Mostrando postagens com marcador ecovilas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ecovilas. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de julho de 2025

Sem grandes rupturas não há mudança

O tempo e o espaço estão entrelaçados.

Não estou falando sobre a Teoria da Relatividade Especial de Einstein.

Na sociologia (da qual não tenho nenhuma expertise)  intuo que sim também.

Pincelei algo no meu post anterior, mas andei refletindo um pouco mais agora tendo um pouco a mais de experiência "espaço-temporal" num ambiente rural, de horizontes abertos.

Nesses anos todos de "grupinhos", gente "bacana alternativa" e "intelectuais que não saem da bancada", o que mais ouvi - com pequenas nuances no discurso, uns menos sofisticados e outros mais prolixos - foi que são as micro rupturas é que abrem espaço pras mudanças.

Olhando pra trás e analisando minha reflexão sobre esse "espaço-tempo sociológico", definitivamente não concebo que micro rupturas mudem algo numa ideologia capitalista tão arraigada, que coopta tudo, do desejo aos sonhos, do espaço ao tempo. Essa última extorsão, em especial, na nossa sociedade acelerada (Hartmut Rosa) é altamente representativo.

Mas me debrucei sobre o espaço.

Sem o espaço físico, o tempo não se liberta totalmente.



Qualquer um que já foi, por exemplo, em cassinos ou casa de bingo, nota que os espaços devem ser cuidadosamente estudados para que o tempo seja muito bem direcionado.

O aumento do espaço físico e do horizonte, sob a ótica do aumento da independência individual ou em comunidades intencionais é meio fácil de notar, mas como ele tem o poder de quebrar os domínios da lógica capitalista deveria ser melhor estudado.

Com esse horizonte aberto, a cooptação do capital sobre o tempo, o desempenho, as obrigações inúteis e o tempo ego narcisista começam a ruir. Sem os detalhes todos dos sutis controles, desde o horário do caminhão de lixo, do supermercado, do ir e vir urbano dos horários de rush, etc, esse domínio vai ruindo.

Os tempos do Sol não são muito exatos numa miríade de belos sons e belas imagens num ambiente mais amplo e distante das referências urbanas.

O tempo começa a ser dar bem com você novamente. As experiências começam a voltar a um tempo neuronal mais humano, as suas reflexões sobre suas cobranças indevidas de produtividade, competição, desejos tolos e falta de tempo pro outro começam a desvanecer.

Há um aumento na gentileza consigo mesmo ao abraçar essa pequenez difusa nesse espaço-tempo maior. O sentido muda, ou, até mesmo, a falta de sentido. O inútil do ponto de vista mercantil; o sem objetivo ou que se reobjetiva no processo; a conclusão que pode ser o inconcluído.

Talvez seja meu cérebro TDAH que seja deficitário (apesar de gostar dele assim 😌) e o seu, super privilegiado, consegue se abstrair no espaço exíguo. Eu não acredito e espero que você também não, pois se você perdeu o "será?" do vocabulário da auto crítica me parece que sua mente não é tão super privilegiada assim.

Alinhavando (eu acho) o título, esse "espaço-tempo sociológico" me reforçou a suspeita que pequenas rupturas nada fazem ao status quo. O capitalismo simplesmente se apropria delas. Seja o plantar da muda que vira um curso de permacultura ou pior ainda, uma visita ao garden da cidade; seja a reuniãozinha de trocas de sementes que vira capital social; seja o mutirãozinha de "gente bacana" que se vai 'quando se tem tempo'.

Sem se aventurar nesse espaço-tempo amplo, temo que não há esperança pra mudança.



A mas eu preciso sobreviver...
Bom, não sei se isso é argumento, sobreviver é algo subjetivo, e nossos desejos - reforçando - foram cooptados pelo capital. Fuga, auto sabotagem, desculpa ou simplesmente amoralidade. Possivelmente um pouco de cada.

Essa é a ideia da imersão no espaço-tempo capitalista: fazer você acreditar que não há saída e com isso, a zona de conforto, a naturalização e a auto alienação fazem o resto.


quarta-feira, 19 de março de 2025

10 anos depois. Grupos e outras considerações

Voltei a escrever pra ninguém, pra deixar esse feedback pra mim mesmo.

E lá se foram mais de 10 anos após conhecer ecovilas e comunidades intencionais.

Já postei sobre o assunto várias vezes, começando mais ou menos por aqui e aqui.

Resumindo antes de continuar: ainda acho a única saída pras pessoas e principalmente para o planeta, digo, a vida.

O que se passou nesses anos?

Quando resolvi vender meu único bem pra viabilizar isso, eu tinha duas frentes: comprovar que as pessoas (generalizando) são "fogo de palha" e, obviamente, tornar meu ideal uma realidade.

Muitos grupos diziam (dizem) que só faltava a grana pra 'acontecer'. Meu primeiro ponto. Quando levantei a verba, tchan! Muita gente enrolou aqui ou ali. O que queriam era apenas a masturbação mental da vida no campo.

Eu já escrevi sobre a dificuldade das pessoas em restaurar um senso de comunidade, principalmente que o coletivo tenha alguma prioridade em suas vidas e que o diálogo (incluindo frustrações, negativas e conflitos) seja de fato amplo.

Mas percebi um complicador adicional: muita gente não tem a menor ideia sobre si e o que querem.

Hartmut Rosa definiu bem: auto alienação.

Claro, diremos, "ah, mas isso eu já sabia". Bem, esses mesmos que "já sabiam" não sabem de si.

Mesmo o mais riponga dos caras pode sair (sair mesmo) culpando os outros.

E tem os sujeitos que dizem barbaridades como "eu quero viver como um mendigo", numa tentativa de fazer um marketing pessoal da sua simplicidade. Além de um desrespeito a quem passa por tal situação, tem a mentira descarada sobre si mesmo. Resultado: desistem e "saem atirando" ou permanecem como espectadores.


A terrinha

Mas entre idas e vindas, a terrinha está adquirida, minha casa construída e eu virei um neo-rural.

O grupo? 
Bem, capenga.
Uns como eu disse "saíram atirando" e outros porque sua individualidade sempre será mais importante. Note, coletividade e individualidade são um equilíbrio complicado e sempre será uma balança difícil, mas se a comunidade fica sempre por último, é certamente um mal sinal. Não sou letrado, mas dá pra intuir começando com Freud, Bauman, Bell Hooks...

Quem ficou ainda tateia suas escolhas e tem o coletivo como algo que está sempre na última linha de suas prioridades.

Pessoalmente sigo tocando o barco.

Meus estranhamentos só foram nas minhas próprias sensações.

Nunca achei que só seriam flores, vida bucólica e idealismos infantis de "vida natural", aliás, por ser cético sempre fui acusado de pessimismo e até de "energias negativas" sabe-se lá que bobagem é essa.

A tal natureza (isso que convencionamos chamar de natureza) é indiferente a nós e, portanto, apesar da vida incrivelmente prosperar quando não é perturbada, ela não prospera como desejamos ou sob nossa vontade. A morte e a dor estão sempre à espreita.

Mas se vc aceitar isso, a experiência vale a pena sim. E muito.

E vc vai entender que a morte não está à espreita na cidade, vc já está morto nela e não sabe; a dor é constante na cidade, vc que a naturalizou. 


Aprender é a primeira satisfação. Uma miríade de coisas numa sala de aula real da vida real.

Desde o acompanhamento da fauna e flora à resolução de problemas cotidianos que requerem técnica e ferramentas. Daria pra escrever capítulos nessa parte.

Suas necessidades mudam (e tem que mudar mesmo!) e seu senso estético e higienista também.

Mas a sensação de reconexão com o "tempo lento" e o "espaço aberto" é algo meio inexplicável.

Esses dois 'fatores' (pra quem sabe contemplar e aproveitar) afetam nosso pensamento e afetos de maneira estranha. As dimensões se ampliam e a linearidade de uma vida de trabalho/consumo se dissolvem. E não é possível quebrar esse ciclo na cidade, local hermético, sólido, linear, setorizado e, em todas as interpretações, sem horizontes.

Só isso já bastaria pra compensar as "inconveniências" (o que a sua zona de conforto e a naturalização solidificaram como conveniências) da vida rural.

E se o seu 'grupo' da cidade se esfarela, um grupo local se forma quando vc é solicito e amistoso.

Com a exponencial degradação ambiental, mais e mais faz sentido readquirir (um pouco) de poder e independência, coisa só possível pra quem tem terra.

E dizer que se trabalha mais no campo só pode ser compreendido se a afirmação se refere a um empregado/explorado do agronegócio ou se vc acha "natural" a exploração da vida mecânica na cidade e sua miríade de doenças civilizatórias. Como dizia Masanobu Fukuoka, gosto da minha agricultura porque trabalho pouco.


Seriam muitas páginas a escrever numa época que só se lê mensagens de whatsapp e tweeter. Enfim, quis alimentar meu diário tantos anos depois.



 


sábado, 24 de fevereiro de 2018

As contradições que permeiam a pratica das ecovilas


"As contradições que permeiam a pratica das ecovilas" - excelente artigo do Prof Luis Fernando de Matheus e Silva, professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Alberto Hurtado, Santiago de Chile; Doutor em geografia Humana pela Universidade de São Paulo.


Quando o "alternativo" é institucionalizado (GEN, Gaia Education, etc) e ao mesmo tempo cooptado pelo capital, o que resta da ideologia? E afinal, qual é a ideologia?

Nas minhas "andanças" nesse mundo "alternativo", houveram grandes desilusões.
Jovens cheios de ideais e grande energia, porém desprovidos de um mínimo de cultura e noção da realidade; grupos místico-religiosos (sim o veganismo entra bem aqui); desesperados sem plano; e por aí vai.

Não desisti e ainda acredito muito numa "sociedade alternativa", mas tendo em mente que é o núcleo sociopolítico que deve ser priorizado, "a natureza" (essa forma que conhecemos - lembrando que não existíamos na maior parte da vida do planeta) e à moral no trato dos outros seres vivos e às futuras gerações será consequência. 
Mas um grau de racionalidade, sensatez e real vontade de estabelecer um outro modo de vida está bem difícil.

Um dos últimos contatos/notícias de um dos fundadores de uma ecovila foi que ele "está vendendo sua cota porque engravidou uma moça". Ou seja, a vida real era outra. Foi a que subitamente bateu sua porta e lhe colocou diante do que ele realmente quer, do contrário, estaria montando sua família aonde seu (suposto) ideal estava.


Pra dar o tom:


"... a terceira fase da geografia histórica das contraculturas espaciais ganha envergadura a partir da década de 1990 e pode ser considerada uma espécie de continuum de toda a movimentação iniciada nos “rebeldes” anos 1960. Tal como ocorrido anteriormente, as experiências despontadas nesta etapa traduzem as questões próprias de seu tempo. Neste sentido, a privatização generalizada e a (quase) total mercadificação da vida, seguidas por todo tipo de desregulamentações e aventuras especulativas financeiras desencadeadas ao longo da globalização do capitalismo neoliberal, amplificaram, em muito, os problemas socioambientais já existentes desde os albores do capitalismo.
Assim, em virtude do recrudescimento dos mecanismos de acumulação por espoliação e do processo de “destruição criativa da terra” (HARVEY, 2010) que notabilizam o atual estágio de acumulação, não causa estranhamento que o acento na sustentabilidade esteja muito mais presente agora do que em outros momentos da geografia histórica das contraculturas espaciais, afinal de contas, “vivemos o paradoxo de jamais ter sido tão vasto e profundo o processo de dominação e devastação da natureza quanto nesses últimos 30-40 anos em que até mesmo uma questão – a ambiental – se constituiu” (PORTO-GONÇALVES, 2006, p. 65)...


...não obstante, ainda que possua uma série de fundamentos e elementos capazes de serem alocados positivamente em favor da transição a uma nova sociedade, mais ecológica e igualitária, faz-se necessário analisar o fenômeno das ecovilas de uma maneira um pouco mais cuidadosa, nomeadamente quando de sua institucionalização e consequente “adaptação funcional” ao mercado e à sociedade capitalista, visto que muitas das perspectivas adotadas pela GEN para edificar um “mundo sustentável” mostram-se limitadas e trazem consigo uma série de problemas e incoerências que devem ser esmiuçadas.

...em relação a isso, o filósofo e economista grego Takis Fotopoulos (2000) alerta para a incapacidade apresentada pelo movimento de ecovilas, tanto no plano teórico como no prático, para construir uma nova ordem mundial. Seguindo a tradição pacifista presente na geografia histórica das contraculturas espaciais desde sua gênese, os “ecovileiros” buscam edificar uma nova sociedade ecológica através da “força do exemplo”, sem confrontar diretamente o sistema hegemônico.

... Fotopoulos acusa ainda as ecovilas de não se posicionarem de forma contundente contra a verdadeira causa dos problemas socioambientais atuais, mostrando-se muito mais preocupadas em adequar-se às regras que regem a sociedade capitalista do que propriamente contrapor-se a elas. Sinais claros desta “adaptação funcional” ao atual estado de coisas podem ser percebidos na incorporação e na reprodução acrítica de um discurso “pró-empreededorismo”, bem como no desenvolvimento de uma multiplicidade de negócios, que, apesar do “selo verde”, não raro mantêm a mesma lógica capitalista.

Isto, porém, não chega a ser de todo uma surpresa, dado que muitos dos que estão ligados ao movimento institucionalizado de ecovilas pertencem às classes médias acomodadas e buscam, nas palavras de Fotopoulos, apenas construir melhores condições de vida para si mesmos, de uma maneira bastante autoindulgente.

'Não por acaso, os partidários das ecovilas não parecem influenciar os bilhões de desprivilegiados que lutam para sobreviver, tanto no sul como no norte, e sua influência parece estar concentrada entre aquelas pessoas que já têm seus problemas resolvidos e agora podem se preocupar com um estilo de vida e a espiritualidade (FOTOPOULOS, 2000).'

Contudo, o afastamento de parte considerável do movimento institucionalizado de ecovilas de um programa social e político verdadeiramente comprometido com os interesses das classes trabalhadoras, bem como a sua participação (direta e/ou indireta) na reprodução do sistema dominante, não podem ser explicados unicamente pela origem “burguesa” de seus membros. Deste modo, considera-se que a obliteração do “potencial emancipador” das ecovilas, traduzido em sua despolitização e, consequentemente, na sua bem-sucedida adequação ao status quo, repousa no fato de o dito movimento ter sido criado e desenvolvido paralelamente à ascensão do neoliberalismo. Por conta disto, resultam bastante comuns a apropriação e a reprodução acrítica de certos discursos, ideologias e práticas que compõem o “arsenal” capitalista (particularmente neoliberal), algo que fica explicitado em inúmeras ocasiões, apesar de muitas vezes ignorado por seus entusiastas.

A fé no utopismo do capitalismo verde professada por parte do movimento de ecovilas pode ser justificada quando se esquadrinham as origens da fundação dinamarquesa Gaia Trust – uma das maiores impulsionadoras da criação da Rede Global de Ecovilas (GEN) e, sem dúvida, sua principal mantenedora. Dita fundação nasceu como o braço filantrópico da companhia especializada no gerenciamento de linhas de fundos mútuos Gaia Corp, fundada em 1988 pelo empreendedor canadense-dinamarquês Ross Jackson. No ano 2000, após uma história empresarial de relativo sucesso, a Gaia Corp foi vendida ao grupo sul-africano Appeton, no entanto, a Gaia Trust, com Ross e Hildur Jackson à frente, continuou existindo, agora atrelada à Gaia Tech, empresa de venture capital responsável por investir recursos em pequenas e médias companhias “verdes” dinamarquesas, financiando seu desenvolvimento e contribuindo para levá-las a novos patamares mercadológicos.

O amálgama ambientalismo-capitalismo é assim apresentado na página web da fundação:
A estratégia da Gaia Trust sempre foi baseada numa dupla abordagem Yin e Yang. O componente Yin é o suporte ao movimento de ecovilas, através do seu subsídio, enquanto o componente Yang é o investimento de capital em recém-criadas companhias “verdes”, que complementam a política de subsídios, criando empregos e promovendo mais negócios sustentáveis. O principal projeto resultante foi o estabelecimento da Rede Global de Ecovilas e o da empresa de capital de risco Gaia Technologies S/A. Mais de 300 projetos em 30 países foram subsidiados. Um dos conceitos chave é o de suportar os primeiros cursos de permacultura em diversos países.

Sinais dos tempos: Gaia, a Mãe Terra dos gregos, tem seu significado alterado pelas mãos do Deus Capital e os mecanismos financeiros passam a ser utilizados em nome da transição rumo a uma nova sociedade mais “espiritualizada” e “ecológica”. Dessa maneira, sustentabilidade e capitalismo são explicados cósmica e naturalmente como forças antagônicas, mas complementares e interdependentes, que se integram em um todo orgânico indissolúvel. Ideologicamente, isto é da maior  relevância, visto que colabora para reforçar a ideia de que não existe alternativa para edificar uma sociedade “sustentável” sem passar pelo filtro do mercado capitalista. Sobre esta questão, David Harvey (2008) explica que muitas das mobilizações e movimentos contestatórios contraculturais surgidos a partir dos anos 1960/70 foram incorporados pelo capital e passaram a colaborar para legitimar popularmente, no nível da experiência cotidiana, a virada neoliberal. 'O efeito disso em
muitas partes do mundo foi vê-lo cada vez mais como uma maneira necessária e até completamente natural de ‘regular’ a ordem social'

 
"


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

No tempo das catástrofes


Isabelle Stengers é química e filósofa. Escreveu alguns livros com ninguém menos que Ilya Prigogine.

Ela faz parte daquele grupo de Cientistas (com "C" maiúsculo mesmo) que não fazem da ciência uma religião e portanto reconhece e acha bom que a ciência tenha e sempre vá ter limitações, que o cientista é uma figura humana sempre repleta de vieses, que os alertas de Hume são sempre atuais, etc, etc, etc.

Ela descreve seu "No tempo das catástrofes" como uma intervenção e não um livro ou artigo, e explica porque.

Ressuscitando o termo Gaia de uma maneira muito mais racional e coerente que os hippies dos anos 70 e os "espiritualistas da nova era" (basicamente ele nomeia Gaia como aquele(a) algo que transcende o ser humano, portanto longe de uma "mãe provedora" ou outras maluquices "espiritualóides"), ela faz um breve 'chamado' à ação para uma catástrofe ambiental iminente ou até mesmo em curso.

Evidentemente que o capitalismo insano e seus 'não viventes' (como diria Zizek) estão no alvo da crítica, mas isso é tratado superficialmente. Sua urgência e seu alvo são os 'pensantes' e o que se pode ou poderia ser mobilizado.

Isso não é uma resenha. Acho que resenhas são sempre suspeitas. Leia, reflita e por que não, discuta com alguém (hábito que infelizmente está desaparecendo e virando sinônimo de bate boca de botequim, não pior, de facebook).





sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Irradiando

Fiz o curso de gestão com o Gabriel (site dele aqui).
Cara gente finíssima, inteligente, culto, articulado, didático e muito ativo. Não tem só o discurso vazio como maioria que conheci no faceshit...

Seguem 4 vídeos dele e um documentário bacana do Rafael Togashi.












“Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos.” – [Sartre, O Existencialismo é um Humanismo]



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Tibá, que saudades...

Tibá em São Carlos. Saudades...

O grande Jayson, Gleise, Cacauzinha, Fernandão, Paulinho, Gael, Rodrigo, Fernanda... que pessoas... sem palavras!

O viés do vídeo (meio bicho grilo) não passa a total realidade da comunidade.
As casas são bastante "convencionais" (apesar de tratarem seus próprios dejetos e usarem o mais possível técnicas antigas e menos cimento possível - como exemplo temos a casa do Jay que é de eucalipto autoclavado e a do Gael que é de tijolo ecológico); a educação é tratada com seriedade complementando a conteudista obrigatória; os assuntos são vastos e as pessoas são extremamente cultas e a maioria graduada; os contatos e projetos com comunidades e grupos no entorno são vários (MST, CST e outros); a esfera legal e a contabilidade são cuidados com transparência e seriedade; a individualidade é respeitada (no cotidiano, como em qualquer bairro, as pessoas estão nas suas casas e/ou cuidando dos seus compromissos); os problemas de convívio são tratados de peito aberto e com franqueza; os problemas financeiros são tratados com objetividade e razoável planejamento; as decisões são democráticas e horizontalizadas







Mais um na batalha pra construir seus ideais. O Lúcio já tá há quase 3 anos agitando no Rio.
O Lúcio não deve lembrar de mim. Nunca o conheci pessoalmente.
Nos cruzamos num site de permacultura e foi lá que ele me sugeriu entrar no faceshit para buscar essa "alternativa".
Temos algumas diferenças quanto à organização de uma comunidade (acho que a dele é exageradamente rural e peca no respeito às individualidades) mas admiro bastante seus ideais e sua convicção.
Compreendo, por evidências antropológicas, sociológicas e filosóficas (somos quase totalmente uma história, portanto, não "inventamos" nada), que não há "novas formas" pois estamos apenas recuperando saberes e experiências antigas e reajustado-as à novos conhecimentos e, principalmente, que esses projetos devem ter em mente que mudanças de paradigmas partem de uma sociedade já estabelecida e portanto se "flui" para um novo (ou reajustado como queira) modelo, ou seja, o novo nunca é de fato novo e não existe ruptura.

Mas temos mais em comum que diferenças.











domingo, 11 de dezembro de 2016

Afinal, como foi o downsizing de vida?

Sempre morei em grandes cidade.
Nasci em Porto Alegre, fui para São Bernardo do Campo e de lá para São Paulo.
Já tive ilusões acerca das metrópoles. Normal. Jovem, pouca experiência, fatalmente pouca leitura/conhecimento e com uma imagem (não criamos nada, no máximo assimilamos com um toque pessoal... que também não é nosso! rs, e viva Sartre!) fantasiosa a cerca delas.
Com o mínimo de manutenção do senso crítico e boa dose de racionalidade, a ilusão começa a ruir com o tempo.

 Blade Runner
 
Beijing

São Paulo

Tirando os que são fanáticos por quase diariamente ir a “baladas”, centros culturais variados e às mecas das comunidades estéticas (os shopping centers e similares), o único motivo para alguém continuar nelas é a zona de conforto. Ah, sim, esqueci os crentes na "medicina da vida eterna".
Lembrando que zona de conforto é estar e querer permanecer no conhecido, ter resistência à mudança, etc. É o conforto do conhecido, o esperado, não necessariamente o “bom”.
Escrevi “quase diariamente” pois na “frequência normal” posso ir tranquilamente para a crazy sampa.

Há também os que necessitam passar desapercebido, coisa mais complicada em cidades pequenas dada a jequice das mesmas, onde o moralismo é maior. Por exemplo os homossexuais que são mais discriminados... se bem que talvez menos frequentemente espancados e assassinados... bem, essa é outra discussão...



Nunca havia morado em cidades pequenas, só estudei e avaliei teoricamente a cerca disso.
Minha primeira análise lógica foi: menos pessoas menos incômodos.
As demais vantagens estariam numa zona um pouco “menos experimentada”: mais humanidade, mais natureza, e outras suspeitas a serem confirmadas.
A expressão “menos experimentada” foi utilizada pois morar é bem diferente de ser um turista.

Apenas pelo argumento lógico eu já havia aceitado que necessitava tornar prática a ideia.
Mudando, foi tiro e queda: silêncio, ar mais limpo, água mais pura, facilidade de locomoção e mais espaço.
Importante frisar que nunca busquei o paraíso perdido, a perfeição platônica ou até mesmo a fuga de meus próprios problemas internos. Acredito tanto nessas coisas quanto em Papai Noel.
Bucolismo Star Wars by Thomas Kinkade

A parte suspeita foi se confirmando com o dia a dia e, claro, com a minha mudança de ritmo.
A primeira coisa é o desarme, ou seja, a redução ou eliminação da violência latente, aquela que só percebemos quando ficamos “desintoxicados” das metrópoles.
Agora quase ninguém ao redor está com uma faca na mão e outra entre os dentes.
As pessoas cedem passagem com sorriso, deixam você entrar de carro numa rua, puxam papo tranquilamente, etc.

Aliás, esse último quesito é muito interessante.
Eu mesmo não gostava dessas coisas. Prezava pela tal “privacidade” ou “indiferença”.
Estar desarmado e menos violento faz com que gostemos desse preocupar, pois no fim, um papo furado é um olhar para outro ser humano e até mesmo um se preocupar com o outro.
Facilmente por aqui  entro numa adeguinha pedindo uma aguardente (cachaça mesmo) específica e um senhor de 80 e tralalá puxa um papo sobre as boas cachaças e me indica um local e uma marca para experimentar.

Uma coisa de aparente insignificância que transforma uma simples compra, numa experiência social acolhedora, de troca de saberes e ilumina seu dia. Para os metroneuróticos uma “invasão de privacidade”.

Meus amigos me perguntam, mas e o custo de vida como pode ser mais barato? Uma geladeira por exemplo não tem o mesmo preço aqui ou aí?
Realmente os bens duráveis (no moderno capitalismo e sua obsolescência programada, não existe nada mais durável) são praticamente iguais, fora que em tempos de internet...

Mas em outras coisas acontece algo que eu apenas teorizava.
Viver em cidades mais humanas e com mais contato com a natureza (na bruta, não um gramado vitoriano) nos torna menos ansiosos, menos apressados e, associado ao interessante fato de que a pressão sobre sua imagem diminui drasticamente, você naturalmente tem menos impulso ao consumo.

Não é um dado científico, mas todos os que eu conheço que fizeram essa transição tiveram essa mudança em graus variados.
O outro dado crucial é a limitação do poder econômico.
Numa grande rede de supermercado, em que se cobra até pela posição na gôndola e ele é que estabelece o prazo de pagamento, como um pequeno produtor entra?

Exato, nunca.

Não existe livre iniciativa no capitalismo exceto para quem tem a chancela de livre, ou seja, para quem já está entre as minorias (os angstron-negócios estão na categoria dos desprezíveis - por experiência própria - vivem dos restos dos grandes e portanto, tem um “teto bem baixo para voar”).
Então você chega num mercado menor e encontra, por exemplo, o mesmo pão pela metade do preço. Claro que seus preconceitos (cuidadosamente incutidos por grandes corporações) devem ser jogados pela janela para que você experimente uma marca desconhecida de um pequeno produtor local ou não.

Também é muito comum encontrar vegetais de produtores locais, inclusive em variedades que nunca havia visto, por preços muito menores e às vezes orgânicos pelos simples fato de serem caipiras e não simplesmente porque são dotados da chancela do marketing.

Apesar de não ser nativa (foi trazida pelos portugueses do Caribe), essa banana foi muito bem por aqui e é uma delícia! Claro, como não é tão "lucrativa"...

Às vezes até o escambo aparece!


Quando visito sampa (desacostumei total - isso é rápido) sinto aquele ar pesado, aquele cheiro horrível, aqueles milhares de decibéis de inúmeras fontes diferentes, aquelas pessoas violentas (só morando fora pra entender, pois afinal, eu era uma delas), aquela agressividade latente em tudo, aquelas pessoas que se medem de alto a baixo, aquela pressa injustificada para morrer, aquele aperto... nem sei mais... só sinto vontade de fugir de lá.

Claro que muitos amigos falam de suas preferências por essa ou aquela cidade, mas na maioria das vezes é uma preferência feita por causa de um valor adicionado por intermédio de uma memória afetiva, ou seja, muitas vezes é uma ficção.

Não tenho apego a essa ou aquela cidade, tenho apego às boas pessoas que me cercam, por isso nada mais natural do que ficar chuchando meus amigos para virem para cá, partilhar da comunidade, ainda que nos moldes tradicionais do lote, propriedade privada, etc.

Além da família próxima, minha madrinha já comprou casa aqui e uma amiga da patroa e sua mãe já estão no processo. 👊😁
Fora que estou "negociando" com uns amigos do ABC. 😇
Porém não tenho grandes expectativas com ninguém. Entre crer que nascemos morais (Rousseau) ou imorais (Hobbes), o mais plausível e de fácil demonstração é que nascemos amorais, portanto, também "ruins" sob o ponto de vista de uma vida social justa (Hobbes vence por aproximação) e quando associada a ignorância monstruosa da maioria esmagadora, a realidade e a perspectiva são péssimas...


Visitei várias cidades antes de vazar (adoro essa expressão!) de sampa, a maioria muito interessante para os objetivos que eu almejava, mas acabei escolhendo uma em que eu já tinha algum suporte.

O suporte de alguém torna a mudança menos crítica e menos insegura, nem que seja apenas do ponto de vista emocional, o que por si só já é muito importante, mas em geral esse suporte torna aquela ambientação muito mais rápida, coisas como a indicação do arquiteto com bom custo benefício, do pedreiro caprichoso, do mecânico de confiança, da quitanda com bons preços e ótima qualidade e por aí vai.

Uma coleção de pequenas coisas que é muito mais importante do que pensamos e, no fim, operacionalizando aquela coisa crucial das compras coletivas, da carona solidária, da troca constante de saberes, lazer em grupo, etc.

Por que se pulverizar quando há meios pragmáticos de se agrupar?

Por que ainda sempre nos sentimos tentados a dividir e a “resolver as coisas do nosso modo”?

Claro, cada um tem as suas perguntas e as suas respostas, mas existem muitas terrivelmente influenciadas por uma ideologia massacrante e portanto, de difícil identificação da influência (por isso chama-se ideologia), e isso tornas as coisas mais tristes.

Cada um cria seu inferno é verdade, mas ele não precisa ser tão corrosivo. O meu deve ter poucas e boas pessoas razoavelmente espaçadas apesar de cooperativas, pois mesmo boas pessoas quando amontoadas deixam vazar seu veneno por tudo o que é lado. Ops, Freud?! Essa é outra história.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A complexidade das humanidades

A dificuldade da formação de grupos coesos mas realmente pluralista. O que fuçamos por aí...

Considerações pessoais meio sem pé nem cabeça (como a associação dos surfistas de Pernambuco)*

Experiências sociais são sempre coisas cheias de sinuosidades, ramificações e incertezas, para quem é nativo da área de exatas (como eu) em especial é um aprendizado mais doloroso e difícil.

Um físico amigo meu (físicos que, como ele, se especializam em materiais e acabam como um engenheiro disfarçado são ‘naturalmente’ tecnicistas, em especial quando o pai é um Col Nordestino, advogado, com discurso self made man) disse que é um porre essas incertezas, nuances e aparentes idiossincrasias das humanidades.

Os “nativos das humanidades” teriam uma “natural” facilidade em lidar com isso. Se fossem originários de Marte...

Infelizmente o status quo social atinge a todos. Mas vamos Imaginar que para estes seria mais fácil.

Fora estes, há os “sem formação definida” e que ainda por cima, por causa da nossa pobreza educacional não tem muita “bagagem” (não querendo generalizar mas correndo o risco de parecer preconceituoso), ou seja, educação geral falha, pouca leitura, etc, a coisa não melhora muito também, afinal, estão sob a ideologia da comunidade estética (vide Baumman e Debord), onde parecer é mais importante que ser; compromissos com a ética são vistos como perda de liberdades individuais e o “coletivo” ou “comum” são palavras que denotam inferioridade, perda, incapacidade, etc.

Os achados

Dito de maneira confusa isso, como é difícil agrupar pessoas numa experiência social.
Chamo de experiência pois não temos mais as certezas das respostas ou as receitas prontas para serem consultadas, “criar” a alternativa é algo que supomos ser uma resposta ou opção. Encarar essa não resposta e essa não certeza será a eternidade de um grupo pluralista de verdade.

Das pessoas que conheci nessa jornada (ainda no começo admito – nunca estarei totalmente preparado nem terei totalmente “o conhecimento”, caso contrário seria completamente paradoxal ao que se deseja criar) poucas pessoas tem uma aproximação melhor e mais realista da coisa toda e de fato estão prontas para o encontro com opiniões discordantes (uma coisa essencial para quem quer uma comunidade pluralista e integradora pois, de outra forma, cria-se uma seita).

Os “jovens engajados” geralmente são cheios de boas intenções e idealismos, porém, por causa da falta de conhecimento acabam querendo se “juntar aos semelhantes”, como se isso fosse um sinônimo de bom grupo social. Ao contrário, criam uma seita de pessoas que, como todas, reforçam entre si suas crenças, se cristalizam e os conflitos aparecem de qualquer jeito e/ou, no caso dos mais adeptos das filosofias orientais, são engolidos de qualquer jeito.

Entre eles se concentram mais os radicais xiitas de alguma vertente, desde os religiosos até os “alimentares” ou que desfilam alguma bobagem qualquer acerca de um suposto “conceito monoteísta” de sofrimento e violência.

Nos mais “maduros”, digamos acima dos 35 anos, apesar da avalanche de desculpas esfarrapadas do tipo “tenho filhos”**, “minha companheira(o) não aceita”, “não tenho dinheiro”, “tenho que levar minha vó na musculação” e por aí vai, foi onde encontrei as melhores mentes.

Existe um equilíbrio entre o “mudar de vida”, as “questões ambientais” e as “questões sociais” (não se resumindo a problemas sociais externos, mas os inevitáveis internos também).

Entre essas pessoas, tendo alguma história mais ou menos longa no paradigma atual (exploração, moralismo, pasteurização mental, acúmulo, propriedade, etc) este processo novo é uma mudança aparentemente maior, daí o receio com a subsistência e outras resistências são mais aparentes, parte por motivos “óbvios” e outra por motivos não tão óbvios assim. Os “óbvios” são tranquilos de descrever:
  • todos precisamos sobreviver, ou seja, a que se preparar para isso porém nem tanto a ponto de querer uma segurança inatingível;
  • um grupo por segurança jurídica deve ter uma formalização (CNPJ, geralmente num formato de associação) e isso requer investimento, ainda que pequeno;
  • uma terra em nossa sociedade tem sempre um proprietário portanto, é necessário ter a verba para adquiri-la (os casos de invasão, posse, etc, devem ser avaliados, mas a princípio, como ninguém quer ser um revolucionário ou mártir, vale a máxima: a Cesar o que é de Cesar);
  • estando a terra adquirida, é necessário mantê-la (impostos, taxas, etc);
  • depois é necessário fazê-la produzir (no caso de grupos que queiram alguma segurança alimentar por necessidade ou opção).
Os não tão óbvios tem certa complexidade e pairam como uma nuvem em todos, alguns tem mais clareza disso e outros menos. A grosso modo eu citaria:
  • é necessário manter a coesão e o saudável e pacífico gerenciamento de conflitos***. Muitos não tem essa capacidade e são cristalizados, porém não tem essa clareza sobre si próprio, o discurso é diferente da ação;
  • muitos não sabem realmente qual o seu grau de desapego, e nesse caso os medos ficam maiores, afinal, se eu nem sequer sei até aonde posso ir como encarar um desafio “desconhecido”;
  • muitos se preocupam excessivamente com a questão geográfica até mesmo por motivos emocionais, esquecendo que um grupo que se importa e se cuida deveria ser mais importante, afinal, em qualquer lugar essa “nova vida” será viável – ou não;
  • muitos apesar do ótimo caráter, ainda guardam o viés competitivo da sociedade onde vivem e “monetizam” tudo e exercem “disputas de poder” desnecessariamente, tipo, se eu aceitar tal lugar o proponente “ganha” e/ou “tem mais poder” (sempre me perguntei: porque não se juntar a quem já "migrou"? Os suportes e vantagens são variados e nada é necessariamente para sempre).
As que resistem e as que resistiram

Dentre as comunidades existentes e as que nem sequer existem mais, o problema mais comum não são/foram os conflitos (como poderia se supor inicialmente) ou o local geográfico do projeto, mas sim a completa falta de condição de se manter aquele e/ou naquele local.

Muitos abandonos de jovens idealistas que viram os novos exploradores (dos que eu conheci a maioria) e os demais que se deparam com suas próprias necessidades (às vezes maiores do que o discurso de simplicidade de outrora) e não conseguem as suprir somente com um monte de terra.

A fé ou o “pensamento positivo”**** (ou mágico como queira) não resolve nada.

Nesse momento, a coisa começa a ruir, pois a limitação material é total ou muito grande; alguém sofre um acidente e descobre que seria bom ter ao menos um UPA por perto e por aí vai.

Nessa preparação e para a saída da zona de conforto, admito que é entre os mais velhos a maior concentração dos cagões, ops, foi mal, chamaremos eufemisticamente de “cuidadosos”, afinal, eu admito que em parte estive entre eles.
Demorei pra dar um bico, mas uma hora a coisa tem que ir. CNTP não existem na vida.

Ó Senhor, os mortais médios tem salvação?

Eu diria que uma forma muito boa pra quem não tem uma fonte de renda mínima fora da cidade*****, ou fora do sistema (ao menos parcialmente) como dizem, é fazer com que esse grupo seja uma força de trabalho ao estilo cooperativa antes mesmo da terra em si. 

Isso gera mais segurança entre as pessoas, aumenta o sentido de cooperação e é um bom teste para saber como esse grupo vai se dar perante os problemas.

Vencido está etapa, a “transição” já foi efetuada de uma maneira menos traumática e os problemas da futura terra passam a ser apenas um item de um sistema colaborativo já implantado, ou ao menos parcialmente implantado.

Enfim, ao invés de conseguir reunir os 200 ou 250 mil****** e depois sair na pauleira pra conseguir manter a propriedade e a si mesmo (existem claro os que já tem alguma renda mais ou menos garantida por exemplo se tiver algum trabalho remoto ou coisa parecida), o grupo se prepara antecipadamente.

Operacionalmente imagino que locando uma propriedade que comporte as pessoas iniciais com privacidade entre si, segurança e possibilidade de se fazer algo que gere renda é, como dizem, cair pra dentro!

Claro que existem alguns ‘mas’ no ‘locando’, porém são de operacionalização mais rápida e prática do que toda uma aquisição e preparo de grandes áreas.

Enfim, vamos que vamos, sonhar com coisas é fácil: rápido de conseguir e mesmo frustrando, coloca-se outras coisas na fila de novo, mas sonhos sociais são bastante complexos. 😥


Notas exóticas de quem vos escreve
*Piada politicamente incorreta sobre o ataque de tubarões em Pernambuco.

**”Você não tem filhos e você não entende” é uma carteirada comum. Se ambos estivessem vivos e eu tivesse que perguntar algo sobre a Lua, o faria com certeza a  Carl Sagan e nunca a Neil Armstrong (captou?😉)
 
*** Novamente vou de Richard Sennet: “Nesses debates, vimos que adotar um caminho alternativo e solidário pode ser muito mais difícil e conflituoso do que seguir a maneira habitual de ação. Solidário e conflituoso não sendo, portanto, conceitos opostos, pois saber lidar com o conflito de forma respeitosa e acolhedora é o que faz um caminho solidário – e não a supressão do conflito.”

****Infelizmente (ou felizmente) nem a fé nem o “pensamento positivo” tem qualquer impacto na natureza (coloque a semente na terra e fique ali rezando e pensando que ela vai te dar frutos e vc verá que a que está do lado nas mesmas condições e sem esses “procedimentos” se comportará a grosso modo da mesma maneira). Sorry, Papai Noel não existe. 😢✌

*****Vida boa em cidades com mais de 100 mil habitantes é praticamente uma incongruência: falta de espaço, preços altos, violência latente (muito pior do que a violência clássica – se é que isso existe – é a violência latente nas pessoas todas), ar podre, falta de horizontes naturais... só isso dá outro texto...

******É uma coisa típica desse mundo: seja no Acre ou RS, se vc tem que chegar a uma terra de jegue, helicóptero ou teletransporte da Enterprise a terra é barata; se for perto de algum centro comercial, UPA, acesso a internet, etc, é mais caro. Pasmem, até as quantias são mais ou menos semelhantes! Parece como a origem do percentual dos alugueis que vem de um percentual médio que os aristocratas calcularam sobre suas terras, isto é, o quanto eu devo cobrar para que eu possa viver minha vida de ostentação e ócio não criativo, daí os tais +/-5% do valor da propriedade ao ano.

sábado, 17 de setembro de 2016

Sendo pragmático, como definir uma comunidade intencional?

Até minha 'patroa', que foi comigo nas duas primeiras visitas à comunidades, ainda tem resistência ao assunto.
André Comte-Sponville já escreveu sobre o grande trabalho do atual modelo socioeconômico em criar rejeição a qualquer coisa que cite coisas como 'comunitário', 'comunidade' ou termos adjacentes.

Mesmo entre os mais informados ainda há uma estranha rejeição e preconceito a algo que nossos pais ou avós já viveram. A minha maior estranheza está em demonstrar que nada nesse assunto (a não ser os termos e designações diferentes) é novo ou alternativo, e ainda assim provoca todo o tipo de 'xilique' (ainda que discreto e internalizado) nas pessoas.

Já dei um tapa por essas bandas nesse assunto aqui na parte 1, parte 2, parte 3 e neste alinhavamento tosco.

Mas tentando ser mais pragmático ou mais claro e, digamos, visual, sem usar termos que provoquem calafrios nas pessoas?

Ah os amigos...

Suponha que você tenha alguns amigos e familiares (às vezes acontece de termos parentes/amigos... é raro, mas acontece) que além do afeto questionam certas imbecilidades da vida moderna e, apesar das diferenças, estão abertos a discutir suas posições para viabilizar uma convivência mais próxima, racional e com mais qualidade de vida.
Suponhamos agora que todas essas pessoas resolvam morar no mesmo bairro, em casas separadas mas perto o suficiente para se verem quando for conveniente e útil a todos. 

Cada um tem seu espaço, nenhuma liberdade individual é afrontada e sua intimidade é respeitada, mas pode-se compartilhar recursos (telefone, internet, carona solidária, etc), trabalhar em grupo por projetos individuais e coletivos para as pessoas desse "bairro" ou do seu entorno, criar grupos de estudo em áreas diversas, otimizar as compras e uma série de outras coisas que um grupo tem mais força que um indivíduo.

Isso é péssimo para os negócios não é?
Como continuar o fluxo de convergência de capital com "essa gente"?
Como os manterei frustrados, ansiosos e angustiados para que consumam mais?
Como manter a sensação de segurança e suposta independência de viver "sozinho" e com as "suas coisas"?
Gente ociosa pensa. Gente que trabalha em comunhão também. Gente que pensa junto cresce e dissemina ideias...

Fácil perceber como esse assunto não é "conveniente" atualmente.

Na prática...

Bom, a Tibá começou assim.
Já fui 3 vezes lá e nas duas últimas dormi e ajudei nuns trampos.
Se não rolar a minha comunidade talvez me juntar a uma existente seja um caminho. Convite, para minha honra, eu já tive.

A Tibá começou numa república da UFSCAR, onde amigos estavam se lamentando que a vida os separaria de vez e imaginaram como seria legal se isso não acontecesse. Do imaginar passou-se ao 'por que não fazer'?

Resumindo, um grupo comprou uma propriedade grande (o fato de ser quase rural, é por uma evidente questão financeira, mas a qualidade de vida também pesa como critério de escolha) e esse grupo foi se moldando ao longo dos anos, como um organismo vivo, ajustes, gente que sai, gente que entra, conflitos pacificamente resolvidos, etc.

E o perfil das pessoas?

Nos meus primeiros contatos com as pessoas envolvidas com isso, a grande e grata surpresa foi o nível das pessoas.
Em geral gente extremamente amável (não hipócrita), inteligente e culta, ou no mínimo, aberta à discussões variadas. Nada de malucos preconceituosos (tirando a maioria - não todos - dos veganos que são malas pacas), coxinhas cheios de discursos de self made man, pregadores religiosos, reacionários higienistas e por aí vai.

Casais com filhos, casais sem filhos, rapazes e moças jovens, idosos, mas na maioria, dos mais "equilibradamente dispostos", pessoas da minha faixa etária (entre os 40 ou 50 anos).

Tem quem coma carne tem quem não coma. Tem quem reza tem quem sequer acredita em deus ou deuses.

Tem bastante 'gringo' também! Que moram ou que se hospedam já que há muitos intercâmbios entre as comunidades pelo mundo.

Nas profissões a coisa é diversificada também. Na Tibá tem gente com carreira (por exemplo, o grande Jayson e a Gleise são funcionários da UFSCAR na área de TI), gente autônoma como o Rogério e gente que largou tudo para viver somente pela e para a comunidade como o Fernandão (publicitário) e a Cacau (pedagoga).

Sim eles tem tarefas coletivas.
Tudo é dividido conforme as possibilidades de cada um, seja por limitação de tempo ou seja por limitação física.

A horta comunitária, no sistema de agroflorestal, teve um grande aumento quando o Fernandão resolveu se dedicar a isso integralmente. Hoje tem mais gente nesse GT (grupo de trabalho) e a comunidade já é auto suficiente em verduras, ficando o excedente para o Fernando negociar para si mesmo.

Tem gente que trabalha com as finanças internas, outros que contribuem com a comunicação ao público e por aí vai.

A César o que é de César...

Claro que existe uma formatação jurídica.
Como não existe nada específico para esse tema, usa-se uma associação de moradores, com CNPJ, conta PJ, contabilidade, etc.
Cada "sócio" necessita quitar um título (fração do imóvel) para ter usufruto de sua fração e das áreas comuns. Nenhuma novidade.
A grande "novidade" (no nosso contexto) está em fugir do conceito de propriedade e herança, coisas arcaicas e imorais que além de serem contrárias ao mérito são fator contribuinte à desigualdade social.

Os modos de quitação são variados e dependem de acordos individuais nas assembleias. Muitas aceitam escambo e trabalho como parte de pagamento ou até mesmo integralmente, pois, obviamente, exploração e lucro estão fora de uma comunidade intencional.

As despesas mensais e gastos extras são como um condomínio normal, mas muitas vezes existem as chamadas moedas solidárias que podem fazer com que não se necessite de dinheiro para a contribuição, evidentemente que o montante total de um jeito ou de outro precisa aparecer já que IPTU, energia elétrica, telefone, etc demandam dindin.

Mas o interessante nessa área é que sendo geralmente imóveis rurais (os cohousing em geral são urbanos e são outra categoria de comunidade intencional, comuns nos EUA por exemplo), naturalmente se fica fora do alvo das corporações e, no geral, de órgãos públicos, com isso, a microgeração de energia (sem os empecilhos habituais impostos pelas concessionárias) é mais viável, a água de captação alternativa e o próprio tratamento de esgoto são mais fáceis e menos passíveis de taxas, "alugadores" de CREA para as construções e uma série de outras coisas bacanas.

E as casas e o cotidiano?

Tem quem fez casa de alvenaria tradicional, tem quem fez de eucalipto tratado, tem contêiner transformado, casa de pau-a-pique e por aí vai. A única exigência é que todas tratem seu próprio esgoto, tenha coleta de água pluvial e umas outras medidas de conservação energética. Nada radical nem de difícil realização.

Na Tibá, a casa mais próxima uma da outra é separada por uns 50 metros.
Pra se ter uma ideia, aqui no meu bairro o padrão são lotes de 15x20 metros (em sampa 5x25 metros), portanto, muita casa por aqui é muro com muro.

Eles optaram por tomar café da manhã e almoçarem na casa mãe (local com escritório, biblioteca, cozinha e lavanderia coletiva pra quem não faz questão de ter a sua) juntos, no horário das crianças por facilidade, mas ninguém é obrigado a nada.

A beleza da coisa está no formato de uma colaboração espontânea, que surge de divisões e propostas dialogadas. Não que se negue ou se evite o conflito, pois o conflito, resolvido com diálogo respeitoso é a base da dinâmica social sadia.

“Nesses debates, vimos que adotar um caminho alternativo e solidário pode ser muito mais difícil e conflituoso do que seguir a maneira habitual de ação. Solidário e conflituoso não sendo, portanto, conceitos opostos, pois saber lidar com o conflito de forma respeitosa e acolhedora é o que faz um caminho solidário – e não a supressão do conflito.” (Richard Sennett)

Quem trabalha fora em tempo integral propõe suas formas de colaboração, ainda que às vezes financeira, tentando evitar a monetização e a exploração, mas não negando o dinheiro como um simples papel de troca, que no fim, é o que ele é.

Aparecem grupos de estudos, que muitas vezes se ligam a universidades para aprimorar e difundir conhecimentos, por vezes apoiando as comunidades no entorno como grupos de sem terra ou comunidades carentes. Uma forma realista de mudar o mundo, de maneira pequena e pontual, porém com um poder transformador imenso. Não é à toa que as comunidades estão pipocando pelo mundo todo.

A educação alias é um ponto forte e comum em quase todas. Escolas experimentais internas e para o entorno, educação plena e libertária, difusão de conhecimento para melhoria de vida de populações ribeirinhas e carentes e por aí vai. Muito lindo. Também não é à toa que há um grande número de educadores e professores universitários envolvidos com o tema.

Ah, sim, ninguém fica atazanando o vizinho o tempo todo não! Existem até algumas comunidades que se coloca uma bandeira na porta do tipo "disponível" ou "indisponível", afinal, colaboração e convívio não impedem os sadios momentos de individualidade.

Minha mãe disse: mas isso é o que sempre fazíamos antigamente!?

Apesar de muitos chamarem essas comunidades de "alternativas", "hippies", etc, elas nada mais são do que o retorno à decência (não no sentido moralista da coisa, mesmo porque o moralismo não é moral), ou seja, um viver com cooperação, troca, aprendizado e respeito, sem negar a importância da individualidade sadia e muito menos as diferenças, afinal, são elas que nos fazem crescer.

Não se vira às costas à tecnologia e as conquistas modernas, mas as coloca na sua posição de servidoras e não de escravizadoras e dotadas de um fetiche insano e destrutivo.
É um retorno ao mutirão, ao vizinho amigo, a partilha justa, a racionalidade no consumo, a um uso responsável dos recursos naturais, a responsabilidade com as futuras gerações, a troca de saberes, a valorização do conhecimento ancestral e tudo que nos foi surrupiado.

Para esse pós-capitalismo  funcionar ele depende da ignorância (ainda que muito bem formada tecnicamente e cheia de títulos acadêmicos), ou seja, o ignorar o outro e os conhecimentos antigos, enfim, é o olhar de curto alcance e de espectro reduzido, o explorar tudo e a todos sem nenhuma moral.

Evidentemente existem comunidade religiosas (como os veganos por exemplo! rsrs) e dogmáticas, mas elas não se enquadram nos conceitos internacionalmente propostos pelos grupos que difundem os ideais das comunidades intencionais.

Como eu disse no meu surto/post anterior, não sei se o meu (não no sentido de posse mas no sentido de participação) grupo decola ou não, se desmantela ou não e se meu tempo bate com o de todos lá, mas me recuso a abrir mão desses ideais em que eu já simpatizava antes de saber que existia um nome e um movimento com tais propósitos.

Prefiro morrer frustrado (uma a mais uma a menos não faz muita diferença) a achar que não existe outra alternativa, ou pior ainda, responsabilizar minha impossibilidade de ser flexível a condições externas ou pessoas.

Mas quem sou eu para definir o certo... mas o errado é de demonstração bastante simples.






sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Indo... pra onde?

Talvez meu último bom sonho tenha se desmilinguido...


Para mim sonhos não tem absolutamente nada a ver com posses, aquisições, acúmulos e todas as “vitórias” e “virtudes” modernas das quais o senso comum atual alardeia.


Meu último sonho, ou o que se parece ser o último, foi uma comunidade intencional.


No fim, para simplificar, seria a aquela coisa básica e supostamente lógica de um grupo de pessoas que se gostam (ou que se toleram como queira) que juntam forças para viver melhor, em alguma harmonia (dentro do que se pode esperar de boa convivência coletiva... vide Freud e a origem das neuroses...) e seguindo uma trilha oposta ao que o status quo determina.


Ao ingressar no meio virtual para essa busca dos desgarrados, eu sabia que havia um risco enorme de que a representação estatística não se alteraria em nenhuma mídia.


Dito e feito.

Assim como a TV (aberta ou fechada) representa uma maioria, as mídias sociais virtuais também.

Se por um lado a minha racionalidade me dizia o inevitável, por outro, a da esperança (admito que, parafraseando Nelson Rodrigues, a esperança é a última ferramenta dos medíocres) me dizia que em algum lugar eu encontraria os desgarrados que como eu gostariam de se juntar.


Apesar de uma pequena amostragem positiva, o “medo” do novo, da mudança e da possibilidade de se “abrir mão” (coisas cuidadosamente implantadas pela educação da sociedade atual) minam qualquer resistência. Os grupos se desfaçelam como um gás na atmosfera...


Não tenho mágoas com ninguém especificamente, talvez comigo mesmo por ter tido uma vã esperança de que haveria alguma opção.


Não tenho necessidade material (acho fácil obter “sucesso” no mundo atual), mas acho imensamente triste e desalentador ter como muleta “esse mundo” e “essa solução”.


Muitos amigos já perdi para “esse mundo”.

Apesar do discurso deles, eles também se perderam e se dissolveram nessa sociedade supostamente meritocrática, de recompensas que te escravizam e de uma vida doentiamente faraônica. Os pobres coitados se esqueceram de estudar a moral e a história...


Então, o que resta para mim?

Viver como um zumbi acumulando todas as “doenças da civilização” ou continuar minha caminhada pelo que suponho ser o justo e a alternativa (importante ter em mente que não busco o “certo”, mas sim a alternativa de algo que com certeza está errado)?


Minha experiência com a mudança, o inesperado e o abrir mão foi positiva até agora. Não tenho porque abandoná-la.

Mas não nego minha tristeza e frustração de que não tenha companhia para uma tentativa (ainda que pífia) de um mundo mais justo, igualitário e melhor.


Como qualquer diário, esse meu registro solitário me ancorará – ainda que num terreno arenoso como qualquer ‘verdade’ – em algo que eu venha a pensar no futuro.


Possivelmente esse texto não fará o menor sentido para ninguém a não ser eu mesmo... os diários tem essa característica... qualquer um que não ligue para “audiência”, “seguidores”, “likes” e todo esse mundo pavoroso talvez pense em algo... talvez...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

BuNdismo

Há poucos dias concluí o curso 'Gestão de Ecovilas', do Gabriel Siqueira.
Dado o assunto, evidentemente seria impossível um curso convencional, já que há enorme subjetividade no assunto, porém não tão grande como os "Múcios" alardeiam...


A troca de experiências dos participantes, os relatos e as bibliografias relatadas pelo organizador foram bastante proveitosos, mas (shi, o 'mas') nesse meio (não exclusivamente) sempre lembro do personagem citado há pouco, o Múcio.

Múcio era um personagem do Jô Soares no programa 'Viva o Gordo' que nunca discordava de ninguém e ficava sempre escorregando quando era questionado.

As práticas orientais como o budismo e a tal da comunicação não violenta para grupos que não são simpáticos ao embate intelectual sadio reforçaram essa coisa de que se deve evitar dar sua opinião pessoal sobre algo em que você se comprometeria perante ao grupo.

É um tal de "amo a todos" e "tolero tudo" que enche o saco e nada constrói.
O próprio conceito de tolerar já impede o 'tudo', porque tolerar, por definição, significa uma faixa, uma pequena abertura e não qualquer coisa. Por exemplo: hoje está 25 graus Celsius +/- 10%, ou seja, a medida com a tolerância está entre 22,5 a 27,5 graus.

O próprio organizador escreve que organizações religiosas não se enquadram no conceito original das ecovilas e quando uma participante afirma que seu grupo é dogmático/religioso toda forma de "Mucismos" são utilizados para se desviar de emitir uma opinião.

Há uma noção completamente equivocada de que emitindo uma opinião a respeito do assunto em pauta no grupo ou que indiretamente afeta o mesmo seja uma forma "violenta" de comunicação e provoca um medo de que alguém que discorde dessa posição antipatize com o opinador.

Quem opina deve ter ciência que deve sustentar adequadamente (de modo respeitoso e respaldado) sua opinião e, acima de tudo, que pode estar equivocado.
Quem ouve uma opinião divergente por direito pode discordar e colocar sua contraposição (também de modo respeitoso e respaldado e com ciência que pode estar equivocado) e assim iniciar um debate sadio e construtivo se esse for o caso.
Quem apenas tem fé (por definição algo que não necessita de justificativa concreta ou plausibilidade) deve ficar de boca fechada, afinal, o indiscutível é apenas uma cristalização que não promove nada.
 
É bizarro querer criar um "novo mundo" com um zen buNdismo tosco e hipócrita, mesmo porque devemos ter ciência que o budismo surgiu na Índia e depois foi para o Japão, China e outros países asiáticos, com o pretexto explícito de apaziguamento e controle populacional (como toda religião), além de também ter sido responsável por atrocidades e demais atitudes não éticas.

É o embate sadio de ideias que promove a melhora e não a hipocrisia e o silêncio travestidos de tolerância.

Quando questionei (isso não significa dizer que ele estava errado, é apenas um querer saber os motivos concretos de determinada opinião) um desse caras metidos a 'yoguis' sobre sua visão de alma, ele já anunciou ao grupo que "sempre sabia quando alguém com energias negativas vinha desestabilizar o grupo".

Isso só me lembrou os eletróns com sua carga negativa e todo o mundo que ele nos proporcionou (para o bem ou para o mal, moralidades à parte) e a fragilidade intelectual do sujeito que apenas justificou sua posição com uma agressão (sim, foi uma agressão) e uma afirmativa completamente esquizofrênica.

Imaginem a Grécia antiga com essa neo visão tosca de "não violência" e "tolerância"?!
Simplesmente não existiria filosofia!  
E a história não documenta casos de filósofos que saiam no tapa a cada discórdia...