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domingo, 11 de março de 2012

Divulgando "Da servidão moderna"

AVI com legendas: http://uploaded.to/file/7jr09nyd
PDF do texto: http://www.delaservitudemoderne.org/Documents/daservidaomoderna.pdf

Direto do site: www.delaservitudemoderne.org



“Toda verdade passa por três estágios.
No primeiro, ela é ridicularizada.
No segundo, é rejeitada com violência.
No terceiro, é aceita como evidente por si própria.”

Schopenhauer






A servidão moderna é um livro e um documentário de 52 minutos produzidos de maneira completamente independente; o livro (e o DVD contido) é distribuído gratuitamente em certos lugares alternativos na França e na América latina. O texto foi escrito na Jamaica em outubro de 2007 e o documentário foi finalizado na Colômbia em maio de 2009. Ele existe nas versões francesa, inglesa e espanhola. O filme foi elaborado a partir de imagens desviadas, essencialmente oriundas de filmes de ficção e de documentários.

O objetivo principal deste filme é de por em dia a condição do escravo moderno dentro do sistema totalitário mercante e de evidenciar as formas de mistificação que ocultam esta condição subserviente. Ele foi feito com o único objetivo de atacar de frente a organização dominante do mundo.

No imenso campo de batalha da guerra civil mundial, a linguagem constitui uma de nossas armas. Trata-se de chamar as coisas por seus nomes e revelar a essência escondida destas realidades por meio da maneira como são chamadas. A democracia liberal, por exemplo, é um mito já que a organização dominante do mundo não tem nada de democrático nem de liberal. Então, é urgente substituir o mito de democracia liberal por sua realidade concreta de sistema totalitário mercante e de expandir esta nova expressão como uma linha de pólvora pronta para incendiar as mentes revelando a natureza profunda da dominação presente.

Alguns esperarão encontrar aqui soluções ou respostas feitas, tipo um pequeno manual de “como fazer uma revolução?” Esse não é o propósito deste filme. Melhor dizendo, trata-se mais exatamente de uma crítica da sociedade que devemos combater. Este filme é antes de tudo um instrumento militante cujo objetivo é fazer com que um número grande de pessoas se questionem e difundam a crítica por todos os lados e sobretudo onde ela não tem acesso. Devemos construir juntos e por em prática as soluções e os elementos do programa. Não precisamos de um guru que venha explicar à nós como devemos agir: a liberdade de ação deve ser nossa característica principal. Aqueles que desejam permanecer escravos estão esperando o messias ou a obra que bastando seguir-la ao pé da letra, libertam-se. Já vimos muitas destas obras ou destes homens em toda a história do século XX que se propuseram constituir a vanguarda revolucionária e conduzir o proletariado rumo a liberação de sua condição. Os resultados deste pesadelo falam por si mesmos.

Por outro lado, condenamos toda espécie de religião já que as mesmas são geradoras de ilusões e nos permite aceitar nossa sórdida condição de dominados e porque mentem ou perdem a razão sobre muitas coisas. Todavia, também condenamos todo astigmatismo de qualquer religião em particular. Os adeptos do complot sionista ou do perigo islamita são pobres mentes mistificadas que confundem a crítica radical com a raiva e o desdém. Apenas são capazes de produzir lama. Se alguns dentre eles se dizem revolucionários é mais com referência às “revoluções nacionais” dos anos 1930-1940 que à verdadeira revolução liberadora a qual aspiramos. A busca de um bode expiatório em função de sua pertencia religiosa ou étnica é tão antiga quanto a civilização e não é mais que o produto das frustrações daqueles que procuram respostas rápidas e simples frente ao mal que nos esmaga. Não deve haver ambigüidade com respeito a natureza de nossa luta. Estamos de acordo com a emancipação da humanidade inteira, fora de toda discriminação. Todos por todos é a essência do programa revolucionário ao qual aderimos.

As referências que inspiraram esta obra e mais propriamente dita, minha vida, estão explicitas neste filme: Diógenes de Sinope, Etienne de La Boétie, Karl Marx e Guy Debord. Não as escondo e nem pretendo haver descoberto a pólvora. A mim, reconhecerão apenas o mérito de haver sabido utilizar estas referências para meu próprio esclarecimento. Quanto àqueles que dirão que esta obra não é suficientemente revolucionária, mas bastante radical ou melhor pessimista, lhes convido a propor sua própria visão do mundo no qual vivemos. Quanto mais numerosos em divulgar estas idéias, mais rapidamente surgirá a possibilidade de uma mudança radical.

A crise econômica, social e política revelou o fracasso patente do sistema totalitário mercante. Uma brecha surgiu. Trata-se agora de penetrar mas de maneira estratégica. Porém, temos que agir rápido pois o poder, perfeitamente informado sobre o estado de radicalização das contestações, prepara um ataque preventivo sem precedentes. A urgência dos tempos nos impõe a unidade em vez da divisão pois o quê nos une é mais profundo do quê o que nos separa. É muito fácil criticar o quê fazem as organizações, as pessoas ou os diferentes grupos, todos nós reclamamos uma revolução social. Mas na realidade, estas críticas são provenientes do imobilismo que tenta convencer-nos de que nada é possível.

Não devemos deixar que o inimigo nos vença, as antigas discussões de capela no campo revolucionário devem, com toda nossa ajuda, deixar lugar à unidade de ação. Deve-se duvidar de tudo, até mesmo da dúvida.

O texto e o filme são isentos de direitos autorais, podem ser recuperados, divulgados, e projetados sem nenhuma restrição. Inclusive são totalmente gratuitos, ou seja, não devem de nenhuma maneira ser comercializados. Pois seria incoerente propor uma crítica sobre a onipresença das mercadorias com outra mercadoria. A luta contra a propriedade privada, intelectual ou outra, é nosso golpe fatal contra a dominação presente.

Este filme é difundido fora de todo circuito legal ou comercial, ele depende da boa vontade daqueles que asseguram sua difusão da maneira mais ampla possível. Ele não é nossa propriedade, ele pertence àqueles que queiram apropriar-se para que seja jogado na fogueira de nossa luta.

Jean-François Brient e Victor León Fuentes

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Preciso de um pagé II - A revanche


Um grande amigo meu, de 40 anos, foi diagnosticado com pênfigo vulgar. Causa desconhecida.
Curiosamente as crises começaram praticamente junto ao anúncio de sua paternidade, que veio somar-se às suas preocupações com a saúde dos pais. O trabalho (TODOS) como atividade insalubre eu nem me darei ao trabalho de citar.
Apenas pra constar, o remédio número 1 foi uma cortisona. Se alguém leu meu post da "parte 1"...

Em dezembro, a esposa de um amigo teve uma parada cardíaca e morreu. Jovem (41 anos), "saudável", magra, não sedentária, com relacionamento estável e 2 filhos. A causa, claro, desconhecida.

Também no ano passado, um amigo jovem (31 anos), "saudável", magro, não sedentário e que ainda por cima ia ao médico pra qualquer unha encravada foi internado numa sexta-feira para tratar um início de leucemia. Oito dias depois faleceu deixando filho e esposa. A causa para a doença (apesar da explicação simplória sobre os glóbulos brancos) e a rapidez do óbito foi desconhecida.

Um jovem estagiário meu (que depois virou meu amigo —devo ser um péssimo chefe!) foi para o médico com suspeita de pneumonia. Acharam um coração duas vezes maior que o normal. Descartada a Doença de Chagas, a causa é desconhecida. O fato dele ter virado funcionário público, cumprir horários, ter resolvido abrir um negócio "nas horas vagas" e estar no início de casamento (não que eu seja contra o casamento, até porque sou casado há 11 anos - mas tem aquele período de tensão inicial, principalmente pra quem sempre morou com a família) nem sequer foi mencionado.

Um jovem amigo de academia, com 28 anos, teve as famosas Síndrome Metabólica e Doença Celíaca. Por coincidência, justamente quando assumiu a empresa familiar e estava pra se casar.

Outro amigo, esse uns 49 anos, depois de alguns problemas e de idas e vindas a 'especialistas', foi diagnosticado com, claro, Síndrome Metabólica (ok, a Gota veio de brinde). As origens, bem,  são desconhecidas.

Todas essas pessoas me conhecem ou conheciam, um vagabundo assumido.
Não, não dependo de ninguém, nem nasci rico.
Apenas trabalho o mínimo pra me manter vivo e disponibilizo o máximo de tempo pra mim e para as pessoas que gosto, ainda que ultimamente em reclusão.
Em nossa sociedade doente eu sou um vagabundo e mal sucedido. Quase um marginal.
Não que eu não tenha meus conflitos e angústias, O Coisa, por definição, é duro por fora e mole por dentro, mas essa infelicidade crônica que transparece em muitos, e acima de tudo, essa ilusão do trabalho, do status e da seriedade da vida eu já joguei fora faz tempo.

Um cliente ficou estarrecido quando respondi à sua pergunta: "mas você não quer crescer?" (no sentido empreendedor) com um lacônico "não". E quase infartou quando respondi à próxima: "mas você não deseja comprar nada?" (hesitei um pouco para ter certeza) com outro "não".
Só faltou jogar sal grosso e água benta em mim.

Não vou entrar em discussões teóricas sobre sociedade de consumo, fetiches e status.
Quero ser mais prosaico. Isso é quase um desabafo. Acho que é apenas um desabafo.

Todos, razoavelmente cultos e instruídos, concordavam comigo sobre a idiotice que é esse ritmo absurdo de trabalho, essa desnecessária necessidade de consumo e essa falta de sentido na vida (o Monty Pyton é mais cômico com isso, mas não menos provocador).
Alguns diziam invejar o meu modo de vida e riam quando eu contava minha fábula do demônio pós-moderno.
   
Eu falo a eles que o nosso demônio, vulgo sociedade, é mais sádico e cruel que o das fábulas.
O das fábulas te fornece prazeres infindáveis durante a vida e cobra "apenas" a sua alma.
O nosso não te dá nada, fica com a sua vida e promete uma velhice supostamente mais segura.

Contudo, psicoticamente todos continuaram sua insanidade temporária. Ela costuma durar uns 75 anos apenas.
É possível que alguns atribuam a maus espíritos, mau olhado, Deus ou qualquer outra bobagem do gênero. Acho que essa educação desgraçada que temos emburrece mesmo os mais instruídos para alguns assuntos e,  principalmente, para a sua autoestima, que requisita suas comprinhas tolas, a frustração generalizada que requer certos mimos compensatórios e algumas distorções entre o que se quer e o que se deseja.

Sobre os diagnósticos e a medicina, lembrei do Raul Seixas e "Dr. Pacheco". Singelo. Simples mesmo. Maravilhoso.

Novamente, não quero entrar em discussões filosóficas sobre a morbidez dessa vida. Parece algo paradoxal, mas não há necessidade de ser um gênio para perceber a obviedade e a clareza disso.

É um desabafo puro e simples.
Um luto pelos que já se foram de fato e pelos que já não vivem mais.


"A moral do 'bem-estar consumista' nem nos trouxe alento nem consolação. Antes, vivíamos para a felicidade que, raramente, chegávamos a ter; hoje, matamos para continuar tendo a infelicidade que já temos." - Jurandir Freire Costa