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domingo, 27 de julho de 2025

Sem grandes rupturas não há mudança

O tempo e o espaço estão entrelaçados.

Não estou falando sobre a Teoria da Relatividade Especial de Einstein.

Na sociologia (da qual não tenho nenhuma expertise)  intuo que sim também.

Pincelei algo no meu post anterior, mas andei refletindo um pouco mais agora tendo um pouco a mais de experiência "espaço-temporal" num ambiente rural, de horizontes abertos.

Nesses anos todos de "grupinhos", gente "bacana alternativa" e "intelectuais que não saem da bancada", o que mais ouvi - com pequenas nuances no discurso, uns menos sofisticados e outros mais prolixos - foi que são as micro rupturas é que abrem espaço pras mudanças.

Olhando pra trás e analisando minha reflexão sobre esse "espaço-tempo sociológico", definitivamente não concebo que micro rupturas mudem algo numa ideologia capitalista tão arraigada, que coopta tudo, do desejo aos sonhos, do espaço ao tempo. Essa última extorsão, em especial, na nossa sociedade acelerada (Hartmut Rosa) é altamente representativo.

Mas me debrucei sobre o espaço.

Sem o espaço físico, o tempo não se liberta totalmente.



Qualquer um que já foi, por exemplo, em cassinos ou casa de bingo, nota que os espaços devem ser cuidadosamente estudados para que o tempo seja muito bem direcionado.

O aumento do espaço físico e do horizonte, sob a ótica do aumento da independência individual ou em comunidades intencionais é meio fácil de notar, mas como ele tem o poder de quebrar os domínios da lógica capitalista deveria ser melhor estudado.

Com esse horizonte aberto, a cooptação do capital sobre o tempo, o desempenho, as obrigações inúteis e o tempo ego narcisista começam a ruir. Sem os detalhes todos dos sutis controles, desde o horário do caminhão de lixo, do supermercado, do ir e vir urbano dos horários de rush, etc, esse domínio vai ruindo.

Os tempos do Sol não são muito exatos numa miríade de belos sons e belas imagens num ambiente mais amplo e distante das referências urbanas.

O tempo começa a ser dar bem com você novamente. As experiências começam a voltar a um tempo neuronal mais humano, as suas reflexões sobre suas cobranças indevidas de produtividade, competição, desejos tolos e falta de tempo pro outro começam a desvanecer.

Há um aumento na gentileza consigo mesmo ao abraçar essa pequenez difusa nesse espaço-tempo maior. O sentido muda, ou, até mesmo, a falta de sentido. O inútil do ponto de vista mercantil; o sem objetivo ou que se reobjetiva no processo; a conclusão que pode ser o inconcluído.

Talvez seja meu cérebro TDAH que seja deficitário (apesar de gostar dele assim 😌) e o seu, super privilegiado, consegue se abstrair no espaço exíguo. Eu não acredito e espero que você também não, pois se você perdeu o "será?" do vocabulário da auto crítica me parece que sua mente não é tão super privilegiada assim.

Alinhavando (eu acho) o título, esse "espaço-tempo sociológico" me reforçou a suspeita que pequenas rupturas nada fazem ao status quo. O capitalismo simplesmente se apropria delas. Seja o plantar da muda que vira um curso de permacultura ou pior ainda, uma visita ao garden da cidade; seja a reuniãozinha de trocas de sementes que vira capital social; seja o mutirãozinha de "gente bacana" que se vai 'quando se tem tempo'.

Sem se aventurar nesse espaço-tempo amplo, temo que não há esperança pra mudança.



A mas eu preciso sobreviver...
Bom, não sei se isso é argumento, sobreviver é algo subjetivo, e nossos desejos - reforçando - foram cooptados pelo capital. Fuga, auto sabotagem, desculpa ou simplesmente amoralidade. Possivelmente um pouco de cada.

Essa é a ideia da imersão no espaço-tempo capitalista: fazer você acreditar que não há saída e com isso, a zona de conforto, a naturalização e a auto alienação fazem o resto.


quarta-feira, 19 de março de 2025

10 anos depois. Grupos e outras considerações

Voltei a escrever pra ninguém, pra deixar esse feedback pra mim mesmo.

E lá se foram mais de 10 anos após conhecer ecovilas e comunidades intencionais.

Já postei sobre o assunto várias vezes, começando mais ou menos por aqui e aqui.

Resumindo antes de continuar: ainda acho a única saída pras pessoas e principalmente para o planeta, digo, a vida.

O que se passou nesses anos?

Quando resolvi vender meu único bem pra viabilizar isso, eu tinha duas frentes: comprovar que as pessoas (generalizando) são "fogo de palha" e, obviamente, tornar meu ideal uma realidade.

Muitos grupos diziam (dizem) que só faltava a grana pra 'acontecer'. Meu primeiro ponto. Quando levantei a verba, tchan! Muita gente enrolou aqui ou ali. O que queriam era apenas a masturbação mental da vida no campo.

Eu já escrevi sobre a dificuldade das pessoas em restaurar um senso de comunidade, principalmente que o coletivo tenha alguma prioridade em suas vidas e que o diálogo (incluindo frustrações, negativas e conflitos) seja de fato amplo.

Mas percebi um complicador adicional: muita gente não tem a menor ideia sobre si e o que querem.

Hartmut Rosa definiu bem: auto alienação.

Claro, diremos, "ah, mas isso eu já sabia". Bem, esses mesmos que "já sabiam" não sabem de si.

Mesmo o mais riponga dos caras pode sair (sair mesmo) culpando os outros.

E tem os sujeitos que dizem barbaridades como "eu quero viver como um mendigo", numa tentativa de fazer um marketing pessoal da sua simplicidade. Além de um desrespeito a quem passa por tal situação, tem a mentira descarada sobre si mesmo. Resultado: desistem e "saem atirando" ou permanecem como espectadores.


A terrinha

Mas entre idas e vindas, a terrinha está adquirida, minha casa construída e eu virei um neo-rural.

O grupo? 
Bem, capenga.
Uns como eu disse "saíram atirando" e outros porque sua individualidade sempre será mais importante. Note, coletividade e individualidade são um equilíbrio complicado e sempre será uma balança difícil, mas se a comunidade fica sempre por último, é certamente um mal sinal. Não sou letrado, mas dá pra intuir começando com Freud, Bauman, Bell Hooks...

Quem ficou ainda tateia suas escolhas e tem o coletivo como algo que está sempre na última linha de suas prioridades.

Pessoalmente sigo tocando o barco.

Meus estranhamentos só foram nas minhas próprias sensações.

Nunca achei que só seriam flores, vida bucólica e idealismos infantis de "vida natural", aliás, por ser cético sempre fui acusado de pessimismo e até de "energias negativas" sabe-se lá que bobagem é essa.

A tal natureza (isso que convencionamos chamar de natureza) é indiferente a nós e, portanto, apesar da vida incrivelmente prosperar quando não é perturbada, ela não prospera como desejamos ou sob nossa vontade. A morte e a dor estão sempre à espreita.

Mas se vc aceitar isso, a experiência vale a pena sim. E muito.

E vc vai entender que a morte não está à espreita na cidade, vc já está morto nela e não sabe; a dor é constante na cidade, vc que a naturalizou. 


Aprender é a primeira satisfação. Uma miríade de coisas numa sala de aula real da vida real.

Desde o acompanhamento da fauna e flora à resolução de problemas cotidianos que requerem técnica e ferramentas. Daria pra escrever capítulos nessa parte.

Suas necessidades mudam (e tem que mudar mesmo!) e seu senso estético e higienista também.

Mas a sensação de reconexão com o "tempo lento" e o "espaço aberto" é algo meio inexplicável.

Esses dois 'fatores' (pra quem sabe contemplar e aproveitar) afetam nosso pensamento e afetos de maneira estranha. As dimensões se ampliam e a linearidade de uma vida de trabalho/consumo se dissolvem. E não é possível quebrar esse ciclo na cidade, local hermético, sólido, linear, setorizado e, em todas as interpretações, sem horizontes.

Só isso já bastaria pra compensar as "inconveniências" (o que a sua zona de conforto e a naturalização solidificaram como conveniências) da vida rural.

E se o seu 'grupo' da cidade se esfarela, um grupo local se forma quando vc é solicito e amistoso.

Com a exponencial degradação ambiental, mais e mais faz sentido readquirir (um pouco) de poder e independência, coisa só possível pra quem tem terra.

E dizer que se trabalha mais no campo só pode ser compreendido se a afirmação se refere a um empregado/explorado do agronegócio ou se vc acha "natural" a exploração da vida mecânica na cidade e sua miríade de doenças civilizatórias. Como dizia Masanobu Fukuoka, gosto da minha agricultura porque trabalho pouco.


Seriam muitas páginas a escrever numa época que só se lê mensagens de whatsapp e tweeter. Enfim, quis alimentar meu diário tantos anos depois.



 


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Irradiando

Fiz o curso de gestão com o Gabriel (site dele aqui).
Cara gente finíssima, inteligente, culto, articulado, didático e muito ativo. Não tem só o discurso vazio como maioria que conheci no faceshit...

Seguem 4 vídeos dele e um documentário bacana do Rafael Togashi.












“Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos.” – [Sartre, O Existencialismo é um Humanismo]



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Tibá, que saudades...

Tibá em São Carlos. Saudades...

O grande Jayson, Gleise, Cacauzinha, Fernandão, Paulinho, Gael, Rodrigo, Fernanda... que pessoas... sem palavras!

O viés do vídeo (meio bicho grilo) não passa a total realidade da comunidade.
As casas são bastante "convencionais" (apesar de tratarem seus próprios dejetos e usarem o mais possível técnicas antigas e menos cimento possível - como exemplo temos a casa do Jay que é de eucalipto autoclavado e a do Gael que é de tijolo ecológico); a educação é tratada com seriedade complementando a conteudista obrigatória; os assuntos são vastos e as pessoas são extremamente cultas e a maioria graduada; os contatos e projetos com comunidades e grupos no entorno são vários (MST, CST e outros); a esfera legal e a contabilidade são cuidados com transparência e seriedade; a individualidade é respeitada (no cotidiano, como em qualquer bairro, as pessoas estão nas suas casas e/ou cuidando dos seus compromissos); os problemas de convívio são tratados de peito aberto e com franqueza; os problemas financeiros são tratados com objetividade e razoável planejamento; as decisões são democráticas e horizontalizadas







Mais um na batalha pra construir seus ideais. O Lúcio já tá há quase 3 anos agitando no Rio.
O Lúcio não deve lembrar de mim. Nunca o conheci pessoalmente.
Nos cruzamos num site de permacultura e foi lá que ele me sugeriu entrar no faceshit para buscar essa "alternativa".
Temos algumas diferenças quanto à organização de uma comunidade (acho que a dele é exageradamente rural e peca no respeito às individualidades) mas admiro bastante seus ideais e sua convicção.
Compreendo, por evidências antropológicas, sociológicas e filosóficas (somos quase totalmente uma história, portanto, não "inventamos" nada), que não há "novas formas" pois estamos apenas recuperando saberes e experiências antigas e reajustado-as à novos conhecimentos e, principalmente, que esses projetos devem ter em mente que mudanças de paradigmas partem de uma sociedade já estabelecida e portanto se "flui" para um novo (ou reajustado como queira) modelo, ou seja, o novo nunca é de fato novo e não existe ruptura.

Mas temos mais em comum que diferenças.











sábado, 17 de setembro de 2016

Sendo pragmático, como definir uma comunidade intencional?

Até minha 'patroa', que foi comigo nas duas primeiras visitas à comunidades, ainda tem resistência ao assunto.
André Comte-Sponville já escreveu sobre o grande trabalho do atual modelo socioeconômico em criar rejeição a qualquer coisa que cite coisas como 'comunitário', 'comunidade' ou termos adjacentes.

Mesmo entre os mais informados ainda há uma estranha rejeição e preconceito a algo que nossos pais ou avós já viveram. A minha maior estranheza está em demonstrar que nada nesse assunto (a não ser os termos e designações diferentes) é novo ou alternativo, e ainda assim provoca todo o tipo de 'xilique' (ainda que discreto e internalizado) nas pessoas.

Já dei um tapa por essas bandas nesse assunto aqui na parte 1, parte 2, parte 3 e neste alinhavamento tosco.

Mas tentando ser mais pragmático ou mais claro e, digamos, visual, sem usar termos que provoquem calafrios nas pessoas?

Ah os amigos...

Suponha que você tenha alguns amigos e familiares (às vezes acontece de termos parentes/amigos... é raro, mas acontece) que além do afeto questionam certas imbecilidades da vida moderna e, apesar das diferenças, estão abertos a discutir suas posições para viabilizar uma convivência mais próxima, racional e com mais qualidade de vida.
Suponhamos agora que todas essas pessoas resolvam morar no mesmo bairro, em casas separadas mas perto o suficiente para se verem quando for conveniente e útil a todos. 

Cada um tem seu espaço, nenhuma liberdade individual é afrontada e sua intimidade é respeitada, mas pode-se compartilhar recursos (telefone, internet, carona solidária, etc), trabalhar em grupo por projetos individuais e coletivos para as pessoas desse "bairro" ou do seu entorno, criar grupos de estudo em áreas diversas, otimizar as compras e uma série de outras coisas que um grupo tem mais força que um indivíduo.

Isso é péssimo para os negócios não é?
Como continuar o fluxo de convergência de capital com "essa gente"?
Como os manterei frustrados, ansiosos e angustiados para que consumam mais?
Como manter a sensação de segurança e suposta independência de viver "sozinho" e com as "suas coisas"?
Gente ociosa pensa. Gente que trabalha em comunhão também. Gente que pensa junto cresce e dissemina ideias...

Fácil perceber como esse assunto não é "conveniente" atualmente.

Na prática...

Bom, a Tibá começou assim.
Já fui 3 vezes lá e nas duas últimas dormi e ajudei nuns trampos.
Se não rolar a minha comunidade talvez me juntar a uma existente seja um caminho. Convite, para minha honra, eu já tive.

A Tibá começou numa república da UFSCAR, onde amigos estavam se lamentando que a vida os separaria de vez e imaginaram como seria legal se isso não acontecesse. Do imaginar passou-se ao 'por que não fazer'?

Resumindo, um grupo comprou uma propriedade grande (o fato de ser quase rural, é por uma evidente questão financeira, mas a qualidade de vida também pesa como critério de escolha) e esse grupo foi se moldando ao longo dos anos, como um organismo vivo, ajustes, gente que sai, gente que entra, conflitos pacificamente resolvidos, etc.

E o perfil das pessoas?

Nos meus primeiros contatos com as pessoas envolvidas com isso, a grande e grata surpresa foi o nível das pessoas.
Em geral gente extremamente amável (não hipócrita), inteligente e culta, ou no mínimo, aberta à discussões variadas. Nada de malucos preconceituosos (tirando a maioria - não todos - dos veganos que são malas pacas), coxinhas cheios de discursos de self made man, pregadores religiosos, reacionários higienistas e por aí vai.

Casais com filhos, casais sem filhos, rapazes e moças jovens, idosos, mas na maioria, dos mais "equilibradamente dispostos", pessoas da minha faixa etária (entre os 40 ou 50 anos).

Tem quem coma carne tem quem não coma. Tem quem reza tem quem sequer acredita em deus ou deuses.

Tem bastante 'gringo' também! Que moram ou que se hospedam já que há muitos intercâmbios entre as comunidades pelo mundo.

Nas profissões a coisa é diversificada também. Na Tibá tem gente com carreira (por exemplo, o grande Jayson e a Gleise são funcionários da UFSCAR na área de TI), gente autônoma como o Rogério e gente que largou tudo para viver somente pela e para a comunidade como o Fernandão (publicitário) e a Cacau (pedagoga).

Sim eles tem tarefas coletivas.
Tudo é dividido conforme as possibilidades de cada um, seja por limitação de tempo ou seja por limitação física.

A horta comunitária, no sistema de agroflorestal, teve um grande aumento quando o Fernandão resolveu se dedicar a isso integralmente. Hoje tem mais gente nesse GT (grupo de trabalho) e a comunidade já é auto suficiente em verduras, ficando o excedente para o Fernando negociar para si mesmo.

Tem gente que trabalha com as finanças internas, outros que contribuem com a comunicação ao público e por aí vai.

A César o que é de César...

Claro que existe uma formatação jurídica.
Como não existe nada específico para esse tema, usa-se uma associação de moradores, com CNPJ, conta PJ, contabilidade, etc.
Cada "sócio" necessita quitar um título (fração do imóvel) para ter usufruto de sua fração e das áreas comuns. Nenhuma novidade.
A grande "novidade" (no nosso contexto) está em fugir do conceito de propriedade e herança, coisas arcaicas e imorais que além de serem contrárias ao mérito são fator contribuinte à desigualdade social.

Os modos de quitação são variados e dependem de acordos individuais nas assembleias. Muitas aceitam escambo e trabalho como parte de pagamento ou até mesmo integralmente, pois, obviamente, exploração e lucro estão fora de uma comunidade intencional.

As despesas mensais e gastos extras são como um condomínio normal, mas muitas vezes existem as chamadas moedas solidárias que podem fazer com que não se necessite de dinheiro para a contribuição, evidentemente que o montante total de um jeito ou de outro precisa aparecer já que IPTU, energia elétrica, telefone, etc demandam dindin.

Mas o interessante nessa área é que sendo geralmente imóveis rurais (os cohousing em geral são urbanos e são outra categoria de comunidade intencional, comuns nos EUA por exemplo), naturalmente se fica fora do alvo das corporações e, no geral, de órgãos públicos, com isso, a microgeração de energia (sem os empecilhos habituais impostos pelas concessionárias) é mais viável, a água de captação alternativa e o próprio tratamento de esgoto são mais fáceis e menos passíveis de taxas, "alugadores" de CREA para as construções e uma série de outras coisas bacanas.

E as casas e o cotidiano?

Tem quem fez casa de alvenaria tradicional, tem quem fez de eucalipto tratado, tem contêiner transformado, casa de pau-a-pique e por aí vai. A única exigência é que todas tratem seu próprio esgoto, tenha coleta de água pluvial e umas outras medidas de conservação energética. Nada radical nem de difícil realização.

Na Tibá, a casa mais próxima uma da outra é separada por uns 50 metros.
Pra se ter uma ideia, aqui no meu bairro o padrão são lotes de 15x20 metros (em sampa 5x25 metros), portanto, muita casa por aqui é muro com muro.

Eles optaram por tomar café da manhã e almoçarem na casa mãe (local com escritório, biblioteca, cozinha e lavanderia coletiva pra quem não faz questão de ter a sua) juntos, no horário das crianças por facilidade, mas ninguém é obrigado a nada.

A beleza da coisa está no formato de uma colaboração espontânea, que surge de divisões e propostas dialogadas. Não que se negue ou se evite o conflito, pois o conflito, resolvido com diálogo respeitoso é a base da dinâmica social sadia.

“Nesses debates, vimos que adotar um caminho alternativo e solidário pode ser muito mais difícil e conflituoso do que seguir a maneira habitual de ação. Solidário e conflituoso não sendo, portanto, conceitos opostos, pois saber lidar com o conflito de forma respeitosa e acolhedora é o que faz um caminho solidário – e não a supressão do conflito.” (Richard Sennett)

Quem trabalha fora em tempo integral propõe suas formas de colaboração, ainda que às vezes financeira, tentando evitar a monetização e a exploração, mas não negando o dinheiro como um simples papel de troca, que no fim, é o que ele é.

Aparecem grupos de estudos, que muitas vezes se ligam a universidades para aprimorar e difundir conhecimentos, por vezes apoiando as comunidades no entorno como grupos de sem terra ou comunidades carentes. Uma forma realista de mudar o mundo, de maneira pequena e pontual, porém com um poder transformador imenso. Não é à toa que as comunidades estão pipocando pelo mundo todo.

A educação alias é um ponto forte e comum em quase todas. Escolas experimentais internas e para o entorno, educação plena e libertária, difusão de conhecimento para melhoria de vida de populações ribeirinhas e carentes e por aí vai. Muito lindo. Também não é à toa que há um grande número de educadores e professores universitários envolvidos com o tema.

Ah, sim, ninguém fica atazanando o vizinho o tempo todo não! Existem até algumas comunidades que se coloca uma bandeira na porta do tipo "disponível" ou "indisponível", afinal, colaboração e convívio não impedem os sadios momentos de individualidade.

Minha mãe disse: mas isso é o que sempre fazíamos antigamente!?

Apesar de muitos chamarem essas comunidades de "alternativas", "hippies", etc, elas nada mais são do que o retorno à decência (não no sentido moralista da coisa, mesmo porque o moralismo não é moral), ou seja, um viver com cooperação, troca, aprendizado e respeito, sem negar a importância da individualidade sadia e muito menos as diferenças, afinal, são elas que nos fazem crescer.

Não se vira às costas à tecnologia e as conquistas modernas, mas as coloca na sua posição de servidoras e não de escravizadoras e dotadas de um fetiche insano e destrutivo.
É um retorno ao mutirão, ao vizinho amigo, a partilha justa, a racionalidade no consumo, a um uso responsável dos recursos naturais, a responsabilidade com as futuras gerações, a troca de saberes, a valorização do conhecimento ancestral e tudo que nos foi surrupiado.

Para esse pós-capitalismo  funcionar ele depende da ignorância (ainda que muito bem formada tecnicamente e cheia de títulos acadêmicos), ou seja, o ignorar o outro e os conhecimentos antigos, enfim, é o olhar de curto alcance e de espectro reduzido, o explorar tudo e a todos sem nenhuma moral.

Evidentemente existem comunidade religiosas (como os veganos por exemplo! rsrs) e dogmáticas, mas elas não se enquadram nos conceitos internacionalmente propostos pelos grupos que difundem os ideais das comunidades intencionais.

Como eu disse no meu surto/post anterior, não sei se o meu (não no sentido de posse mas no sentido de participação) grupo decola ou não, se desmantela ou não e se meu tempo bate com o de todos lá, mas me recuso a abrir mão desses ideais em que eu já simpatizava antes de saber que existia um nome e um movimento com tais propósitos.

Prefiro morrer frustrado (uma a mais uma a menos não faz muita diferença) a achar que não existe outra alternativa, ou pior ainda, responsabilizar minha impossibilidade de ser flexível a condições externas ou pessoas.

Mas quem sou eu para definir o certo... mas o errado é de demonstração bastante simples.






sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Indo... pra onde?

Talvez meu último bom sonho tenha se desmilinguido...


Para mim sonhos não tem absolutamente nada a ver com posses, aquisições, acúmulos e todas as “vitórias” e “virtudes” modernas das quais o senso comum atual alardeia.


Meu último sonho, ou o que se parece ser o último, foi uma comunidade intencional.


No fim, para simplificar, seria a aquela coisa básica e supostamente lógica de um grupo de pessoas que se gostam (ou que se toleram como queira) que juntam forças para viver melhor, em alguma harmonia (dentro do que se pode esperar de boa convivência coletiva... vide Freud e a origem das neuroses...) e seguindo uma trilha oposta ao que o status quo determina.


Ao ingressar no meio virtual para essa busca dos desgarrados, eu sabia que havia um risco enorme de que a representação estatística não se alteraria em nenhuma mídia.


Dito e feito.

Assim como a TV (aberta ou fechada) representa uma maioria, as mídias sociais virtuais também.

Se por um lado a minha racionalidade me dizia o inevitável, por outro, a da esperança (admito que, parafraseando Nelson Rodrigues, a esperança é a última ferramenta dos medíocres) me dizia que em algum lugar eu encontraria os desgarrados que como eu gostariam de se juntar.


Apesar de uma pequena amostragem positiva, o “medo” do novo, da mudança e da possibilidade de se “abrir mão” (coisas cuidadosamente implantadas pela educação da sociedade atual) minam qualquer resistência. Os grupos se desfaçelam como um gás na atmosfera...


Não tenho mágoas com ninguém especificamente, talvez comigo mesmo por ter tido uma vã esperança de que haveria alguma opção.


Não tenho necessidade material (acho fácil obter “sucesso” no mundo atual), mas acho imensamente triste e desalentador ter como muleta “esse mundo” e “essa solução”.


Muitos amigos já perdi para “esse mundo”.

Apesar do discurso deles, eles também se perderam e se dissolveram nessa sociedade supostamente meritocrática, de recompensas que te escravizam e de uma vida doentiamente faraônica. Os pobres coitados se esqueceram de estudar a moral e a história...


Então, o que resta para mim?

Viver como um zumbi acumulando todas as “doenças da civilização” ou continuar minha caminhada pelo que suponho ser o justo e a alternativa (importante ter em mente que não busco o “certo”, mas sim a alternativa de algo que com certeza está errado)?


Minha experiência com a mudança, o inesperado e o abrir mão foi positiva até agora. Não tenho porque abandoná-la.

Mas não nego minha tristeza e frustração de que não tenha companhia para uma tentativa (ainda que pífia) de um mundo mais justo, igualitário e melhor.


Como qualquer diário, esse meu registro solitário me ancorará – ainda que num terreno arenoso como qualquer ‘verdade’ – em algo que eu venha a pensar no futuro.


Possivelmente esse texto não fará o menor sentido para ninguém a não ser eu mesmo... os diários tem essa característica... qualquer um que não ligue para “audiência”, “seguidores”, “likes” e todo esse mundo pavoroso talvez pense em algo... talvez...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

BuNdismo

Há poucos dias concluí o curso 'Gestão de Ecovilas', do Gabriel Siqueira.
Dado o assunto, evidentemente seria impossível um curso convencional, já que há enorme subjetividade no assunto, porém não tão grande como os "Múcios" alardeiam...


A troca de experiências dos participantes, os relatos e as bibliografias relatadas pelo organizador foram bastante proveitosos, mas (shi, o 'mas') nesse meio (não exclusivamente) sempre lembro do personagem citado há pouco, o Múcio.

Múcio era um personagem do Jô Soares no programa 'Viva o Gordo' que nunca discordava de ninguém e ficava sempre escorregando quando era questionado.

As práticas orientais como o budismo e a tal da comunicação não violenta para grupos que não são simpáticos ao embate intelectual sadio reforçaram essa coisa de que se deve evitar dar sua opinião pessoal sobre algo em que você se comprometeria perante ao grupo.

É um tal de "amo a todos" e "tolero tudo" que enche o saco e nada constrói.
O próprio conceito de tolerar já impede o 'tudo', porque tolerar, por definição, significa uma faixa, uma pequena abertura e não qualquer coisa. Por exemplo: hoje está 25 graus Celsius +/- 10%, ou seja, a medida com a tolerância está entre 22,5 a 27,5 graus.

O próprio organizador escreve que organizações religiosas não se enquadram no conceito original das ecovilas e quando uma participante afirma que seu grupo é dogmático/religioso toda forma de "Mucismos" são utilizados para se desviar de emitir uma opinião.

Há uma noção completamente equivocada de que emitindo uma opinião a respeito do assunto em pauta no grupo ou que indiretamente afeta o mesmo seja uma forma "violenta" de comunicação e provoca um medo de que alguém que discorde dessa posição antipatize com o opinador.

Quem opina deve ter ciência que deve sustentar adequadamente (de modo respeitoso e respaldado) sua opinião e, acima de tudo, que pode estar equivocado.
Quem ouve uma opinião divergente por direito pode discordar e colocar sua contraposição (também de modo respeitoso e respaldado e com ciência que pode estar equivocado) e assim iniciar um debate sadio e construtivo se esse for o caso.
Quem apenas tem fé (por definição algo que não necessita de justificativa concreta ou plausibilidade) deve ficar de boca fechada, afinal, o indiscutível é apenas uma cristalização que não promove nada.
 
É bizarro querer criar um "novo mundo" com um zen buNdismo tosco e hipócrita, mesmo porque devemos ter ciência que o budismo surgiu na Índia e depois foi para o Japão, China e outros países asiáticos, com o pretexto explícito de apaziguamento e controle populacional (como toda religião), além de também ter sido responsável por atrocidades e demais atitudes não éticas.

É o embate sadio de ideias que promove a melhora e não a hipocrisia e o silêncio travestidos de tolerância.

Quando questionei (isso não significa dizer que ele estava errado, é apenas um querer saber os motivos concretos de determinada opinião) um desse caras metidos a 'yoguis' sobre sua visão de alma, ele já anunciou ao grupo que "sempre sabia quando alguém com energias negativas vinha desestabilizar o grupo".

Isso só me lembrou os eletróns com sua carga negativa e todo o mundo que ele nos proporcionou (para o bem ou para o mal, moralidades à parte) e a fragilidade intelectual do sujeito que apenas justificou sua posição com uma agressão (sim, foi uma agressão) e uma afirmativa completamente esquizofrênica.

Imaginem a Grécia antiga com essa neo visão tosca de "não violência" e "tolerância"?!
Simplesmente não existiria filosofia!  
E a história não documenta casos de filósofos que saiam no tapa a cada discórdia...


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Grupos? Que grupos? (Parte 2 - oscilando para a euforia)

Esse fim de semana fui novamente na ecovila Tibá em São Carlos.
Minha primeira visita foi de um dia há uns 4 meses. Minhas ótimas impressões, a incrível sensação de carinho de pessoas espetaculares e um certo sentido de ressignificância da vida já me deram certeza de que iria voltar.

Dessa vez marquei com meu grupo (essa coisa caótica de agrupar os desconhecidos que ando postando) do facebook (blergh!) e conseguimos ir em 7 pessoas por um fim de semana todo, participando de mutirões e podendo interagir mais com as complexidades de uma comunidade intencional.

Essas 7 pessoas de uma forma geral são aquelas que tomaram a pílula vermelha (vide “Matrix”, anteriormente “Alice no País das Maravilhas” ou vá direto a Lacan se quiser algo mais denso) e passam pela angústia de “acordar” num mundo estranho, de estar flutuando sem referências, de se sentir deslocado no próprio espaço-tempo.
Nos encontrar também foi interessante e uma sensação meio estranha mas agradável de tatear aquele outro que também está “flutuando”, todos repletos da carga do medo e da dificuldade de sair da zona de conforto na qual a sociedade cristalizada nos impôs.

Como deficientes visuais nesse braile social tentamos visualizar o outro.
E a angústia da lugar a uma sensação de pertencimento, acolhimento, carinho e solidariedade. Histórias variadas que se cruzam e passam a não estarem mais sozinhas.
Sem a fantasia do paraíso idílico ou de amores sem conflito, reconhecemos a possibilidade da construção de alternativas como a que vivenciamos nesses dias.

Gerenciando os conflitos de maneira sadia, misturando o labor (Arendt) com o ócio criativo (Russell), rido e chorando, criando e encarando a burocracia obrigatória, enfim, se desconstruindo e se construindo com e pelo grupo no melhor do ser e do nada (Sartre).

Participamos de atividades no sistema agroflorestal, das refeições em grupo e da confraternização aberta a comunidade numa pizzada fantástica feita em forno a lenha ao redor de uma fogueira.
Conhecemos nesta ‘festa’ os antigos do grupo, que apesar de não mais viverem lá ou nunca terem ficado direto lá, participam ativamente dos conselhos; o grupo de permacultura urbana que é parceiro em vários projetos sociais; umas pessoas do CSA (interessante grupo/movimento chamado Comunidade Sustenta a Agricultura); e visitantes simpatizantes da vila.

Fomos embora no meio da assembleia, um momento burocrático necessário, onde foram decididos alguns realinhamentos e a aprovação de novos moradores fixos.
Uma ecovila de verdade é viva, mutante, em constante criação e refinamento, assim como seus participantes.

Aprender a voar é difícil. É não ter respostas prontas. É não ter certezas. É viver em alguma conformidade com seus ideais, ainda que eles também sejam dinâmicos.

Admito que oscilo entre a euforia e a decepção (apenas com a maior parte das pessoas que às vezes me brocha, pois a alternativa, ainda que não exata, está bastante apontada), mas procuro exercer o máximo do meu ceticismo e da minha racionalidade para me manter com alguma persistência nessa busca.

A despedida foi triste e alegre.
Triste no sentido de que queríamos ficar mais. Uma das unanimidades entre nós 7.
Alegre pois sabemos que as portas estarão sempre abertas para nós, que esse canal de diálogo contínuo estará sempre ativo.

Alguns integrantes da vila amorosamente nos perguntaram "por que não ficam aqui numa longa estada para ver se não juntam forças a nós definitivamente?"
Um convite incrivelmente emocionante que me deixou imensamente honrado (ainda que o lado racional me avise que shit happens), mas que foi prontamente compreendido pelo exposto por mim, onde indiquei, dentre outras coisas, meu desejo de encarar o difícil início e de deixar um ínfimo legado ao mundo que é preservar um pequeno pedaço da Mata Atlântica.

O tempo será meu juiz e meu professor.

Caminhemos.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Grupos? Que grupos?

E cá estou eu na tentativa de formar um grupo coeso e de bom caráter para, quem sabe, criar uma ecovila (ou seja lá o nome que queiram dar a isso).
Na verdade está sendo bastante frustrante.
Minha tranquilidade reside no fato de que, apesar de indesejável, posso fazer meu instituto de preservação e vida alternativa sozinho, aliás, está ultima parte já está bastante sólida há uns anos...

Entre as pessoas “do meio” que converso a maioria com algum grupo em formação ou já formado são de pessoas conhecidas entre si: amigos, parentes, colegas de classe, etc.
As pessoas que estão na luta de formar um grupo “entre desconhecidos” parece que estão sempre atoladas. Um grupo do Rio está com 8 pessoas há uns 2 anos apesar de ter tido mais de 1000 no facebook (blergh!).
No meu grupo do facebook (blergh!) já passaram quase 500 pessoas e apesar de uma meia dúzia ter tido a coragem de se conhecer pessoalmente, nem sei se esses de fato encaram tal empreitada.
Até uma simples pesquisa no grupo retorna meia dúzia de interações. Bem alertava Guy Debord...

Quase ninguém quer sair da zona de conforto e se expor ao outro como seres sociais deveriam fazer, e os que participam de “grupos de conhecidos” se expõem (em parte) porque sabem que praticamente não haverá conflitos, coisa que provoca pesadelos na maioria esmagadora.
Uma educação deficitária e a ideologia vigente os tornaram impermeáveis à discussão sadia, ao embate de ideias e a tolerância à frustração e crítica.

É a geração do “ativismo digital da bunda na cadeira”, do discurso em dissonância da prática da vida, da tolerância de araque e do falso incentivo à diferença.
Isso me faz lembrar minha juventude e meus amigos “engajados” e “ativistas crônicos”. Todos (não generalizando injustamente, todos mesmo!) viraram protótipos de mauricinhos pai de família, com carreira certinha, esposinha, filhinhos, patrimônio, tranqueiras tecnológicas, discurso moralista puritano, etc.
São esses mesmos, pasmem, que participaram do “Diretas já”, manifestações pró democracia e legalização de partidos, “fora Collor”, “salvem as baleias”, Greenpeace, blábláblá....

A ideologia do capital fez um estrago enorme. O capitalismo fundamentalista tem essa capacidade incrível de sequestrar vidas numa síndrome de Estocolmo premeditada.
Estando ela como estado e fatalmente como órgão de educação parece que teremos um longo e tenebroso caminho para alternativas sociais mais justas e igualitárias.




“Vida alternativa. Alter vida. Outra vida. Isto não só é possível como é a única e gigantesca tarefa deixada para as pessoas que não aceitam a realidade como ela é e caem no mundo na esperança de modificá-la”. (GABEIRA, 1985, p. 85)

“Nesses debates, vimos que adotar um caminho alternativo e solidário pode ser muito mais difícil e conflituoso do que seguir a maneira habitual de ação. Solidário e conflituoso não sendo, portanto, conceitos opostos, pois saber lidar com o conflito de forma respeitosa e acolhedora é o que faz um caminho solidário – e não a supressão do conflito.” (Richard Sennett)

“Podemos afirmar, assim, que ecovila Andorinha se apresenta como um movimento de resistência e, ao mesmo tempo, de proposição de uma cultura alternativa por meio da construção de novos valores e novas formas de ação, novas sensibilidades e novos questionamentos morais. Moralidade entendida aqui não como regras instituídas de conduta, mas como respostas singulares às perguntas: Como devemos viver? e O que é uma ‘boa vida’?. Encontramo-nos aqui, portanto, com sujeitos-criadores cujas práticas demonstram as inúmeras possibilidades de vida que podemos criar. Quando adotamos uma atitude aberta e desarmada, o encontro com esses sujeitos pode nos fazer repensar nossas opiniões e atitudes, e a revisitar nossos valores e intuições.

A busca de um caminho alternativo apresenta inúmeros desafios para os caminhantes: a dificuldade em romper com o trabalho e outras instituições citadinas; assumir os trabalhos coletivos voluntários com maior responsabilidade e assiduidade; saber acolher as diferenças; negociar o que o grupo tem em comum; abandonar hábitos internalizados por uma cultura extremamente hierarquizada;
aprender a dialogar com indivíduos que não compartilham dos mesmos valores éticos e estéticos, provenientes de experiências e classes sociais diferentes; erradicar a distinção entre trabalho (e trabalhador) intelectual e braçal; canalizar seu potencial transformador em ações políticas; etc. Pois todas essas mudanças exigem a construção de novas capacidades culturais e novos hábitos corporais, processo que demanda tempo e um trabalho de atenção. Tomar consciência desses desafios, discuti-los e problematizá-los em conjunto deve ser o primeiro passo para a sua superação.

A resistência oferecida pelos ecovilenses estudados não significa, por conseguinte, uma ruptura total com a cultura dominante, nem mesmo um extremismo ideológico. Trata-se de uma resistência gestada no cotidiano, nas pequenas coisas, em seu próprio ritmo. São artistas, portanto, e não engenheiros, como ressalta Jasper, que desconfia dos sistemas ideológicos que buscam reduzir a complexidade do mundo ao oferecer uma resposta unificada e ao exigir uma brusca ‘conversão’. A mudança cultural proposta pelos ecovilenses, ao contrário, se mostra gradual e singular, num processo que é único para cada indivíduo. Uma mudança entendida como um processo contínuo de busca, sem ponto de chegada, sempre em curso, sempre em movimento – exatamente como Alfredo Bosi entende o termo cultura: trabalho, processo, movimento.

De qualquer forma, ao embarcarem nesse movimento de busca, nessa reinvenção do mundo que passa pela reinvenção de si mesmos, os ecovilenses estão realizando o potencial de liberdade que os seres humanos realmente possuem: a capacidade de criar, de moldar poeticamente suas vidas. Movimento de busca que, quando efetuado em comunhão, tem mais chances de se corporificar e de transbordar para além da esfera daquela comunidade, tanto espacialmente – servindo de modelo e inspiração para outras pessoas de fora da comunidade – como temporalmente – servindo como referência de vida para as futuras gerações.” (REBECA ROYSEN – 2013)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Uma busca, um ideal, um projeto

Continuo estudando as ecovilas e comunidades intencionais e naturalmente tive boas e más impressões a cerca delas.
As más são que em geral há um viés meio dogmático em todas, seja por religiões formais em si ou através de misticismo oriental, orientações alimentares, etc. Para um cético/racional como eu isso é um tormento.

Porém as boas impressões superam as más e no mais, antes uma comunidade de gente esperando alienígenas do que uma metrópole cheia de neo yuppies com tendências faraônicas de acúmulo e todas as atitudes não éticas ligadas ao lucro a qualquer custo.
Soma-se a isso o fato de que existem outros céticos como eu e pessoas com algumas incongruências na estrutura de pensamento mas que não querem te “converter” a suas crendices. O respeito (de fato e não o da boca pra fora) se dá quando há tolerância e  reconhecimento de que sobre tudo pode se perguntar por que, quando e como, afinal, ser um cético ateu não o impede de acreditar (a base do significado da palavra fé) em solidariedade, compaixão e bem querer, e acima de tudo, algo que começou a ser discutido seriamente bem antes de quase todas as religiões conhecidas na atualidade: a ÉTICA.

Apesar de já desgastado, dado o encampamento do capitalismo, continuarei a usar o termo ecovila para efeitos de referência do projeto da comunidade intencional.

Particularmente o que significa tudo isso? O que espero de um projeto desses?
Sem ordem de importância e sabendo que há uma segurança/garantia apenas relativa em tudo eu colocaria da seguinte maneira:
  • um espaço preservado longe das mãos do capital.
  • me desfazer da pouca coisa que tenho pois acho o conceito de particular/propriedade e herança um completo absurdo.
  • uma área com mais liberdade de ações (exemplos pífios: numa área rural posso construir praticamente o que bem entender sem as regras oficiais; posso conseguir uma fonte de água alternativa sem burocracias; posso gerar minha energia elétrica sem maiores empecilhos; posso ter plantações/criações que reduzem minha dependência do mundo monetarista).
  • um grupo que não só divide tarefas cotidianas como zela pela sua segurança e troca afeto e informação.
  • racionalizar o uso de tudo, pois em grupo se compartilha mais recursos e fatalmente se consome menos.
  • realizar projetos sociais e ambientais maiores do que os possíveis quando se faz sozinho.
  • recuperar o conhecimento ancestral e uni-lo com o moderno.

Nos meus estudos da permacultura e ecovilas e sua viabilidade no meu entorno e com as pessoas que imagino serem boas aliadas, criei algumas bases referências para este projeto. ATENÇÃO! Base de referência é um começo de discussão e não regra ou imposição.

Estruturalmente até me parece fácil, muitas referências estão bem descritas nos manuais das ecovilas e da permacultura:
  • uns 100 mil m2 de área para cada 20 famílias/grupos.
  • famílias/grupos residenciais de até 5 pessoas.
  • área privada (lote, cristal, pétala, ou seja lá como chamar essa área destinada ao morador, associado, ecoaldeano, etc) de uns 500m2 com até 200m2 de “uso impermeabilizado”.
  • acesso a água, energia elétrica e telecomunicação.
  • obrigatoriedade de tratamento dos seus resíduos.
  • obrigatoriedade de construções de baixo impacto dentro da realidade/possibilidade prática atual.
  • possibilidade de captação de água natural.
  • mínimo de 50% de área nativa para fins de preservação.
  • acesso relativamente fácil, apesar de subjetivo,  entendo como um centro urbano acessível em uns 20 minutos de veículo motorizado, já que muitos, talvez a maioria, necessitem manter vínculos com a “cidade”.
  • área comum para encontros, eventos, reuniões, etc.
  • área agrícola para uma busca da autossuficiência (aqui lembrando que acho praticamente impossível alcançar esse propósito, uso ‘autossuficiência’ como minimização de dependência externa).
  • área de criação animal (dentro do tratamento ético dos animais não há restrições em tê-las e nem mesmo em consumi-las, além de não haver restrições nos manuais das ecovilas e da permacultura, lembro que o ato de nascer já é um processo de morte e destruição e, mais uma vez, seus dogmas não devem ser encarados como verdade absoluta e nem exclusividade moral).
  • redução da “pegada ambiental” sem maluquices xiitas, afinal, de novo, estamos vivos, e isso em si já é um impacto ambiental.

É socialmente, como sempre, que me parece haver os maiores desafios:
  • sabendo que toda a ecovila bem sucedida teve origem num grupo de pessoas afetivamente conectadas, como manter esse vínculo sem obrigatoriedades? Exemplo: sabemos que eventos sociais são os “adubos” do vínculo afetivo, mas como tê-los sem a rigidez de encontros obrigatórios para isso ou aquilo?
  • tendo cada pessoa algumas habilidades e ou condição física específicos, como evitar que se criem os mesmos vícios atuais da monetização de tudo, ou seja, o risco de alguém virar uma espécie de “subempregado” dos demais?
  • sabendo que na diversidade podem haver pessoas que morem e vivam integralmente na ecovila bem como as que trabalham integralmente fora e as que misturam ambos, como conciliar as contribuições de todos para a ecovilas sem cair na monetização da questão?
  • como evitar que pequenas desavenças (e sempre são pequenas) virem uma mágoa desestabilizante?

Enfim, dadas evidências históricas e as experiências presentes pode-se dizer que há solução e ou consenso para tudo.
Confuso, dinâmico e cheio de “mas”, “se`s” e “talvez”, mas um início de discussão.


Nestes 3 posts tem um pouco mais sobre o que li/interpretei das ecovilas, etc:

http://coisafilosofica.blogspot.com.br/2015/04/representatividade-e-alternativas-de.html
http://coisafilosofica.blogspot.com.br/2015/05/representatividade-e-alternativas-de.html 
http://coisafilosofica.blogspot.com.br/2015/05/representatividade-e-alternativas-de_12.html