sábado, 17 de setembro de 2016

Sendo pragmático, como definir uma comunidade intencional?

Até minha 'patroa', que foi comigo nas duas primeiras visitas à comunidades, ainda tem resistência ao assunto.
André Comte-Sponville já escreveu sobre o grande trabalho do atual modelo socioeconômico em criar rejeição a qualquer coisa que cite coisas como 'comunitário', 'comunidade' ou termos adjacentes.

Mesmo entre os mais informados ainda há uma estranha rejeição e preconceito a algo que nossos pais ou avós já viveram. A minha maior estranheza está em demonstrar que nada nesse assunto (a não ser os termos e designações diferentes) é novo ou alternativo, e ainda assim provoca todo o tipo de 'xilique' (ainda que discreto e internalizado) nas pessoas.

Já dei um tapa por essas bandas nesse assunto aqui na parte 1, parte 2, parte 3 e neste alinhavamento tosco.

Mas tentando ser mais pragmático ou mais claro e, digamos, visual, sem usar termos que provoquem calafrios nas pessoas?

Ah os amigos...

Suponha que você tenha alguns amigos e familiares (às vezes acontece de termos parentes/amigos... é raro, mas acontece) que além do afeto questionam certas imbecilidades da vida moderna e, apesar das diferenças, estão abertos a discutir suas posições para viabilizar uma convivência mais próxima, racional e com mais qualidade de vida.
Suponhamos agora que todas essas pessoas resolvam morar no mesmo bairro, em casas separadas mas perto o suficiente para se verem quando for conveniente e útil a todos. 

Cada um tem seu espaço, nenhuma liberdade individual é afrontada e sua intimidade é respeitada, mas pode-se compartilhar recursos (telefone, internet, carona solidária, etc), trabalhar em grupo por projetos individuais e coletivos para as pessoas desse "bairro" ou do seu entorno, criar grupos de estudo em áreas diversas, otimizar as compras e uma série de outras coisas que um grupo tem mais força que um indivíduo.

Isso é péssimo para os negócios não é?
Como continuar o fluxo de convergência de capital com "essa gente"?
Como os manterei frustrados, ansiosos e angustiados para que consumam mais?
Como manter a sensação de segurança e suposta independência de viver "sozinho" e com as "suas coisas"?
Gente ociosa pensa. Gente que trabalha em comunhão também. Gente que pensa junto cresce e dissemina ideias...

Fácil perceber como esse assunto não é "conveniente" atualmente.

Na prática...

Bom, a Tibá começou assim.
Já fui 3 vezes lá e nas duas últimas dormi e ajudei nuns trampos.
Se não rolar a minha comunidade talvez me juntar a uma existente seja um caminho. Convite, para minha honra, eu já tive.

A Tibá começou numa república da UFSCAR, onde amigos estavam se lamentando que a vida os separaria de vez e imaginaram como seria legal se isso não acontecesse. Do imaginar passou-se ao 'por que não fazer'?

Resumindo, um grupo comprou uma propriedade grande (o fato de ser quase rural, é por uma evidente questão financeira, mas a qualidade de vida também pesa como critério de escolha) e esse grupo foi se moldando ao longo dos anos, como um organismo vivo, ajustes, gente que sai, gente que entra, conflitos pacificamente resolvidos, etc.

E o perfil das pessoas?

Nos meus primeiros contatos com as pessoas envolvidas com isso, a grande e grata surpresa foi o nível das pessoas.
Em geral gente extremamente amável (não hipócrita), inteligente e culta, ou no mínimo, aberta à discussões variadas. Nada de malucos preconceituosos (tirando a maioria - não todos - dos veganos que são malas pacas), coxinhas cheios de discursos de self made man, pregadores religiosos, reacionários higienistas e por aí vai.

Casais com filhos, casais sem filhos, rapazes e moças jovens, idosos, mas na maioria, dos mais "equilibradamente dispostos", pessoas da minha faixa etária (entre os 40 ou 50 anos).

Tem quem coma carne tem quem não coma. Tem quem reza tem quem sequer acredita em deus ou deuses.

Tem bastante 'gringo' também! Que moram ou que se hospedam já que há muitos intercâmbios entre as comunidades pelo mundo.

Nas profissões a coisa é diversificada também. Na Tibá tem gente com carreira (por exemplo, o grande Jayson e a Gleise são funcionários da UFSCAR na área de TI), gente autônoma como o Rogério e gente que largou tudo para viver somente pela e para a comunidade como o Fernandão (publicitário) e a Cacau (pedagoga).

Sim eles tem tarefas coletivas.
Tudo é dividido conforme as possibilidades de cada um, seja por limitação de tempo ou seja por limitação física.

A horta comunitária, no sistema de agroflorestal, teve um grande aumento quando o Fernandão resolveu se dedicar a isso integralmente. Hoje tem mais gente nesse GT (grupo de trabalho) e a comunidade já é auto suficiente em verduras, ficando o excedente para o Fernando negociar para si mesmo.

Tem gente que trabalha com as finanças internas, outros que contribuem com a comunicação ao público e por aí vai.

A César o que é de César...

Claro que existe uma formatação jurídica.
Como não existe nada específico para esse tema, usa-se uma associação de moradores, com CNPJ, conta PJ, contabilidade, etc.
Cada "sócio" necessita quitar um título (fração do imóvel) para ter usufruto de sua fração e das áreas comuns. Nenhuma novidade.
A grande "novidade" (no nosso contexto) está em fugir do conceito de propriedade e herança, coisas arcaicas e imorais que além de serem contrárias ao mérito são fator contribuinte à desigualdade social.

Os modos de quitação são variados e dependem de acordos individuais nas assembleias. Muitas aceitam escambo e trabalho como parte de pagamento ou até mesmo integralmente, pois, obviamente, exploração e lucro estão fora de uma comunidade intencional.

As despesas mensais e gastos extras são como um condomínio normal, mas muitas vezes existem as chamadas moedas solidárias que podem fazer com que não se necessite de dinheiro para a contribuição, evidentemente que o montante total de um jeito ou de outro precisa aparecer já que IPTU, energia elétrica, telefone, etc demandam dindin.

Mas o interessante nessa área é que sendo geralmente imóveis rurais (os cohousing em geral são urbanos e são outra categoria de comunidade intencional, comuns nos EUA por exemplo), naturalmente se fica fora do alvo das corporações e, no geral, de órgãos públicos, com isso, a microgeração de energia (sem os empecilhos habituais impostos pelas concessionárias) é mais viável, a água de captação alternativa e o próprio tratamento de esgoto são mais fáceis e menos passíveis de taxas, "alugadores" de CREA para as construções e uma série de outras coisas bacanas.

E as casas e o cotidiano?

Tem quem fez casa de alvenaria tradicional, tem quem fez de eucalipto tratado, tem contêiner transformado, casa de pau-a-pique e por aí vai. A única exigência é que todas tratem seu próprio esgoto, tenha coleta de água pluvial e umas outras medidas de conservação energética. Nada radical nem de difícil realização.

Na Tibá, a casa mais próxima uma da outra é separada por uns 50 metros.
Pra se ter uma ideia, aqui no meu bairro o padrão são lotes de 15x20 metros (em sampa 5x25 metros), portanto, muita casa por aqui é muro com muro.

Eles optaram por tomar café da manhã e almoçarem na casa mãe (local com escritório, biblioteca, cozinha e lavanderia coletiva pra quem não faz questão de ter a sua) juntos, no horário das crianças por facilidade, mas ninguém é obrigado a nada.

A beleza da coisa está no formato de uma colaboração espontânea, que surge de divisões e propostas dialogadas. Não que se negue ou se evite o conflito, pois o conflito, resolvido com diálogo respeitoso é a base da dinâmica social sadia.

“Nesses debates, vimos que adotar um caminho alternativo e solidário pode ser muito mais difícil e conflituoso do que seguir a maneira habitual de ação. Solidário e conflituoso não sendo, portanto, conceitos opostos, pois saber lidar com o conflito de forma respeitosa e acolhedora é o que faz um caminho solidário – e não a supressão do conflito.” (Richard Sennett)

Quem trabalha fora em tempo integral propõe suas formas de colaboração, ainda que às vezes financeira, tentando evitar a monetização e a exploração, mas não negando o dinheiro como um simples papel de troca, que no fim, é o que ele é.

Aparecem grupos de estudos, que muitas vezes se ligam a universidades para aprimorar e difundir conhecimentos, por vezes apoiando as comunidades no entorno como grupos de sem terra ou comunidades carentes. Uma forma realista de mudar o mundo, de maneira pequena e pontual, porém com um poder transformador imenso. Não é à toa que as comunidades estão pipocando pelo mundo todo.

A educação alias é um ponto forte e comum em quase todas. Escolas experimentais internas e para o entorno, educação plena e libertária, difusão de conhecimento para melhoria de vida de populações ribeirinhas e carentes e por aí vai. Muito lindo. Também não é à toa que há um grande número de educadores e professores universitários envolvidos com o tema.

Ah, sim, ninguém fica atazanando o vizinho o tempo todo não! Existem até algumas comunidades que se coloca uma bandeira na porta do tipo "disponível" ou "indisponível", afinal, colaboração e convívio não impedem os sadios momentos de individualidade.

Minha mãe disse: mas isso é o que sempre fazíamos antigamente!?

Apesar de muitos chamarem essas comunidades de "alternativas", "hippies", etc, elas nada mais são do que o retorno à decência (não no sentido moralista da coisa, mesmo porque o moralismo não é moral), ou seja, um viver com cooperação, troca, aprendizado e respeito, sem negar a importância da individualidade sadia e muito menos as diferenças, afinal, são elas que nos fazem crescer.

Não se vira às costas à tecnologia e as conquistas modernas, mas as coloca na sua posição de servidoras e não de escravizadoras e dotadas de um fetiche insano e destrutivo.
É um retorno ao mutirão, ao vizinho amigo, a partilha justa, a racionalidade no consumo, a um uso responsável dos recursos naturais, a responsabilidade com as futuras gerações, a troca de saberes, a valorização do conhecimento ancestral e tudo que nos foi surrupiado.

Para esse pós-capitalismo  funcionar ele depende da ignorância (ainda que muito bem formada tecnicamente e cheia de títulos acadêmicos), ou seja, o ignorar o outro e os conhecimentos antigos, enfim, é o olhar de curto alcance e de espectro reduzido, o explorar tudo e a todos sem nenhuma moral.

Evidentemente existem comunidade religiosas (como os veganos por exemplo! rsrs) e dogmáticas, mas elas não se enquadram nos conceitos internacionalmente propostos pelos grupos que difundem os ideais das comunidades intencionais.

Como eu disse no meu surto/post anterior, não sei se o meu (não no sentido de posse mas no sentido de participação) grupo decola ou não, se desmantela ou não e se meu tempo bate com o de todos lá, mas me recuso a abrir mão desses ideais em que eu já simpatizava antes de saber que existia um nome e um movimento com tais propósitos.

Prefiro morrer frustrado (uma a mais uma a menos não faz muita diferença) a achar que não existe outra alternativa, ou pior ainda, responsabilizar minha impossibilidade de ser flexível a condições externas ou pessoas.

Mas quem sou eu para definir o certo... mas o errado é de demonstração bastante simples.