quando indicam certo produto.

Enfim, é toda vez que não nos perguntamos a cerca de certa ação e depositamos uma questão moral em um grupo, classe ou pior ainda, numa coisa completamente sem sentido como o "mercado". 

Dentro desse imbróglio, nesse mesmo relacionamento 'prestador de serviço/cliente' que eu iniciei este post, ao recomendar a compra de um servidor e alguns equipamentos da Dell (foi uma questão de custo benefício momentânea, não tenho nenhuma preferência por marca) para esse meu cliente, o pessoal da Dell automaticamente entrou em contato comigo para oferecer um "programa de recompensas" aos consultores que indicam a Dell a seus clientes...

Na primeira ligação eu respondi ao cidadão que eu não aceitava propina.

Um silêncio constrangedor momentâneo pairou na ligação.
Claro que rapidamente, o dito cujo me disse que não era propina e sim um programa de recompensas que os consultores podem acumular e usar em suas aquisições de equipamentos Dell.

Eu apenas respondi que "chame do que quiser, isso é propina e não me interessa".

Alguns dias depois recebi um "vale de R$1000" para eu usar de desconto para adquirir produtos Dell.
Vale este que eu joguei fora em nome da minha consciência e de tudo o que acredito como decência humana.

Este é o ponto crucial,
O que ganhamos (ou seja lá o nome que certas negociatas recebem) muitas vezes não passa de propina, corrupção, amoralidade e indecência, coisa que abominamos nos outros, porém, numa sociedade amoral, somos indulgentes em nosso auto julgamento.

E nesta "liberdade" viva a JBS, BRF e TODAS as grandes corporações cujo objetivo é único: lucro.

Inúmeros sociólogos e filósofos já nos alertavam e ainda alertam sobre o risco do corrompimento completo da malha social quando delegamos a nossa moral à lei (ou à técnica, o que no fundo é a lei) ou algo quase surreal como "o mercado" (dilema muito bem apresentado no sucinto e direto O capitalismo é moral de André Comte-Sponville).

O resultado, bem, está cada vez mais nos engolindo.

Quando esse mesmo "sumiço da moral" ocorre numa classe mais baixa e com menor (ainda) grau de educação (formal e/ou não formal) aliada a sua desumanização completa, nada me estranha que um indivíduo se ache no "direito de eliminar outra coisa que o atrapalha para alcançar seus objetivos".










"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” - Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis







sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Novidade ou eu apenas acho que o mundo começou comigo?

Nós somos criaturas bastante  bizarras.
Dado a nossa existência curta e nossa ignorância ampla, achamos sempre que somos cheios de criatividade e ideias inovadora, ainda mais no momento histórico onde "eu acho que" (sem maiores lastros) virou algo a ser valorizado.

Bom, se você  acha algo bizarro e saído "do nada" uma figura insólita (e nem por isso menos perigosa e nefasta) como Donald Trump assumir o poder da mais influente e poderosa nação do mundo, acho que apelas à história traz respostas... e péssimas perspectivas...

Indo direto ao ponto, desde que resolvi estudar economia (muito mais a política econômica e a moralidade derivada) uma coisa me deixava curioso: conhecer um pouco mais dos "primos ricos".

Como já li muita coisa do Paul Krugman (professor em Princeton, Nobel em economia, phD pelo MIT, colunista e escritor), achei na sua lista o "A consciência de um liberal". Muito bom, vale a pena pra qualquer um queira um panorama da política econômica dos EUA a partir do fim do século XIX.

Não é minha pretensão fazer uma crítica ou resenha do livro. Me considero muito ignorante para isso.
Mas acho que vale muito a pena nessas épocas "Trumpiquescas" e de devaneios ultraliberais no Brasil.

Basicamente prof Krugman demonstra como os EUA se tornou (principalmente nos Trente Glorieuses) o país das oportunidades e de como ele deixou de o sê-lo desde a década de 80.
Com dados muito consistentes prof Krugman derruba vários dos mitos ultra liberais (ou neoliberais se assim preferir) do estado mínimo, mitos da austeridade, redução tributária, etc.

A parte econômica (em especial as "receitas para grandes compressões" ou o New Deal norte americano) pode ser facilmente avalizada, por exemplo, com as obras de Joseph Stiglitz, Amartya Sen e brilhantemente por Thomas Picketty, mas a parte que mais me interessou foi a política mesmo.

Por exemplo, alguns se surpreendem com medidas aparentemente mais progressistas e liberais para um republicano que o governator Schwarzenegger tomou em sua época à frente do estado da Califórnia, e recentemente com suas críticas a Trump (republicano, homofóbico, sexistas, truculento, racista, egocêntrico, narcisista...), mas prof Krugman mostra que nem sempre republicanos e democratas estiveram em lados tão opostos.

Usa por exemplo o presidente Eisenhower como exemplo de republicano que ainda manteve certos programas sociais, etc. Cita que inclusive, a lei que aboliu a escravidão nos EUA foi aprovada por republicanos (os interesses obviamente não deixaram de ser citados).

A polarização republicana foi basicamente resultado de uma agregação de forças conservadoras em especial as elites sulistas (a versão do 'coronezinho' deles), empresários e grandes executivos, fanáticos religiosos e outros lunáticos perigosos, que, com o poder econômico, cooptaram estrategicamente a grande mídia e até mesmo partes da elite acadêmica (os think thanks).

Esses "organismos" (os think thanks) aglutinam toda a espécie de centro de influências sociais legais ou não, plantando notícias falsas e boatos, agraciando pesquisadores se os "resultados científicos" ficarem no interesse conservador, chantageando políticos e manipulando eleições.

Sim, manipulando eleições.
Prof Krugman nos traz uma série de fatos a respeito de como a prática de manipular eleições nos EUA é antiga e praticamente institucionalizada.

A saúde universal mereceu especial atenção, antecipando (o livro é de 2008 se eu não me engano) a derrubada do Obama Care e esclarecendo porque é muito importante para os conservadores que a saúde nunca se universalize nos EUA (eles chama de "saúde socializada" para reforçar o "perigo comunista"), motivos que vão além dos poderosos cartéis das indústrias médicas e farmacêuticas e da corrupção generalizada (sim, lá também tem!).

Assim como outros economistas sérios e imparciais (dentro do que a ética nos permite ser) ele mostra que os EUA se tornaram um país oligárquico novamente, com altos índices de violência, queda no nível escolar, achatamento da classe média e escabrosa desigualdade social, tudo basicamente resultado de redução tributária, ausência de controle (mesmo que seja apenas o moral) dos grandes salários, perseguição aos sindicatos e às forças organizadas ligadas ao trabalhador e à total (ou quase) ausência de um estado de seguridade social.

Apenas para bater na mesma tecla, de modo sucinto porém enfático, usando literalmente as palavras do prof Krugman: "as sociedades de classe média não surgem automaticamente enquanto uma economia amadurece, elas tem de ser criadas por meio da ação política".
 
O livro tem muita coisa boa e é recheado de ótima bibliografia. Vale muito a pena para nós cucarachas, os "primos pobres", que estamos adotando esse discurso de satanização dos impostos, do estado mínimo, da suposta meritocracia, da polarização irracional, da truculência e da xenofobia, e permitindo exatamente a mesma coisa que "lá": que grupos religiosos, ultraconservadores, empresariais e os barões de sempre se aglutinem e reinem sem questionamentos.

O capitalismo é como o 'Banco Imobiliário' (versão eufemística do nome original Monopoly): ele só funciona mal e porcamente quando um forte "juíz" (por definição aquele que deveria zelar por todos e a quem se outorga até mesmo a exclusividade da violência: o Estado) organiza, equaliza as forças e redistribui as riquezas. Sem o "juíz" ou se ele for o próprio jogador... bem, é o que estamos vendo...

Pra divertir a reflexão segue um doc do Michael Moore (apesar do jeito "Moore" de ser, seus docs são sempre interessantes):




A Corporação é um documentário premiado canadense. Esse vai de "brinde"... :o)
Você imagina a origem da "pessoa jurídica"? Então veja... é sinistro...



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Admirável mundo novo



Nova translação da Terra e velhas tristezas...
Seu Tino é um senhor de 70 e muitos anos, negro, trabalhador e que sempre foi muito forte. Nos últimos anos claro a saúde está meio debilitada, a coluna já não ajuda e por aí vai.

Muito gentil e honesto, faz parte daquela leva de brasileiros marginalizados, sem educação formal e muito menos especialização alguma.
Perambula por aí atrás de serviços variados como capinar um terreno, limpar um jardim, cavar uma piscina... sim, o velho abriu uma piscina sozinho na pá!

Como todo explorado, principalmente sendo negro, sua postura é sempre humilde e resignada.
Às vezes o contratamos para algum serviço aqui em casa, assim como minha irmã o faz na casa dela. Sempre frisamos que ele deve ter o tempo dele sem prejudicar sua saúde e sempre permitimos que ele use o banheiro e tome água fresca filtrada, assim como à tarde o servimos algum lanche.

Todos os nossos prestadores de serviço são tratados com respeito e dignidade, sejam eles jardineiros ou advogados. Aliás, a hora da vida humana de ambos tem o mesmo valor.

Estranho alguns diriam.
Paternalista diriam outros.

Tratar com respeito e humanidade alguém passou a ser sinônimo de “favor”, e conseguir o ”melhor negócio” ainda que às custas de um pobre coitado virou “natural”.
Ele capina quase um terreno inteiro de um lote padrão de 300 m2 e pede 20 Reais... tem gente que aceita ou pior, pechincha!

Nenhum ser humano com um pingo de moralidade deveria aceitar pagar tão pouco para alguém trabalhar tão duro.

Alguns disparam o chavão neoliberal do “mercado” e da “oferta e procura”... com certeza Adam Smith (o papa dos liberais e neoliberais, que antes de mais nada era professor de moral – vide seu livro “Princípios da moralidade humana” que, segundo ele mesmo, nunca deveria estar separado do famoso “A riqueza das nações”) iria achar minimamente descente isso.

Pagamos 100 Reais ou mais para esse um ou um dia e meio de trabalho duro.
Ninguém aqui é rico, muito pelo contrário. Nossa vida é bem simples por opção.

A moral, simplificando, é o constate questionamento de “o que eu NÃO DEVO fazer ainda que me seja permitido” e “o que eu DEVO fazer ainda que eu não ganhe nada em troca e nem me seja solicitado”
.
A essas questões, que devem permear constantemente a mente humana, soma-se a sua conduta para com o outro como indivíduo e como coletividade.

Daí logo se vê que “a lei” é apenas uma técnica. Uma ferramenta quando toda educação falhou. A última e falha cartada de uma sociedade decrépita.
A técnica quando substitui a moralidade solapa todo o humanitarismo de uma civilização e torna nebulosa – propositalmente - a diferença entre, parafraseando Amartya Sen, a liberdade formal e a liberdade substantiva. Pois a primeira depende da técnica – lei – e obviamente estará sempre a favor dos que podem pagar e a segunda depende da moral humana. Não é apenas uma coincidência que o neoliberalismo fomentou a extinção da moral, pois o que sobrou está sempre a favor de uma minoria que agora nem se freia diante de uma conduta imoral ainda que legal.

Mas voltando ao seu Tino, muita gente o explora na vizinhança.
É um misto mixo de poder e oportunismo, de uma ganância pífia, de uma naturalização do ganhar a qualquer custo.
É o discurso e o modus vivendi naturalizado dessa sociedade, que também defende as chacinas, a criminalização no uso de psicotrópicos ilegais, a criminalização do aborto, a culpabilidade feminina no estupro, das diferenças de gênero e raça e demais insanidades e truculências.

Uma vez perguntaram ao Roger Waters (ex vocalista, baixista e e genial compositor do Pink Floyd) se ele era “infeliz”. Ele achou a pergunta patética e disse que sua vida era ótima e sua família fantástica, mas que isso não o tornava impermeável à desgraça humana e nem o impedia de se colocar no lugar do outro.

Ter momentos de alegria devem permitir momentos de tristeza e reflexão, por isso não acredito em alguém que seja feliz. Nós podemos ESTAR felizes, pois a emoção humana não é uma condição de SER e sim de ESTAR.

E não posso considerar humano alguém que não se incomode com uma situação tão comum dos Tino's do mundo. Evidentemente esse ‘incomodar’ deve ser profundo e não palavras vazias ao vento. É a sua reflexão e a postura de vida diante disso.

Por isso que o mínimo que considero descente é o consumo mínimo, assim como o ganho mínimo. Claro, 'mínimo' é algo subjetivo, mas qualquer um que se questiona não sairá muito de uma espécie de "média comum da decência", pois o consumo estimula a exploração, tanto a humana quanto a dos recursos naturais, sua ligação com esse ideal mesquinho é óbvio.

E sim, qualquer um que ostente luxo num mundo tão desigual é um canalha, legalista ou não.
Basta saber que as valorações de um ou de outro são completamente arbitrárias e nada tem a ver com merecimento, muito pelo contrário, os acúmulos são sempre às custas direta ou indiretamente de uma grande massa de Tino’s.

Pensar nessa composição social e não ficar deprimido ou é esquizofrenia ou a mais pura burrice canalha.

O recém falecido (uma perda enorme para uma época tão carente de cérebros funcionais) filósofo Zygmunt Bauman uma vez respondeu a um jornalista quando questionado sobre o tema, que era um pessimista no curto prazo e um otimista no longo prazo. Claro, é uma maneira eufemística de responder a uma pergunta tão tola, pois o curto prazo é a nossa existência e o longo prazo... bem, não é nada.

E a “Trumpinização” do mundo corre solta... em 2018 com certeza algum neoliberal fundamentalista do estado mínimo estará em nosso executivo federal.
Enquanto isso resta-nos auxiliar um ou outro Tino do mundo e não fomentar essa canalhice generalizada.




quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tomei a pílula azul

Faz tempo que não trabalho diariamente. Escolha minha. 
Como eu sempre disse quero o timão* da minha vida, pois o meu (nosso) tempo é único e meus interesses são muitos.
(*para os corinthianos vou explicar: a roda do leme, não o aumentativo de time)

Não que eu tenha dinheiro ou qualquer outra facilidade, apenas acho que é mais lógico viver com simplicidade para ter o máximo de tempo para mim, portanto, mais tempo para ler um bom livro, ouvir boa música, assistir um bom filme, coçar o saco na rede da sacada, refletir sobre o mundo, entrar na minha oficina e fazer umas pecinhas ou, pura e simplesmente, contemplar o mar.

O fato foi que passei um trabalho (desenvolvimento de um site institucional) a um amigo que estava precisando de grana e ele simplesmente me enrolou semanas até que pulou fora.
Compreendo, em parte, suas explicações, mas o fato é que se eu não tivesse a total confiança do contratante e algum tempo reserva eu poderia ter ficado em maus lençois.

Desenvolvo software**  há muitos anos e fazer uma página da internet do estilo exigido poderia ser moleza para mim, mesmo estando meio "enferrujado" no assunto e, ainda por cima, faturar um troco extra. Preferi ajudar o dito cujo e, bem, o caldo entornou...
(**software no meu caso são desde programas que rodam em embarcados -  ex: a BIOS do seu computador, o sistema do seu celular, o programa para o controlador de uma câmera IP, o firmware do alarme da sua casa, etc - até os tradicionais aplicativos para PC/ruWindows)


Mas o que importa é que resolvi encarar de fazer o trabalho. Tomei a pílula azul.
Respirei fundo, tapei o nariz e vamos que vamos.
Uns dias de estudo e outros de execução.

A metáfora do filme dos irmãos (ou irmãs) Wachowski está meio gasta mas ainda é boa. O psicanalista lacaniano Jorge Forbes gosto muito também... 

Nesses dias nada me passava pela cabeça.
É acordar, ter aquelas providencias comuns e partir pro trabalho. 
Mesmo não precisando sair de casa (o que pioraria tudo), a noite era só cansaço e certo anestesiamento mental (Confortably Numb total).

Até certo ponto é compreensível o discurso comum do "gostar" de trabalhar e "amar" o que faz. O trabalho é um psicotrópico numa forma socialmente aceita e incentivada, com ele nada mais importa no mundo, muito menos o se deparar consigo mesmo.

É acordar, cumprir "coisas comezinhas", partir para o trabalho, voltar, "cumprir outras coisas comezinhas" e dormir. Depois de uns dias ir a um local onde os viciados se encontram (a cracolândia ou, como preferir a metáfora, o templo) - o shoping center - para trocar aqueles papeis ou valores virtuais conseguidos por algumas quinquilharias que amenizam essa completa ausência de sentido, ou ainda fazer reuniões sociais onde se fala (tchan!) de trabalho.

A sensação é a mesma que um Rivotril, um monte de pinga ou coisa semelhante. Um anestesiamento mental, um agradável torpor. Nada "desagradável" (nem de "agradável") passa pela cabeça pois trabalho é só trabalho, sem adjetivos morais (não é a toa que essa palavra não existe em inúmeras outras culturas). 
Nenhum questionamento. Nada. 
Trabalhando somos um nada que produz riqueza para alguns eleitos e porcarias para nos iludir.

(Não existe ficção desconectada da realidade. Lembremos que a arte imita ou interpreta a vida)

O efeito colateral é inevitável: nada criativo se faz; nada que amplie os horizontes se faz; nem sequer um tempo em silêncio contemplativo resta.

Talvez seja estranho para quem vive assim e assume essa ideologia (do trabalho/consumo) sem pestanejar, mas o incrível é que é idêntico.
Admito, é tentador.
Como qualquer droga que te afaste de você mesmo e do seu entorno, o trabalho é tentador.

Mas costumo deixar a pílula vermelha sempre na minha frente para quando eu começo a perder o controle...




quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Somos todos perdedores

Levante a mão quem está de saco cheio de histórias edificantes.

Com o final dos jogos olímpicos resta um fio de esperança de uma redução desses discursos.

"Quem sonha sempre alcança...",  "todos podem vencer...", "basta querer e focar...", blablabla.

O esporte, como não poderia deixar de ser, reflete o panorama social, e assim, sua ideologia.
Perdeu-se o esporte como atividade de socialização e confronto simulado saudável, para se ter um vencedor e um séquito de vencidos.
Criou-se o esporte de "alto nível" ou "profissional" onde, mais uma vez, criam-se canais para o escoamento de riquezas no tradicional sistema de convergência de capital.

Um mar de cidadãos gerando lucros exorbitantes para meia dúzia de indivíduos, em especial cartolas e patrocinadores, sem praticamente (ou totalmente) nenhum retorno a não ser uma histeria temporária que alivia frustrações e cria uma suposta identificação grupal.

Panem et circenses do ultraliberalismo. Um circo pago e um pão caríssimo e de má qualidade.



E a falácia da meritocracia desfila soberana, colocando a culpa sempre no "perdedor", como se os demais competidores "quisessem menos" ou "sonharam com menos intensidade".

É como o milagre religioso.
Claro que ele acontece, se não acontecer para você é porque você não teve fé o suficiente ou não foi abençoado.

Estranho é que nunca vi ou ouvi relatos confiáveis de um braço ou perna que crescem novamente num amputado.
Talvez nenhum deles tenha fé o suficiente...

Numa entrevista recente, Zygmunt Bauman se diz um pessimista a curto prazo e otimista a longo prazo. O caso incide em se o 'curto prazo' irá viabilizar algum 'longo prazo', ainda que ambos sejam conjecturas.
Supondo um 'curto prazo' entre quatro ou cinco gerações (que em termos históricos é um pulo) posso garantir que o otimismo passa a habitar a grande zona da ignorância e fatalmente da inexistência.

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."

Eu seria muito hipócrita (para não dizer filho da puta mesmo) se eu falasse para meu filho (se ele existisse) que basta ele sonhar e trabalhar arduamente para atingir seus objetivos.
O mundo atual foi feito para que esses burricos que correm atrás da cenoura carreguem os 1% nas costas, e a nossa "cenoura" são esses discursos edificantes e meritocráticos.


Não nego os méritos das pequenas conquistas nem a existência de uma ínfima amostragem de indivíduos que romperam o sistema de castas sociais, mas afirmar isso como realidade social e sistema justo e igualitário é uma insanidade.

Se até o desejar e o sonhar são aprendidos (vamos com Sartre), nada mais interessante que perpetuar uma ilusão do "pensar positivo", da "fé inabalável" e atualmente, das "energias positivas".



No fim todos falhamos. Somos todos perdedores.
Os maiores tiranos também foram depostos e/ou degolados pelos seus oprimidos e explorados, mas até lá muita desgraça é feita.
Ao menos gostaria de ouvir menos balelas e não ser obrigado a votar em quem me é oferecido na outra falácia: a de que vivemos numa democracia.







quarta-feira, 25 de maio de 2016

A quem interessa a satanização dos impostos e o mito da austeridade

Se não aprendemos com a história antiga, talvez com a recente... a falácia da satanização dos impostos e o mito da austeridade...

Nem os liberais toleram os ultraliberais... se voe não entende deveria reler Adam Smith e claro incluir seus ensaios sobre a moralidade humana...
 

Em busca dos booms perdidos –Paul Krugman

23/5/2016 – Da Folha (antes que proíbam de acessar...)
 
Se Hillary Clinton vencer em novembro, Bill Clinton ocupará um papel duplo único na história política dos Estados Unidos, tornando-se não só o primeiro Primeiro Marido, mas também o primeiro Primeiro Cônjuge que um dia foi presidente. É evidente que ele não passará seu tempo fazendo bolos. O que ele fará, então? 
 
Na semana passada, Hillary Clinton causou muitos comentários ao sugerir que Bill Clinton teria como tarefa "revitalizar a economia". Pode-se entender por que ela desejaria fazer uma afirmação como essa, já que as pessoas ainda se lembram de como as coisas eram boas quando seu marido era presidente. No entanto, a forma pela qual esse papel seria definido na prática, hoje, é muito menos clara. 

Mas pouco importa. O que quero fazer aqui é falar sobre as lições que o boom de Clinton 1º pode oferecer para a administração da segunda Clinton. 

Para começar, foi realmente um boom impressionante, e de certa maneira é estranho que os democratas não falem mais sobre ele. Afinal, os republicanos evocam constantemente os milagres de São Reagan para justificar sua fé na teoria econômica do supply-side. Mas a expansão da era de Clinton ultrapassou a economia da era Reagan em todas as dimensões. Bill Clinton não presidiu só sobre uma criação de empregos maior ou a um crescimento mais rápido; seus dois mandatos também foram caracterizados por algo que esteve notoriamente ausente na era Reagan: um aumento significativo nos salários reais dos trabalhadores comuns. 

Mas por que a economia era tão boa na era Clinton? Não foi porque o presidente tivesse um toque mágico, ainda que ele tenha feito um bom trabalho na resposta a crises. O principal é que ele teve a sorte de estar no poder quando coisas boas estavam acontecendo por motivos que não se relacionam à política. 

Especificamente, os anos 90 foram a década em que as empresas norte-americanas enfim compreenderam o que fazer com computadores —a década na qual os escritórios se interconectaram em redes, na qual grupos de varejo como a Wal-Mart aprenderam a usar a tecnologia da informação para administrar estoques e coordenar atividades com os fornecedores. Isso levou a uma grande disparada na produtividade, que havia crescido apenas lentamente nas duas décadas precedentes. 

A decolagem da tecnologia também ajudou a alimentar uma disparada nos investimentos em negócios, que por sua vez produziu criação de empregos em ritmo que, pelo final dos anos 90, havia resultado em verdadeiro pleno emprego para os Estados Unidos. E o pleno emprego foi a força que causou a alta dos salários nos anos 90. 

Oh, e, sim, houve uma bolha da tecnologia no final da década, mas ela representou parte bem pequena da história e, porque não aconteceu grande alta no endividamento privado, o dano causado quando a bolha da tecnologia estourou foi muito menor do que a calamidade deixada pela bolha da habitação nos anos Bush. 

Mas de volta ao boom: qual foi o papel de Bill Clinton? Na verdade, foi bastante limitado, porque não foi ele que causou a decolagem da tecnologia. Por outro lado, suas políticas obviamente não se puseram no caminho da prosperidade. 

E vale lembrar que, em 1993, quando Clinton aumentou os impostos dos ricos, os republicanos uniformemente previram um desastre. O aumento "matará a recuperação e nos colocará de novo em recessão", previu Newt Gingrich. A economia será colocada "na sarjeta", previu John Kasich. Nada disso aconteceu, o que não impediu as mesmas pessoas de fazerem as mesmas predições quando o presidente Obama aumentou os impostos em 2013— decisão seguida pelo maior crescimento no emprego desde os anos 90.
 
Uma grande lição do boom dos anos Clinton, portanto, é de que a conclusão que os conservadores desejam que você extraia de sua constante idolatria a Reagan —a de que cortar os impostos dos ricos é a chave para a prosperidade, e que qualquer alta na alíquota paga pelas pessoas de alta renda atrairá represálias da mão invisível— é complemente falsa. 

Hillary Clinton está propondo cerca de US$ 1 trilhão a mais em impostos sobre o 1% mais rico dos norte-americanos, para pagar por novos programas. Se ela vencer e tentar implementar essa política, os habituais suspeitos farão os usuais alertas funestos, mas não existe qualquer razão para acreditar que a agenda dela prejudicaria a economia. 

A outra grande lição do boom dos anos de Bill Clinton é que embora haja muitas coisas que as autoridades econômicas possam e devam fazer para elevar os salários, a ajuda mais importante que podem dar aos trabalhadores é buscar o pleno emprego.
Infelizmente, não poderemos contar com nova disparada espontânea no investimento privado, movida pela tecnologia, para propelir a criação de empregos. Mas algumas formas de investimento privado poderiam crescer rapidamente se tomarmos medidas já muito postergadas de combate à mudança do clima. 

E, de qualquer forma, nem todo investimento produtivo é privado. Precisamos desesperadamente reparar e melhorar nossa infraestrutura; enquanto isso, o governo federal pode capturar recursos a custo incrivelmente baixo. Assim, existem argumentos esmagadores em favor de uma alta no investimento público, e um benefício colateral de uma alta como essa seria o pleno emprego, que pode produzir uma nova era de alta de salários.
Assim, Bill Clinton desempenhará papel importante caso Hillary Clinton vença? Não faço ideia, e nem me importa muito. Mas será importante lembrar o que deu certo, e por quê, no governo de Bill. 


Um pouco mais sobre o mito da “austeridade” e sobre quem vai pagar a conta novamente: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/06/opinion/1446812749_342441.html

Pois já interpreta bem qualquer Smithiano, que ser contra o ultraliberalismo não é ser contra o liberalismo: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/15/economia/1452864526_260183.html

sexta-feira, 13 de março de 2015

O "crítico" de Piketty

Eu já escrevi sobre como a ignorância é atrevida (o grande Dráusio Varella é mais enfático, "passei da idade de me surpreender com a estupidez humana") e realmente eu não me surpreendo mais com isso. Sempre tem algo ainda mais impressionante, porém não mais uma surpresa.

Em uma discussão num fórum qualquer, um sujeito disse que o livro do Piketty ("O Capital no século XXI") era uma porcaria e que muita gente qualificada desmerecia o livro. Para coroar ele disse que Piketty era um comunista (?!) e blá, bla, blá...

Pedi que ele me mandasse referências às críticas a Piketty, pois acho importante avaliar todos os lados.
O sujeito disse que "era muita fácil de encontrar" bastava eu procurar a crítica de um Nobel recente.

Como esse tipo de gente se informa por orelhas de livros e resenhas tendenciosas (no popular "ouvi o passarinho cantar e não sabe onde"), fui atrás.

Supus se tratar de Joseph Stiglitz.
Primeiro devemos lembrar que "crítica" é uma análise e não um desmerecimento à obra como um todo, posto isso, comprei o livro "O preço da desigualdade" de Stiglitz e li sua "crítica" a Piketty.

Resumindo, a crítica que ele faz a Piketty é em relação a algumas análises de dados, nada mais. O que mais chama atenção é que ambos são críticos ferrenhos do neoliberalismo (o que Stiglitz chama de "fundamentalistas de livre mercado) e no fim, defendem a mesma coisa.

Como nos lembra a economista Monica de Bolle, Global Fellow do Woodrow Wilson Center: 

"Não existe contradição entre o que o Stiglitz afirmou e o livro de Piketty.

São perspectivas diferentes para o mesmo problema, não existe contradição. Stiglitz vê a diferença na distribuição de riqueza ligada à abundância de crédito, que possibilita a formação de bolhas. Quando a bolha estoura, uns têm capacidade maior de se defender que outros. Fala da situação dos Estados Unidos e olha principalmente os anos mais recentes, desde a crise de 2008. Isso não é inconsistente com a teoria de Piketty."

O mais absurdo do atrevimento da ignorância é que o sujeito veio me "jogar na cara" algo que corroborava minha argumentação e a da Piketty!!!

Como minha compra (o livro de Stiglitz ainda não chegou), deixo uma pequena resenha de Nuno Ramos de Almeida - Jornal I de Portugal:

"O livro de Stiglitz é uma espécie de relatório de CSI deste processo. O cadáver é a economia do país capitalista mais desenvolvido, os Estados Unidos da América, e a autópsia não é nada simpática: 

“a) O recente crescimento dos rendimentos nos EUA ocorre essencialmente no 1% de topo da distribuição dos rendimentos; 
b) Em resultado disso, verifica-se uma crescente desigualdade; 
c) Os cidadãos da base e da classe média vivem hoje pior do que viviam no início do século; 
d) As desigualdades de riqueza são ainda maiores que as desigualdades de rendimentos; 
e) As desigualdades são evidentes não só nos rendimentos, mas também em muitas outras variáveis que refletem os padrões de vida, como a insegurança e a saúde; 
f) A vida é particularmente difícil para a classe mais baixa e a recessão tornou--a muito pior; 
g) Tem-se verificado um certo esvaziamento da classe média; 
i) Existe pouca mobilidade dos rendimentos – a ideia dos EUA enquanto terra de oportunidades não passa de um mito.” 

Stiglitz mostra com muita clareza que, embora os cidadãos dos EUA acreditem no “sonho americano”, segundo uma sondagem da Pew Foundation, quase sete em cada dez americanos acreditam no seu sucesso econômico. A realidade é que a sociedade norte-americana tem índices de mobilidade social comparáveis com as plutocracias de África. Os ricos serão mais ricos e os pobres ainda mais miseráveis.

Para o Prêmio Nobel da Economia de 2001 esta situação não é inevitável nem decorre da existência de uma entidade, encarada como sobrenatural e imutável, que seriam os mercados. Stigliz demonstra de uma forma muito clara que os mercados resultam de um processo de construção social e devem-se na sua atual configuração a uma relação de forças política que dá excessivo poder aos ricos e desvirtua a democracia. “Os mercados não existem no vácuo. São moldados pelas nossas políticas, muitas vezes de forma a beneficiar os do topo”, observa. Para ele a economia tem de responder aos problemas da totalidade da população. Ela não existe como um jogo virtual que dá prêmios aos do costume, mas como uma atividade que deve servir a humanidade. Deste ponto de vista, as nossas sociedade preparam-se para uma explosão descontrolada quando mantêm milhões de pessoas no desemprego em países em que há necessidades para preencher e trabalho que deveria estar a ser feito. 

Como escreve na abertura do seu prefácio Joseph Stiglitz: “Há momentos na história em que os povos de todo o mundo parecem erguer-se para afirmar que algo está mal. Foi isso que aconteceu nos tumultuosos anos de 1848 e 1968. Cada uma destas datas de convulsão social marcou o início de uma nova era.” Fica o aviso."