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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Física e filosofia

Pra que ama física como eu e reconhece sua raiz inseparável da filosofia (afinal, em alguns países ainda existe a disciplina da filosofia natural, que, aliás, Marcelo Gleiser é professor), uma bela obra.

A Filosofia da Física de Lawrence Sklar.

https://mega.nz/#!dTZSlC4b!O4PRsnH7_yXzNL_eVgXwfddd42cnHuS5EulqtYjDG1g




Não tenho nenhum ganho financeiro nem direto nem indireto
o que invalida a hipótese de pirataria, e no mais,  a divulgação livre
de conhecimento só é impedida por crápulas amorais e desprezíveis.

Pitaco retirado de Philosophy of Physics, de Lawrence Sklar (Oxford University Press, 1992):

Filosofia da física e filosofia em geral

Lawrence Sklar
Tradução de Desidério Murcho, Pedro Galvão e Paula Mateus
Pode ser útil explicar por que razão o estudo dos fundamentos das teorias físicas e dos seus aspectos filosóficos é útil para os filósofos que não estejam especialmente preocupados com a natureza da física. Gostaria de sugerir que os problemas investigados pelos filósofos da física e os métodos que usam para abordar esses problemas podem também trazer alguma luz às questões filosóficas mais gerais.

Os filósofos da ciência estão interessados em questões como a natureza das teorias científicas, saber como estas teorias explicam os fenômenos do mundo, quais são as suas bases empíricas e inferenciais, e como esses dados empíricos podem ser vistos como algo que apoia ou desencoraja a crença numa hipótese. Podemos ganhar em perspicácia ao abordar estes problemas mais gerais no contexto de teorias específicas da física contemporânea. O vasto alcance das teorias e a sua natureza altamente explícita proporcionam um contexto onde muitos problemas da filosofia da ciência geral, que de outro modo seriam bastante vagos, se tornam mais “fixos” quando concentramos a atenção nessas teorias físicas específicas.
Como essas teorias apresentam um elevado grau de formalização, o lugar nelas ocupado por conceitos cruciais encontra-se estabelecido de uma maneira simples e clara. Questões sobre o significado de conceitos cruciais, sobre a sua eliminabilidade ou irredutibilidade, sobre as suas relações definicionais, etc., ficam assim sujeitas a um exame rigoroso. É mais difícil conduzir esse exame em relação a conceitos mais “vagos” de ciências menos bem formalizadas. Como veremos também, a relação entre a estrutura teórica e os fatos observacionais a partir dos quais esta é inferida é particularmente clara em muitos casos da física formal. Nas teorias sobre o espaço e o tempo, por exemplo, o próprio contexto da teorização científica pressupõe noções bastante definidas sobre o que pode contar como “fatos acessíveis a uma inspeção observacional direta”, que deverão fornecer toda a base empírica da teoria. Deste modo, questões como a de saber se a totalidade desses fatos poderá selecionar apenas uma alternativa teórica viável, apoiando-a mais do que a todos os seus rivais, são tratadas de uma maneira esclarecedora, maneira essa que não é possível no contexto geral da ciência. Neste último contexto, não existe uma noção clara dos limites da observabilidade nem uma delimitação clara da classe das alternativas teóricas possíveis a ter em consideração. Se explorarmos, no contexto das teorias fundamentais da física, problemas como o da eliminabilidade ou não eliminabilidade dos conceitos teóricos, ou o de saber até que ponto os fatos observacionais impõem limites às escolhas teóricas, teremos uma maneira de lidar com estes problemas metodológicos gerais: olhamos para casos específicos que dão uma clareza especial às questões filosóficas. As ideias adquiridas nesta área mais formalizável e delimitada podem beneficiar aqueles que se ocupam de problemas mais gerais.
Estas considerações podem de algum modo ser generalizadas. Os filósofos interessados nos problemas gerais da metafísica, epistemologia e filosofia da linguagem descobrirão que abordar questões desses domínios, tal como são exemplificadas em casos particulares e concretos da teoria física, lançará luz sobre as maneiras apropriadas de lidar com questões gerais. Não podemos progredir muito na compreensão das estruturas específicas das teorias físicas parciais sem usar os recursos fornecidos por aqueles que abordam os problemas mais gerais e fundamentais da filosofia. Além disso, não podemos progredir decisivamente nessas áreas mais gerais sem ver como os métodos e soluções gerais se comportam quando se aplicam a casos específicos. E os casos específicos dos fundamentos filosóficos das teorias físicas fundamentais são, também aqui, bastante apropriados para testar afirmações filosóficas gerais.
Devemos dar um pouco de atenção a um último assunto relacionado com este. Encontramos frequentemente na bibliografia sobre o tema afirmações muito ousadas segundo as quais a física contemporânea resolveu conclusiva e decisivamente debates filosóficos muito antigos. “A mecânica quântica refuta a tese de que todos os acontecimentos têm uma causa” é um exemplo frequente. Por vezes, surpreendentemente, ambos os lados de um debate filosófico afirmam que uma teoria resolve um problema a seu favor. Assim, tem-se defendido que a teoria da relatividade geral resolve decisivamente o problema da natureza do espaço; mas há quem defenda que esta teoria refuta o substantivismo, enquanto outros sustentam que resolve o debate a favor dessa doutrina! Estas afirmações ousadas e injustificadas são enganadoras, pois os problemas são complexos e os argumentos são por vezes frustrantes na sua subtileza e opacidade. Nestas circunstâncias, as pretensões a uma vitória decisiva de qualquer tipo devem ser encaradas pelo menos com algum cepticismo.
Temos de ter um cuidado especial em relação às conclusões filosóficas derivadas de resultados da física. Por analogia com o princípio GIGO das ciências da computação (garbage in, garbage out — “entra lixo, sai lixo”), chamaremos a este o princípio MIMO: metaphysics in, metaphysics out — “entra metafísica, sai metafísica”. Não há dúvida que qualquer tese filosófica deve ser reconciliada com os melhores resultados disponíveis da ciência física, nem tão pouco que o progresso da ciência tem produzido um antídoto útil para muito dogmatismo filosófico, mas ao considerar o que a física nos diz sobre questões filosóficas devemos ter sempre o cuidado de perguntar se a própria teoria física incorpora pressupostos filosóficos. Se descobrirmos que esses pressupostos foram incorporados na própria teoria, devemos estar preparados para examinar cuidadosamente se essa maneira de a apresentar é a única maneira de acomodar os seus resultados científicos, ou se poderão haver outros pressupostos que nos levariam a derivar conclusões filosóficas bastante diferentes, caso a teoria os incorporasse.

Objetivo e estrutura deste livro

Para terminar, vou apresentar algumas considerações sobre o objetivo e a estrutura deste livro. A investigação cuidada e sistemática de qualquer um dos grandes problemas da filosofia da física é uma tarefa demorada e difícil. Um domínio dos conteúdos das teorias fundamentais da física contemporânea requer um estudo prévio de um corpo de matemática vasto e difícil, já que as teorias se formulam frequentemente na linguagem poderosa e abstrata da matemática contemporânea. À formação matemática acresce ainda o estudo dos elementos específicos da física. Além de tudo isto, a investigação filosófica requer uma formação firme em muitos aspectos da filosofia analítica contemporânea: na metafísica, na epistemologia e na filosofia da linguagem.

Tentar fazer inteira justiça a qualquer um dos problemas centrais da filosofia da física numa obra introdutória deste tipo está, obviamente, fora de questão. O objetivo é antes o de proporcionar ao leitor um mapa das áreas de problemas centrais deste domínio. Este livro centra-se naquelas questões que, do meu ponto de vista, se apresentam como as mais importantes da filosofia da física. Muitos outros tópicos interessantes quase não serão considerados, e alguns não serão mesmo abordados, com o objetivo de dirigir a atenção tanto quanto possível para as questões mais cruciais e centrais.

Relativamente aos tópicos abrangidos, ofereço um esboço ou sinopse dos aspectos fundamentais das teorias físicas que estão em interação mais profunda com a filosofia. A minha esperança é oferecer uma abordagem dos problemas suficientemente concisa e clara de modo a orientar o leitor interessado pelos caminhos, por vezes labirínticos, dos debates centrais. Os capítulos 2, 3, e 4 são complementados por um guia bibliográfico anotado. O leitor interessado em seguir com algum pormenor os temas esboçados no texto encontrará nessas seções de referências um guia para os materiais de formação básica em matemática, física e filosofia, assim como um guia para as discussões contemporâneas mais importantes sobre o problema em causa. Não se pretende que as seções de referências sejam um levantamento exaustivo da bibliografia sobre qualquer dos temas considerados (uma bibliografia por vezes muito extensa), mas antes um guia seletivo dos materiais mais úteis para conduzir o leitor, de um modo sistemático, mais longe.

Embora tenha tentado incluir nas seções de referências materiais acessíveis a quem não tem uma vasta formação em matemática e física teórica, não excluí aqueles cuja compreensão requer uma formação nessas áreas. O material que exige uma formação bastante modesta desse tipo (ao nível intermédio de uma licenciatura, digamos) está assinalado com (*). O material que exige uma familiarização mais vasta com os métodos e conceitos técnicos está assinalado com (**).

As três áreas principais que vamos explorar neste livro são a do espaço e do tempo, a das teorias probabilísticas e estatísticas do tipo “clássico” e a da mecânica quântica. Isto vai permitir-nos examinar muitas das actuais áreas de problemas mais enigmáticas e fundamentais da filosofia da física. Outra área principal só será considerada casualmente, embora seja responsável pela introdução de muitos problemas extremamente interessantes que só em parte têm sido explorados. Trata-se da teoria geral da matéria e da sua constituição, tal como é descrita pela física contemporânea. Questões que surgem quando se postula o campo como um elemento básico do mundo, ou que emergem de problemas da teoria da constituição da matéria, ou dos microconstituintes da hierarquia que nos conduz das moléculas e dos átomos às partículas elementares (e talvez mais além), ou da teoria fundamental sobre as próprias partículas elementares, só serão focados de passagem quando lidarmos com as três áreas de problemas centrais acima indicadas.

Lawrence Sklar

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Extirpando o lugar comum

Os três últimos livros que li foram excepcionais.
Tem os componentes que eu amo, ou seja, os tornam uma boa ferramenta para o desenvolvimento intelectual e os dão credibilidade: são multidisciplinares, utilizam sólida pesquisa e portanto tem extensa bibliografia e, claro, são muito bem escritos e desprezam qualquer explicação simplória e reducionista.

O primeiro foi o do Marcelo Gleiser, "A Ilha do Conhecimento". Dos três o mais fraco. Apesar de ser a área que adoro, a Física, e talvez também por isso, ou seja, já ter lido bastante e estudado sobre o assunto, é que achei que faltou aprofundamento em alguns tópicos que ele estava a propor.
Extenso demais na "revisão" da astronomia e da base da física quântica, acabou pecando por explorar menos a formação da consciência e do conhecimento que era o alvo da obra.
Mas como a física sempre me manteve atento aos limites do senso comum e está aberta (como toda boa ciência) a novas perspectivas sem perder o ceticismo (já dizia o grande Carl Sagan: a pior falha da humanidade é a fé, a maior virtude é a dúvida) seus grandes autores são sempre bem vindos.

O segundo foi o "Demônio da Meia Noite" de Andrew Solomon, um tratado espetacular sobre a depressão que vai muito além do que se espera. Utilizando-se de conhecimentos e pesquisas tanto da psicologia, psiquiatria e neurobiologia, Solomon debulha a mente humana vasculhando as origens (tanto históricas quanto biológicas) da depressão, as contribuições das condições sociais, econômicas e políticas, os tratamentos convencionais e alternativos, as ramificações e questões dos sem teto, violência, suicídio, etc.
Apesar do tema foco, vale muito a pena para todos que gostam de estudar o comportamento humano e a consciência (essa misteriosa entidade cuja fronteira do físico e do metafísico nunca foi bem desvendada), além de derrubar uma série de mitos a respeito da depressão, ansiedade e suicídio.

O terceiro (sobre o qual já postei) foi o "Capital no Século XXI" de Thomas Piketty, um jovem, premiado e conceituado economista francês.
Economia nunca foi algo que me atraiu, muito pela pobreza dos economistas tecnicistas que esquecem que a economia é uma ciência humana e portanto, tratá-la de modo isolado da sociedade e da história faz com que suas obras percam grande parte do sentido.

Resolvi estudar porque somos continuamente bombardeados por manchetes e informações "recortadas" de termos econômicos que achamos serem bons ou ruins, mas que no fim não compreendemos seu significado, fazendo com que assumamos um discurso que não é nosso e muitas vezes nos é prejudicial.

Estou ainda na fase da economia, onde li Stiglitz (Nobel em 2001 - na verdade achei um pouco tedioso, apesar de muito bom, seu "The Price of Inequality"), Krugman (Nobel em 2008 - apenas alguns artigos) e agora comprei dois do Amartya San (economista indiano e Nobel em 1999).
Como tenho pouca referência em economia (meus amigos mais próximos são filósofos, físicos e engenheiros), fui estudar a lista dos laureados pela academia para buscar livros.
Curiosamente, mas não por acaso, notei que a academia mistura a premiação entre " economistas sociais" (os que não esquecem que a economia é uma ciência humana) e os tecnicistas (os economistas reducionistas que se atém à teoria econômica como se ela fosse algo que devesse privilegiar números e não pessoas).

Para mim nada pode se afastar das pessoas. 
A própria Física é mais emocionante do que se pensa e conecta mais as pessoas e o universo do que qualquer religião, pois longe dos dogmas e crendices, nos conecta a um universo como ele é e não como gostaríamos que fosse, ainda que, como lembra Gleiser, esse "é" é uma aproximação sujeita a melhorias e de acordo com a nossa interpretação.

Dito isso, minhas escolhas para estudo da economia são de autores que contemplem a economia inserida num contexto sócio cultural.

Citei esse "apanhado" de informação para ilustrar a importância de estudarmos TUDO mais profundamente, de modo a não cair (ou ao menos tentar) nas soluções simplistas e "manchetes", muitas vezes colocadas de modo tendencioso ou simplesmente incompetente. Veja, a versão de lê-las nas vitrines das bancas e de ler as "orelhas" de livros foram substituídas pelo Google, Wikipedia e afins. 

Vamos observar alguns discursos simplórios comuns:

  •  "O dólar subiu" como algo ruim. Por que? O equilíbrio entre os gastos com insumos balizados pelo dólar, a queda dos preços dos produtos nacionais no mercado externo (aumento das exportações) e o aumento de gastos de estrangeiros no país são de uma dinâmica grande para simplesmente se colocar esse fato como ruim. Apenas para pontuar, a China, a economia que mais cresce no mundo nos últimos anos continuamente opera com grande desvalorização de sua moeda.
  • "O PIB só cresceu x%" como algo ruim. Por que? O PIB em valores absolutos (e mesmo seu melhor substituto que é em dólar de paridade de compra) não reflete a condição social. O PIB do Japão esta negativo pelo segundo ano seguido, o da Dinamarca foi negativo também, assim como o dos países baixos que vem capengando desde 2008, e tem muito mais dentro dos países top no ranking do IDH, portanto, cuidado com as "leituras jornalísticas" de índices econômicos e também dos discursos de economistas tecnicistas, pois para um matemático que esquece do mundo humano, um monte de bilhões é bom/eficiente quando acrescido de outros montes independente de para quem ou qual seu objetivo.
  • "A economia cresceu apenas 1%". "Apenas" por que? Com matemática financeira básica descobrimos que esses "módicos 1%" correspondem a mais de 30% em uma geração (em torno de 30 anos) o que é muito! Sem avaliar como o crescimento demográfico e as tecnologias impactam nessas estatísticas o "muito" ou "pouco" passa a ser completamente arbitrário e analisando a médio prazo, nota-se que crescimentos maiores são insustentáveis (Piketty 2014)!
  • "O crescimento econômico leva automaticamente à melhoria da população". Por que? Mágica? Essa é a maior falácia do discurso tecno-economico! Não existe, eu repito, não existe qualquer fonte histórica que demonstre isso! As melhorias na distribuição de renda SEMPRE dependeram de intervenções políticas não apenas na democratização do conhecimento como em políticas fiscais agressivas. Apenas para pontuar: a classe média patrimonial surgiu na metade do século XX graças a várias intervenções políticas do estado, principalmente no modelo tributário progressivo, ou seja, o discurso meritocrático fazia (ainda que pouco) sentido há 50 anos atrás! Os EUA hoje (devido às constantes políticas neoliberais a partir do anos 80 que incluem redução tributária constante) tem a mesma mobilidade social da África subsaariana.
  • "Imposto é ruim". Por que satanizamos os impostos? Nunca assuma esse discurso tão simplório pois ele só interessa a quem detém a maior parte das riquezas. Impostos não são absolutamente bons ou ruins, porém, bem escalonados são a ÚNICA forma de redistribuir riquezas. Todas as séries históricas demonstram isso. EUA e Grã Bretanha chegaram a taxar em até 98% as grandes fortunas. A França em até 70%. E ainda hoje existem os chamados impostos solidariedade inclusive de caráter expropriatório nos principais países capitalistas. A própria tributação de heranças (ainda que alguns digam que tem pouco impacto na arrecadação) é importante a longo prazo e NUNCA desestimulou a aquisição de bens.
  • "Programas de renda mínima acomodam a população". Quem disse? Isso é completamente absurdo entre os estudiosos. A Europa já aprovou um estatuto e agora estuda a operacionalização do mesmo em seus países e os EUA já buscam soluções semelhantes.
  • "Lutar contra o neoliberalismo e o estado mínimo é coisa de comunista!". Essa é a mais patética de todas e se não fosse trágico seria cômico. Os principais economistas (CAPITALISTAS!) da atualidade como Stiglitz, Krugman, Piketty e Sen lutam contra o estado mínimo e defendem (demonstrando brilhantemente) o retorno da moralidade ao capitalismo (como interpreta bem, por exemplo, Yvone Roberts do The Guardian) afirmando ipsis litteris que isso é impossível com o liberalismo a la Friedman.
  • "Se já dirige o vota com 16 tem que ir pra cadeia também!". Pra não ficarmos só na economia temos essa tosquice da atualidade. Vários países do mundo que adotaram essa prática estão revendo suas posições e fora vários outros argumentos, ficarei apenas no básico: sem rapidez e transparência no judiciário, educação e o retorno da meritocracia à economia, não solucionaremos nada com leis, ademais, elas já existem em abundância. Para exemplificar, tomamos o estatuto dos crimes hediondos de 1990 que "iria resolver ou amedrontar" possíveis praticantes. Resultado: a taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes mais do que duplicou.

Enfim, o que quis apresentar, e é o que a ciência nos ensina, não é essa ou aquela "verdade", mas sim, que muitas vezes adotamos um discurso de outros com interesses escusos que muitas vezes nos causam mal e, acima de tudo, nos faz  passar por tolos que emitem opiniões sem o menor embasamento.

Toda leitura de qualidade é válida, mas em tempos de turbulência econômica e social, estudar economia é uma boa forma de ficar atento a determinados discursos prontos e manchetes simplórias que na maioria das vezes nos afastam da raiz dos problemas e portanto de soluções efetivas.

Vamos queimar os discursos simplistas!!!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A ciência hoje

Marcelo Gleiser hoje, para mim, pode ser a síntese da ciência moderna.
Um bom exemplo do que a ciência estuda, de como ela realiza esses estudos, de como ela está relacionada com a vida cotidiana e com as outras áreas do conhecimento humano.

Usa nobremente o seu recém adquirido status de pop star brasileiro (apresentou programas de TV, ministrou palestras, autor de best sellers, professor universitário e cientista respeitado) para divulgar, entre outras coisas, a ciência moderna, a necessidade de investimento público em educação (ele cobra dos colegas cientistas essa postura e já foi ao senado) e a necessidade de se cuidar do planeta.

É acessível, didático e carismático, um verdadeiro discípulo do Carl Sagan.

Nesses vídeos ele apresenta as inovações da ciência moderna, quebra os paradigmas nacionais sobre a educação norte-americana (eu não sabia, mas a universidade americana é mais ou menos o que eu defendia de modelo aqui no Brasil), demonstra a importância da física teórica para o cotidiano e tenta responder aos anseios teístas do lugar de Deus na vida.

Gosto de seu posicionamento a perguntas típicas. Por exemplo, sem meias palavras ele diz: não há necessidade de um criador para o universo e as probabilidades da existência de vida inteligente fora da Terra são quase desprezíveis (importante citar que ele defende que para a vida, a inteligência não é essencial e muito menos de alguma forma é importante).

No programa da Marília Gabriela:




E na Band em 5 partes:




Estou ansioso pelo seu novo livro, que parece tratar de um assunto que me interessa muito, o que é a realidade, como construímos a realidade e como ela pode ser construída por outros seres vivos.

Alguns dizem que a ciência é uma religião.
Sob certo aspecto pode ser, mas não conheço nenhum físico que tenha defendido a fusão a frio tenha feito um atentado a bomba a outro grupo que o desqualificava, nunca ouvi falar de universidades que foram a luta armada por posições divergentes e desconheço alguma religião que assuma a impossibilidade de verdades absolutas e muito menos de conhecimentos acumulativos.

Mas se quiserem assim a definir, sim, até que me demonstrem uma mais adequada esta é a minha "religião".

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Nada muda... ou a mudança é insignificante

Recentemente me disseram que eu iria adorar fazer filosofia por causa de uma conversa sobre valores, religião e outras coisas.
Isso novamente me fez pensar sobre minha desistência da faculdade e minha falta de vontade em retomá-la.

Ouvir a afirmativa da "invasão da ciência na metafísica"  me confirmou que filosofia não seria o retorno.
Apesar de gostar muito de filosofia, acho que ela também parou no sécuo XIX assim como a "ciência" que ela crítica. Ou antes.
O ar (éter) também era domínio da metafísica.

Mas na discussão, a criticada "ciência" também foi um dos motivos para minha perda de ânimo na graduação, já que essa não é a verdadeira ciência contemporânea. A da graduação é técnica, instrumental e burocrática.

A filosofia é ótima como crítica do pensar, da discussão sobre referências e valores, e tudo que permeia o universo humano, mas a ciência hoje, por motivos óbvios, não cabe apenas na "solidez" do senso comum humano.
Conclui-se facilmente que é um equívoco abissal designar médicos, "físicos de materiais", engenheiros ou biólogos técnicistas de "cientistas".

Mas se retornasse um dia a estudar (formalmente digo), realmente seria por algo burocrático ou para tentar a física novamente, pois é muito mais fácil ser um físico que gosta e utiliza a filosofia do que o contrário.

Nem perco meu tempo em discutir afirmativas da origem da física na filosofia. Uma balela.
Em tempos onde o conhecimento era infinitamente menor, é óbvio que apenas poderia existir a filosofia, e numa discussão sem fim e inútil, os chineses  muito antes da filosofia antiga poderiam ter inventado a física, ou algum Neanderthal que intuísse que tudo é feito de "coisas muito pequenas" também.

Mas não existem cursos assim, livres e realmente multidisciplinares.
Certa vez, há muitos anos, a USP tentou. Mas o bando de rebeldes sem causa dos centro acadêmicos não tem tempo para discutir conhecimento, já que suas preocupações únicas são o preço do bandejão, a privatização do ensino e as greves. Nesse caso a evolução foi nula.

Por outro lado admito que minha capacidade intelectual não seria suficiente para ser um cientista de verdade.
Nada de psicologismo barato ou choraminholas. É apenas a realidade. 
Aliás, o que diminui tremendamente a minha culpa.

O fato de ter nascido e viver sem propósito e sem sentido só me faz crer que me enquadro perfeitamente nesse universo: hostil, frio, sem sentido e sem propósito.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Física, o tempo, e aquela senhora de cetim

Perdi meu pai com 5 para 6 anos, antes de descrever algumas sensações que vagavam constantemente na minha mente durante a infância e a adolescência, passarei algumas semelhanças interessantes que descobri recentemente - claro que nunca me achei "especial" e muito menos tenho a pretensão de sequer esbarrar na grandiosidade dos citados.

O físico Marcelo Gleiser perdeu a mãe com 6 anos, e segundo ele mesmo, sua infância e adolescência foi marcada pela busca do significado do tempo, e por motivos óbvios, amadureceu já com boa noção de finitude.
A parada na Física foi consequência natural.

O físico Ronald Malley perdeu seu pai com 10 anos. Seu sonho de infância era construir uma máquina do tempo e salvar seu pai.
Hoje trabalha numa "máquina do tempo", nada cinematográfico ou fantasioso, mas, de início, tenta "desviar no tempo" alguns elétrons.

Os pais são o que mais próximo experimentamos do Criador.
Calma lá, sou ateu, é uma afirmação com base psicanalítica.

Mas enfim, quer queiramos ou não, por bem ou por mal, crescemos com base neles e querendo corresponder aos anseios dos "deuses", portanto, perder um deles é se confrontar com a mortalidade da divindade.

Pra mim, o tempo e a morte sempre foram coisas estranhas e interessantes. Nada mórbido ou suícida.
A noção de finitude cresceu comigo, e "perder tempo" sempre foi algo que me horrorizou.
Associado à hiperatividade foi o caos. 

Nunca gostei de ir no cinema pois achava que poderia estar perdendo algo, e assim foi (e ainda é, apesar de um controle mínimo da maturidade) com qualquer outra coisa. Imaginem a dificuldade de estar escrevendo...

Sempre quis viver cada segundo, e talvez por isso, tenha perdido muitos.

Cresci sabendo que a riqueza do tempo não pode ser comprada, ganha, doada ou alugada, talvez por isso o "sucesso" material nunca tenha me seduzido, e fico entristecido com amigos que jogam fora suas horas preciosas numa corporação, juntando porcarias para um futuro que não existe.

Na adolescência busquei freneticamente a minha herança. A que interessa de fato, o caráter.
Não quis ter apenas a minha imagem do meu pai, quis saber dos outros. Queria ter certeza de que, com todas as deficiências humanas, ele tenha sido, no seu âmago, um homem bom.

Bom?! Simplesmente gentil e preocupado com as pessoas queridas, e acima de tudo, generoso. Gostamos mais de comprar coisas para os outros do que para nós mesmos, aliás, nunca consegui responder à pergunta de um cliente meu: "Mas você não quer nada?".

Não entendeu a "senhora de cetim"?

Bom, um DDA famoso chamado Raul Seixas, assim descreveu a morte: "Vou te encontrar, vestida de cetim, pois em qualquer lugar, espera só por mim."