domingo, 18 de junho de 2017

Milgram, me acorda aí cara!

O polêmico experimento de Stanley Milgram já tem décadas.
É uma espécie de versão experimental da Banalidade do Mal de Hannah Arendt.
O documentário sobre ele e o experimento está na Netflix e foi repetido várias vezes ao longo desses anos.



Ontem fui a uma festa de aniversário das filhas de um amigo "das antigas".
Já não o via há uns 2 anos e nossa relação sempre foi de "camaradagem superficial", isto é, eu sei muito bem os assuntos que não são possíveis tocar ao estar com ele.

Mais jovem que eu uns 15 anos, o que por si só costuma bastar para alguns PB (petabytes) a menos de informação e associado a uma formação intelectual deficitária em meio a uma família classe média baixa acendente, a quase determinante criação de um jovem conservador com discursos self made man foi (não só por isso claro) o resultado.

Exatamente por isso nunca conversei nada mais além de frivolidades regadas a muito álcool, temendo que qualquer discussão mais profunda fosse subtrair o afeto que tenho (tinha?) por ele.

Este é o mesmo motivo que evito contato com muitos amigos, o medo terrível da decepção.

Um amigo que não vejo mais é uma parte bela da minha história, alguém de quem tenho boas lembranças e alguém que me faz ter um pingo a mais de esperança na humanidade.
Um (ex-)amigo que "enxergamos mais de perto" é um exemplo terrível dos experimentos de Milgram e da Banalidade do Mal, alguém vil e perverso que me faz odiar parte da minha própria história, me faz viver o luto de uma perda e, obviamente, perder completamente a esperança na humanidade,

Adolf Eichmann: marido exemplar, bom pai de família,
trabalhador e um ótimo amigo. O mal está mais perto
(inclusive dentro de nós mesmos) do que gostaríamos.

Os levianos (ou estúpidos mesmo) me perguntam 'se todos devem concordar com minhas posições' ou que 'o bem e o mal são subjetivos' ou ainda que isso ou aquilo 'é cultural'.

Evidentemente que o bem e o mal maniqueísta sem uma boa análise da moralidade humana é uma estupidez, assim como negar a existência do relativismo cultural, mas qual é o limite?

Bom, não temos uma resposta definida, mas algumas coisas podem ser sim classificadas como o mal, e pessoas que as defendem inseridas nesse imenso grupo.

Sam Harris é muito direto em seu A Paisagem Moral e pergunta "se apedrejar alguém por adultério" ou "jogar pessoas de prédios por sua vida íntima" pode ser considerado "subjetivo" ou com base no "relativismo cultural".

Por isso essa confusão e esse incômodo em experiências e trabalhos sobre o mal como o de Milgram. Eles são incômodos, assustadores e até mesmo deprimentes.
Diferente dos vilões de Hollywood, o mal não tem cara, ou melhor, não é caricato e de evidente identificação, pois cara ele tem, basta na verdade um espelho.

Sem a moral (enfatizo: moralismo não é moral!) e a constante reflexão a cerca do bem e do mal, ainda que não haja resposta definida ou exata como desejaríamos, estamos todos perdidos.

No meio da festa meu temor se concretiza (evidente que isso iria acontecer), ele solta algo em defesa do infame Bolsonaro.



Aí repousa o problema dos discursos simplórios da "minha opinião", da "liberdade" e do "direito ao voto", ela esconde a perversão em certas posições

Assim como defender este sistema econômico social (por definição amoral - que notoriamente está nos levando a abismos e injustiças sociais além da completa aniquilação de nosso patrimônio ambiental), defender um crápula (Bolsonaro's da vida) que espuma ódio nas palavras e que não esconde seu moralismo, sua belicosidade, seu machismo e demais características que o tornam o mais puro representante do mal só pode colocar pessoas aparentemente "bacaninhas" neste grupo malévolo.

Existem opiniões e opiniões.
Há um evidente limite entre o que invade o espaço alheio (seja entre quatro paredes ou seja na exploração e aniquilação contumaz de grandes massas) e uma simples posição de pensamento equivocada ou não.

E ainda questionam meu auto-exílio...



sexta-feira, 2 de junho de 2017

O mar, quando quebra na praia

Dorival Caymmi se estivesse vivo teria morrido de desgosto.
Será que por isso morreu?

Desde que me mudei pra praia me perguntam por que continuo branco, digo, não bronzeado.

Antes de mais nada esclareço que adoro o mar.
Sempre gostei e o achei lindo. Sou mergulhador avançado pela PADI também.

O problema é que não curto muito o sol e justamente por morar na praia acabei desenvolvendo certo nojo do mar.

Passear a pé pelas calçadas imundas e as belas casas com seus respeitáveis moradores varrendo excrementos e urina de cachorro quintal a fora me fez desenvolver essa "fobia".

Como é sabido, as águas pluviais vão sarjeta à baixo e a minha rua dá diretamente na praia.
É óbvio que em outras cidades o sistema é o mesmo, exceto que vai para algum córrego, rio e por fim, pro mar, mas aqui me deu essa visão brutal, nua e crua da coisa.


Sempre achei absurdo o jeito do brasileiro em lidar com a coisa pública, no caso aqui me referindo ao espaço público em geral. Essa coisa abominável de o que é público é de todos porém não é de ninguém.
Países evoluídos como o Japão por exemplo, justamente porque é de todos que merece cuidado de todos, e ainda que eu não possa usar para meu uso privativo, cabe-me a decência de zelar por ele.

Notem que nem precisei entrar na lenga-lenga do "ecodiscurso".
Certa dose de moral já seria o suficiente para evitar esse descalabro.

Curiosamente muitos (para não dizer a maioria) dos moradores daqui não vão muito à praia e olha que ela nem é (muito) poluída ou com (muito) lixo na areia.
Acho que mesmo dentre os boçais que acham que "a rua é pública" (e o mar também) ficou um ranço pelas próprias atitudes.

Enfim, o 'esgoto do mundo' ocupa a maior parte da superfície terrestre, e suas criaturas e sua biodinâmica foi o que nos permitiram e ainda nos permitem existir.

Mas como disse o Agente Smith, nós somos uma praga e é esse legado "respeitoso" que deixamos para as outras espécies e para os nossos semelhantes. 





domingo, 30 de abril de 2017

Mais um dia, mais empobrecimento

Sou um velho headbanger, mas nem por isso deixo de gostar (e seria absurdo) de outras grandes vertentes da música personificados pelos seus maiores expoentes.



Faz um tempo que acompanho a trajetória rumo ao esquecimento do Belchior. Os rumores, as lendas, os julgamentos recheados de moralismo e lugar comum.

A simplificação dos boçais resume tudo a dinheiro e o quanto se ama o que faz, como se houvesse uma maneira de viver, um ou outro interesse patético e alguém se resumisse a sua profissão.

É o sumiço estratégico. De autopreservação. Até mesmo, porque não, da preservação dos bons conhecidos congelados num momento histórico, pois nada melhor para não se decepcionar e perder um bom amigo do que não descobrir que ele virou um boçal como todos os que você odeia... a unanimidade de Nelson Rodrigues.

Nietzsche, Schopenhauer, Heidegger, Sócrates e outras tantas trajetórias brilhantes rumaram ao auto-exílio... totalmente compreensível.
Quando se alia informação, inteligência e sensibilidade a angústia crônica é inevitável.

Eu não sou tão bom em nada, mas sou também apenas um rapaz latino americano.



O Belchior que a crítica vulgar não viu



terça-feira, 11 de abril de 2017

Ainda restam alguns valores

Amor e senso de justiça não se misturam. A formação de um bom cidadão passa por isso.

"
Considerado o chef-celebridade mais bem pago do mundo e astro de programas de sucesso sobre o mundo da culinária, como “Hell’s Kitchen” e “MasterChef”, o escocês Gordon Ramsay amealhou uma fortuna de mais de US$ 140 milhões (R$ 439,7 milhões) ao longo da carreira, montante que ele não pensa em deixar para seus quatro filhos, mas sim para instituições de caridade.
Em entrevista ao tabloide britânico “The Sun” neste fim de semana, Ramsay afirmou acreditar que seus herdeiros devem vencer na vida por esforço próprio e que o máximo que fará por eles é deixar um depósito equivalente a 25% de um financiamento imobiliário para cada um, sendo que o saldo restante ficará por conta deles.
Ramsay também revelou que nas viagens em família somente ele e sua esposa embarcam na primeira classe, enquanto os filhos deles viajam na econômica. “Eles ainda não trabalharam o suficiente para ter esse tipo de privilégio”, ele disse.
"
O original está aqui.

domingo, 26 de março de 2017

Ah a hipocrisia... e a ignorância...

Essas últimas semanas recebi umas imagens via whatsapp justamente do meu "chefe" (cliente, mas é praticamente a mesma coisa) que nunca me manda bobagens desse tipo.


Conhecendo-o, imaginei o tipo de manifestação que seria...

Interessante como essas pessoas (e 99% das demais) como nos lembra bem o prof Karnal, sempre veem a corrupção dos outros. É aquela máxima da corrupção ser como a salsinha no dente: você só vê a dos outros.

O que se denomina como corrupção atualmente, nada mais é do que uma das práticas contumazes de todo o tipo de imoralidade que justamente esses ultraliberais (ou neoliberais, como queiram) apregoam, ou seja, pelo lucro/acúmulo tudo é válido.

Meu "chefe" pratica margens de lucro da ordem de 168%, assim como todo o tipo de manobra fiscal (legal ou não) para pagar menos impostos e "combinar procedimentos" com os concorrentes. Devemos sempre lembrar que os "concorrentes" são os amigos da mesma classe social, logo, sempre há um acordo de "cavalheiros" a cerca de certas práticas.

Se você pensou em "mas o mercado é que faz o preço" ou "todos são livres para escolher outro fornecedor", eu só posso imaginar que você ou é muito ignorante, crédulo ou é um deles (desses "corretos homens de bem")... o comum é que de uma maneira ou de outra seja um pouco de todas as opções.



Os liberais (lembro sempre que Adam Smith era professor de moral e sua obra mais conhecida - A riqueza das nações - foi, segundo ele mesmo, algo que nunca deveria ser lida sem a sua outra obra, Os princípios da moralidade humana) usavam a moral como limite do que seria justo e descente.

O ultraliberalismo necessitou que a moral fosse solapada para que houvesse liberdade total para qualquer tipo de prática econômica (por isso esse discurso insano de estado mínimo).
Apenas como exemplo, deixe-os lembrar que na década de 40 e 50, quando o CEO da GM elevou seus rendimentos acima do que se considerava razoável ele teve que depor no congresso norte americano.

Não, não existia e nem existe nenhuma lei que controle isso, porém existia a moral.

TODOS nós somos livres até certo ponto e nossas atitudes esbarram no limite da razoabilidade em nome do bem comum e da justiça. É a premissa básica do "o que EU NÃO DEVO FAZER ainda que me seja permitido e o que EU DEVO FAZER ainda que eu não seja obrigado e não ganhe nada em troca".

Hoje porém um CEO de uma Wallmart por exemplo, ganha muitas milhares de vezes o que o mais baixo cargo da mesma corporação (fator muuuito maior do que o caso da GM no meio do século XX), sem nenhuma justificativa funcional e muito menos ética (vide, por exemplo, Krugman - A moral de um liberal).

Por que uma passeata de classe média dessas é uma hipocrisia e defender tudo isso é um tiro no pé?

Se a moral é solapada da sociedade, ela não se restringe a um contexto, a ideologia dessa ética (ou falta dela) é incontrolável e contamina toda a malha social.

É uma dona de casa classe média que responde a cerca do valor pago a sua 'empregada' (aliás, resquício descarado do ideal escravagista): "é o que pagam por aqui".

É o patrãozinho que sabe que não é possível alguém manter uma família com "o salário legal da categoria" mas paga assim mesmo.

É a "comissão" ou "sistema de recompensas" que alguns profissionais recebem e aceitam quando indicam certo produto.

Enfim, é toda vez que não nos perguntamos a cerca de certa ação e depositamos uma questão moral em um grupo, classe ou pior ainda, numa coisa completamente sem sentido como o "mercado". 

Dentro desse imbróglio, nesse mesmo relacionamento 'prestador de serviço/cliente' que eu iniciei este post, ao recomendar a compra de um servidor e alguns equipamentos da Dell (foi uma questão de custo benefício momentânea, não tenho nenhuma preferência por marca) para esse meu cliente, o pessoal da Dell automaticamente entrou em contato comigo para oferecer um "programa de recompensas" aos consultores que indicam a Dell a seus clientes...

Na primeira ligação eu respondi ao cidadão que eu não aceitava propina.

Um silêncio constrangedor momentâneo pairou na ligação.
Claro que rapidamente, o dito cujo me disse que não era propina e sim um programa de recompensas que os consultores podem acumular e usar em suas aquisições de equipamentos Dell.

Eu apenas respondi que "chame do que quiser, isso é propina e não me interessa".

Alguns dias depois recebi um "vale de R$1000" para eu usar de desconto para adquirir produtos Dell.
Vale este que eu joguei fora em nome da minha consciência e de tudo o que acredito como decência humana.

Este é o ponto crucial,
O que ganhamos (ou seja lá o nome que certas negociatas recebem) muitas vezes não passa de propina, corrupção, amoralidade e indecência, coisa que abominamos nos outros, porém, numa sociedade amoral, somos indulgentes em nosso auto julgamento.

E nesta "liberdade" viva a JBS, BRF e TODAS as grandes corporações cujo objetivo é único: lucro.

Inúmeros sociólogos e filósofos já nos alertavam e ainda alertam sobre o risco do corrompimento completo da malha social quando delegamos a nossa moral à lei (ou à técnica, o que no fundo é a lei) ou algo quase surreal como "o mercado" (dilema muito bem apresentado no sucinto e direto O capitalismo é moral de André Comte-Sponville).

O resultado, bem, está cada vez mais nos engolindo.

Quando esse mesmo "sumiço da moral" ocorre numa classe mais baixa e com menor (ainda) grau de educação (formal e/ou não formal) aliada a sua desumanização completa, nada me estranha que um indivíduo se ache no "direito de eliminar outra coisa que o atrapalha para alcançar seus objetivos".










"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis







quinta-feira, 9 de março de 2017

Heidegger, en passant

Martin Heidegger, o grande filósofo do século XX que vivia como um camponês, dizia que os trabalhadores de comunidades rurais tem uma "compreensão instintiva" sobre sua própria humanidade e que os habitantes de grandes centros urbanos tendem a perder o contato com sua própria individualidade.
Forçados a se identificar por padrões de massa, sofrem fortes ansiedades, vivendo, nos termos de Heidegger, vidas "inautênticas".


"Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no Oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um desportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então — reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo… O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas." – Martin Heidegger, (1889-1976), em Introdução à Metafísica







PS: sua ligação com o partido nazista durante a ascensão de Hitler não retira os méritos de sua filosofia, porém nos mostra mais uma vez que a ambição pessoal, xenofobia e confusões politicas podem tornar nebulosos os mais brilhantes cérebros.
Curiosamente Heidegger teve um affair com a filósofa judia Hanna Arendt... 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A marchinha headbanger

Feriado complicado para um velho headbanger.
O tempo faz coisas estranhas... quem diria que eu viraria um clássico...

Nesses dias "complicados" me refugio nos estudos e na boa música. Quase sempre lembro do jovem Ramon.

Nas minhas épocas de empreendedor (quando eu achava que era possível casar a moralidade - e portanto o bem comum - ao empreendedorismo) eu morava no Brooklin em sampa.
Precisando de um estagiário minha heavy irmã e na época meu rockunhado me indicaram um cara diferente.

Íamos almoçar num "por kilo" numa travessa da Av Santo Amaro, onde trabalhava um moleque cabeludo que atendia e que era sobrinho da proprietária.

Nessa época já não conseguia muito bem selecionar as pessoas por sua "técnica" ou "produtividade" apenas. As pessoas para mim, antes de mais nada, eram pessoas e fatalmente fariam parte do meu cotidiano.

Depois de umas tentativas frustradas com os "convencionais" conversei com o Ramonzinho.
Brincamos por muitos anos que a entrevista se baseou em que era o elemento clássico do Deep Purple ou qual era o vocalista mais adequado pro Rainbow, e por aí vai.

Enfim, lá veio o menino cabeludo que arranhava um baixo com seus 19 anos, recém formado num curso técnico qualquer trabalhar comigo.
Acho que era muito papo e pouco trabalho.

Muito papo bom.

Viramos amigos e ele virou o mascote da turma de "velhos degenerados".
No fim do estágio ele alçou voo depois de um concurso público.
Continuamos a amizade, com noitadas de rock, biritas e umas "coisas a mais".

Conversávamos bastante e fui o alertando sobre certo deslumbre quando se ganha dois tostões a mais e quando se arregala os olhos diante de um suposto poder e "seriedade" na vida profissional.

Fui convidado pro seu casamento.
Muitos moleques em volta, parentes e eu sendo apresentado como "o sujeito que ensinou tudo o que eu sei".
Ficava feliz e envaidecido, porém já sabia que mesmo o que eu conhecia não pertencia a mim, mas aos outros que me ensinaram (anos mais tarde fui tendo a confirmação mais embasada disso - e viva Sartre!).

Após o casamento ele começou a se sobrecarregar de trabalho e "seriedades" da vida,
Muito me preocupava isso. Não era o seu perfil,e ao meu ver, o de ninguém.
Cortou o cabelo e as coisas começaram a "entrar nos eixos". Não o dele nem o da vida humana.

Ramonzinho morreu de enfarte fulminate aos 29 anos deixando um filho pequeno.

Nesses dias em que penso em música, história, princípios e moralidade lembro muito do meu estagiário, amigo e talvez um afiliado que nunca tive.

A vida acaba de maneiras abruptas. Sempre.
Como disse  Carlos Heitor Cony, "somos todos terminais desde que nascemos".
A sua existência foi abreviada, e diferente dos meus amigos tecnicistas eu creio (dadas as evidências) que não foi a "saúde ruim" apenas que o tomou das pessoas que o amavam. A sociedade perversa que busca a "ferramenta de trabalho" e consumidor ideal foram cruciais no processo.

Não deu tempo de te dizer meu jovem amigo, mas você também me ensinou coisas.
A principal foi a de que realmente eu não sirvo pra lucrar sobre ninguém, nem explorar as pessoas e muito menos as ver como algo que intrinsecamente não tem valor mais importante que as "competências técnicas".

Não preciso de crendices para saber que você está em todos que o conheceram.
Sartre (entre outros claro)  nos mostra de maneira mais bela.

Um brinde a você meu jovem amigo!






sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Novidade ou eu apenas acho que o mundo começou comigo?

Nós somos criaturas bastante  bizarras.
Dado a nossa existência curta e nossa ignorância ampla, achamos sempre que somos cheios de criatividade e ideias inovadora, ainda mais no momento histórico onde "eu acho que" (sem maiores lastros) virou algo a ser valorizado.

Bom, se você  acha algo bizarro e saído "do nada" uma figura insólita (e nem por isso menos perigosa e nefasta) como Donald Trump assumir o poder da mais influente e poderosa nação do mundo, acho que apelas à história traz respostas... e péssimas perspectivas...

Indo direto ao ponto, desde que resolvi estudar economia (muito mais a política econômica e a moralidade derivada) uma coisa me deixava curioso: conhecer um pouco mais dos "primos ricos".

Como já li muita coisa do Paul Krugman (professor em Princeton, Nobel em economia, phD pelo MIT, colunista e escritor), achei na sua lista o "A consciência de um liberal". Muito bom, vale a pena pra qualquer um queira um panorama da política econômica dos EUA a partir do fim do século XIX.

Não é minha pretensão fazer uma crítica ou resenha do livro. Me considero muito ignorante para isso.
Mas acho que vale muito a pena nessas épocas "Trumpiquescas" e de devaneios ultraliberais no Brasil.

Basicamente prof Krugman demonstra como os EUA se tornou (principalmente nos Trente Glorieuses) o país das oportunidades e de como ele deixou de o sê-lo desde a década de 80.
Com dados muito consistentes prof Krugman derruba vários dos mitos ultra liberais (ou neoliberais se assim preferir) do estado mínimo, mitos da austeridade, redução tributária, etc.

A parte econômica (em especial as "receitas para grandes compressões" ou o New Deal norte americano) pode ser facilmente avalizada, por exemplo, com as obras de Joseph Stiglitz, Amartya Sen e brilhantemente por Thomas Picketty, mas a parte que mais me interessou foi a política mesmo.

Por exemplo, alguns se surpreendem com medidas aparentemente mais progressistas e liberais para um republicano que o governator Schwarzenegger tomou em sua época à frente do estado da Califórnia, e recentemente com suas críticas a Trump (republicano, homofóbico, sexistas, truculento, racista, egocêntrico, narcisista...), mas prof Krugman mostra que nem sempre republicanos e democratas estiveram em lados tão opostos.

Usa por exemplo o presidente Eisenhower como exemplo de republicano que ainda manteve certos programas sociais, etc. Cita que inclusive, a lei que aboliu a escravidão nos EUA foi aprovada por republicanos (os interesses obviamente não deixaram de ser citados).

A polarização republicana foi basicamente resultado de uma agregação de forças conservadoras em especial as elites sulistas (a versão do 'coronezinho' deles), empresários e grandes executivos, fanáticos religiosos e outros lunáticos perigosos, que, com o poder econômico, cooptaram estrategicamente a grande mídia e até mesmo partes da elite acadêmica (os think thanks).

Esses "organismos" (os think thanks) aglutinam toda a espécie de centro de influências sociais legais ou não, plantando notícias falsas e boatos, agraciando pesquisadores se os "resultados científicos" ficarem no interesse conservador, chantageando políticos e manipulando eleições.

Sim, manipulando eleições.
Prof Krugman nos traz uma série de fatos a respeito de como a prática de manipular eleições nos EUA é antiga e praticamente institucionalizada.

A saúde universal mereceu especial atenção, antecipando (o livro é de 2008 se eu não me engano) a derrubada do Obama Care e esclarecendo porque é muito importante para os conservadores que a saúde nunca se universalize nos EUA (eles chama de "saúde socializada" para reforçar o "perigo comunista"), motivos que vão além dos poderosos cartéis das indústrias médicas e farmacêuticas e da corrupção generalizada (sim, lá também tem!).

Assim como outros economistas sérios e imparciais (dentro do que a ética nos permite ser) ele mostra que os EUA se tornaram um país oligárquico novamente, com altos índices de violência, queda no nível escolar, achatamento da classe média e escabrosa desigualdade social, tudo basicamente resultado de redução tributária, ausência de controle (mesmo que seja apenas o moral) dos grandes salários, perseguição aos sindicatos e às forças organizadas ligadas ao trabalhador e à total (ou quase) ausência de um estado de seguridade social.

Apenas para bater na mesma tecla, de modo sucinto porém enfático, usando literalmente as palavras do prof Krugman: "as sociedades de classe média não surgem automaticamente enquanto uma economia amadurece, elas tem de ser criadas por meio da ação política".
 
O livro tem muita coisa boa e é recheado de ótima bibliografia. Vale muito a pena para nós cucarachas, os "primos pobres", que estamos adotando esse discurso de satanização dos impostos, do estado mínimo, da suposta meritocracia, da polarização irracional, da truculência e da xenofobia, e permitindo exatamente a mesma coisa que "lá": que grupos religiosos, ultraconservadores, empresariais e os barões de sempre se aglutinem e reinem sem questionamentos.

O capitalismo é como o 'Banco Imobiliário' (versão eufemística do nome original Monopoly): ele só funciona mal e porcamente quando um forte "juíz" (por definição aquele que deveria zelar por todos e a quem se outorga até mesmo a exclusividade da violência: o Estado) organiza, equaliza as forças e redistribui as riquezas. Sem o "juíz" ou se ele for o próprio jogador... bem, é o que estamos vendo...

Pra divertir a reflexão segue um doc do Michael Moore (apesar do jeito "Moore" de ser, seus docs são sempre interessantes):




A Corporação é um documentário premiado canadense. Esse vai de "brinde"... :o)
Você imagina a origem da "pessoa jurídica"? Então veja... é sinistro...



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Meu amigo Zygmunt

Em dezembro encerrei minha jornada no facebook.
Curiosamente próximo à data de falecimento do grande sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Os motivos são a avaliação prática, ainda que rasteira, do 'mundo líquido' que Bauman criou para definir a modernidade (ou pós modernidade como queiram).

Mesmo as poucas pessoas que conheci pessoalmente da dita "rede social", a sua maioria esmagadora são os bem descritos por Bauman, com uma ou mais de algumas de suas características: descartam pessoas e grupos com a facilidade de um 'delete'; se acham livres para emitir opiniões mal ou nulamente fundamentadas e não querem ouvir críticas; são irresponsáveis para com o outro e tem ética questionável; tem um discurso em dessintonia com a prática.

Uma outra coisa que me deixou abismado foi a completa subserviência a sistemas verticalizados, mesmo que em pessoas com aversão à autoridade tradicional: sem tocar o gado, ele se dissipa no pasto...


Foram quase 2 anos tentando... não posso ser acusado de não tentar...

Não vou me estender nisso. É melhor uma pessoa com mais conhecimento que eu.
Segue uma palestra do professor Lendro Karnal sobre o 'mundo líquido'.




Quem quiser entender porque me incomodo com "afetuosinhos" que defendem sistemas amorais  ou simplesmente "seguem sem questionamentos" (Hittler devia ser um cara muito amável com família e amigos, assim como Stalin, Trump, o piloto do Enola Gay ou aquele seu amigão do peito que defende truculências, supostas meritocracias e amoralidades...), sugiro enfaticamente a leitura de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal: aqui tem uma análise muito boa.

Devemos pois continuar a busca, como Diógenes e sua lanterna atrás de um "homem honesto" ou Sócrates vagando em miséria atrás de um "homem sábio"*? Se antes do facebook arbitrariamente imaginava que a busca seria de 1 em 1 milhão, agora acho mais fácil ganhar na Mega-Sena...





* Sócrates gerou enorme antipatia buscando um "homem sábio". Questionar o sábio não provoca desconforto, mas questionar o tolo sim, pois o desnuda frente a sua ignorância e isso, importante que se frise, NÃO significa de maneira nenhuma que o questionador se presuma "mais sábio" que o questionado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Admirável mundo novo



Nova translação da Terra e velhas tristezas...
Seu Tino é um senhor de 70 e muitos anos, negro, trabalhador e que sempre foi muito forte. Nos últimos anos claro a saúde está meio debilitada, a coluna já não ajuda e por aí vai.

Muito gentil e honesto, faz parte daquela leva de brasileiros marginalizados, sem educação formal e muito menos especialização alguma.
Perambula por aí atrás de serviços variados como capinar um terreno, limpar um jardim, cavar uma piscina... sim, o velho abriu uma piscina sozinho na pá!

Como todo explorado, principalmente sendo negro, sua postura é sempre humilde e resignada.
Às vezes o contratamos para algum serviço aqui em casa, assim como minha irmã o faz na casa dela. Sempre frisamos que ele deve ter o tempo dele sem prejudicar sua saúde e sempre permitimos que ele use o banheiro e tome água fresca filtrada, assim como à tarde o servimos algum lanche.

Todos os nossos prestadores de serviço são tratados com respeito e dignidade, sejam eles jardineiros ou advogados. Aliás, a hora da vida humana de ambos tem o mesmo valor.

Estranho alguns diriam.
Paternalista diriam outros.

Tratar com respeito e humanidade alguém passou a ser sinônimo de “favor”, e conseguir o ”melhor negócio” ainda que às custas de um pobre coitado virou “natural”.
Ele capina quase um terreno inteiro de um lote padrão de 300 m2 e pede 20 Reais... tem gente que aceita ou pior, pechincha!

Nenhum ser humano com um pingo de moralidade deveria aceitar pagar tão pouco para alguém trabalhar tão duro.

Alguns disparam o chavão neoliberal do “mercado” e da “oferta e procura”... com certeza Adam Smith (o papa dos liberais e neoliberais, que antes de mais nada era professor de moral – vide seu livro “Princípios da moralidade humana” que, segundo ele mesmo, nunca deveria estar separado do famoso “A riqueza das nações”) iria achar minimamente descente isso.

Pagamos 100 Reais ou mais para esse um ou um dia e meio de trabalho duro.
Ninguém aqui é rico, muito pelo contrário. Nossa vida é bem simples por opção.

A moral, simplificando, é o constate questionamento de “o que eu NÃO DEVO fazer ainda que me seja permitido” e “o que eu DEVO fazer ainda que eu não ganhe nada em troca e nem me seja solicitado
.
A essas questões, que devem permear constantemente a mente humana, soma-se a sua conduta para com o outro como indivíduo e como coletividade.

Daí logo se vê que “a lei” é apenas uma técnica. Uma ferramenta quando toda educação falhou. A última e falha cartada de uma sociedade decrépita.
A técnica quando substitui a moralidade solapa todo o humanitarismo de uma civilização e torna nebulosa – propositalmente - a diferença entre, parafraseando Amartya Sen, a liberdade formal e a liberdade substantiva. Pois a primeira depende da técnica – lei – e obviamente estará sempre a favor dos que podem pagar e a segunda depende da moral humana. Não é apenas uma coincidência que o neoliberalismo fomentou a extinção da moral, pois o que sobrou está sempre a favor de uma minoria que agora nem se freia diante de uma conduta imoral ainda que legal.

Mas voltando ao seu Tino, muita gente o explora na vizinhança.
É um misto mixo de poder e oportunismo, de uma ganância pífia, de uma naturalização do ganhar a qualquer custo.
É o discurso e o modus vivendi naturalizado dessa sociedade, que também defende as chacinas, a criminalização no uso de psicotrópicos ilegais, a criminalização do aborto, a culpabilidade feminina no estupro, das diferenças de gênero e raça e demais insanidades e truculências.

Uma vez perguntaram ao Roger Waters (ex vocalista, baixista e e genial compositor do Pink Floyd) se ele era “infeliz”. Ele achou a pergunta patética e disse que sua vida era ótima e sua família fantástica, mas que isso não o tornava impermeável à desgraça humana e nem o impedia de se colocar no lugar do outro.

Ter momentos de alegria devem permitir momentos de tristeza e reflexão, por isso não acredito em alguém que seja feliz. Nós podemos ESTAR felizes, pois a emoção humana não é uma condição de SER e sim de ESTAR.

E não posso considerar humano alguém que não se incomode com uma situação tão comum dos Tino's do mundo. Evidentemente esse ‘incomodar’ deve ser profundo e não palavras vazias ao vento. É a sua reflexão e a postura de vida diante disso.

Por isso que o mínimo que considero descente é o consumo mínimo, assim como o ganho mínimo. Claro, 'mínimo' é algo subjetivo, mas qualquer um que se questiona não sairá muito de uma espécie de "média comum da decência", pois o consumo estimula a exploração, tanto a humana quanto a dos recursos naturais, sua ligação com esse ideal mesquinho é óbvio.

E sim, qualquer um que ostente luxo num mundo tão desigual é um canalha, legalista ou não.
Basta saber que as valorações de um ou de outro são completamente arbitrárias e nada tem a ver com merecimento, muito pelo contrário, os acúmulos são sempre às custas direta ou indiretamente de uma grande massa de Tino’s.

Pensar nessa composição social e não ficar deprimido ou é esquizofrenia ou a mais pura burrice canalha.

O recém falecido (uma perda enorme para uma época tão carente de cérebros funcionais) filósofo Zygmunt Bauman uma vez respondeu a um jornalista quando questionado sobre o tema, que era um pessimista no curto prazo e um otimista no longo prazo. Claro, é uma maneira eufemística de responder a uma pergunta tão tola, pois o curto prazo é a nossa existência e o longo prazo... bem, não é nada.

E a “Trumpinização” do mundo corre solta... em 2018 com certeza algum neoliberal fundamentalista do estado mínimo estará em nosso executivo federal.
Enquanto isso resta-nos auxiliar um ou outro Tino do mundo e não fomentar essa canalhice generalizada.