Mostrando postagens com marcador Trabalho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Trabalho. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de março de 2019

Uberização - A nova onda do trabalho precarizado

Como a "flexibilização" das leis trabalhistas e a onda do microempreendedor, associado ao tecnofetichismo (usa Uber e outros? Sim, vc fomenta a exploração) e ao exclusivo olhar pro próprio umbigo arruínam os trabalhadores e a sociedade.


Euforia com aplicativos de serviços dá lugar à frustração de trabalhadores




Avanço da 'uberização' acarretou bicos precários e diminuição na renda, avalia autor

CARLOS JULIANO BARROS 

​​​[RESUMO] Euforia com aplicativos de serviços dá lugar à frustração de trabalhadores, em um cenário que deve se complicar com novas transformações. 

​Em novembro do ano passado, um protesto de centenas de motoboys e ciclistas da Rappi trancou a avenida Paulista. Os entregadores da startup colombiana, um dos incontáveis aplicativos de delivery na cidade de São Paulo, reivindicavam aumento na remuneração das corridas —o valor mínimo fica na casa dos R$ 5.

As queixas se estendiam ao prazo para as tarefas e às penalidades em caso de atraso ou recusa do serviço. Além de bloqueios temporários, os entregadores estão sujeitos a dívidas se o aplicativo não processa a tempo o cancelamento de uma viagem.

Meses antes, fiscais do extinto Ministério do Trabalho já haviam aplicado multas milionárias a duas concorrentes da Rappi: a Loggi e a Rappido, empresa do grupo Movile, um dos raros espécimes brasileiros de “unicórnio”, ou startup com valor de mercado de ao menos US$ 1 bilhão.

Ambas foram autuadas por infrações à legislação trabalhista decorrentes, na avaliação dos fiscais, de uma irregularidade primordial: deixar de registrar motofretistas como empregados. Só no caso da Loggi, o Ministério Público do Trabalho cobra indenização de R$ 200 milhões.

A explosão de aplicativos de delivery é provavelmente o caso mais representativo das rupturas geradas no Brasil pelo avanço da “gig economy” — a economia dos bicos. Até poucos anos atrás, os serviços de entrega eram pulverizados entre empresas de pequeno porte, que contratavam motoboys, reconhecidos como categoria profissional regulamentada.

Hoje a atividade está ao alcance de qualquer um que aceitar termos e condições de plataformas digitais. A avalanche de aplicativos é turbinada por fundos de venture capital (investimento de risco) inclinados num primeiro momento a perder dinheiro em ofertas a usuários e trabalhadores, para depois ganhar mercado.

Assim como nos EUA, que viram a ascensão das startups do Vale do Silício no rescaldo da crise de 2008, a “gig economy” deslanchou no Brasil com a recessão iniciada em 2014. Meia década depois, ela funciona como uma verdadeira bomba de sucção de 12,2 milhões de desempregados e 40,8% de trabalhadores informais.

Embaladas por um “tecnofetichismo”, as plataformas oferecem de faxina a passeio com cachorro e têm lado numa das batalhas ideológicas em curso no país: a aprovação de reformas de orientação liberal sob os mantras do corte de custos e da alergia à regulação do Estado. O presidente Jair Bolsonaro já afirmou que as leis trabalhistas devem “se aproximar da informalidade”. 

Em geral, os aplicativos se apresentam como meros intermediadores entre consumidores e fornecedores. Apesar de seus algoritmos estipularem preços, controlarem a prestação do serviço e aplicarem penalidades, as empresas argumentam que os trabalhadores são autônomos. Assim, motoboys do iFood, faxineiras da Parafuzo e motoristas da 99, para citar algumas das mais conhecidas startups brasileiras, são considerados clientes, e não empregados.
A chamada “uberização”, referência à plataforma de transporte mais popular do mundo, é a mais recente e significativa das “mutações neoliberais” do mercado de trabalho desde a década de 1970, na definição de Veena Dubal, professora da faculdade de Direito da Universidade da Califórnia. Um sistema de gestão de mão de obra que se ancora no discurso de liberdade e autonomia para transferir a “empreendedores de si mesmos” os riscos da atividade econômica de gigantes digitais.

No Brasil, o exemplo dos entregadores é paradigmático da terceirização total de riscos. Para a prestação do serviço de entrega, diversos aplicativos exigem o registro de MEI (Microempreendedor Individual), pessoa jurídica criada em 2008 que limpou o terreno para a uberização. Se ficar impossibilitado de trabalhar, o trabalhador só terá o salário mínimo garantido pela contribuição paga por ele próprio ao INSS.

Para além da desproteção trabalhista, um estudo do Ipea de janeiro de 2018 acendeu outro alerta sobre a proliferação dos MEIs: o alargamento do rombo da Previdência. Segundo o documento, o número de microempreendedores individuais chegou a 7,7 milhões em dezembro de 2017. “Parece estar ocorrendo alguma migração de empregados formais para MEI”, detecta a publicação. 

Como a contribuição mensal ao INSS é quase simbólica (5% do salário mínimo), o estudo estima uma necessidade de financiamento de ao menos R$ 464,7 bilhões nas próximas quatro décadas para cobrir o desfalque gerado por esse regime.

É inegável que plataformas bem-sucedidas da “gig economy” têm aceitação entre consumidores, não só pelos preços acessíveis mas também por centrarem fogo em nichos pouco eficientes. Dentre as cidades dos 65 países em que a Uber atua, São Paulo é a que mais usa o aplicativo. 

Diante de altas taxas de desemprego e informalidade, baixa produtividade e precarização até dos postos com carteira assinada, também não surpreende que os aplicativos atraíam gente à caça de ocupação.

Porém, a longo prazo, essa mecânica pode desencadear o que Trebor Scholz descreve em seu livro “Uberworked and Underpaid” (“uberexplorados e sub-remunerados”): uma “corrida para o fundo do poço”. Quando motoristas concorrem entre si e assumem o risco da atividade de uma plataforma, o limite é rodar o dia todo e morar no próprio carro — o que já ocorre na Califórnia.

No setor de transporte de passageiros, aquilo que um dia já foi euforia parece estar com os dias contados. Um estudo do Instituto JP Morgan Chase revela um declínio considerável nas remunerações dos motoristas nos EUA. Em março de 2018, o rendimento mensal médio era 53% inferior em relação ao pico de 2014. 

Neste ano, deve sair do papel a aguardada abertura de capital da Uber. Para analistas, os anos de prejuízo (US$ 1,8 bilhão só em 2018) forçarão a empresa a elevar tarifas para consumidores, a baixar repasses a motoristas ou a combinar as duas medidas. Não há para onde correr.

Se a princípio os fundos de venture capital bancam tarifas sedutoras para recrutar trabalhadores, a longo prazo tende a se consolidar “uma estratégia de baixa remuneração”, segundo Veena Dubal. Como compensação, premiações transformam o cotidiano de trabalho em uma espécie de gincana viciante, prolongada e perigosa. Na capital paulista, o número de mortes entre motociclistas aumentou 18% no ano passado .

A ressaca da “gig economy” vem colocando em xeque até mesmo modelos econômicos consagrados, como a Curva de Phillips. Grosso modo, ela relaciona a queda do desemprego ao crescimento da inflação.

Se há excesso de gente ocupada e com dinheiro para gastar, presume-se que os preços disparem. Porém economistas de peso vêm levantando a hipótese de que a Curva de Phillips perdeu a validade. Um deles é Lawrence Summers, secretário do tesouro no governo do ex-presidente norte-americano Bill Clinton.

Nos EUA, o desemprego despenca desde a crise de 2008. Hoje está em patamar historicamente baixo, inferior a 4%. Mas a inflação não decolou. Uma das explicações é justamente a nova diagramação do mercado de trabalho. As rendas geradas por bicos precários, instáveis e de baixa remuneração já não têm o poder de empurrar os preços para cima.

É por essa razão que, em artigo no Financial Times, Summers cravou: “A América precisa mais que nunca de seus sindicatos”. O palpite do economista é que o poder de barganha dos empregadores aumentou e o dos trabalhadores diminuiu. No caso dos aplicativos, em que a figura do patrão veste a fantasia imaterial de um algoritmo, reivindicar direitos se torna ainda mais desafiador.
No Brasil, a lógica da terceirização total de riscos para trabalhadores atomizados já deu mostras do seu potencial de estrago em maio do ano passado, com a histórica greve dos caminhoneiros. Desde 2007, com a aprovação da lei 11.442, que criou a figura do transportador autônomo de carga, a categoria também atravessa um processo de uberização.

“Os caminhoneiros foram encorajados a se endividar e tentar adquirir veículo próprio, com o sonho de maior autonomia e de ‘não ter mais patrão’, e 44,8% dos caminhoneiros estão endividados, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Transporte em 2016. Nada muito diferente do que ocorreu com trabalhadores que perderam empregos e adquiriram carros para trabalhar para aplicativos de transporte de pessoas”, compara Rodrigo Carelli, procurador do Ministério Público do Trabalho e professor de direito da UFRJ, em artigo de junho de 2018.

As plataformas da “gig economy” pegaram carona nas utopias igualitárias da sua irmã mais velha e virtuosa, a “sharing economy” (economia do compartilhamento), mas seguiram caminho oposto. Em vez de catalisar trocas diretas de bens e serviços a partir da internet, a primavera de apps “acabou se convertendo na oferta generalizada de trabalhos mal pagos e sem qualquer segurança previdenciária”, escreve Ricardo Abramovay, economista e professor da USP, no prefácio do livro “Uberização - A Nova Onda do Trabalho Precarizado”, de Tom Slee (Elefante, 2017).

A longo prazo, a “gig economy” pode aprofundar a “dualização econômica” já tão característica de países em desenvolvimento, como o Brasil, nos termos propostos pelo professor de Harvard Dani Rodrik em “Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy” (“conversa franca sobre o comércio: ideias para uma economia mundial saudável”, lançado em 2017). Nesse desenho, a ponta da pirâmide da economia digital fica reservada a uma minoria de profissionais criativos, altamente produtivos e bem remunerados.

Já a base é sustentada por uma massa de trabalhadores desprotegidos e facilmente substituíveis.
Resta ainda um complicador: os desafios da robotização e da inteligência artificial. Dos testes do carro sem motorista da Uber aos do delivery via drones da Amazon, as perspectivas de inovações tecnológicas para o mercado de trabalho não são das mais animadoras.

Carlos Juliano Barros é jornalista, documentarista e mestre em geografia humana pela USP. 

Ilustríssima / FSP 3.3.2019

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tomei a pílula azul

Faz tempo que não trabalho diariamente. Escolha minha. 
Como eu sempre disse quero o timão* da minha vida, pois o meu (nosso) tempo é único e meus interesses são muitos.
(*para os corinthianos vou explicar: a roda do leme, não o aumentativo de time)

Não que eu tenha dinheiro ou qualquer outra facilidade, apenas acho que é mais lógico viver com simplicidade para ter o máximo de tempo para mim, portanto, mais tempo para ler um bom livro, ouvir boa música, assistir um bom filme, coçar o saco na rede da sacada, refletir sobre o mundo, entrar na minha oficina e fazer umas pecinhas ou, pura e simplesmente, contemplar o mar.

O fato foi que passei um trabalho (desenvolvimento de um site institucional) a um amigo que estava precisando de grana e ele simplesmente me enrolou semanas até que pulou fora.
Compreendo, em parte, suas explicações, mas o fato é que se eu não tivesse a total confiança do contratante e algum tempo reserva eu poderia ter ficado em maus lençois.

Desenvolvo software**  há muitos anos e fazer uma página da internet do estilo exigido poderia ser moleza para mim, mesmo estando meio "enferrujado" no assunto e, ainda por cima, faturar um troco extra. Preferi ajudar o dito cujo e, bem, o caldo entornou...
(**software no meu caso são desde programas que rodam em embarcados -  ex: a BIOS do seu computador, o sistema do seu celular, o programa para o controlador de uma câmera IP, o firmware do alarme da sua casa, etc - até os tradicionais aplicativos para PC/ruWindows)


Mas o que importa é que resolvi encarar de fazer o trabalho. Tomei a pílula azul.
Respirei fundo, tapei o nariz e vamos que vamos.
Uns dias de estudo e outros de execução.

A metáfora do filme dos irmãos (ou irmãs) Wachowski está meio gasta mas ainda é boa. O psicanalista lacaniano Jorge Forbes gosto muito também... 

Nesses dias nada me passava pela cabeça.
É acordar, ter aquelas providencias comuns e partir pro trabalho. 
Mesmo não precisando sair de casa (o que pioraria tudo), a noite era só cansaço e certo anestesiamento mental (Confortably Numb total).

Até certo ponto é compreensível o discurso comum do "gostar" de trabalhar e "amar" o que faz. O trabalho é um psicotrópico numa forma socialmente aceita e incentivada, com ele nada mais importa no mundo, muito menos o se deparar consigo mesmo.

É acordar, cumprir "coisas comezinhas", partir para o trabalho, voltar, "cumprir outras coisas comezinhas" e dormir. Depois de uns dias ir a um local onde os viciados se encontram (a cracolândia ou, como preferir a metáfora, o templo) - o shoping center - para trocar aqueles papeis ou valores virtuais conseguidos por algumas quinquilharias que amenizam essa completa ausência de sentido, ou ainda fazer reuniões sociais onde se fala (tchan!) de trabalho.

A sensação é a mesma que um Rivotril, um monte de pinga ou coisa semelhante. Um anestesiamento mental, um agradável torpor. Nada "desagradável" (nem de "agradável") passa pela cabeça pois trabalho é só trabalho, sem adjetivos morais (não é a toa que essa palavra não existe em inúmeras outras culturas). 
Nenhum questionamento. Nada. 
Trabalhando somos um nada que produz riqueza para alguns eleitos e porcarias para nos iludir.

(Não existe ficção desconectada da realidade. Lembremos que a arte imita ou interpreta a vida)

O efeito colateral é inevitável: nada criativo se faz; nada que amplie os horizontes se faz; nem sequer um tempo em silêncio contemplativo resta.

Talvez seja estranho para quem vive assim e assume essa ideologia (do trabalho/consumo) sem pestanejar, mas o incrível é que é idêntico.
Admito, é tentador.
Como qualquer droga que te afaste de você mesmo e do seu entorno, o trabalho é tentador.

Mas costumo deixar a pílula vermelha sempre na minha frente para quando eu começo a perder o controle...




domingo, 4 de maio de 2014

Eu não tenho preguiça!

Ouço com frequência a expressão "eu não tenho preguiça".
Nada mais falacioso e hipócrita. A mais pura herança da educação cristã em ação.

Todos temos preguiça alguma vez ou para algumas coisas.
Mas essa doutrina do trabalho corporativo parece que fez mais um mal, o da 'hiperhipocrisia'.
Associada à eterna vergonha do brasileiro em trabalhar (pesquise que isso vem desde a colonização), juntou-se o inútil ao desagradável.

O trabalho corporativo é o único aceitável, pois dá uma sensação de engajamento num grupo, status e um local de desfile de sorrisos facebook (aquele mesmo que às vezes você faz ao seu vizinho).

Com isso ninguém faz mais nada, desde cozinhar até um garage work (como dizem os norte americanos). As desculpas são as mais variadas, mas no fundo é preguiça e a vergonha de qualquer atividade não corporativa (a que justificaria, com suposta dignidade, a ação de trabalhar).

O preço pago é mais alto que os das bugigangas inúteis e que você não precisa, comprados para compensar a frustração de uma vida que se perde por entre os dedos.

Come-se mal em casa, come-se mal fora de casa (ou page-se um absurdo por isso), fica-se cada vez mais sedentário, perde-se criatividade, perde-se prazer em realizar algo manualmente e perde-se a oportunidade de aprender mais alguma coisa.

A alegria das corporações.
Um sujeito cheio de dogmas, escravo, estúpido, inútil e consumista.
Inútil?! Na grandiosidade da palavra, para ser um bom empregado você precisa antes de mais nada ser mediano e cumprir estritamente o que te pedem. Balela essa de pró-ativo.

Ser mediano é não ser muito ruim e nem ser muito brilhante, ou seja, é ser medíocre, não ameaçar ninguém e ser polido.
Como disse Bruce Dickinson (Iron Maiden): "qualquer macaco pode ter MBA".
Ri muito com seu desabafo na Campus Parti pois sempre disse o mesmo com a área que trabalho: qualquer símio hoje faz um software.

Segundo recentes estudos sobre a plasticidade do cérebro, algumas partes do mesmo só se "exercitam" quando se faz trabalhos manuais, portanto, o dito 'trabalho intelectual' é mais uma bobagem para desvalorizar os artesãos e trabalhadores braçais, além do mais, serve como alerta pro seu filho gordo jogando videogame.

Estou com preguiça de desenvolver mais esse texto.
Einstein estava com preguiça em sua mesma no escritório de patentes quando pensou na relatividade.

Mas você meu caro e estimado trabalhador, você não tem preguiça.
A hipocrisia e o medo realmente são marcas registradas da sociedade atual.



domingo, 22 de janeiro de 2012

Recolha o gado

Fim de janeiro e os turistas estão deixando a minha região.
Deixam para trás a histeria, som alto, sujeira e um bocado de moradores aliviados.



Como gado novamente se recolhem às suas baias (não é atoa que tem esse nome) corporativas. O seu pasto confinado.
Quando soltos, na época em que lhes é permitido, espalham o terror fora de seus abatedouros. Sua ânsia por "felicidade" é deprimente, por mais paradoxal que isso pareça.

São todos iguais no desespero de serem diferentes.
Mais 11 meses sendo explorados e perdendo suas vidas, em troca das "cenourinhas" (chamem do que quiser as bugigangas que seus trocados podem comprar) e dos seus parcos dias de "pasto livre".



Patético. Triste também.

Depois desse período chovem fotinhos nas comunidadas sociais (sociais?!) de "como foram maravilhosas as minhas férias na Disney"...

sábado, 26 de novembro de 2011

Doenças da civilização

Apenas faltou citar  que a quase totalidade das demais causas estão sendo incluídas nas chamadas "doenças da civilização". Não que eram inexistentes antes do advento da modernidade, mas que o modelo de trabalho/consumo atual fomentou tais males.

Afastamentos por doenças mentais disparam no país
Da Folha de São Paulo - 25/11/2011-08h00

O mercado de trabalho tornou-se um foco de doenças como depressão e estresse. A tendência já se reflete em forte aumento no número de brasileiros afastados pelo INSS por esse tipo de problema de saúde, informa reportagem de Érica Fraga e Venscelau Borlina Filho publicada na Folha desta sexta-feira.

As concessões de auxílio-doença acidentário --que têm relação com o trabalho-- para casos de transtornos mentais e comportamentais cresceram 19,6% no primeiro semestre de 2011 em relação ao mesmo período do ano passado.

Esse aumento foi quatro vezes o da expansão no número total de novos afastamentos autorizados pelo INSS.

Nenhum outro grupo de doença provocou crescimento tão forte na quantidade de benefícios de auxílio-doença concedidos entre janeiro e junho deste ano.

"Há ondas de doenças de trabalho. A onda atual é a da saúde mental", diz Thiago Pavin, psicólogo do Fleury.

Mudanças adotadas pelo Ministério da Previdência Social em 2007 facilitaram o diagnóstico de doenças causadas pelo ambiente de trabalho. Isso levou a um forte aumento nas concessões de benefícios acidentários para todos os tipos de doença em 2007 e 2008.

Os afastamentos provocados por casos de transtornos mentais e comportamentais, por exemplo, saltaram de apenas 612 em 2006 para 12.818 em 2008. Mas, depois desse ajuste inicial, tinham subido apenas 5% em 2009 e recuado 10% em 2010.

Editoria de arte/Folhapress


Matéria original da Folha.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Tecnosuicidas

Já chegou a 11 o número de suicídios na fábrica da Foxconn em Taiwan onde são produzidos os iPods da Apple.

Não são só as montadoras ou as farmacêuticas que detém o monopólio do fenômeno. Pelo menos em algo eles não conseguem monopólio...

Espero que não leiam a notícia avaliando como um fato isolado ou regional.

Curiosidade: a palavra "trabalho" tem sua origem no vocábulo latino "TRIPALIU" - denominação de um instrumento de tortura formado por três (tri) paus (paliu). Desse modo, originalmente, "trabalhar" significa ser torturado no tripaliu.

Quem eram os torturados? Os escravos e os pobres que não podiam pagar os impostos. Assim, quem "trabalhava", naquele tempo, eram as pessoas destituídas de posses.

A partir daí, essa idéia de trabalhar como ser torturado passou a dar entendimento não só ao fato de tortura em si, mas também, por extensão, às atividades físicas produtivas realizadas pelos trabalhadores em geral: camponeses, artesãos, agricultores, pedreiros etc. Tal sentido foi de uso comum na Antigüidade e, com esse significado, atravessou quase toda a Idade Média.

Só no século XIV começou a ter o sentido genérico que hoje lhe atribuímos, qual seja, o de "aplicação das forças e faculdades (talentos, habilidades) humanas para alcançar um determinado fim".
Com a especialização das atividades humanas, imposta pela evolução cultural (especialmente a Revolução Industrial) da humanidade, a palavra trabalho tem hoje uma série de diferentes significados, de tal modo que o verbete, no Dicionário do "Aurélio", lhe dedica vinte acepções básicas e diversas expressões idiomáticas.


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Descobriram o fogo!

Nada como as novidades científicas dos pesquisadores reducionistas.

Minhas observações para que você possa ler o artigo original:
- Workaholic (piada!): qualquer um que tenha uma semana de trabalho de 5 dias ou mais, com 6 horas ou mais de jornada de trabalho, acrescido das 3 horas ou mais de almoço mais deslocamento e das 2 horas ou mais necessárias para você baixar a bola quando chega em casa (pensando bem não sei onde se situa a vida nessa aritmética da vida moderna).
- 67%: valor arbitrário conseguido através de pesquisas meia-boca (na real life deve ser bem mais).
- ataque cardíaco: um dos vários males conhecidos como doenças da civilização (ou seja, não entraram nessa pesquisa a famosa síndrome metabólica, hipertensão, gastrite, doenças auto-imunes, tumores, etc).

Enjoy!
Trabalhar nunca fez bem a ninguém. Você acha que te pagam por que?

Nota: aproveite e troque aquele banco de horas inútil por um desfibrilador.

Do Terra.

Trabalhar muito aumenta em 67% as chances de ataque cardíaco



Os workaholics que fazem do escritório o segundo lar devem se preocupar com o tempo gasto no trabalho. Isso porque uma equipe de pesquisadores da University College London, no Reino Unido, descobriu que aqueles que trabalham cerca de 11 horas por dia têm 67% mais chances de sofrer um ataque cardíaco, como divulgou o jornal britânico Daily Mail na manhã desta terça-feira (5).

Durante 11 anos os cientistas acompanharam mais de sete mil trabalhadores, acompanhando seu cotidiano e seu histórico médico, sendo que 192 destes operários sofreram ataques cardíacos. Os cientistas acreditam que o estudo ajudará a prevenir este tipo de problema, a partir do momento em que os cardiologistas passarem a questionar quantas horas de labuta seriam saudáveis para cada paciente, para poder aconselhar aqueles que têm mais risco, como os obesos e os fumantes, a reduzirem a carga horária.

"Pode ser uma maneira de acordar aqueles que trabalham demais, especialmente se eles têm outros fatores de risco", afirmou o professor Mika Kiyimäki, que chefiou as pesquisas. "O estudo ajuda a entender como os fatores sociais são determinantes nas doenças cardíacas, mas outras pesquisas deverão ser feitas para esclarecer como podemos usar estas informações para alertar os trabalhadores em risco e quais avisos deveremos colocar nos ambientes de trabalho", sugeriu o professor Peter Weissberg, diretor médico da British Heart Foundation. 

Os ataques cardíacos matam milhares de pessoas todos os anos no mundo e acontece quando uma artéria coronariana fica bloqueada, impedindo que o coração receba sangue. Fumantes, obesos, hipertensos, pessoas com níveis altos de colesterol e que não praticam atividade física se encontram no grupo de risco.