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domingo, 27 de julho de 2025

Sem grandes rupturas não há mudança

O tempo e o espaço estão entrelaçados.

Não estou falando sobre a Teoria da Relatividade Especial de Einstein.

Na sociologia (da qual não tenho nenhuma expertise)  intuo que sim também.

Pincelei algo no meu post anterior, mas andei refletindo um pouco mais agora tendo um pouco a mais de experiência "espaço-temporal" num ambiente rural, de horizontes abertos.

Nesses anos todos de "grupinhos", gente "bacana alternativa" e "intelectuais que não saem da bancada", o que mais ouvi - com pequenas nuances no discurso, uns menos sofisticados e outros mais prolixos - foi que são as micro rupturas é que abrem espaço pras mudanças.

Olhando pra trás e analisando minha reflexão sobre esse "espaço-tempo sociológico", definitivamente não concebo que micro rupturas mudem algo numa ideologia capitalista tão arraigada, que coopta tudo, do desejo aos sonhos, do espaço ao tempo. Essa última extorsão, em especial, na nossa sociedade acelerada (Hartmut Rosa) é altamente representativo.

Mas me debrucei sobre o espaço.

Sem o espaço físico, o tempo não se liberta totalmente.



Qualquer um que já foi, por exemplo, em cassinos ou casa de bingo, nota que os espaços devem ser cuidadosamente estudados para que o tempo seja muito bem direcionado.

O aumento do espaço físico e do horizonte, sob a ótica do aumento da independência individual ou em comunidades intencionais é meio fácil de notar, mas como ele tem o poder de quebrar os domínios da lógica capitalista deveria ser melhor estudado.

Com esse horizonte aberto, a cooptação do capital sobre o tempo, o desempenho, as obrigações inúteis e o tempo ego narcisista começam a ruir. Sem os detalhes todos dos sutis controles, desde o horário do caminhão de lixo, do supermercado, do ir e vir urbano dos horários de rush, etc, esse domínio vai ruindo.

Os tempos do Sol não são muito exatos numa miríade de belos sons e belas imagens num ambiente mais amplo e distante das referências urbanas.

O tempo começa a ser dar bem com você novamente. As experiências começam a voltar a um tempo neuronal mais humano, as suas reflexões sobre suas cobranças indevidas de produtividade, competição, desejos tolos e falta de tempo pro outro começam a desvanecer.

Há um aumento na gentileza consigo mesmo ao abraçar essa pequenez difusa nesse espaço-tempo maior. O sentido muda, ou, até mesmo, a falta de sentido. O inútil do ponto de vista mercantil; o sem objetivo ou que se reobjetiva no processo; a conclusão que pode ser o inconcluído.

Talvez seja meu cérebro TDAH que seja deficitário (apesar de gostar dele assim 😌) e o seu, super privilegiado, consegue se abstrair no espaço exíguo. Eu não acredito e espero que você também não, pois se você perdeu o "será?" do vocabulário da auto crítica me parece que sua mente não é tão super privilegiada assim.

Alinhavando (eu acho) o título, esse "espaço-tempo sociológico" me reforçou a suspeita que pequenas rupturas nada fazem ao status quo. O capitalismo simplesmente se apropria delas. Seja o plantar da muda que vira um curso de permacultura ou pior ainda, uma visita ao garden da cidade; seja a reuniãozinha de trocas de sementes que vira capital social; seja o mutirãozinha de "gente bacana" que se vai 'quando se tem tempo'.

Sem se aventurar nesse espaço-tempo amplo, temo que não há esperança pra mudança.



A mas eu preciso sobreviver...
Bom, não sei se isso é argumento, sobreviver é algo subjetivo, e nossos desejos - reforçando - foram cooptados pelo capital. Fuga, auto sabotagem, desculpa ou simplesmente amoralidade. Possivelmente um pouco de cada.

Essa é a ideia da imersão no espaço-tempo capitalista: fazer você acreditar que não há saída e com isso, a zona de conforto, a naturalização e a auto alienação fazem o resto.


quarta-feira, 19 de março de 2025

10 anos depois. Grupos e outras considerações

Voltei a escrever pra ninguém, pra deixar esse feedback pra mim mesmo.

E lá se foram mais de 10 anos após conhecer ecovilas e comunidades intencionais.

Já postei sobre o assunto várias vezes, começando mais ou menos por aqui e aqui.

Resumindo antes de continuar: ainda acho a única saída pras pessoas e principalmente para o planeta, digo, a vida.

O que se passou nesses anos?

Quando resolvi vender meu único bem pra viabilizar isso, eu tinha duas frentes: comprovar que as pessoas (generalizando) são "fogo de palha" e, obviamente, tornar meu ideal uma realidade.

Muitos grupos diziam (dizem) que só faltava a grana pra 'acontecer'. Meu primeiro ponto. Quando levantei a verba, tchan! Muita gente enrolou aqui ou ali. O que queriam era apenas a masturbação mental da vida no campo.

Eu já escrevi sobre a dificuldade das pessoas em restaurar um senso de comunidade, principalmente que o coletivo tenha alguma prioridade em suas vidas e que o diálogo (incluindo frustrações, negativas e conflitos) seja de fato amplo.

Mas percebi um complicador adicional: muita gente não tem a menor ideia sobre si e o que querem.

Hartmut Rosa definiu bem: auto alienação.

Claro, diremos, "ah, mas isso eu já sabia". Bem, esses mesmos que "já sabiam" não sabem de si.

Mesmo o mais riponga dos caras pode sair (sair mesmo) culpando os outros.

E tem os sujeitos que dizem barbaridades como "eu quero viver como um mendigo", numa tentativa de fazer um marketing pessoal da sua simplicidade. Além de um desrespeito a quem passa por tal situação, tem a mentira descarada sobre si mesmo. Resultado: desistem e "saem atirando" ou permanecem como espectadores.


A terrinha

Mas entre idas e vindas, a terrinha está adquirida, minha casa construída e eu virei um neo-rural.

O grupo? 
Bem, capenga.
Uns como eu disse "saíram atirando" e outros porque sua individualidade sempre será mais importante. Note, coletividade e individualidade são um equilíbrio complicado e sempre será uma balança difícil, mas se a comunidade fica sempre por último, é certamente um mal sinal. Não sou letrado, mas dá pra intuir começando com Freud, Bauman, Bell Hooks...

Quem ficou ainda tateia suas escolhas e tem o coletivo como algo que está sempre na última linha de suas prioridades.

Pessoalmente sigo tocando o barco.

Meus estranhamentos só foram nas minhas próprias sensações.

Nunca achei que só seriam flores, vida bucólica e idealismos infantis de "vida natural", aliás, por ser cético sempre fui acusado de pessimismo e até de "energias negativas" sabe-se lá que bobagem é essa.

A tal natureza (isso que convencionamos chamar de natureza) é indiferente a nós e, portanto, apesar da vida incrivelmente prosperar quando não é perturbada, ela não prospera como desejamos ou sob nossa vontade. A morte e a dor estão sempre à espreita.

Mas se vc aceitar isso, a experiência vale a pena sim. E muito.

E vc vai entender que a morte não está à espreita na cidade, vc já está morto nela e não sabe; a dor é constante na cidade, vc que a naturalizou. 


Aprender é a primeira satisfação. Uma miríade de coisas numa sala de aula real da vida real.

Desde o acompanhamento da fauna e flora à resolução de problemas cotidianos que requerem técnica e ferramentas. Daria pra escrever capítulos nessa parte.

Suas necessidades mudam (e tem que mudar mesmo!) e seu senso estético e higienista também.

Mas a sensação de reconexão com o "tempo lento" e o "espaço aberto" é algo meio inexplicável.

Esses dois 'fatores' (pra quem sabe contemplar e aproveitar) afetam nosso pensamento e afetos de maneira estranha. As dimensões se ampliam e a linearidade de uma vida de trabalho/consumo se dissolvem. E não é possível quebrar esse ciclo na cidade, local hermético, sólido, linear, setorizado e, em todas as interpretações, sem horizontes.

Só isso já bastaria pra compensar as "inconveniências" (o que a sua zona de conforto e a naturalização solidificaram como conveniências) da vida rural.

E se o seu 'grupo' da cidade se esfarela, um grupo local se forma quando vc é solicito e amistoso.

Com a exponencial degradação ambiental, mais e mais faz sentido readquirir (um pouco) de poder e independência, coisa só possível pra quem tem terra.

E dizer que se trabalha mais no campo só pode ser compreendido se a afirmação se refere a um empregado/explorado do agronegócio ou se vc acha "natural" a exploração da vida mecânica na cidade e sua miríade de doenças civilizatórias. Como dizia Masanobu Fukuoka, gosto da minha agricultura porque trabalho pouco.


Seriam muitas páginas a escrever numa época que só se lê mensagens de whatsapp e tweeter. Enfim, quis alimentar meu diário tantos anos depois.



 


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Grupos? Que grupos? (Parte 2 - oscilando para a euforia)

Esse fim de semana fui novamente na ecovila Tibá em São Carlos.
Minha primeira visita foi de um dia há uns 4 meses. Minhas ótimas impressões, a incrível sensação de carinho de pessoas espetaculares e um certo sentido de ressignificância da vida já me deram certeza de que iria voltar.

Dessa vez marquei com meu grupo (essa coisa caótica de agrupar os desconhecidos que ando postando) do facebook (blergh!) e conseguimos ir em 7 pessoas por um fim de semana todo, participando de mutirões e podendo interagir mais com as complexidades de uma comunidade intencional.

Essas 7 pessoas de uma forma geral são aquelas que tomaram a pílula vermelha (vide “Matrix”, anteriormente “Alice no País das Maravilhas” ou vá direto a Lacan se quiser algo mais denso) e passam pela angústia de “acordar” num mundo estranho, de estar flutuando sem referências, de se sentir deslocado no próprio espaço-tempo.
Nos encontrar também foi interessante e uma sensação meio estranha mas agradável de tatear aquele outro que também está “flutuando”, todos repletos da carga do medo e da dificuldade de sair da zona de conforto na qual a sociedade cristalizada nos impôs.

Como deficientes visuais nesse braile social tentamos visualizar o outro.
E a angústia da lugar a uma sensação de pertencimento, acolhimento, carinho e solidariedade. Histórias variadas que se cruzam e passam a não estarem mais sozinhas.
Sem a fantasia do paraíso idílico ou de amores sem conflito, reconhecemos a possibilidade da construção de alternativas como a que vivenciamos nesses dias.

Gerenciando os conflitos de maneira sadia, misturando o labor (Arendt) com o ócio criativo (Russell), rido e chorando, criando e encarando a burocracia obrigatória, enfim, se desconstruindo e se construindo com e pelo grupo no melhor do ser e do nada (Sartre).

Participamos de atividades no sistema agroflorestal, das refeições em grupo e da confraternização aberta a comunidade numa pizzada fantástica feita em forno a lenha ao redor de uma fogueira.
Conhecemos nesta ‘festa’ os antigos do grupo, que apesar de não mais viverem lá ou nunca terem ficado direto lá, participam ativamente dos conselhos; o grupo de permacultura urbana que é parceiro em vários projetos sociais; umas pessoas do CSA (interessante grupo/movimento chamado Comunidade Sustenta a Agricultura); e visitantes simpatizantes da vila.

Fomos embora no meio da assembleia, um momento burocrático necessário, onde foram decididos alguns realinhamentos e a aprovação de novos moradores fixos.
Uma ecovila de verdade é viva, mutante, em constante criação e refinamento, assim como seus participantes.

Aprender a voar é difícil. É não ter respostas prontas. É não ter certezas. É viver em alguma conformidade com seus ideais, ainda que eles também sejam dinâmicos.

Admito que oscilo entre a euforia e a decepção (apenas com a maior parte das pessoas que às vezes me brocha, pois a alternativa, ainda que não exata, está bastante apontada), mas procuro exercer o máximo do meu ceticismo e da minha racionalidade para me manter com alguma persistência nessa busca.

A despedida foi triste e alegre.
Triste no sentido de que queríamos ficar mais. Uma das unanimidades entre nós 7.
Alegre pois sabemos que as portas estarão sempre abertas para nós, que esse canal de diálogo contínuo estará sempre ativo.

Alguns integrantes da vila amorosamente nos perguntaram "por que não ficam aqui numa longa estada para ver se não juntam forças a nós definitivamente?"
Um convite incrivelmente emocionante que me deixou imensamente honrado (ainda que o lado racional me avise que shit happens), mas que foi prontamente compreendido pelo exposto por mim, onde indiquei, dentre outras coisas, meu desejo de encarar o difícil início e de deixar um ínfimo legado ao mundo que é preservar um pequeno pedaço da Mata Atlântica.

O tempo será meu juiz e meu professor.

Caminhemos.



terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mutirão, oficina, trabalho voluntário

Achei que tinha ido a meu primeiro mutirão.
O evento não foi chamado de mutirão, mas de oficina. Dependendo da definição pode se julgar que não foi uma coisa nem outra. Se o meu relato for confiável julgue você mesmo.
Além de cética óbviamente é uma análise pessoal.
 
De maneira geral sempre achei os mutirões, que não são novidade nenhuma, muito positivos. São pessoas se organizando pelo bem comum ou individual, se livrando das garras da iniciativa privada, do capital e do monetarismo e, mais importante, criando um senso de comprometimento e união da comunidade em torno de assuntos de seu interesse.
 
Essa oficina foi organizada por uma ONG de Santos que organizou e mobilizou as pessoas em prol de uma comunidade em Itanhaém, litoral sul de SP. Basicamente foi (no momento desta redação está sendo e aliás há mais de uma ano) para criar um espaço público num terreno da prefeitura, limpando, plantando, criando um lago, um campinho, arquibancada e áreas de jogos com mesas, cadeiras e pergolado.
 
Além de ajudar, as pessoas (que vem de várias cidades diferentes) também aprendem a lidar com diversos tipos de materiais e técnicas como construção em solo-cimento, ferro-cimento, estruturas com bambu (moveis e seu uso na construção), etc. Tudo depende das necessidades e do projeto em questão.
 
As pessoas que conheci são muito legais e de bom papo. Gringos, universitários, “ativistas crônicos”, “new hippies-doara”, “patricinhas que querem incluir fotos de como sou legal no facebook”, etc. Um senhor de 81 anos também foi, o que não permitiu que eu fosse o ancião do grupo. Aliás depois descobri que ele é de Peruíbe e pai de uma moça que conheci numa reunião da “talvez futura comunidade”.
 
Unem-se na hora moradores também, inclusive alguns que resolvem descolar um rango, água e sucos pro pessoal.
 
A organização é meio precária pois depende muitas vezes de doações, disposição de materiais e boa vontade da iniciativa privada ou pública, apesar de que isso quase que na maioria das vezes é feito à revelia do poder público.
Dado o tipo de atividade e sistema envolvido isso não chega a ser um complicador.
 
O “orientador” foi um japa (codinome ‘Peetssa’) muito gente boa e com vivências na África, Amazônia e outros lugares que não me recordo. Por coincidência ele e outro sujeito que estavam lá estão tentando uma comunidade em Pedro de Toledo, aqui perto.
 
Fizemos um aquecimento ao chegar, com alongamentos e uns lances meio yoguis-taichi-sei lá o que.
Baboseiras energéticas à parte foi gostoso, relaxante e ao mesmo tempo nos preparou bem para o trabalho.
Trabalhamos bastante numa pegada forte e bem produtiva. A orientação era do tal “Peetssa” mas a dinâmica dos trabalhos mudava constantemente até de forma meio intuitiva, quando uns cansavam de uma coisa iam fazer outra, outros faziam uma pausa pra descansar e beber água, etc.
 
Levei uns lanches pois não sabia como rolaria essa questão.
Na hora de rangar fomos pra uma escola municipal ao lado onde umas moradores fizeram umas comidas e descolaram umas bebidas, que associados ao que um ou outro levou deu um piquenique legal.
Minha pegada escrota não poderia deixar de anunciar que meu almoço continha carne pois eu sou um “vegetariano radical que só come vegetais processados por outro animal na forma dele mesmo”. Para minha surpresa não apanhei, houveram risos e outras pessoas anunciaram que mandavam um bicho morto pra dentro também. Claro que teve uma ou outra mocinha xiita que fez cara azeda de desaprovação moral.
 
De modo geral, apesar do cansaço e de uma leve queimadura solar, foi tudo legal. O segundo dia (domingo) foi no mesmo esquema mas desta vez nem levei rango e fomos ralando até às 19:30.
 
O que me incomoda então?
 
Inicialmente o nome. Creio que o mais apropriado seria trabalho voluntário e fim de papo.
 
Bem, o papo das “energias e chakras” é outro, mas isso é bastante tolerável e eu simplesmente faço cara de paisagem e emito aquele clássico ‘humm, certo’, e no mais, as atividades em si são iguais a qualquer alongamento de marombagem em si. Como eu sempre digo, um cético ateu pode ser solidário e ter compaixão, discussões inseridas na ética, matéria em discussão há quase 2500 anos (tomando como referência a Grécia antiga, pois nem estou contando outras culturas orientais ateístas ou até mesmo pré-americanas) sem a necessidade de nenhuma divindade ou demais trololós místicos, mas cada um que fale com o duende que quiser.
 
Os derradeiros e mais importantes são os “primo-irmãos” a seguir.
 
A sensação de ser um intruso na comunidade paira no ar. Os bacaninhas que participam e ajudam de várias formas são minoria, pois a maioria (esmagadora) sofre da falta de educação tradicional e da completa falta de engajamento, portanto caras de espanto e estranhamento são frequentes. Vandalismo também.
 
A desconfiança a cerca do processo das ONG`s também me acompanha. Talvez seja o viés capitalista cochichando no meu ouvido, talvez não. A ONG apresenta um projeto que é aprovado por um banco público que libera a verba, e esta realiza o trabalho com o uso quase que exclusivo de um grupo de voluntários. Sistema informado diretamente pelos responsáveis.
 
As ONG`s (generalizanto talvez injustamente) e essa “sensação de ser intruso” evidentemente estão entrelaçadas. Ao invés do projeto ser levado à comunidade (longas coversas com uma maioria e não “meia dúzia”) para que se discuta e se chegue a soluções comuns e com uma boa parte desta coletividade envolvida nas questões, essas entidades quase que vem como o “ser magnânimo que vem trazer benefícios a ela”. Esse processo verticalizado praticamente aniquila o conceito original dos mutirões ainda que sobrem boas intenções e idealismos juvenis (ou apenas alguns créditos na faculdade, pontos na empresa ou fotinhos de “como sou bacaninha” no facebook) e fatalmente gera as tais “caras de espanto e estranhamento”.
 
Nesse bolo de sensações fica aquela impressão de inutilidade do esforço, com uma ONG que (ainda supondo sua total idoneidade) organiza as coisas verticalmente de baixo para cima com o inevitável descomprometimento da comunidade e com uma grande maioria de moradores que acha uma bela merda aqueles “playboys dando uma de bonzinhos que só querem massagear seus egos”.
 
Veja, são sensações conflitantes, mas infelizmente elas tem motivos de existir.
 
No final de novembro ficarei um fim de semana num mutirão numa ecovila que já visitei.
Acho que esses mutirões se enquadram mais nos meus ideais e nos “seus conceitos clássicos”. A comunidade em questão é uma que você participa ou ao menos simpatiza, todos tem o cuidado com todos (o processo é horizontalizado) e não há influência de nenhum “grupo organizado”.
 
Enfim, o bom de ser cético é que sou cético inclusive com os meus julgamentos.
 
 
 
 
 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ecovilas e pluralidade

Estou no meio de uma tormenta pessoal acerca da descoberta e dos estudos relacionados a ecovilas e comunidades sustentáveis.
Esse assunto veio de encontro a mim durante meu processo de mudança de estilo de vida (admito que já dura anos dada a força da ideologia vigente e meus próprios medos), que começou com questões a cerca da simplicidade, ética, respeito ao meio ambiente e convívio social com um grupo semelhante. Tem mais coisas mas não vem ao caso por hora.

Lendo, tudo me parece interessante. Visitando (ao menos a única que posso dizer mais perto do conceito de ecovila) também.

Os pilares e conceitos das ecovilas e da permacultura estão na net pra quem quiser pesquisar, mas ao criar um grupo no facebook me deparei com umas (muitas, infelizmente boa parte) pessoas que sinceramente estariam longe do que eu desejaria ter no convívio cotidiano.

A pluralidade é um desses pilares e o respeito às diferenças também, mas como conciliar e aceitar certas coisas que são incompatíveis com isso sem parecer antidemocrático?

Vamos analisar alguns casos exemplos:

  1. Um testemunha de Jeová deseja participar do grupo. Seguem dogmaticamente a bíblia (e sinto muito mas, por si só, isso já é uma calamidade intelectual - não desdobrarei aqui o porque dessa opinião) e, também como exemplo, se dizem contrários a homossexualidade (com aqueles argumentos toscos tradicionais). Como é possível conviver numa suposta comunidade onde devemos conviver e respeitar as diferenças? Por que eu toleraria alguém desse tipo?
  2. Um evangélico deseja participar do grupo. Como quase todas as religiões, suas verdades são mais verdades que a dos outros e como muitas dissidências do catolicismo, por exemplo, pregam que o acúmulo material é um sinal de bênção. Como é possível conviver numa suposta comunidade onde a simplicidade do necessário (apesar de tema subjetivo) é uma das virtudes? Por que eu toleraria alguém desse tipo (admito que me surpreendeu um grupo progressista de evangélicos com alguns questionamentos aos demais)?
  3. Veganos vem aos montes. A maioria deles (veja, não estou generalizando) tem uma posição bastante religiosa do assunto, onde sempre discursam como os detentores da moralidade e da verdadeira ecologia (mas eles ainda matam os vegetais para sobreviver), tão cheios de certezas quanto o Estado Islâmico. Como é possível conviver numa ecovila onde por princípio (mesmo no que se refere aos ideais da permacultura de Bill Mollison) não existe essa intransigência?
  4. Uma figura com sua página pessoal repleta de ódio aos menores de idade (a discussão da maioridade penal, mais precisamente a eficiência de uma medida dessas e que tipo de "solução" é essa passa ao largo dessas pessoas devido a sua impermeabilidade cultural) e toda a argumentação rasa como um pires sobre isso solicita sua entrada no grupo. Porque eu devo permitir? É antidemocrático talvez mas qual é o limite da minha tolerância com pessoas tão inflexíveis e de certo com deficiências de formação cultural que a impedem de dialogar com um grupo?
  5. Outra diz querer fugir dos "petralhas" em uma vila?! Sem entrar no mérito da questão mas já entrando, a polarização irracional nunca trouxe nada a nenhuma civilização e a falta de visão histórico-social de uma pessoa dessas compromete sua própria capacidade de diálogo sadio num grupo. Num mundo (isso não é nosso privilégio) onde a financeirização compromete as relações, se apodera do estado, acaba com a representatividade e nos subtrai o senso de valor e justiça, como achar que vive-se numa democracia e este ou aquele grupo são mais apropriados que outro, ainda mais quando os fatos atuais (vide os financiadores de campanhas iguais a ambos os lados) e a história derrubam essa defesa? Não consigo ser democrático com esse grupo do ódio também.
Apenas alguns exemplos que ilustram minha preocupação com a formação do grupo, o que tanto para os artigos escritos pelos idealizadores quanto para as pessoas que conversei dessas comunidades é o mais importante numa ecovila.

No geral, por razões óbvias, a própria natureza do movimento das ecovilas afasta os mais reacionários, e não cheguei a encontrar nelas pessoas desse tipo, mas no mundo virtual elas proliferam até para onde elas mesmo não desejariam.

Por princípio adotei uma norma, ainda que passível de discussão como tudo e pareça paradoxal, de não ser democrático (tentando remeter a igualdade em sua melhor forma) com o não democrático.

Claro, estou aberto a diálogo.
Expus minhas preocupações e métodos rudimentares que criei de tentar contorná-las.
Procuro me guiar pela ética (diferente de moral) ainda que ela também seja passível de discussão. 
As escolhas pessoais, ora, são pessoais! 
Elas são sadias quando não se sobrepõe a liberdade do outro e nem a tolhem de nenhuma maneira.
Para mim, entre erros, acertos e tendo noção que corro o risco de ser injusto, há alguns tipos de pessoas que realmente não me interessa conviver.

É um exercício permanente da autocrítica e aprendizado, mas até hoje, com 45 anos e tendo convivido com uma razoável amostragem de pessoas desse meu país, os cristalizados e dogmáticos em geral estão na lista dos que eu quero distância.

Se eu não me expor (ao menos o que considero tolerável) a um grupo que pretendo conviver que tipo de hipócrita eu serei?



sexta-feira, 12 de junho de 2015

Vegetarianismo e veganismo. Vamos ser racionais?

Vou começar pedindo calma e racionalidade.
Meditemos, tomemos chá de erva cidreira e entoemos mantras.

Iniciarei com algo que me parece um consenso. Uma espécie de cachimbo da paz.
O agente Smith (lá do Matrix) disse a célebre frase: "You are a virus".
Diferente do que pensam as mães classe média ocidentais, parimos (as mulheres obviamente) facilmente e somos muito resistentes. Os mais de 7 bilhões de humanos são a prova disso.

Somos a única espécie viva que altera o próprio caminho da evolução biológica e altera drasticamente o equilíbrio do seu meio ambiente, portanto, direta ou indiretamente, matamos, destruímos e pilhamos. O Dalai Lama inclusive.
O "santo ecológico" seria um suicida sem filhos, já que procriar aumenta exponencialmente seu impacto ambiental.

Bom, acho que concordamos a grosso modo nessa primeira parte.

Agora vamos ao assunto principal. É agora que a aumenta a tensão.

Comer carne faz mal e/ou seu consumo reduz expectativa e/ou qualidade de vida.
Não há evidência nenhuma que sustente isso, nem sequer do ponto de vista da biologia evolutiva.
O inuits comem quase exclusivamente gordura de foca e não tem hipertensão nem diabetes e nosso aparelho digestivo é tipicamente um sistema de processar tudo. Veja nosso intestino por exemplo, nem tão curto como de um carnívoro nem tão extenso quanto de um herbívoro.

Bom, essa segunda parte gera pequenas discussões, mas somente entre uma minoria mais tosca.

Agora na terceira parte o bicho pega!

Meus amigos veganos alegam que não matam animais para se alimentar.
Muito nobre, porém de boas intenções o inferno... chavão admito, mas...

Simploriamente (ah o reducionismo) afirmamos que se algo vivo não tem um sistema nervoso similar ao nosso ele não sofre.
De cara já pegamos dois problemas nessa abordagem: a afirmação do sistema nervoso em si e a concepção de sofrimento.

Pesquisas recentes indicam que as plantas sentem cheiro, armam emboscadas, atacam, se retraem sob ameaça e uma série de ações que no mínimo são perturbadoras e remetem fortemente a questionamentos, os mesmos que citei no parágrafo anterior que nem sequer requeriam pesquisas, mas que a luz da modernidade ficam mais evidentes.

Outro fator é o impacto indireto de uma alimentação extensivamente vegetal no bioma regional ou não. Como se garante que isso não mata indiretamente talvez em mesma proporção? Não existem dados de longo prazo a esse respeito.
Portanto, o discurso de que "não como carne porque sou bonzinho" é ingenuidade ou, novamente, hipocrisia.

A questão do que é o "sofrimento" para os veganos é de uma simplicidade na estrutura de pensamento brutal. A tal da senciência é uma visão simplória e antropocêntrica a cerca dessa e de outros detalhes a cerca da consciência.

Certa vez um vegano acabou chegando há algo como "é que estatisticamente parece que as plantas não sofrem"... 
Uma vez demonstrada que sua fé estruturada no pensamento de que somente seres vivos dotados de estrutura nervosa similar a nossa é que sofrem é completamente reducionista e principalmente arbitrária, o dogma parece ficar abalado.

Nem sequer necessita-se ir mais a fundo na abordagem filosófica a respeito do sofrimento. É extensa e desnecessária para a nossa discussão.

Fiz um levantamento de paridade calórica bastante superficial, mas que dá uma ideia da dimensão do problema. É uma brincadeira tosca, mas divertida.

Boi* (fonte holocaustoanimal.com/EMBRAPA) :

- 300Kg (peso médio) = 360.000cal (4 cal/g de proteína numa média de 30% de proteína por Kg de carne);
- ocupação média de 6 a 7 animais por hectare, ou seja, 1666m2 de terra cada;
- consumo de 16000l de água / Kg de carne produzida, ou seja, para os 300Kg são 4.800.000 litros de água.
* se fossem porcos ou frangos a ocupação de terra e uso de água seriam absurdamente menores
Alface (fonte EMBRAPA):

- 140g (peso médio) = 21cal;
- para a mesma quantidade calórica de um boi considerado (360.000cal) são necessários 17142 pés de alface;
- tomando por base a tradicional recomendação de 9 pés/m2 essa quantidade total usa 1900m2 de terra;
- sendo usados em média 32 litros de água/dia/m2, isso resulta em 60.942 litros de água/dia * 100 (dias para colher na média) = 6.094.200 litros de água.


Interessante não?

Mais uma vez me parece aquele sistema hipócrita de separar as latinhas (o que é fácil) na reciclagem e usar fraldas descartáveis na cria (mais difícil e infinitamente mais problemático ao ambiente) ou então de defender as ciclovias e estar sempre de carrinho novo e celular último tipo.
 
A cadeia produtiva é que realmente impacta o ambiente. É a busca frenética pelo lucro que gera frangos confinados com luz 24 horas por dia, bois massacrados e cheios de hormônio, gansos torturados em busca de um bom foie gras, lagos de resíduos tóxicos que dizimam ecossistemas inteiros, etc, etc, etc.

Devemos sim discutir a ética no trato dos animais, evitar sofrimentos abusivos e desnecessários e, claro, consumo excessivo de carne (parte essencial do sistema capitalista).

Mas retornando ao início, somos uma espécie que mata, destrói e pilha, mas que também pode ter solidariedade, compaixão e ética. Devemos tentar reduzir nosso impacto ao mínimo
sem esquecer quem somos e nos desviando de discursos simplórios e hipócritas.


Respeito meus amigos veganos/vegetarianos da mesma maneira que respeito quem gosta ou não de jiló, mas aceitar uma opção não significa admitir que alguma preferência seja a detentora da moralidade, da justiça e da verdade.

Não basta discursos cheios de boas intenções porém vazios.
Somos o Dr Jekyll e o Mr Hyde ao mesmo tempo.
Somos todos pecadores, porém a hipocrisia é o pior dos pecados.


http://gizmodo.uol.com.br/este-lago-acumula-todo-o-lixo-que-nossa-necessidade-por-gadgets-produz/

Ainda que filosoficamente podemos questionar tudo, algumas referências para tal:

http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/a-inteligencia-das-plantas-revelada/
http://pijamasurf.com/2014/10/malas-noticias-para-los-vegetarianos-las-plantas-sienten-cuando-se-las-estan-comiendo-video/ 
http://revistagloborural.globo.com/Colunas/planeta-bicho/noticia/2014/07/plantas-ouvem-quando-estao-sendo-comidas.html
http://www.ndig.com.br/item/2014/10/ms-notcias-para-os-vegetarianos-as-plantas-sentem-quando-esto-sendo-comidas  
http://portugalmundial.com/2015/03/plantas-tem-memoria-sentem-dor-e-sao-inteligentes/#
http://www.altosestudos.com.br/?p=52568







segunda-feira, 1 de junho de 2015

Quem precisa de Deus para ser espiritualizado?

Sam Harris trata disso no seu "Espiritualidade sem Deus" e Carl Sagan sempre era sereno ao responder sobre a morte ("um sono sem sentido") e sobre seu ateísmo cético quando era indagado sobre esses assuntos durante seus últimos meses críticos com câncer.

Mas vamos a esse belo texto extraído de um manual da Transictions Network: 

Conexão com a Terra – a jornada lírica do átomo do carbono

O carbono é o tijolo do edifício da vida e aqui veremos uma das fases desta interminável jornada, em uma adaptação de um ensaio de Primo Levi. 
Se alguma vez você pensou que estava desconectado com este planeta, este ensaio vai lhe esclarecer, pois você tem cerca de 700.000.000.000.000.000.000.000.000 (setecentos septilhões) de átomos de carbono no corpo (que representam 10% da massa corporal), sendo que cada um já executou incontáveis danças, não diferentes desta que vamos ver agora... 

"Nosso átomo de cabono se mantém há milhões de anos ligado a três átomos de oxigênio e um de cálcio, sob a forma de calcário, não muito distante da superfície da Terra.
A qualquer momento, um golpe de picareta pode soltá-lo para levá-lo a uma caieira (forno de cal), lançando-o no mundo das coisas que se alteram. Ele é assado e, ainda junto a seus companheiros de oxigênio, é lançado pela chaminé e encontra o caminho do ar. Sua história, que antes era estática, se tornou tumultuada. 

Ele foi apanhado pelo vento, arremessado à terra e lançado a dez quilômetros de altura. Foi respirado por um falcão, desceu até seus íngremes pulmões, mas não penetrou no sangue e foi expelido.

Foi dissolvido três vezes pela água do mar, chegou às águas de uma torrente caudalosa e mais uma vez foi expelido. Viajou com o vento durante oito anos: algumas vezes no alto, outras, mais baixo, no mar ou entre nuvens, sobre florestas, desertos e a interminável imensidão do gelo, até tropeçar e cair preso na aventura orgânica.

O átomo de que estamos falando nasceu com o vento perto de uma fileira de videiras. Ele teve a sorte de se esfregar numa folha, penetrar nela e se fixar ali por um raio de sol.
Agora nosso átomo formou parte de uma molécula de glicose. Viajou da folha para o caule e dali desceu para um cacho de uvas quase maduras. O que aconteceu depois foi da responsabilidade dos vinicultores.

O destino do vinho é ser bebido. Quem o bebe fica com a molécula no fígado durante mais de uma semana, bem enroscada e tranquila, como uma reserva de energia para um esforço súbito, uma esforço que terá de fazer no domingo que vem, perseguindo um cavalo em disparada...

O átomo foi arrastado para fora da corrente sanguínea e foi parar numa minúscula fibra muscular do quadril... e, depois, como dióxido de carbono, foi expirada e voltou ao ar.
Mais uma vez com o vento, mas desta vez mais longe, ele cruzou os Apeninos e o mar Adriático, passou pela Grécia, pelo mar Egeu e por Chipre: estamos sobre o Líbano. E a dança se repete.

O átomo agora penetra e fica preso ao respeitável caule de um cedro, um dos últimos. Ele pode ficar no cedro até 500 anos, mas vamos dizer que, depois de vinte, uma larva de caruncho se interessou por ele e o engoliu.

A larva de caruncho se tornou uma pupa e, na primavera, surgiu sobre a forma de mariposa que agora morre sob o sol, confusa e fascinada pela beleza do dia. Nosso átomo está em um dos mil olhos do inseto.

Quando o inseto morre, ele cai no chão e é enterrado sob a vegetação rasteira da floresta. Aqui entra em ação o onipresente, incansável e invisível microrganismo do húmus. A mariposa lentamente se desintegrou e o átomo mais uma vez ganhou asas. 
E alçou vôo... até chegar a um momento de descanso na superfície do mar, e então lentamente afundou. Uma alga marinha de passagem se apropria do átomo para construir a extremamente delicada concha de carbonato de cálcio. Ele logo morre e desliza até o fundo do oceano, onde se compacta com trilhões de companheiros e seus átomos de carbono.

Passada uma era geológica, os movimentos da placa tectônica trouxeram esse sedimento - agora um penhasco cretáceo - para a superfície da terra, expondo nosso átomo mais uma vez à possibilidade de voar na complexa dança da vida."

Agora olhe para a sua mão – uma cicatriz, talvez, ou uma unha. Pense nisso como menos que uma mão, mais como um lugar de descanso temporário para incontáveis átomos de carbono. Um lugar em que eles estão fazendo uma pequena pausa antes de prosseguir na vasta e interminável jornada que passa pelas profundezas dos oceanos, o céu mais alto, os dinossauros que viveram antes de você e as criaturas com que nem sonhamos e que virão depois de nós.


Já se sente conectado?

terça-feira, 12 de maio de 2015

Representatividade e alternativas de vida - Parte III (Final)

No primeiro post desta série eu citei um exemplo da falta de representatividade crônica que vivemos, ou seja, se a decisão e o poder não emanam do povo, o ato mecânico de votar pouco faz para que nossa suposta democracia difira de uma ditadura qualquer.

Se associarmos isso à individualidade, competitividade, falta de qualidade de vida e completa falta de racionalidade no uso dos recursos naturais pelo modelo sócio-econômico vigente, o crescimento do movimento das ecovilas descritos no post anterior não é surpresa.

Pessoas que param de correr atrás do próprio rabo, reavaliam suas reais necessidades, refletem sobre seus valores pessoais e praticamente viram as costas à sociedade. Uma espécie de desobediência civil pacífica.

O processo histórico e a análise dos motivos de como chegamos a este modelo de organização social não cabe aqui (tanto foge aos objetivos como seria por demais simplório uma única postagem pretender realizar esse feito), mas de qualquer modo, ao que parece, muitas pessoas se cansaram de estudar os porque's e de lutar por alguma mudança (no sentido "panfletarista" da coisa e do voto que tem valor nulo dada a perda de representatividade já exposta).

Neste último post sobre esses assuntos quero apenas pontuar algo sobre o idílico e o possível.

A maioria das ecovilas (na sua real definição, ou seja, a de comunidades auto sustentáveis - ou quase) são organizadas por jovens, porém não é incomum encontrar pessoas de meia idade e até idosos.

Uma boa referência no planejamento de ecovilas está aqui.

Os jovens tem a característica da urgência, da pressa e do enorme idealismo.
As ecovilas bem sucedidas equilibram a urgência com o planejamento, e o idealismo com o pragmatismo e à realidade da complexidade humana.

Somos criaturas passionais, com uma confusa mistura de paixão, ódio, alegria e tristeza, com uma carga cultural majoritariamente feita nesta sociedade a que eles tanto repudiam e portanto, cujas influencias não podem nem devem ser ignoradas.

Como bem lembrou o historiador Leandro Karnal, se meditar garantisse a paz e o equilíbrio não teríamos as atrocidades que os países de ascendência budista demonstraram em sua história (recentemente vimos os monges tibetanos reagindo violentamente a ordem chinesa), e que a vida rural, como mostra a história, não é garantia de uma vida idílica e bucólica.

Estar atento as nossas características garante que diferenças não sejam ignoradas e que conflitos possam, ao menos em parte, serem prevenidos e os que aparecerem (sempre existem e fazem parte de um grupo auto gerido) resolvidos com cordialidade e discussão civilizada.
Partindo dessa realidade, criar um conjunto de regras que não pré suponham a bondade, a justiça e a cooperação humana como algo "natural" (estamos sempre pendulando entre Hobbes e Rousseau). Se essas virtudes acontecerem sem a aplicação do estatuto melhor, mas em caso contrário, as regras estarão explicitamente descritas e pactuadas.

Aliás, falando em "natural", deve-se estar atento ao que designamos de "natureza".
A natureza variou ao logo da existência do planeta e ela nunca foi "boa" ou "má" para nós ou outros animais, ela apenas existiu dinamicamente a despeito da existência ou não de vida qualquer que seja ela.

Sendo assim, a natureza que defendemos é a que estrategicamente nos é útil e na qual  queremos minimizar nosso impacto por razões bastante mesquinhas (deixemos de lado a hipocrisia). A extinção dos dinossauros, por exemplo, foi uma maravilha para nós (e a maioria dos mamíferos). 

Uma vida "natural" poderia ser aquela em que a expectativa de vida era de 25 anos, ou na qual morríamos de cólera, ou ainda, na qual um leão nos comesse, portanto, queremos o "natural" mas nem tanto.

Assumir a postura de defender a natureza que nos é interessante (deixando de lado discursos hipócritas e polianas), deixando claro a importância e a urgência dessas ações, pois para a natureza a nossa existência não é relevante. Quem precisa dela somos nós e não o contrário. Aliás, pelas evidências, ela "nos quer mortos". Resumindo, da forma com que conhecemos ou não, a natureza existirá a despeito da nossa existência.

Tendo essa clareza já se percebe que uma área de agricultura e criação que contemple todo o desejo humano, mesmo que simplificando o modo de vida, é bastante difícil ou pouco plausível.
O mais viável é ter como objetivo uma minimização na dependência externa e uma redução drástica de custos de vida, o que já gera boa segurança e independência, além de tornar opcional a aquisição de áreas muito extensas.
Cultivar e criar alguns "elementos chave" e dar margem a iniciativas econômicas, ainda que no contexto da ética e da responsabilidade social e ambiental.

O respeito ao momento privado é imprescindível, devendo haver equilíbrio entre a vida comunal sadia e a necessidade humana de momentos de privacidade e solidão.
O mesmo respeito se aplica a seus credos religiosos, sua vida sexual e suas preferências alimentares, pois não existe nem de longe consenso muito menos alguma verdade absoluta nesses temas, apesar de, convenhamos, algumas afirmações sem nenhuma condição de plausibilidade sejam discursadas aos sete ventos. De qualquer modo essas maluquices estão no direito privado de qualquer um.


Resumindo, o movimento das ecovilas é muito válido e repleto de qualidades e virtudes, mas negar completamente as características humanas e várias conquistas civilizatórias é uma insanidade.
O fundamental é o movimento de alternativa de vida proposta por elas, onde tecnologia, ética e humanismo devem ser o objetivo e o meio, ao contrário do lucro a qualquer custo e ao acúmulo doentio vigentes no sistema atual.

Já existindo aos milhares pelo mundo, elas são um movimento de resistência e oposição silenciosa, porém, são mais agressivas não dizendo nada, virando as costas ao invés de fazendo passeatas. Mas a contracultura já tem mais de 40 anos e achar que a juventude é o momento de ouro da vida e pode realizar tudo já faz "parte de uma época" e, saliento, que ignorar a complexidade humana e ter uma irracional (e hipócrita) visão da natureza torna essas iniciativas altamente passíveis de fracasso.



Algumas ecovilas/comunidades:

 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Representatividade e alternativas de vida - Parte II

Eu tinha um (pré-)conceito a respeito das ecovilas, ignorante no assunto achava que era algo meio hippie. Estudar é romper (ou não) com seus próprios preconceitos.

A ideia não é nova, mas na modernidade foi um movimento mais sólido a partir dos trabalhos da Gaia Trust na Dinamarca em 1987 por Ross e Hildur Jackson e com grande contribuição/parceria com Diane e Robert Gilman (Context institute).
O movimento foi tomando forma e mais pesquisadores foram se juntando para definir o que seria um formato básico de uma ecovila.
Em 1995 nasce a Global Ecovillage Network com 400 pessoas ao redor do mundo.

Esse movimento não é pontual ou centralizado.
Ele tem um marco principal, mas estava pipocando ao redor do mundo e esses agrupamentos foram se conhecendo (a internet teve papel fundamental nisso), trocando experiências e conhecimentos.

Resumindo, atualmente as ecovilas se baseiam nas ideias centrais desses agrupamentos, muitos dos quais contribuíram para gerar a Agenda 21 e Agenda Habitat.

Os objetivos básicos quanto ao habitat são (da compilação de Marcelo Bueno - IPEMA):

  • Oferecer a todos habitação adequada;
  • Aperfeiçoar o manejo dos assentamentos humanos;
  • Promover o planejamento e o manejo sustentável do uso da terra;
  • Promover a existência integrada de infra-estrutura ambiental: água, esgotamento sanitário, drenagem e manejo de resíduos sólidos;
  • Promover sistema sustentáveis de energia e transporte nos assentamentos humanos.Promover atividades sustentáveis na industria da construção;
  • Minimizar o máximo possível o impacto ambiental no local e fora dele. Quando compramos madeira, nem pensamos que estamos pagando para alguém ir cortar arvores na região amazônica, estamos contribuindo com o desmatamento de uma das mais importantes reservas naturais do planeta. A região sudeste do Brasil segundo uma pesquisa realizada em 1997 , consumiu mais madeira de lei que a França, Inglaterra e Estados Unidos juntos no mesmo ano, e representou o consumo de 85% a nível nacional; toda esta madeira veio da região amazônica;
  • Utilizar o máximo possível materiais que existe no próprio local da obra. No local da construção sempre temos material disponível, em alguns lugares teremos pedras, em outros madeira mas quase em todos teremos terra que é um material muito usado a milhares de anos na construção.
  • Utilizar o mínimo possível materiais industrializados, dar preferência a utilizar material reciclado. O material industrializado consome muita matéria prima da natureza para sua fabricação e desta fabricação se produz muita poluição, se utilizarmos o máximo possível material reciclado estaremos barateando nossa construção ao mesmo tempo que diminuímos nosso impacto ambiental.
  • Ser o máximo possível autossuficiente em energia , água e alimentos. Hoje já estamos sentindo que o fornecimento de energia esta entrando em colapso e com isto ficando mais caro, com a água vai acontecer o mesmo, nós temos que descentralizar nosso consumo e sermos o máximo possível auto suficientes em energia, água e alimentos. 
  • Reciclar o máximo possível os resíduos produzidos pela construção, águas servidas, e lixo produzido no nosso dia a dia.
Fácil notar que nada disso faz com que se more numa "caverna" sem saneamento básico, água encanada, luz elétrica e telefone/internet (algumas muito isoladas dependem de rádio) como pensaria o senso comum preconceituoso.

As moradias atuais que usam técnicas de arquitetura orgânica e bioconstrução são superiores a alvenaria tradicional no que se refere ao conforto térmico e acústico, além de equivalentes no que se refere a segurança e salubridade, apenas não tem a "cara certinha" que estamos acostumados.

Para cumprir com esses objetivos e alterar a dinâmica social da comunidade (do modelo individualista e competitivo para o modelo colaborativo e solidário), alguns pontos principais são comuns a todas as ecovilas:

  • Ter um número próximo entre 30 a 60 pessoas (importante para concluir todas as tarefas do espectro humano no contexto da comunidade);
  • Haver ligação afetiva entre as pessoas (processo que pode ser construído ao logo do planejamento);
  • Comunhão de pensamento no que se refere ao bem comum e à coletividade (o que não impossibilita a vivência e o espaço privado);
  • Tolerância com as diferenças e prioridade na solução de conflitos;
  • Democracia direta total (o que não impede a adoção de lideranças temporárias);
  • Disposição para trabalhos manuais (lembrando que brasileiros típicos tem enorme preconceito a trabalhos "braçais");
  • Manutenção e recuperação de áreas de mata nativa, muitas vezes incluindo uma RPPN (Reserva Particular de Patrimônio Natural);
  • Área de agricultura (sempre dentro do conceito da permacultura);
  • Área de atividades comunitárias (sociais, culturais e práticas);
  • Integração com a comunidade local (responsabilidade social e não isolamento);
  • Incentivo a soluções de compras coletivas, transportes solidários e trocas (de objetos e serviços);
  • Conceito de propriedade e posse coletiva na grande maioria dos casos.

Desses pré postos pode-se perceber facilmente que uma ecovila NÃO É um condomínio fechado com viés eco e muito menos um clube de campo.

Dentro das características comuns, cada comunidade tem suas orientações. Existem as com viés religioso, as preponderantemente rurais, as tecno-racionais, e por ai vai. Cada ecovila tem a sua "cola" (viés ou orientação).

Dependendo da cola da comunidade, alguns moradores vivem (no que se refere à subsistência) exclusivamente da e para a comunidade, outros tem atividades profissionais externas e alguns fazem um mix dessas realidades.

De um modo geral, no que pude constatar, o público tem um ótimo nível cultural e uma boa convivência. É um conjunto eclético de pessoas (professores, arquitetos, aposentados, agricultores, engenheiros, terapeutas alternativos, donas de casa, programadores, etc.) que se uniram com o objetivo de uma vida melhor, mais comunal e ética (tanto no que se refere ao trato humano como ambiental). As nacionalidades também são variadas.

Atualmente o embasamento legal é bastante sólido e já se trabalha em projetos que garantam legislação específica.

No geral, as ecovilas garantem o espaço privativo, portanto, a privacidade e os direitos individuais de escolha neste espaço (religião, sexo, alimentação, etc.). Devemos atentar para o fato que isso deveria ser válido para qualquer comunidade, inclusive a que tradicionalmente conhecemos como bairros e cidades, porém, nestes casos todos propositalmente se "esqueceram" das regras sociais e de ocupação do solo e arquitetura (o código de obras municipal em geral é solenemente ignorado, assim como o "direito" a fazer o que se bem entender dentro de uma residência frequentemente ultrapassar o direito dos vizinhos).

Como as comunidade são pequenas, construidas desde o início com pessoas com pensamento em comum nos pontos críticos, com valores humanos mais decentes e com um estatuto formal democraticamente acordado, a boa convivência é mais fácil.

Na próxima parte vou postar algumas questões sobre o ideal idílico e a realidade humana...