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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Tecnosuicidas

Já chegou a 11 o número de suicídios na fábrica da Foxconn em Taiwan onde são produzidos os iPods da Apple.

Não são só as montadoras ou as farmacêuticas que detém o monopólio do fenômeno. Pelo menos em algo eles não conseguem monopólio...

Espero que não leiam a notícia avaliando como um fato isolado ou regional.

Curiosidade: a palavra "trabalho" tem sua origem no vocábulo latino "TRIPALIU" - denominação de um instrumento de tortura formado por três (tri) paus (paliu). Desse modo, originalmente, "trabalhar" significa ser torturado no tripaliu.

Quem eram os torturados? Os escravos e os pobres que não podiam pagar os impostos. Assim, quem "trabalhava", naquele tempo, eram as pessoas destituídas de posses.

A partir daí, essa idéia de trabalhar como ser torturado passou a dar entendimento não só ao fato de tortura em si, mas também, por extensão, às atividades físicas produtivas realizadas pelos trabalhadores em geral: camponeses, artesãos, agricultores, pedreiros etc. Tal sentido foi de uso comum na Antigüidade e, com esse significado, atravessou quase toda a Idade Média.

Só no século XIV começou a ter o sentido genérico que hoje lhe atribuímos, qual seja, o de "aplicação das forças e faculdades (talentos, habilidades) humanas para alcançar um determinado fim".
Com a especialização das atividades humanas, imposta pela evolução cultural (especialmente a Revolução Industrial) da humanidade, a palavra trabalho tem hoje uma série de diferentes significados, de tal modo que o verbete, no Dicionário do "Aurélio", lhe dedica vinte acepções básicas e diversas expressões idiomáticas.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O fim é só o fim


Vi uma reportagem sobre ortotanásia, que seria algo como deixar a morte natural ocorrer, sem interferência médica e sofrimento.
Alguns hospitais estão até criando leitos para isso.

Sem sofrimento é uma afirmação ridícula, já que não se pode afirmar que isso ocorra de nenhuma forma.

Apesar de ateu e absolutamente cético, ainda espero algum amigo ou parente voltar (ou enviar um email, SMS etc.) pra me falar se não houve sofrimento e se o paraíso é a chateação que dizem. :o)

Ainda na questão do sofrimento, quem passa por ele (ou passa com ele) são os que "ficam" e não os que morrem, mas os médicos estão pouco interessados no bem estar do paciente, imaginem dos parentes do paciente, e nem sequer têm alguma competência nesse quesito.

Acho que o problema maior não é a morte natural e sim a "vida natural".
Nada de babaquices ecochatas e comidas horríveis de vegetarianos com pele cinza, mas uma vida mais aprazível, com menos preocupações e mais interações comunitárias afetivas.
Mas de novo, coisas que nenhum médico faz ou recomenda.

Coisas como a avó da minha esposa, que com sua alimentação adequada de 0% verduras e frutas e 100% salame e ovo (e não é força de expressão!!!) e nada de atividades físicas, tem 92 anos, magra e nenhuma patologia.
Mas com um pequeno dado que não aparece nos exames: nunca trabalhou e nunca teve preocupações significativas.
Claro, os médicos tecnicistas dirão que isso é coincidência e não é uma amostragem científica significativa.

Mas essa reportagem me lembrou da eutanásia e do suícidio, temas polêmicos (polêmicos = assuntos onde religião e preconceito tornam as coisas nebulosas) e que vira e mexe voltam à tona sem maiores aprofundamentos em ambas.

Da primeira, sim, sou totalmente a favor. Ponto.

Me concentrei na segunda.
A que seria estranho dizer que sou a favor, mas que posso dizer que deveria ser um direito do indivíduo poder escolher quando não quer "brincar" mais.

Na única coisa que de fato é nossa, não nos é permitido arbitrar sobre ela, o próprio corpo ou vida.
Coisa semelhante acontece com o aborto.

Sempre que se fala em suicídio, pensa-se em depressão ou outra patologia.
Não acho que seja em todos os casos.

Acho justo, digno e corajoso a pessoa que tem clareza de escolher o momento de parar.
É uma forma "natural" de morrer, ou seja, por escolha própria, muito mais do que ir se desmanchando a ponto de não se reconhecer mais e nem ter a dignidade da autonomia.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Se eles são o futuro...

Assisti novamente Madadayo.
Kurosawa nunca é demais.

Com tanto respeito e reverências ao sensei, pensei (vishi, cacofonia nipo-brasileira!) em uma das reivindicações dos professores brasileiros: a de não querer mais apanhar.
Esses meninos "puros e ingênuos" são nosso futuro...

O filme é muito lindo! Um requiem.
Kurosawa faleceu 5 anos depois, em 1998.

O sofrimento excruciante do sensei com a perda de Nora é perfeitamente compreensível...

Temos muito a aprender com esse povo, mas nada é perfeito.
O número de suícidios no Japão é alto (o próprio Kurosawa tentou o suicídio uma vez), assim como o alcoolismo e a violência doméstica, que até há poucos anos era tratado como "assunto privado".

Uma em cada 3 mulheres japosesas sofrem ou sofreram agressões e a cada 3 dias uma vítima de violência doméstica morre.
Provavelmente graças à influência ocidental, a violência entre os jovens vem aumentando na mesma proporção do aumento do vandalismo.

Voltando à ficção...
Não entendeu nada porque não viu o filme?
Azar o seu.


terça-feira, 23 de março de 2010

Esse dia chegaria

O dia fatídico está chegando.
Nunca gostei de aniversário e este ano não podia ser diferente, ainda mais batendo os 40.
Quando eu era moleque achava 2010 um ano tão distante quanto a galáxia mais próxima.

Tive sorte quanto à carga genética, e ela é implacável.

Sem rugas, sem barriga, sem calvície, sem doenças degenerativas e ainda por cima, com inteligência e porte físico acima da média.
Mas é notório o que o tempo nos tira.

Claro que a segurança, bagagem cultural e certa maturidade só o tempo nos traz, mas não sei até quando as perdas compensarão os ganhos.

Envelhecer é perder nosso pífio controle sobre o que supostamente sempre achávamos controlável: o próprio corpo. E o pior, envelhecer é perder quem se gosta. Acho injusto. Deveríamos morrer todos juntos.

Além das perdas pelo término da vida, existem as perdas para a ausência de vida. Eu sempre enfatizo esta última e deixo claro que elas não são iguais.

Esta é a perda para corporações, para os modelos de vida que foram comprados e/ou assumidos como verdadeiros.
Quem nunca encontrou um velho amigo e não se perguntou quem era aquele sujeito que estava ali na sua frente?

O velho amigo se perdeu em algum lugar e a 'carcaça' vazia ainda perambula por aí. Uma espécie de clone vazio e autômato que cumpre apenas as funções de manter a prole e galgar algumas posições num organograma.

Digo que esta perda é mais dolorosa, pois é como um ente querido que desapareceu. O luto é muito longo.
Como escreve Roberto Shinyashiki: “Viver de acordo com as expectativas dos outros é suicídio.”

Uma monstruosa estrela, ao término de seu combustível nuclear, colapsa no próprio peso. Sendo bem sintético, elas se acabam gerando átomos maiores, o combustível para outras criações no universo.

O grande Carl Sagan já dizia que a astronomia é uma lição de humildade.
Nós, de forma bem mais modesta, só geramos comida de verme.

A morte foi banida de nossa sociedade. Ninguém pode morrer, e o pior, ninguém pode ter uma boa morte.

A consequência disso é que não temos vida.
A vida passou a ser uma negação da morte e nada mais.
Em nome de algum Deus qualquer, de alguma entidade qualquer ou simplesmente acumulando coisas de maneira faraônica, com o diferencial que o nosso custo, ao contrário dos faraós, são quase todos os anos de vida produtiva.

E o nosso tempo é curtíssimo!

Mais uma vez a astronomia é meu referencial.
No universo, somos uma partícula ridícula, de existência instantânea e sem nenhum poder de influência.

Olho os gatos, seres que sempre achei admiráveis.

Todos os felinos os são, mas o nosso gato doméstico é o ser a ser observado.
Fora todas as suas qualidades, inatas a um predador, como silêncio, limpeza, destreza, agilidade e resistência, ainda sabem morrer.

Só quem tem um gato sabe a serenidade com que eles enfrentam o fim. "Enfrentam" já é um termo humanizado, pois eles não enfrentam, eles aceitam.

A maioria para de comer e vai se deitar em locais molhados e frios, aguardando o fim do "jogo".

Em seu maior best seller, No Ar Rarefeito, John Krakauer escreve que não existe morte natural e, principalmente, que morrer de velhice não é natural.

Quem já ouviu falar num leão ou mesmo num salmão que morre de velhice?

Enfim, isso não é uma nota suicida, mas acho que para gostar de viver é preciso ter a morte como vizinha e ter a sabedoria de saber quando o jogo acaba.


Olho no espelho e vejo um molecão numa 'carcaça' que, apesar de ainda grande, anda meio enferrujada. São dois os fatos principais: não mudamos nunca e a minha 'carcaça' faz parte do que eu sou de maneira igualmente importante aos sentimentos e à sabedoria; não admito perder nenhum desses componentes, caso contrário, não serei mais eu.


Nessas épocas lembro sempre da biografia do meu ídolo do blues, Mr Riley B. King, a quem tive o indescritível prazer de ver ao vivo e a menos de 2 metros:


"B. e eu nos sentamos à mesa da cozinha. Estamos famintos; ele esquenta feijão e pão de milho, passa a manteiga por cima, despeja leite e mistura tudo. É muito bom.
BB King: Comi muito isso quando era menino depois que minha mãe morreu. Agora, quando volto de uma viagem, venho pra cá e finjo que voltei atrás e estou preparando isso pra mim. Dá uma sensação de conforto. Sei que mudei muito, mas também sei que não mudei nada. Pensando dessa forma, minha vida começa a ter algum sentido."

Dispenso o Fasano, vinhos caros e grandes viagens. Minha satisfação é plena quando chego na casa da minha mãe e ela diz que fez "apenas" feijão.