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domingo, 30 de abril de 2017

Mais um dia, mais empobrecimento

Sou um velho headbanger, mas nem por isso deixo de gostar (e seria absurdo) de outras grandes vertentes da música personificados pelos seus maiores expoentes.



Faz um tempo que acompanho a trajetória rumo ao esquecimento do Belchior. Os rumores, as lendas, os julgamentos recheados de moralismo e lugar comum.

A simplificação dos boçais resume tudo a dinheiro e o quanto se ama o que faz, como se houvesse uma maneira de viver, um ou outro interesse patético e alguém se resumisse a sua profissão.

É o sumiço estratégico. De autopreservação. Até mesmo, porque não, da preservação dos bons conhecidos congelados num momento histórico, pois nada melhor para não se decepcionar e perder um bom amigo do que não descobrir que ele virou um boçal como todos os que você odeia... a unanimidade de Nelson Rodrigues.

Nietzsche, Schopenhauer, Heidegger, Sócrates e outras tantas trajetórias brilhantes rumaram ao auto-exílio... totalmente compreensível.
Quando se alia informação, inteligência e sensibilidade a angústia crônica é inevitável.

Eu não sou tão bom em nada, mas sou também apenas um rapaz latino americano.



O Belchior que a crítica vulgar não viu



domingo, 10 de agosto de 2014

Viver é acumular perdas

Quem tem filhos de outras espécies poderá compreender o que digo.

Uma das últimas vezes que Klaus saiu até o quintal.

Depois de alguns meses de sobrevida com muitos cuidados por causa de uma crise renal, morreu com quase 15 anos.
Nos últimos olhares poucos dias antes já existia um "Estou cansado. Quero dormir."
Carl Sagan em sua última entrevista, já com o câncer em avançado estágio,  disse: "A morte é um sono sem sentido". Em poucas palavras nunca vi uma descrição tão precisa.

Insuficiência renal é a causa mais comum de morte em gatos e costuma aparecer geralmente a partir dos 8 anos.
Como os gatos são muito resistentes, dificilmente reclamarem de dores e incômodos e não aparentarem nada até as coisas ficarem graves é bastante difícil se prevenir desse mal e de vários outros.

A insuficiência renal só dá sintomas quando mais de 75% dos rins estão comprometidos, e nem nos exames de sangue aparece até então.

Como sempre, os últimos dias foram bastante difíceis, uma vigília de morte.
Soro, glicose, vitaminas, etc. Apesar de saber o desfecho sempre resta alguma esperança. Como toda fé, baseada no que desejamos, sem nenhum suporte racional.



Mas chega um momento em que a razão deve prevalecer em nome do outro.
Nossa dor da perda e o medo da culpa deve ser suportado em prol do outro que apenas sofre em agonia inútil. No quinto dia sem comer e segundo sem beber, quase sem reações, sem nenhum sinal de melhora e com sinais de úlceras gástricas, optou-se pela eutanásia.

Em alguns momentos de consciência e juntando toda a parca energia disponível ele, assim como todos os gatos, se arrastava para o chão frio a fim de reduzir sua temperatura e acelerar a morte.

Em alguma estrela de pelo menos 20 vezes a massa solar os carbonos do Klaus foram forjados e lançados ao espaço no seu processo final. A beleza única do acaso, da evolução e do florescer da consciência o pariu, assim como a mim e a você.
No fim, depois de aproveitarmos essa imensa sorte, devemos devolver o que pegamos emprestado do universo.

Não há justiça no mundo. Não há sentido no universo.
Somos apenas poeira estelar. Nunca me canso de pensar nisso e lembrar da sorte da existência e de como não se deve perder tempo com coisas idiotas como trabalhar para acumular.


Sagan, em uma de suas últimas dedicatórias a sua esposa, Ann Druyan, escreveu: "Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir esse planeta e essa época com você.".

Klaus, foi um prazer compartilhar esse universo durante esses quase 15 anos de sua existência.

Os gatos são territorialistas e gostam de rotina, além do mais, não destino meus parentes ao lixo hospitalar.
Sei que não existimos mais após a morte, mas prefiro que, mesmo que simbolicamente, você continue em casa.

RIP