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domingo, 4 de dezembro de 2011

Mais do que um grande atleta, um cidadão

Fiquei bastante chateado com o falecimento do Dr Sócrates.
Nada de histeria descabida com pessoas que não se tem ligações afetivas, mas bastante incomodado.

Não sou torcedor de nenhum time e quase não acompanho nada do futebol (apesar de gostar do esporte como muitos outros), mas tenho simpatia pelo Corinthians desde a minha adolescência por causa do Sócrates, Zenon, Biro Biro, Amaral e outros, que além do futebol, tinham posições políticas e lutavam pelos direitos dos jogadores muito antes da lei Pelé ou lei Zico.

Diferente de outros grandes atletas como Pelé, Oscar ou o deslumbrado do Neymar (a lista chegaria a 99% das criaturas - boçais que só abrem a boca pra falar mer#@), Sócrates, médico formado, foi um cidadão que sempre esteve em atividade política ou profissional em defesa da democracia e dos direitos trabalhistas dos jogadores de futebol.

Possivelmente foi um dos que contribuíram pra essas contas vultuosas dos atuais "craques-ascendentes-deslumbrados".

O fato dele ser alcoólatra, assim como meu pai que também faleceu em decorrência da cirrose,  contribuiu pra essa sensação de tristeza.

O alcoolismo é uma doença grave, de difícil tratamento, grandes efeitos sobre a família e cheia de preconceitos, já que é associada constantemente ao julgamento moral e o caráter, e ainda por cima, seu agente ser socialmente aceito.

Sou ateu, não poderia dizer que ele foi "para local melhor", "está olhando por nós" ou qualquer bobagem parecida, mas aceito a morte como fim ou um 'não eu', como fim de todos os problemas e sono eterno, ou 'o segredo dessa vida' como dizia Raul Seixas, ou ainda, como o grande Carl Sagan disse, volto ao meu estado original, devolvendo a matéria emprestada e me reintegrando completamente ao universo.





sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Física, o tempo, e aquela senhora de cetim

Perdi meu pai com 5 para 6 anos, antes de descrever algumas sensações que vagavam constantemente na minha mente durante a infância e a adolescência, passarei algumas semelhanças interessantes que descobri recentemente - claro que nunca me achei "especial" e muito menos tenho a pretensão de sequer esbarrar na grandiosidade dos citados.

O físico Marcelo Gleiser perdeu a mãe com 6 anos, e segundo ele mesmo, sua infância e adolescência foi marcada pela busca do significado do tempo, e por motivos óbvios, amadureceu já com boa noção de finitude.
A parada na Física foi consequência natural.

O físico Ronald Malley perdeu seu pai com 10 anos. Seu sonho de infância era construir uma máquina do tempo e salvar seu pai.
Hoje trabalha numa "máquina do tempo", nada cinematográfico ou fantasioso, mas, de início, tenta "desviar no tempo" alguns elétrons.

Os pais são o que mais próximo experimentamos do Criador.
Calma lá, sou ateu, é uma afirmação com base psicanalítica.

Mas enfim, quer queiramos ou não, por bem ou por mal, crescemos com base neles e querendo corresponder aos anseios dos "deuses", portanto, perder um deles é se confrontar com a mortalidade da divindade.

Pra mim, o tempo e a morte sempre foram coisas estranhas e interessantes. Nada mórbido ou suícida.
A noção de finitude cresceu comigo, e "perder tempo" sempre foi algo que me horrorizou.
Associado à hiperatividade foi o caos. 

Nunca gostei de ir no cinema pois achava que poderia estar perdendo algo, e assim foi (e ainda é, apesar de um controle mínimo da maturidade) com qualquer outra coisa. Imaginem a dificuldade de estar escrevendo...

Sempre quis viver cada segundo, e talvez por isso, tenha perdido muitos.

Cresci sabendo que a riqueza do tempo não pode ser comprada, ganha, doada ou alugada, talvez por isso o "sucesso" material nunca tenha me seduzido, e fico entristecido com amigos que jogam fora suas horas preciosas numa corporação, juntando porcarias para um futuro que não existe.

Na adolescência busquei freneticamente a minha herança. A que interessa de fato, o caráter.
Não quis ter apenas a minha imagem do meu pai, quis saber dos outros. Queria ter certeza de que, com todas as deficiências humanas, ele tenha sido, no seu âmago, um homem bom.

Bom?! Simplesmente gentil e preocupado com as pessoas queridas, e acima de tudo, generoso. Gostamos mais de comprar coisas para os outros do que para nós mesmos, aliás, nunca consegui responder à pergunta de um cliente meu: "Mas você não quer nada?".

Não entendeu a "senhora de cetim"?

Bom, um DDA famoso chamado Raul Seixas, assim descreveu a morte: "Vou te encontrar, vestida de cetim, pois em qualquer lugar, espera só por mim."