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domingo, 27 de julho de 2025

Sem grandes rupturas não há mudança

O tempo e o espaço estão entrelaçados.

Não estou falando sobre a Teoria da Relatividade Especial de Einstein.

Na sociologia (da qual não tenho nenhuma expertise)  intuo que sim também.

Pincelei algo no meu post anterior, mas andei refletindo um pouco mais agora tendo um pouco a mais de experiência "espaço-temporal" num ambiente rural, de horizontes abertos.

Nesses anos todos de "grupinhos", gente "bacana alternativa" e "intelectuais que não saem da bancada", o que mais ouvi - com pequenas nuances no discurso, uns menos sofisticados e outros mais prolixos - foi que são as micro rupturas é que abrem espaço pras mudanças.

Olhando pra trás e analisando minha reflexão sobre esse "espaço-tempo sociológico", definitivamente não concebo que micro rupturas mudem algo numa ideologia capitalista tão arraigada, que coopta tudo, do desejo aos sonhos, do espaço ao tempo. Essa última extorsão, em especial, na nossa sociedade acelerada (Hartmut Rosa) é altamente representativo.

Mas me debrucei sobre o espaço.

Sem o espaço físico, o tempo não se liberta totalmente.



Qualquer um que já foi, por exemplo, em cassinos ou casa de bingo, nota que os espaços devem ser cuidadosamente estudados para que o tempo seja muito bem direcionado.

O aumento do espaço físico e do horizonte, sob a ótica do aumento da independência individual ou em comunidades intencionais é meio fácil de notar, mas como ele tem o poder de quebrar os domínios da lógica capitalista deveria ser melhor estudado.

Com esse horizonte aberto, a cooptação do capital sobre o tempo, o desempenho, as obrigações inúteis e o tempo ego narcisista começam a ruir. Sem os detalhes todos dos sutis controles, desde o horário do caminhão de lixo, do supermercado, do ir e vir urbano dos horários de rush, etc, esse domínio vai ruindo.

Os tempos do Sol não são muito exatos numa miríade de belos sons e belas imagens num ambiente mais amplo e distante das referências urbanas.

O tempo começa a ser dar bem com você novamente. As experiências começam a voltar a um tempo neuronal mais humano, as suas reflexões sobre suas cobranças indevidas de produtividade, competição, desejos tolos e falta de tempo pro outro começam a desvanecer.

Há um aumento na gentileza consigo mesmo ao abraçar essa pequenez difusa nesse espaço-tempo maior. O sentido muda, ou, até mesmo, a falta de sentido. O inútil do ponto de vista mercantil; o sem objetivo ou que se reobjetiva no processo; a conclusão que pode ser o inconcluído.

Talvez seja meu cérebro TDAH que seja deficitário (apesar de gostar dele assim 😌) e o seu, super privilegiado, consegue se abstrair no espaço exíguo. Eu não acredito e espero que você também não, pois se você perdeu o "será?" do vocabulário da auto crítica me parece que sua mente não é tão super privilegiada assim.

Alinhavando (eu acho) o título, esse "espaço-tempo sociológico" me reforçou a suspeita que pequenas rupturas nada fazem ao status quo. O capitalismo simplesmente se apropria delas. Seja o plantar da muda que vira um curso de permacultura ou pior ainda, uma visita ao garden da cidade; seja a reuniãozinha de trocas de sementes que vira capital social; seja o mutirãozinha de "gente bacana" que se vai 'quando se tem tempo'.

Sem se aventurar nesse espaço-tempo amplo, temo que não há esperança pra mudança.



A mas eu preciso sobreviver...
Bom, não sei se isso é argumento, sobreviver é algo subjetivo, e nossos desejos - reforçando - foram cooptados pelo capital. Fuga, auto sabotagem, desculpa ou simplesmente amoralidade. Possivelmente um pouco de cada.

Essa é a ideia da imersão no espaço-tempo capitalista: fazer você acreditar que não há saída e com isso, a zona de conforto, a naturalização e a auto alienação fazem o resto.


domingo, 17 de março de 2019

Uberização - A nova onda do trabalho precarizado

Como a "flexibilização" das leis trabalhistas e a onda do microempreendedor, associado ao tecnofetichismo (usa Uber e outros? Sim, vc fomenta a exploração) e ao exclusivo olhar pro próprio umbigo arruínam os trabalhadores e a sociedade.


Euforia com aplicativos de serviços dá lugar à frustração de trabalhadores




Avanço da 'uberização' acarretou bicos precários e diminuição na renda, avalia autor

CARLOS JULIANO BARROS 

​​​[RESUMO] Euforia com aplicativos de serviços dá lugar à frustração de trabalhadores, em um cenário que deve se complicar com novas transformações. 

​Em novembro do ano passado, um protesto de centenas de motoboys e ciclistas da Rappi trancou a avenida Paulista. Os entregadores da startup colombiana, um dos incontáveis aplicativos de delivery na cidade de São Paulo, reivindicavam aumento na remuneração das corridas —o valor mínimo fica na casa dos R$ 5.

As queixas se estendiam ao prazo para as tarefas e às penalidades em caso de atraso ou recusa do serviço. Além de bloqueios temporários, os entregadores estão sujeitos a dívidas se o aplicativo não processa a tempo o cancelamento de uma viagem.

Meses antes, fiscais do extinto Ministério do Trabalho já haviam aplicado multas milionárias a duas concorrentes da Rappi: a Loggi e a Rappido, empresa do grupo Movile, um dos raros espécimes brasileiros de “unicórnio”, ou startup com valor de mercado de ao menos US$ 1 bilhão.

Ambas foram autuadas por infrações à legislação trabalhista decorrentes, na avaliação dos fiscais, de uma irregularidade primordial: deixar de registrar motofretistas como empregados. Só no caso da Loggi, o Ministério Público do Trabalho cobra indenização de R$ 200 milhões.

A explosão de aplicativos de delivery é provavelmente o caso mais representativo das rupturas geradas no Brasil pelo avanço da “gig economy” — a economia dos bicos. Até poucos anos atrás, os serviços de entrega eram pulverizados entre empresas de pequeno porte, que contratavam motoboys, reconhecidos como categoria profissional regulamentada.

Hoje a atividade está ao alcance de qualquer um que aceitar termos e condições de plataformas digitais. A avalanche de aplicativos é turbinada por fundos de venture capital (investimento de risco) inclinados num primeiro momento a perder dinheiro em ofertas a usuários e trabalhadores, para depois ganhar mercado.

Assim como nos EUA, que viram a ascensão das startups do Vale do Silício no rescaldo da crise de 2008, a “gig economy” deslanchou no Brasil com a recessão iniciada em 2014. Meia década depois, ela funciona como uma verdadeira bomba de sucção de 12,2 milhões de desempregados e 40,8% de trabalhadores informais.

Embaladas por um “tecnofetichismo”, as plataformas oferecem de faxina a passeio com cachorro e têm lado numa das batalhas ideológicas em curso no país: a aprovação de reformas de orientação liberal sob os mantras do corte de custos e da alergia à regulação do Estado. O presidente Jair Bolsonaro já afirmou que as leis trabalhistas devem “se aproximar da informalidade”. 

Em geral, os aplicativos se apresentam como meros intermediadores entre consumidores e fornecedores. Apesar de seus algoritmos estipularem preços, controlarem a prestação do serviço e aplicarem penalidades, as empresas argumentam que os trabalhadores são autônomos. Assim, motoboys do iFood, faxineiras da Parafuzo e motoristas da 99, para citar algumas das mais conhecidas startups brasileiras, são considerados clientes, e não empregados.
A chamada “uberização”, referência à plataforma de transporte mais popular do mundo, é a mais recente e significativa das “mutações neoliberais” do mercado de trabalho desde a década de 1970, na definição de Veena Dubal, professora da faculdade de Direito da Universidade da Califórnia. Um sistema de gestão de mão de obra que se ancora no discurso de liberdade e autonomia para transferir a “empreendedores de si mesmos” os riscos da atividade econômica de gigantes digitais.

No Brasil, o exemplo dos entregadores é paradigmático da terceirização total de riscos. Para a prestação do serviço de entrega, diversos aplicativos exigem o registro de MEI (Microempreendedor Individual), pessoa jurídica criada em 2008 que limpou o terreno para a uberização. Se ficar impossibilitado de trabalhar, o trabalhador só terá o salário mínimo garantido pela contribuição paga por ele próprio ao INSS.

Para além da desproteção trabalhista, um estudo do Ipea de janeiro de 2018 acendeu outro alerta sobre a proliferação dos MEIs: o alargamento do rombo da Previdência. Segundo o documento, o número de microempreendedores individuais chegou a 7,7 milhões em dezembro de 2017. “Parece estar ocorrendo alguma migração de empregados formais para MEI”, detecta a publicação. 

Como a contribuição mensal ao INSS é quase simbólica (5% do salário mínimo), o estudo estima uma necessidade de financiamento de ao menos R$ 464,7 bilhões nas próximas quatro décadas para cobrir o desfalque gerado por esse regime.

É inegável que plataformas bem-sucedidas da “gig economy” têm aceitação entre consumidores, não só pelos preços acessíveis mas também por centrarem fogo em nichos pouco eficientes. Dentre as cidades dos 65 países em que a Uber atua, São Paulo é a que mais usa o aplicativo. 

Diante de altas taxas de desemprego e informalidade, baixa produtividade e precarização até dos postos com carteira assinada, também não surpreende que os aplicativos atraíam gente à caça de ocupação.

Porém, a longo prazo, essa mecânica pode desencadear o que Trebor Scholz descreve em seu livro “Uberworked and Underpaid” (“uberexplorados e sub-remunerados”): uma “corrida para o fundo do poço”. Quando motoristas concorrem entre si e assumem o risco da atividade de uma plataforma, o limite é rodar o dia todo e morar no próprio carro — o que já ocorre na Califórnia.

No setor de transporte de passageiros, aquilo que um dia já foi euforia parece estar com os dias contados. Um estudo do Instituto JP Morgan Chase revela um declínio considerável nas remunerações dos motoristas nos EUA. Em março de 2018, o rendimento mensal médio era 53% inferior em relação ao pico de 2014. 

Neste ano, deve sair do papel a aguardada abertura de capital da Uber. Para analistas, os anos de prejuízo (US$ 1,8 bilhão só em 2018) forçarão a empresa a elevar tarifas para consumidores, a baixar repasses a motoristas ou a combinar as duas medidas. Não há para onde correr.

Se a princípio os fundos de venture capital bancam tarifas sedutoras para recrutar trabalhadores, a longo prazo tende a se consolidar “uma estratégia de baixa remuneração”, segundo Veena Dubal. Como compensação, premiações transformam o cotidiano de trabalho em uma espécie de gincana viciante, prolongada e perigosa. Na capital paulista, o número de mortes entre motociclistas aumentou 18% no ano passado .

A ressaca da “gig economy” vem colocando em xeque até mesmo modelos econômicos consagrados, como a Curva de Phillips. Grosso modo, ela relaciona a queda do desemprego ao crescimento da inflação.

Se há excesso de gente ocupada e com dinheiro para gastar, presume-se que os preços disparem. Porém economistas de peso vêm levantando a hipótese de que a Curva de Phillips perdeu a validade. Um deles é Lawrence Summers, secretário do tesouro no governo do ex-presidente norte-americano Bill Clinton.

Nos EUA, o desemprego despenca desde a crise de 2008. Hoje está em patamar historicamente baixo, inferior a 4%. Mas a inflação não decolou. Uma das explicações é justamente a nova diagramação do mercado de trabalho. As rendas geradas por bicos precários, instáveis e de baixa remuneração já não têm o poder de empurrar os preços para cima.

É por essa razão que, em artigo no Financial Times, Summers cravou: “A América precisa mais que nunca de seus sindicatos”. O palpite do economista é que o poder de barganha dos empregadores aumentou e o dos trabalhadores diminuiu. No caso dos aplicativos, em que a figura do patrão veste a fantasia imaterial de um algoritmo, reivindicar direitos se torna ainda mais desafiador.
No Brasil, a lógica da terceirização total de riscos para trabalhadores atomizados já deu mostras do seu potencial de estrago em maio do ano passado, com a histórica greve dos caminhoneiros. Desde 2007, com a aprovação da lei 11.442, que criou a figura do transportador autônomo de carga, a categoria também atravessa um processo de uberização.

“Os caminhoneiros foram encorajados a se endividar e tentar adquirir veículo próprio, com o sonho de maior autonomia e de ‘não ter mais patrão’, e 44,8% dos caminhoneiros estão endividados, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Transporte em 2016. Nada muito diferente do que ocorreu com trabalhadores que perderam empregos e adquiriram carros para trabalhar para aplicativos de transporte de pessoas”, compara Rodrigo Carelli, procurador do Ministério Público do Trabalho e professor de direito da UFRJ, em artigo de junho de 2018.

As plataformas da “gig economy” pegaram carona nas utopias igualitárias da sua irmã mais velha e virtuosa, a “sharing economy” (economia do compartilhamento), mas seguiram caminho oposto. Em vez de catalisar trocas diretas de bens e serviços a partir da internet, a primavera de apps “acabou se convertendo na oferta generalizada de trabalhos mal pagos e sem qualquer segurança previdenciária”, escreve Ricardo Abramovay, economista e professor da USP, no prefácio do livro “Uberização - A Nova Onda do Trabalho Precarizado”, de Tom Slee (Elefante, 2017).

A longo prazo, a “gig economy” pode aprofundar a “dualização econômica” já tão característica de países em desenvolvimento, como o Brasil, nos termos propostos pelo professor de Harvard Dani Rodrik em “Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy” (“conversa franca sobre o comércio: ideias para uma economia mundial saudável”, lançado em 2017). Nesse desenho, a ponta da pirâmide da economia digital fica reservada a uma minoria de profissionais criativos, altamente produtivos e bem remunerados.

Já a base é sustentada por uma massa de trabalhadores desprotegidos e facilmente substituíveis.
Resta ainda um complicador: os desafios da robotização e da inteligência artificial. Dos testes do carro sem motorista da Uber aos do delivery via drones da Amazon, as perspectivas de inovações tecnológicas para o mercado de trabalho não são das mais animadoras.

Carlos Juliano Barros é jornalista, documentarista e mestre em geografia humana pela USP. 

Ilustríssima / FSP 3.3.2019

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Contracultura


Em plena era pós política e caótica atual, a qual fomos resignadamente dirigidos pela contra revolução neoliberal dos anos 80, disponibilizo um texto de 1974 da revista MM.

Enfatizando, texto de 1974!

Em tempos 'bolsonarescos', onde os "cordeiros violentos" (cordeiros com um sistema socioeconômico e violentos entre si) e os "ecoalternativos new age" não atacam a raiz do mal social, necessitamos urgentemente de uma nova contracultura...
 

Contracultura
A outra face da sociedade moderna

Texto publicado no “fascículo de Cultura Moderna da revista MM em junho de 1974



O repúdio das gerações jovens à “coisificação” do indivíduo produzida pela sociedade de massas, origina o fenômeno da “contracultura”, fascinante e contraditório, que aspira configurar uma nova “consciência”.
Quando a geração mais jovem começou produzir sua própria realidade, procurando diferenciar-se de seus pais, a contracultura se transformou numa verdadeira recusa de toda a ordem social existente, levantando bandeiras políticas e colocando nas formas econômicas a causa da alienação e infelicidade humanas. Esses propósitos foram veementemente manifestados nas grandes concentrações públicas, que conseguiram reunir milhares de jovens de todo o mundo.

Se um traço parece ser distinto entre a década passada (nota do Barbieri: a matéria provavelmente refere-se aos anos 60) e o começo da década presente (anos 70) é aquele que como regra geral tem sido chamado de “rebelião juvenil”. Esse conceito, amplo e ambíguo, define uma das problemáticas mais palpáveis da realidade contemporânea e se explica por meio de dois fenômenos simultâneos em sua manifestação e justapostos em suas conseqüências: a nova consciência e a contracultura.

Atrás dessas denominações genéricas e um tanto difusas há, todavia, uma realidade inquestionável e um denominador comum: a repulsa das gerações mais jovens a tudo aquilo que seja tradição, padrões estabelecidos, normas inflexíveis, valores universais e definitivamente válidos.

Como forma peculiar de manifestar sua oposição ao sistema vigente, a juventude começou a produzir uma série de fenômenos  que, em termos antropológicos entram no amplo campo da cultura: anarquia no vestir (as primeiras tentativas de cabelo comprido e roupa desmazelada realizadas pelos jovens norte-americanos da década de 50), relaxamento dos costumes e das relações (expressas plenamente com o movimento  hippy, também conhecido como “hippie”), ruptura com os padrões artísticos aceitos por anos (aparecimento da “pop”, da “op” e outras anárquicas expressões de arte contemporânea) e, por último, questionamento da ordem social e econômica imperante (a crítica social do alemão Herbert Marcuse, que fundamentou as rebeliões estudantis de Paris em 1968).

Em síntese, a contracultura procura, de uma forma ou de outra, colocar um fim na ordem aprazível, na qual se havia encastelado o mundo ocidental e abrir-se em relação a um universo de dimensões e proporções desconhecidas, que ao mesmo tempo atrai e repugna. 

Protesto contra a Guerra do Vietnam os jovens passam a contestar!

Tecnocracia e contestação



Logo ao término da Segundo Guerra Mundial, à medida que se afirmava a hegemonia internacional dos Estados Unidos, os padrões culturais dessa poderosa nação começaram a reger os desejos de todo o mundo ocidental. Assim, os idéias de “progresso sustentado”, “modernização constante”, “racionalização plena”, “planejamento absoluto” e outros similares, converteram-se em imperativos, indissoluvelmente ligados às esperanças de segurança social, felicidade individual, adequada relação entre homens e recursos, em suma, às esperanças que despertaram o fim dos horrores da guerra. 

O formidável desenvolvimento tecnológico e os assombrosos feitos da ciência, assim como o elevado nível de vida e a esplêndida satisfação de necessidades 
  de que desfrutou a população norte-americana durante os primeiros anos da década de 50, fizeram supor que aqueles idéias estavam a ponto de serem alcançados e que havia um único caminho para isto: a recém-institucionalização tecnocrática. Em termos sociológicos, esta é a forma em que a sociedade industrial avançada concebe todo o seu sistema organizativo. 

Segundo Theodore Roszak, o grande segredo da cega aceitação que durante muitos anos provocou a tecnocracia é a sua capacidade de convencer, sobre a verdade de três premissas que são fundamentais:

1. As necessidades vitais do homem são de caráter puramente técnico. Os requisitos da condição humana, portanto, podem ser adequadamente entendidos e resolvidos por meio de um sistema de análises e de um método operativo que se sustenta nesta afirmação.

2. A análise e a interpretação das necessidades do homem, assim como a sua satisfação programada, resultam infalíveis em 99% dos casos. Desta maneira, a tecnocracia instaura o princípio de que unicamente submetendo-se a seus ditados o homem encontrará progresso, segurança e bem-estar, inclusive ao preço de uma progressiva despersonalização e perda de responsabilidade.

3. Os especialistas da tecnocracia – habitualmente chamados tecnocratas, fazem parte de uma espécie de céu de eleitos que lhes possibilita não apenas o conhecimento das leis sociais, mas, também, e isso talvez seja o mais importante, uma elevada posição dentro do “status” existente. É fundamental, pois, alcançar, de qualquer forma, esta posição de privilégio.

Apesar do êxito inicial que tiveram esses postulados, logo a seguir algumas mentes começaram a assinalar, de forma isolada e até quase incoerente, os perigos que semelhante ordem social acarretava: perda da individualidade, alienação em função de um consumo crescente e desnecessário, incapacidade de tomar determinações pessoais e absoluta desvinculação dos centros de poder com a  massa da população.

Não obstante essas advertências, formuladas por pensadores como Norman Mailer, Herbert Marcuse, Henry Lefebre e Jean Paul Sartre, entre outros, os adultos dos anos 50 aceitaram passivamente a nova realidade social que se lhes estava impondo e deixaram a função de denúncia nas mãos de reduzidos grupos de intelectuais ou universitários. 

Alguns focos de rebeldia, marcados sobretudo pelo existencialismo sartreano começaram, não obstante, a propagar-se pelos países mais devastados da Europa e pelas cidades mais populosas dos Estados Unidos. Quem foram estes rebeldes? Como manifestaram sua insatisfação? Basicamente se tratou de artistas que utilizaram diversos meios de expressão para tornar público seu desagrado, seu “fastio intelectual” como diziam alguns.

Na França, por exemplo, o movimento existencialista encontrou seu expoente máximo na cantora Juliette Greco que, sem nenhuma maquiagem ou vestuário especial, cantava temas onde o sonho de um mundo sem guerras e livre de opressões econômicas era um tema constante.  Nos Estados Unidos, o novelista Jack Keruac e o poeta Allan Ginsberg  postularam uma possibilidade redentora através da cultura oriental, até então completamente ignorada no ocidente.

Outros nomes, mais ou menos memoráveis, poderiam ainda serem citados. O jovem James Dean, por exemplo, construiu dentro do mundo cinematográfico o paradigma do inconformismo para muitos jovens do mundo todo. Outro ator, Marlon Brando, instaurou do mesmo modo a violência incontrolável como meio de manifestar repugnância em relação à sociedade norte-americana. O quase adolescente Andy Warholl, por seu lado, destruiu os clássicos moldes da expressão plástica e inaugurou um caminho que ainda transita com singular popularidade.

Todos, entretanto, não chegaram a se constituir em mais do que precursores do que apenas 20 anos depois seria um fenômeno de dimensões universais e de proporções incontroláveis: a contracultura em nível massivo e popular. Qual era – e qual é – seu objetivo primordial? Pode-se resumir nos seguintes postulados: 

“Opor à arregimentação da tecnocracia um mundo mais espontâneo, onde os indivíduos tenham um amplo campo de esclarecimento, onde as responsabilidades individuais e sociais sejam plenamente assumidas, onde o consumo deixe de ser o centro da vida de milhões de pessoas, onde os sentimentos humanos possam ser expressos livremente, onde os instintos do homem, finalmente, possam ser satisfeitos, sem nenhum tipo de condicionamento cultural.”

Festival de Woodstock em 1969 ajuda a revelar para o mundo uma nova sexualidade.

Eros e civilização

Com efeito, desde que Sigmund Freud afirmou ser a base de toda a organização social o controle do “princípio do prazer” em nome da civilização, foram muitos os estudiosos que postularam a necessidade de que o homem, para ser autenticamente tal, devia livrar-se das pressões provocadas pelas sociedades que ele mesmo criara. 

Assim, o psicanalista, Wilhem Reich foi um dos primeiros, da década de 30, em insistir sobre a necessidade  de uma absoluta liberdade sexual: abolição da relação por casal, substituindo-a pela relação múltipla; ruptura com tabus sobre adultério e virgindade; liberação das travas que, através do sexo, a sociedade impõe, obstruindo o desenvolvimento da mulher; e reconhecimento humanitário da homossexualidade e bissexualidade em lugar de puni-las legalmente. Em suma, um catálogo de propostas de liberdade irrestrita na ordem erótica que, segundo afirmava Reich, haviam de conduzir à libertação total do ser humano.
Outro adulto, científico também, formado muito intimamente com a escola freudiana, é o alemão Herbert Marcuse, que recuperou como centro de seus estudos a oposição entre Eros e a Civilização  e cujos escritos políticos foram a bandeira teórica das rebeliões estudantis de Paris em 1968.


Mas, seria na volumosa obra de Jean Paul Sartre que essas – e outras – afirmações contra um regime social que os estudiosos consideram injusto, encontraria sua mais explosiva formulação e seus primeiros resultados práticos.

A força com que essas teorias se afirmaram entre a juventude dos anos 50 foi expressa por meio de profundas cabeleiras masculinas, os primeiros sinais de descuido no vestir, os tímidos intentos de uma moral menos puritana e mais liberal, o nascimento dos movimentos femininos de liberação e, muito especialmente, as expressões artísticas que denunciavam como complacentes e alienadas tudo o que havia sido feito até então.

Autores como Jean Genet, Albert Camus, Eugene Ionesco, Samuel Becket e os já mencionados Keruac e Ginsberg, expressaram através de suas obras teatrais, seus poemas e suas novelas, essa sensação de absurdo e essa espécie de insatisfação total ante os termos em que se concebia a vida na sociedade ocidental. Em todas as produções, como aríete, o sexo era o tema dominante.

O congestionamento para chegar ao Festival de Woodstock.

A explosão juvenil



Mas, em mais de um sentido, essa atividade contra cultural continuava sendo eminentemente “cultural”. Eram produzidas por homens adultos e consumidas por intelectuais sofisticados. De fato, permanecia marginalizada em cenáculos de especialistas e não alcançavam nenhum tipo de transcendência massiva.

Foi necessário, pois,  que a geração mais jovem, a que nasceu por volta de 1940, começasse a produzir sua própria realidade, procurando diferenciar-se de seus pais. Nesse momento a contracultura se transformou numa verdadeira recusa de toda a ordem social existente, mas não fez, como no caso do existencialismo, em nome de um mero protesto individual, mas sim levantando bandeiras políticas e colocando nas formas econômicas a causa da alienação e infelicidade humana.

A quase ingênua rebeldia do Rock’n’Roll deixou lugar à revolução musical simbolizada pelos Beatles. Sons novos, ritmos incoerentes, bailes sem normas, canções com letras onde o amor livre e o relacionamento com a natureza eram uma constante, identificaram-se com o uso de roupas  não convencionais, com impressionantes cabeleiras e com atitudes desconcertantes.

Ao mesmo tempo, os setores mais inconformistas  procuraram segregar-se do corpo social que com relativa elasticidade havia acabado por aceitar e absorver aquilo tudo simbolizado pelos Beatles, formando pequenas comunidades, de autonomia autossuficiente, onde colocavam em prática uma série muito confusa de noções que caíram sob o denominador comum de “hippismo”.

Simultaneamente, também o mundo da arte acadêmica rompia as comportas e os movimentos radicais (pop, op, cinético, etc.) começaram a suceder-se vertiginosamente. As drogas como estimulantes na obtenção de sensações desconhecidas e a busca de verdades absolutas nas tradições orientais do budismo e a cultura foram, finalmente, os pontos culminantes e unificadores dessas tendências díspares.
 


Um dos muitos ônibus psicodélicos dos anos 60 sugerindo a vida em comunidade.

Um balanço revelador



Que é, em suma, o que trouxe de novo a contracultura?



Em tal sentido, o Institute of Social Research (Instituto de Pesquisa Social), de Nova York elaborou o seguinte esquema que, a título de balanço provisório, tenta traçar um sintético panorama das regaras abarcadas pela contracultura e seus efeitos mais visíveis na vida cotidiana:

1. Uma arte em caos permanente.
À convencional visão da arte ordenada e organizativa, a contracultura apôs, com melhores resultados, a noção da anarquia e o caos como fundamentos da produção artística.

2. Uma moral psicodélica.
Nada do que foi dito teria sido possível sem o prévio aparecimento de uma nova moral, mas essa também não teria se consolidado se não tivesse havido no terreno artístico a experiência psicodélica. A utilização consciente das drogas, a investigação a fundo dos sentidos, a ruptura do mundo das formas, cores e sons, permitiram aos contestatários suspeitar que a moral devia estar regida por valores em constante movimento.

3. O sexo como instrumento político.
A partir de Freud e de acordo com as investigações de vários psicanalistas, considerou-se que a repressão sexual da sociedade ocidental encobria sob suas normas morais e religiosas uma verdadeira repressão ideológica. A contra cultura arremeteu, através da defesa de todo tipo de sexualidade e, especialmente, dos movimentos de liberação feminina, contra a concepção, afirmando-se inequivocamente a “a função política do sexo”.

4. A busca do infinito perdido.
Tanto a análise do interior da sociedade como as informações oferecidas por especialistas em cultura oriental permitiram que a contra cultura levantasse como bandeira de luta a necessidade de admitir a existência de um vazio “de um infinito aterrador, onde o homem encontra a medida de si mesmo e dá um sentido verdadeiro à vida”.

5. A economia a serviço do homem.
Este é possivelmente o campo onde a contracultura logrou menos resultados diretos. Com efeito, nem as comunidades hippies, nem os atos de rebeldia estudantil, propuseram um sistema econômico que substituísse os existentes, limitando-se a criticar os resultados que estes motivam. Em troca, essa crítica radical e violenta originou uma série de revisões nos planos de economia mundial que, a título provisório, parecem indicar uma tendência generalizada em direção à “humanização” da economia. (Nota do Barbieri: como hoje bem sabemos o capitalismo reagiu e os neo conservadores no poder estão conseguindo anular todas as conquistas liberais deste período!)

6. Desmistificação da cultura.
Este item, segundo os especialistas, foi onde “se alcançou os resultados mais eficazes e revolucionários”. Contra o que consideram uma noção elitizante da chamada Alta Cultura, o movimento juvenil, dizem, “impôs, uma  concepção definitivamente democrática onde a cultura sem letra maiúscula e sem qualificativos é patrimônio comum a todos os homens”. Não se trata, acrescentam, da conhecida “cultura de massas” mas, pelo contrário, “de uma cultura destinada a satisfazer autenticamente as necessidades expressivas do ser humano”.

7. Objetividade contra mitologia.
Como resultado total da tarefa destruidora empreendida pela contracultura, a objetividade aparece como a contrapartida dialética da mitologia fundamentada na tecnocracia. Assim, enquanto as gerações adultas continuam crescendo em eficácia, no progresso constante, nas vantagens de uma crescente industrialização, a gente jovem renega não apenas essas crenças; consideram-nas “mitos modernos”, que ocultam a dinâmica da história, subtraem do indivíduo a capacidade de fabricar seu próprio destino, oferecem uma visão pessimista da realidade. 







Foto emblemática do Festival de Woodstock que acontece no auge do Movimento Hippie.

Exploração da utopia



Como todo movimento social que se define no curso da ação social e que justifica, “a posteriori”, sua inexistente base ideológica, a contracultura alcançou uma espécie de clímax em que tudo parecia possível e começou logo a declinar, a retrair-se em seus próprios efeitos. Esse momento culminante foi o marcado pelas rebeliões estudantis ocorridas na Europa durante 1968 e cujos ecos tardios (por exemplo o festival de Avándaro) na América Latina, apenas lograram ocultar o acaso de uma década marcada  a fogo pela ideia da revolução.

Depois deste estalo brutal, a contracultura começou a depurar suas próprias filas, a integrar-se pacificamente no sistema que combate e ao qual impôs, sem dúvida, radicais transformações. Chegou então a hora dos balanços, do acerto de contas. E é nesse processo que se encontram atualmente seus teóricos mais importantes. Herbert Marcuse, por exemplo, dono de uma atividade criadora assombrosa, foi o primeiro a revisar muitas de suas concepções e a formular novas propostas a favor de um mundo melhor. Os radicais norte-americanos deixaram para trás o arrebatamento de Ginsberg e procuraram, através dos trabalhos de Noam Chomsky, uma base teórica que torne operativa a contracultura espontânea de estudantes e gente jovem em geral. Os artistas, que com tanto fervor romperam fronteiras durante a década passada, começaram a fixar novas metas e, a moral, tão ferozmente combatida, parece renascer sobre a base de conteúdos diferentes e formas originais.



Tudo indica, em seu conjunto, a síntese das experiências vividas e a formulação, partindo delas, de objetivos transformadores em escala mundial. O processo se verifica à margem de organismos oficiais e de sistemas institucionalizados, não reconhece nenhuma orientação precisa e se identifica, em todas as partes, como uma nova e vigorosa exploração da utopia.
Texto publicado no
fascículo de Cultura Moderna
da revista MM em junho de 1974





sexta-feira, 23 de março de 2018

Por que hoje a revolução não é possível?

Tudo foi tão naturalizado que dá calafrios...
Vamos com Byung-Chun Han:
 

Quando debati com Antonio Negri, um ano atrás, no Berliner Schaubühne, ocorreu um embate entre duas críticas do capitalismo. Negri estava entusiasmado com a ideia da resistência global ao império, ao sistema de dominação neoliberal. Ele se apresentou como revolucionário comunista e se autodenominava professor cético. Clamava com ênfase à multidão, à massa interconectada de protesto e revolução, a quem confiava a tarefa de derrotar o império. A posição do comunista revolucionário me pareceu muito ingênua e fora da realidade. Por isso tentei explicar para Negri por que as revoluções já não são mais possíveis.

Por que o regime de dominação neoliberal é tão estável? Por que há tão pouca resistência? Por que toda resistência se desvanece tão rápido? Por que a revolução já não é mais possível apesar do crescente abismo entre ricos e pobres? Para explicar isso é necessária uma compreensão adequada de como funcionam hoje o poder e a dominação.

Quem pretende estabelecer um sistema de dominação deve eliminar resistências. Isso é certo também para o sistema de dominação neoliberal. A instauração de um novo sistema requer um poder que se impõe frequentemente através da violência. Mas esse poder não é idêntico ao que estabiliza o sistema por dentro. É sabido que Margaret Thatcher tratava os sindicatos como o “inimigo interior” e os combatia de maneira agressiva. A intervenção violenta para impor a agenda neoliberal não tem nada a ver com o poder estabilizador do sistema.

O poder estabilizador da sociedade disciplinadora e industrial era repressivo. Os proprietários das fábricas exploravam de forma brutal os trabalhadores industriais, o que ocasionava protestos e resistências. Nesse sistema repressivo são visíveis tanto a opressão como os opressores. Existe um oponente concreto, um inimigo visível diante do qual a resistência faz sentido.

O sistema de dominação neoliberal está estruturado de uma forma totalmente diferente. O poder estabilizador do sistema já não é repressor, mas sedutor, ou seja, cativante. Já não é tão visível como o regime disciplinador. Não existe um oponente, um inimigo, que oprime a liberdade diante do qual a resistência era possível. O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido em empresário, em empregador de si mesmo. Hoje cada um é um trabalhador que explora a si mesmo em sua própria empresa. Cada um é amo e escravo em uma pessoa. Também a luta de classes se torna uma luta interna consigo mesmo: o que fracassa culpa a si mesmo e se envergonha. A pessoa questiona-se a si mesma, não a sociedade.

É ineficiente o poder disciplinador que com grande esforço oprime os homens de forma violenta com seus preceitos e proibições. É essencialmente mais eficiente a técnica de poder que se preocupa com que os homens por si mesmos submetam-se à trama da dominação. Sua particular eficiência reside no fato de não funcionar através da proibição e da subtração, mas através do deleite e da realização. Em lugar de gerar homens obedientes, pretende fazê-los obedientes. Essa lógica da eficiência é válida também para a vigilância. Nos anos oitenta, se protestou de forma muito enérgica contra o censo demográfico. Os estudantes até mesmo foram para as ruas. Da perspectiva atual, os dados necessários como função, diploma escolar ou distância do local de trabalho são ridículas. Era uma época na qual se acreditava ter pela frente o Estado como instância de dominação que arregimentava informação das pessoas contra sua vontade. É precisamente esse sentimento de liberdade que torna impossível qualquer protesto. A livre iluminação e o livre desnudamento próprios seguem a mesma lógica da eficiência que a livre auto exploração. Protestar contra o que? Contra você mesmo?

É importante distinguir entre o poder que impõe e o que estabiliza. O poder estabilizador adquire hoje uma forma amável, ‘smart’, e assim se faz invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer é consciente de sua submissão. Acredita ser livre. Essa técnica de dominação neutraliza a resistência de uma forma muito eficiente. A dominação que submete e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, é imunizado contra toda a resistência porque faz uso da liberdade, em lugar de submetê-la. A opressão da liberdade gera resistência de imediato. Ao contrário, isso não ocorre com a exploração com a liberdade. Depois da crise asiática, a Coreia do Sul estava paralisada. Veio então o FMI e deu crédito para os coreanos. Para isso, o Governo teve que impor a agenda neoliberal com violência contra os protestos. Hoje mal existe resistência na Coreia do Sul. Pelo contrário, predomina um grande conformismo e consenso com depressões e síndrome de Burnout. Hoje a Coreia do Sul tem a mais alta taxa de suicido do mundo. A pessoa emprega a violência contra ela mesma, em lugar de querer mudar a sociedade. A agressão ao exterior que teria como resultado uma revolução cede diante da autoagressão.

Hoje não existe nenhuma multidão cooperativa, interconectada, capaz de se transformar em uma massa de protesto e revolucionária global. Pelo contrário, a solidão do auto empregado isolado, separado, constituiu o modo de produção presente. Antes, os empresários competiam entre si. Entretanto, dentro da empresa era possível existir solidariedade. Hoje todos competem contra todos, também dentro da empresa. A concorrência total ocasiona um enorme aumento da produtividade, mas destrói a solidariedade e o sentido de comunidade. Não se forma uma massa revolucionária com indivíduos esgotados, depressivos, isolados.

Não é possível explicar o neoliberalismo de um modo marxista. No neoliberalismo não existe lugar nem sequer para a “alienação” a respeito do trabalho. Hoje dedicamo-nos com euforia ao trabalho até a síndrome de Burnout [fadiga crônica, ineficiência]. O primeiro nível da síndrome é a euforia. Síndrome de Burnout e revolução se excluem mutuamente. Assim, é um erro pensar que a multidão derrotará o império parasitário e instaurará a sociedade comunista.

E o que ocorre hoje com o comunismo? O sharing (compartilhar) e a comunidade são constantemente evocados. A economia dosharing deve suceder a economia da propriedade e a posse. Sharing is caring [compartilhar é cuidar], diz a máquina da empresa Circler no novo romance de Dave Eggers, The Circle. Os paralelepípedos que formam o caminho até a central da empresa Circler contém máximas como “busque a comunidade” ou “envolva-se”. Cuidar é matar, deveria dizer a máxima da Circler. É um erro pensar que a economia do compartilhar, como afirma Jeremy Rifkin em seu mais recente livro, A Sociedade do custo marginal nulo, anuncia o fim do capitalismo, uma sociedade global, com orientação comunitária, na qual compartilhar terá mais valor que possuir. É exatamente o contrário: a economia do compartilhar conduz, em última instância, à comercialização total da vida.

A mudança, realizada por Rifkin, que vai da posse ao “acesso” não nos libera do capitalismo. Quem não tem dinheiro, tampouco terá acesso ao sharing. Também na época do acesso continuamos vivendo no Bannoptikum, um dispositivo de exclusão, no qual os que têm dinheiro ficam excluídos. O Airbnb, o mercado comunitário que transforma cada casa em hotel, rentabiliza até mesmo a hospitalidade. A ideologia da comunidade ou do comum realizado em colaboração leva à capitalização total da comunidade. A amabilidade desinteressada já não é mais possível. Em uma sociedade de valorização recíproca a amabilidade também é comercializada. A pessoa é amável para receber melhor valorização.

Na economia baseada na colaboração também predomina a dura lógica do capitalismo. De maneira paradoxal, nesse belo “compartilhar” ninguém dá nada voluntariamente. O capitalismo chega em sua plenitude no momento em que o comunismo é vendido como mercadoria. O comunismo como mercadoria: isso é o fim da revolução.

Byung-Chun Han, filósofo

sábado, 24 de fevereiro de 2018

As contradições que permeiam a pratica das ecovilas


"As contradições que permeiam a pratica das ecovilas" - excelente artigo do Prof Luis Fernando de Matheus e Silva, professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Alberto Hurtado, Santiago de Chile; Doutor em geografia Humana pela Universidade de São Paulo.


Quando o "alternativo" é institucionalizado (GEN, Gaia Education, etc) e ao mesmo tempo cooptado pelo capital, o que resta da ideologia? E afinal, qual é a ideologia?

Nas minhas "andanças" nesse mundo "alternativo", houveram grandes desilusões.
Jovens cheios de ideais e grande energia, porém desprovidos de um mínimo de cultura e noção da realidade; grupos místico-religiosos (sim o veganismo entra bem aqui); desesperados sem plano; e por aí vai.

Não desisti e ainda acredito muito numa "sociedade alternativa", mas tendo em mente que é o núcleo sociopolítico que deve ser priorizado, "a natureza" (essa forma que conhecemos - lembrando que não existíamos na maior parte da vida do planeta) e à moral no trato dos outros seres vivos e às futuras gerações será consequência. 
Mas um grau de racionalidade, sensatez e real vontade de estabelecer um outro modo de vida está bem difícil.

Um dos últimos contatos/notícias de um dos fundadores de uma ecovila foi que ele "está vendendo sua cota porque engravidou uma moça". Ou seja, a vida real era outra. Foi a que subitamente bateu sua porta e lhe colocou diante do que ele realmente quer, do contrário, estaria montando sua família aonde seu (suposto) ideal estava.


Pra dar o tom:


"... a terceira fase da geografia histórica das contraculturas espaciais ganha envergadura a partir da década de 1990 e pode ser considerada uma espécie de continuum de toda a movimentação iniciada nos “rebeldes” anos 1960. Tal como ocorrido anteriormente, as experiências despontadas nesta etapa traduzem as questões próprias de seu tempo. Neste sentido, a privatização generalizada e a (quase) total mercadificação da vida, seguidas por todo tipo de desregulamentações e aventuras especulativas financeiras desencadeadas ao longo da globalização do capitalismo neoliberal, amplificaram, em muito, os problemas socioambientais já existentes desde os albores do capitalismo.
Assim, em virtude do recrudescimento dos mecanismos de acumulação por espoliação e do processo de “destruição criativa da terra” (HARVEY, 2010) que notabilizam o atual estágio de acumulação, não causa estranhamento que o acento na sustentabilidade esteja muito mais presente agora do que em outros momentos da geografia histórica das contraculturas espaciais, afinal de contas, “vivemos o paradoxo de jamais ter sido tão vasto e profundo o processo de dominação e devastação da natureza quanto nesses últimos 30-40 anos em que até mesmo uma questão – a ambiental – se constituiu” (PORTO-GONÇALVES, 2006, p. 65)...


...não obstante, ainda que possua uma série de fundamentos e elementos capazes de serem alocados positivamente em favor da transição a uma nova sociedade, mais ecológica e igualitária, faz-se necessário analisar o fenômeno das ecovilas de uma maneira um pouco mais cuidadosa, nomeadamente quando de sua institucionalização e consequente “adaptação funcional” ao mercado e à sociedade capitalista, visto que muitas das perspectivas adotadas pela GEN para edificar um “mundo sustentável” mostram-se limitadas e trazem consigo uma série de problemas e incoerências que devem ser esmiuçadas.

...em relação a isso, o filósofo e economista grego Takis Fotopoulos (2000) alerta para a incapacidade apresentada pelo movimento de ecovilas, tanto no plano teórico como no prático, para construir uma nova ordem mundial. Seguindo a tradição pacifista presente na geografia histórica das contraculturas espaciais desde sua gênese, os “ecovileiros” buscam edificar uma nova sociedade ecológica através da “força do exemplo”, sem confrontar diretamente o sistema hegemônico.

... Fotopoulos acusa ainda as ecovilas de não se posicionarem de forma contundente contra a verdadeira causa dos problemas socioambientais atuais, mostrando-se muito mais preocupadas em adequar-se às regras que regem a sociedade capitalista do que propriamente contrapor-se a elas. Sinais claros desta “adaptação funcional” ao atual estado de coisas podem ser percebidos na incorporação e na reprodução acrítica de um discurso “pró-empreededorismo”, bem como no desenvolvimento de uma multiplicidade de negócios, que, apesar do “selo verde”, não raro mantêm a mesma lógica capitalista.

Isto, porém, não chega a ser de todo uma surpresa, dado que muitos dos que estão ligados ao movimento institucionalizado de ecovilas pertencem às classes médias acomodadas e buscam, nas palavras de Fotopoulos, apenas construir melhores condições de vida para si mesmos, de uma maneira bastante autoindulgente.

'Não por acaso, os partidários das ecovilas não parecem influenciar os bilhões de desprivilegiados que lutam para sobreviver, tanto no sul como no norte, e sua influência parece estar concentrada entre aquelas pessoas que já têm seus problemas resolvidos e agora podem se preocupar com um estilo de vida e a espiritualidade (FOTOPOULOS, 2000).'

Contudo, o afastamento de parte considerável do movimento institucionalizado de ecovilas de um programa social e político verdadeiramente comprometido com os interesses das classes trabalhadoras, bem como a sua participação (direta e/ou indireta) na reprodução do sistema dominante, não podem ser explicados unicamente pela origem “burguesa” de seus membros. Deste modo, considera-se que a obliteração do “potencial emancipador” das ecovilas, traduzido em sua despolitização e, consequentemente, na sua bem-sucedida adequação ao status quo, repousa no fato de o dito movimento ter sido criado e desenvolvido paralelamente à ascensão do neoliberalismo. Por conta disto, resultam bastante comuns a apropriação e a reprodução acrítica de certos discursos, ideologias e práticas que compõem o “arsenal” capitalista (particularmente neoliberal), algo que fica explicitado em inúmeras ocasiões, apesar de muitas vezes ignorado por seus entusiastas.

A fé no utopismo do capitalismo verde professada por parte do movimento de ecovilas pode ser justificada quando se esquadrinham as origens da fundação dinamarquesa Gaia Trust – uma das maiores impulsionadoras da criação da Rede Global de Ecovilas (GEN) e, sem dúvida, sua principal mantenedora. Dita fundação nasceu como o braço filantrópico da companhia especializada no gerenciamento de linhas de fundos mútuos Gaia Corp, fundada em 1988 pelo empreendedor canadense-dinamarquês Ross Jackson. No ano 2000, após uma história empresarial de relativo sucesso, a Gaia Corp foi vendida ao grupo sul-africano Appeton, no entanto, a Gaia Trust, com Ross e Hildur Jackson à frente, continuou existindo, agora atrelada à Gaia Tech, empresa de venture capital responsável por investir recursos em pequenas e médias companhias “verdes” dinamarquesas, financiando seu desenvolvimento e contribuindo para levá-las a novos patamares mercadológicos.

O amálgama ambientalismo-capitalismo é assim apresentado na página web da fundação:
A estratégia da Gaia Trust sempre foi baseada numa dupla abordagem Yin e Yang. O componente Yin é o suporte ao movimento de ecovilas, através do seu subsídio, enquanto o componente Yang é o investimento de capital em recém-criadas companhias “verdes”, que complementam a política de subsídios, criando empregos e promovendo mais negócios sustentáveis. O principal projeto resultante foi o estabelecimento da Rede Global de Ecovilas e o da empresa de capital de risco Gaia Technologies S/A. Mais de 300 projetos em 30 países foram subsidiados. Um dos conceitos chave é o de suportar os primeiros cursos de permacultura em diversos países.

Sinais dos tempos: Gaia, a Mãe Terra dos gregos, tem seu significado alterado pelas mãos do Deus Capital e os mecanismos financeiros passam a ser utilizados em nome da transição rumo a uma nova sociedade mais “espiritualizada” e “ecológica”. Dessa maneira, sustentabilidade e capitalismo são explicados cósmica e naturalmente como forças antagônicas, mas complementares e interdependentes, que se integram em um todo orgânico indissolúvel. Ideologicamente, isto é da maior  relevância, visto que colabora para reforçar a ideia de que não existe alternativa para edificar uma sociedade “sustentável” sem passar pelo filtro do mercado capitalista. Sobre esta questão, David Harvey (2008) explica que muitas das mobilizações e movimentos contestatórios contraculturais surgidos a partir dos anos 1960/70 foram incorporados pelo capital e passaram a colaborar para legitimar popularmente, no nível da experiência cotidiana, a virada neoliberal. 'O efeito disso em
muitas partes do mundo foi vê-lo cada vez mais como uma maneira necessária e até completamente natural de ‘regular’ a ordem social'

 
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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A hipótese comunista

A hipótese comunista deve ser abandonada?
Se a concorrência, o "livre mercado", a soma dos pequenos prazeres e os muros que nos protegem do desejo dos fracos são o alfa e o ômega de toda existência, coletiva ou privada, o animal humano não vale um tostão furado
Alain Badiou (2008), filósofo francês, escreveu O Século, da editora Ideias & Letras, e Pequeno Manual de Inestética, da Estação Liberdade. Publicou na França De Quoi Sarkozy Est-il le Nom?, pela Nouvelles Éditions Lignes.

 https://mega.nz/#!ED4BzQII!e8YHbXv2aq0gweNwg5PE7edK4z_ox3W7jvrXhHpWhkQ
Não tenho nenhum ganho financeiro nem direto nem indireto
o que invalida a hipótese de pirataria, e no mais,  a divulgação livre
de conhecimento só é impedida por crápulas amorais e desprezíveis.


Gostaria de situar a eleição e a presidência de Nicolas Sarkozy, o qual, convenhamos, não constitui uma página grandiosa da história da França, num horizonte mais amplo. Numa espécie de afresco hegeliano, digamos, da história mundial recente. Estando entendido que por história recente não me refiro à tríade presidencial François Mitterrand-Jacques Chirac-Sarkozy, e sim ao devir da política de emancipação operária e popular iniciada há cerca de dois séculos.

Desde a Revolução Francesa e sua paulatina repercussão universal, desde os desdobramentos mais radicalmente igualitários da Revolução – entre eles as Leis do Máximo do Comitê robespierrista e as teorizações de Gracchus Babeuf -, sabemos que o comunismo é a hipótese certa. Na verdade, não existe outra, ou, em todo caso, não conheço nenhuma. Quem quer que renuncie a essa hipótese estará instantaneamente se submetendo à economia de mercado, à democracia parlamentar (que é a forma de Estado apropriada ao capitalismo) e ao caráter inevitável, “natural”, das desigualdades mais monstruosas.

“Comunismo”, o que isso significa? Como argumenta Karl Marx nos Manuscritos de 1844, o comunismo é uma ideia que se refere ao destino da humanidade. É absolutamente necessário distinguir este sentido da palavra do adjetivo “comunista”, inteiramente desgastado em expressões como “partidos comunistas”, “mundo comunista”, para não falar em “Estado comunista”.

“Comunista” tem primeiramente o significado negativo, como vemos no Manifesto do Partido Comunista: a lógica das classes, da subordinação fundamental dos trabalhadores a uma classe dominante, pode ser superada. Tal dispositivo, que é o dispositivo da história desde a Antiguidade, não é inevitável. Por conseguinte, o poder oligárquico, cristalizado no poder dos Estados, daqueles que detêm a riqueza e organizam sua circulação, não é inevitável. A hipótese comunista afirma ser possível outra organização coletiva, que eliminará a desigualdade das riquezas e até mesmo a divisão do trabalho: cada indivíduo será um trabalhador polivalente, e as pessoas transitarão entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, entre a cidade e o campo.

A apropriação privada de riquezas monstruosas e sua transmissão familiar desaparecerá. A existência de um aparelho de Estado coercitivo, militar e policial, separado da sociedade civil, já não aparecerá como uma necessidade evidente. Após uma breve sequência de “ditadura do proletariado”, encarregada de destruir os restos do velho mundo, diz Marx, haverá uma longa sequência de reorganização, com base na “livre associação” de produtores e criadores, a qual servirá de suporte para um “depauperamento do Estado”.

O “comunismo” designa tão-somente esse conjunto bastante genérico de representações intelectuais. Esse conjunto é o horizonte de toda iniciativa que, por local e limitada no tempo que seja, ao romper com a ordem das opiniões estabelecidas (ou seja, a necessidade das desigualdades e do instrumento estatal para garanti-las), constitui um fragmento de uma política de emancipação. Para usar uma expressão de Kant, trata-se de uma ideia com função reguladora, e não de um programa.

É absurdo qualificar os princípios comunistas (no sentido que acabo de dar) de utopia, como acontece com frequência. Esses princípios são esquemas intelectuais, sempre atualizados de formas diversas, que servem para traçar linhas de demarcação entre diferentes políticas. Grosso modo, uma dada sequência política ou é compatível com esses princípios, e é emancipadora no sentido amplo do termo, ou bem a eles se opõe, e é reacionária.

Se ainda é verdade, como disse Sartre, que “todo anticomunista é um cão”, é porque toda sequência política que, nos seus princípios ou na ausência de qualquer princípio, se mostra formalmente oposta à hipótese comunista, deve ser vista como contrária à emancipação da humanidade inteira – e, portanto, ao destino propriamente humano da humanidade. Quem não ilumina o devir da humanidade com a hipótese comunista (quaisquer que sejam as palavras que empregue, pois palavras importam pouco) o estará reduzindo, no que tange ao seu futuro coletivo, à animalidade. Como se sabe, é “concorrência” o nome contemporâneo, capitalista, dessa animalidade. Ou seja: guerra de interesses, e nada mais.

Enquanto ideia pura de igualdade, a hipótese comunista existe em estado prático desde os primórdios do Estado. Sempre que a ação das massas se opõe, em nome da justiça igualitária, à coerção do Estado, vemos surgir os rudimentos, ou fragmentos, da hipótese comunista. As revoltas populares, como a dos escravos liderados por Spartacus, ou a dos camponeses alemães liderados por Thomas Müntzer, são exemplos dessa existência prática.


Na forma explícita que lhe atribuem alguns pensadores e ativistas da Revolução Francesa, a hipótese comunista inaugura a modernidade política. É ela que derruba as estruturas mentais do Antigo Regime, sem, contudo, se articular com as formas políticas democráticas que a burguesia transformaria em instrumento da sua conquista do poder. Este ponto é essencial: desde o início, a hipótese comunista em nada coincide com a hipótese democrática que levará ao parlamentarismo contemporâneo. À luz da hipótese comunista, o que parece ser importante e criativo é de natureza diversa daquilo que é selecionado pela historiografia democrática burguesa. Essa é a razão por que, ao fornecer fundamentos materialistas à primeira grande seqüência efetiva da política de emancipação moderna, Marx, por um lado, retoma a palavra “comunismo” e, por outro, afasta-se de toda “politicagem” democrática — ele sustenta, com base na Comuna de Paris, que o Estado burguês, por mais democrático que possa ser, deve ser destruído.

Numa entrevista, Sartre diz: “Se a hipótese comunista não estiver correta, se não for praticável, significa então que a humanidade não é muito diferente das formigas ou dos cupins.” O que ele quer dizer com isso? Que se a concorrência, o “livre mercado”, a soma dos pequenos prazeres e os muros que nos protegem do desejo dos fracos são o alfa e o ômega de toda existência, coletiva ou privada, o animal humano não vale um tostão furado.

George W. Bush, amparado pelo conservadorismo agressivo e o espírito de cruzada, e Sarkozy, amparado pela disciplina trabalho-família-pátria, querem reduzir a imensa maioria dos seres humanos a esse “tostão furado”. E a “esquerda” é ainda pior, quando justapõe a essas violências a sua generosidade oca, o seu vago espírito de caridade. À concorrência mórbida, à vitória dos filhinhos e filhinhas de papai, ao ridículo super-homem das finanças desenfreadas, ao herói dopado das Bolsas planetárias, a esquerda oferece os mesmos atores, mas com alguma gentileza social, um pouco de óleo de nozes na engrenagem, migalhas de pão bento para os deserdados — só tomando emprestado de Nietzsche, em suma, a figura exangue do último homem.

Acabar de vez com o Maio de 68 [como defendeu Nicolas Sarkozy na campanha eleitoral] significa aceitar que não existe outra escolha senão entre o niilismo hereditário das finanças e a piedade social. É preciso, então, não apenas reconhecer que o comunismo ruiu na União Soviética, não só admitir que o Partido Comunista Francês se desfez miseravelmente, mas também, e principalmente, renunciar à hipótese de que Maio de 68 foi uma criação militante claramente consciente do fracasso do “comunismo” de Estado. Maio de 68 e mais ainda os cinco anos que se seguiram inauguraram uma nova sequência da verdadeira hipótese comunista, aquela que sempre mantém distância do Estado. Ninguém sabia, decerto, no que aquilo tudo ia dar, mas se sabia que se tratava do renascimento da hipótese.

Se Sarkozy é o nome desse estado de coisas, é preciso renunciar a toda idéia de renascimento semelhante. Se a sociedade humana é uma coleção de indivíduos que perseguem seus próprios interesses, se tal é a eterna realidade, o filósofo pode, e deve, abandonar o animal humano a esse triste destino.

Mas não deixaremos que o triunfante Sarkozy nos dite o sentido da existência nem as tarefas da filosofia. Pois isso a que estamos assistindo não impõe de maneira alguma a renúncia à hipótese comunista, e sim a reflexão sobre o momento em que estamos da história dessa hipótese.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Isso ainda é tabu

Nesta data de significado "especial", quando as pessoas resolvem se lembrar de todos mandando mensagens prontas e resolvem ser "generosas" comprando amor para (dos) os outros, esse livro vem bem a calhar.

Para Latouche o decrescimento é uma utopia concreta e, assim como para Bauman, Zizek e outros, não temos mais escolha a não ser mudar de caminho e portanto nos livrarmos do dogma do mercado.
Decrescimento ou barbárie.



Pequeno tratado do descrescimento sereno

Da um texto português da "A Pipeira":

Ordem e progresso?

O desenvolvimento, conceito etnocêntrico e etnocidário, se impôs pela sedução, combinada com a violência da colonização e do imperialismo, constituindo uma verdadeira "violação do imaginário".
O "desenvolvimento sustentável", invocado de forma encantatória em todos os programas políticos, "tem como única função", precisa Hervé Kempf, "conservar os lucros e evitar uma mudança de hábitos quase sem alterar os rumos". Falar de um "outro "desenvolvimento", como se fala de um “outro crescimento", traduz ou uma grande ingenuidade, ou uma grande duplicidade.

O crescimento, hoje, só é um negócio rentável se seu peso recair sobre a natureza, as gerações futuras, a saúde dos consumidores, as condições de trabalho dos assalariados e, mais ainda, sobre os países do Sul. Por isso uma ruptura é necessária.

De onde surgiu?

Desde o fim dos anos 1960 o conceito foi trabalhado por André Clorz, François Partant, Jacques Ellul, Bernard Charbonneau, mas sobretudo por Cornelius Castoriadis e Ivan lllich. O fracasso do desenvolvimento no Sul e a perda das referências no Norte levaram esses pensadores a questionar a sociedade de consumo e suas bases imaginárias: o progresso, a ciência e a técnica. A tornada de consciência da crise do meio ambiente trouxe uma nova dimensão: não só a sociedade de crescimento não é desejável, como ela não é sustentável!

Como se consolidou?

Três ingredientes são necessários para que a sociedade de consumo possa prosseguir na sua ronda diabólica: a publicidade, que cria o desejo de consumir; o crédito, que fornece os meios; e a obsolescência acelerada e programada dos produtos, que renova a necessidade deles. Essas três molas propulsoras da sociedade de crescimento são verdadeiras "incitações-ao-crime”.

A publicidade nos faz desejar o que não temos e desprezar aquilo de que já desfrutamos. Ela cria e
recria a insatisfação e a tensão do desejo frustrado. O sistema publicitário "apropria-se da rua, invade o espaço coletivo - desfigurando tudo o que tem vocação pública: as estradas, as cidades, os meios de transporte, as estações de trem, os estádios, as praias, as festas".

São programas televisivos entrecortados pelas inserções publicitárias, crianças manipuladas e perturbadas (pois as mais frágeis são as mais visadas), florestas destruídas (40 kg de papel por ano nas nossas caixas de correio).

Por outro lado, o uso do dinheiro e do crédito, necessário para que aqueles cujos rendimentos não são
suficientes possam consumir e para que os empresário possam investir sem dispor do capital necessário, é um potente "ditador" de crescimento no Norte, mas também, de modo mais destrutivo e mais trágico, no Sul.

Já a obsolescência programada, é na sociedade de crescimento a arma absoluta do consumismo. Em
prazos cada vez mais curtos, os aparelhos e equipamentos, das lâmpadas elétricas aos pares de óculos, entram em pane devido à falha intencional de um elemento. Impossível encontrar uma peça de reposição ou alguém que conserte. Se conseguíssemos pôr a mão na ave rara, custaria mais caro consertá-la do que comprar uma nova.

Um dado que falta nos livros e trâmites da economia: a ecologia. A nossa pegada ecológica insustentável.
Nosso crescimento econômico excessivo choca-se com os limites da finitude da biosfera. A capacidade de regeneração da Terra já não consegue acompanhar a demanda: o homem transforma os recursos em resíduos mais rápido do que a natureza consegue transformar esses resíduos em novos recursos. A humanidade já consome quase 30% além da capacidade de regeneração da biosfera. Se todos vivessem como os franceses, seriam precisos três planetas contra seis para acompanhar nossos amigos estadunidenses.

A entrada de nosso sistema em uma órbita errônea remonta ao século XVIII, mas a dívida ecológica é
recente. Em termos mundiais, ela passou de 70% para 120% do planeta entre 1960 e 1999. Além disso, para manter a biodiversidade, é essencial poupar uma parte da capacidade produtiva da biosfera para garantir a sobrevivência das outras espécies, particularmente a das espécies selvagens. 
Essas reservas de biosfera devem ser equitativamente distribuídas entre os diferentes domínios biogeográficos e os principais biomas. Com o patamar mínimo dessa parte a ser preservada é avaliado em 10% do espaço bioprodutivo, seria sensato decretar desde já uma moratória para
reservar o que ainda está disponível para as espécies animais e vegetais em questão.

Não adianta querer reduzir a população!

Não é tanto saber se somos ou não capazes de administrar o superpovoamento, mas se sabemos dividir os recursos com honestidade e equidade. Esse é o desafio do decrescimento.
O excesso de consumo de carne por parte dos ricos, fonte de vários problemas sanitários e ecológicos, exige dedicar 33% das terras aráveis do planeta (além dos 30% das superfícies emersas que constituem pastagens naturais) à cultura de forragem. Uma diminuição relativa da criação de animais com melhora do tratamento do rebanho possibilitaria alimentar uma população mais numerosa e de uma maneira mais sadia e, ao mesmo tempo, diminuir a emissão de dióxido de carbono.

A reinvenção do político

Todos os regimes modernos foram produtivistas: repúblicas, ditaduras, sistemas totalitários, fossem seus governos de direita ou de esquerda, liberais, socialistas, populistas, social-liberais, social-democratas, centristas, radicais, comunistas. Todos propuseram o crescimento econômico como inquestionável a seu sistema. A mudança indispensável de rumo não é daquelas que uma simples eleição poderia resolver instituindo um novo governo ou votando a favor de outra maioria. O que é necessário é bem mais radical: uma revolução cultural, nem mais nem menos, que deveria culminar num a refundação do político.

Tentar esboçar os contornos do que poderia ser um a sociedade de não crescimento é um pré-requisito de qualquer programa de ação política que respeite as exigências ecológicas atuais. O decrescimento é portanto um projeto político, um projeto de construção, no Norte e no Sul, de sociedades conviviais
autônomas e econômicas, sem por isso ser um programa no sentido eleitoral do termo: ele não se inscreve no espaço da política politiqueira, mas visa devolver toda a sua dignidade ao político.

A revolução exigida para a construção de uma sociedade autônoma de decrescimento pode ser
representada pela articulação sistemática e ambiciosa de oito mudanças interdependentes que se reforçam mutuamente. Podemos sintetizar o conjunto delas num "círculo virtuoso” de oito "erres": reavaliar (velhos valores "burgueses"), reconceituar (riqueza e de pobreza ou escassez e abundância, enfrentar o desafio do desaparecimento dos recursos naturais.), reestruturar (adaptar o aparelho produtivo e as relações sociais em função desses novos valores), redistribuir (não se tratará tanto de dar mais, e sim de extrair menos. A pegada ecológica é um bom instrumento para determinar os "direitos de saque" de cada um), relocalizar (produzir localmente, no que for essencial, os produtos destinados à satisfação das necessidades da população), reduzir (diminuir o impacto sobre a biosfera de nossos modos de produzir e de consumir, limitar o consumo excessivo e o incrível desperdício de nossos hábitos), reutilizar-reciclar (reduzir o desperdício desenfreado, combater a obsolescência programada dos equipamentos e reciclar os resíduos não reutilizáveis diretamente).

Esses oito objetivos interdependentes são capazes de desencadear um processo de decrescimento sereno, convivial e sustentável.

Três Rs têm um papel "estratégico’’: a reavaliação, porque ela preside a toda mudança, a redução, porque ela condensa todos os imperativos práticos do decrescimento, e a relocalização, por que ela concerne à vida cotidiana e ao emprego de milhões de pessoas.

Outras reduções necessárias

- O turismo de massa, o inimigo público ambiental número 1. Segundo a Federação Artesãos do Mundo, num pacote de viagens de 1000 euros, menos de 200 euros em média ficam com o país hóspede. Viajamos às expensas do planeta. Temos de reaprender a sabedoria dos tempos passados: desfrutar da lentidão, apreciar nosso território.

- Reduzir o tempo de trabalho. Não construiremos uma sociedade serena de decrescimento sem recuperar as dimensões recalcadas da vida: o prazer de cumprir seu dever de cidadão, o prazer das atividades de fabricação livre, artística ou artesanal, a sensação do tempo recuperado para a brincadeira, a contemplação, a meditação, a conversação, ou até, simplesmente, para a alegria de estar vivo.

Inventar a democracia ecológica local

Recuperar a autonomia econômica local. A reconquista ou a reinvenção dos commons (bens comunais, bens comuns, espaço comunitário) e a autoorganização de "bioregiões" constituem uma ilustração possível dessa postura. Um novo tramado orgânico do local (possibilitar que as pessoas estejam mais juntas, com o estiveram até os anos 1960, graças, entre outras coisas, a escolas rurais e empresas ’familiares’, as quitandas de esquina e cinemas de bairro, em vez de passarem a vida viajando no circuito entre complexos escolares, zonas industriais e hipermercados da periferia).

O programa da relocalização implica a busca da autossuficiência alimentar em primeiro lugar, depois
econômica e financeira. Conviria manter e desenvolver a atividade básica em cada região: agricultura e horticultura, de preferência orgânica, respeitando as estações. Considerar inventar "moedas biorregionais”.

Norte x Sul

Primeiro, é claro que o decrescimento no Norte é uma condição para o florescimento de qualquer forma de alternativa no Sul. Enquanto a Etiópia e a Somália estiverem condenadas, no auge da fome, a exportar alimentos para nossos animais domésticos, enquanto engordarm os nosso gado de corte com farelo de soja obtidas pelas queimadas da Floresta Amazônica, asfixiaremos qualquer tentativa de verdadeira autonomia no Sul.

Outros "erres", alternativos e complementares ao Sul como Romper, Reatar, Resgatar, Reintroduzir,
Recuperar - etc.

Reatar com o fio de uma história interrompida pela colonização, o desenvolvimento e a globalização.
Resgatar e se reapropriar de um a identidade cultural própria. Reintroduzir os produtos específicos esquecidos ou abandonados e os valores "antieconômicos" ligados ao passado desses países. Recuperar as técnicas e práticas tradicionais.

A auto-organização por meio do "jeitinho" dos excluídos da modernidade econômica é um exemplo de construção de sociedade autônoma econômica sustentável, em condições infinitamente mais precárias do que seriam as sociedades de decrescimento no Norte, sem nada ficar a dever, ou quase nada, às elites intelectuais e políticas do continente. Essa capacidade não só de sobreviver, mas também de construir uma vida completa à margem da sociedade mundial de mercado, se estabelece sobre três tipos de bricolagem: imaginária, com a proliferação dos cultos sincréticos e das seitas (inclusive nos países muçulmanos, com as confrarias e suas dissidências); tecnoeconômica, com a recuperação engenhosa, industriosa e empreendedora (em oposição à racionalidade econômica ocidental: engenheira, industrial e empresarial); e sobretudo social, com a invenção de um laço "neoclânico” (pelas participações cruzadas numa grande quantidade de associações).

O após-desenvolvimento, necessariamente plural por outro lado, significa a procura de modos de desenvolvimento coletivo em que não seja privilegiado um bem-estar material destruidor do meio ambiente e do laço social. O objetivo da "boa vida" pode se expressar de muitas formas, conforme os contextos. Em outras palavras, trata-se de reconstruir/resgatar novas culturas.

R-evolução e re-encantamento

Trata-se por certo de uma revolução. "Revolução não significa nem guerra civil nem derramamento de sangue". "A revolução", prossegue Castoriadis, "é uma mudança de certas instituições centrais da sociedade pela atividade da própria sociedade: a autotransformação explícita da sociedade, condensada num breve espaço de tempo. A revolução significa a entrada de parte essencial da comunidade numa fase de atividade política, isto é, instituinte. O imaginário social se põe a trabalhar e se dedica explicitamente à transformação das instituições existentes."

É possível pensar a transição mediante um programa quase eleitoral, que em certos aspectos extrai as
consequências "de bom senso" do diagnóstico efetuado acima. Por exemplo:

1) Resgatar uma pegada ecológica igual ou inferior a um planeta, ou seja, mantidas constantes as outras coisas, uma produção material equivalente à dos anos 1960-1970. Com o seria possível reduzir nossa pegada ecológica em cerca de 75% sem voltar à idade da pedra? Simplesmente desinchando maciçamente os "consumos intermediários”, entendidos em sentido amplo (transportes, energia, embalagens, publicidade), sem afetar o consumo final. O retomo ao local e a caça ao desperdício contribuiriam para isso.

2) Integrar nos custos de transporte os danos gerados por essa atividade, por meio de ecotaxas apropriadas.

3) Relocalizar as atividades. Sobretudo questionando o volume considerável de deslocamentos de homens e de mercadorias no planeta, considerando-se o impacto nefasto deles sobre o meio ambiente.

4) Restaurar a agricultura camponesa, on seja, estimular a produção mais local, sazonal, natural,
tradicional possível, (suprimir progressivamente o uso de pesticidas químicos alergênicos, neurotóxicos, imunodepressores, mutagênicos, carcinogênicos, perturbadores endócrinos e, portanto, reprotóxicos (que podem provocar esterilidade).

5) Transformar os ganhos de produtividade em redução do tempo de trabalho e em criação de empregos, enquanto persistir o desemprego. É preciso inverter as prioridades: dividir o trabalho e aumentar o lazer.

6) Impulsionar a "produção" de bens relacionais, como a amizade ou o conhecimento, cujo estoque disponível, "consumido" por mim, não diminui, muito pelo contrário.

7) Reduzir o desperdício de energia por um fator 4.

8) Taxar pesadamente as despesas com publicidade.

9) Decretar uma moratória sobre a inovação tecnocientífica, fazer um balanço sério e reorientar a pesquisa científica e técnica em função das novas aspirações.

"Não é possível resolver a crise ambiental sem resolver os problemas sociais", dizia Murray Bookchin em 1992"'. Sem dúvida, mas hoje a recíproca talvez seja ainda mais verdadeira.

Sem um "reencantamento" da vida, também o decrescimento estaria fadado ao fracasso. Resta a necessidade de devolver sentido ao tempo liberado.

Enquanto o trabalho assalariado não for transformado, as classes laboriosas não terão "aptidão para o lazer", ou seja, "os meios objetivos e subjetivos para ocupar o tempo liberado mediante atividades autônomas". Um tempo qualitativo.

Se por um lado, Big Brother é anônimo, por outro, a servidão dos sujeitos é hoje mais voluntária que
nunca, pois a manipulação da publicidade comercial é infinitamente mais insidiosa que a da  propaganda política. Como, nessas condições, enfrentar megamáquina? Se não insistimos na crítica específica do capitalismo é porque nos parece inútil chover no molhado.

Uma "superação” (se possível, em boa ordem) da modernidade, sair do desenvolvimento, da economia e do crescimento não implica renunciar a todas as instituições sociais que a economia anexou, mas implica reinserí-las numa outra lógica.

Questionar a devastação da natureza, ou mesmo o massacre das outras espécies, e sair de um antropocentrismo estreito. Por isso é que nosso combate se situa decididamente contra a globalização e o liberalismo econômico.

Uma crítica do desenvolvimento, do crescimento, do progresso, da técnica e, finalmente, da modernidade, evidenciada pela ditadura dos mercados financeiros, implica em uma ruptura com o ocidentalocentrismo.

A realização de um a sociedade do decrescimento passa necessariamente por um reencantamento do mundo.