sexta-feira, 7 de julho de 2017

As nossas pequenas canalhices cotidianas

Da penúltima vez que eu estava descendo (São Bernardo -> Peruíbe), ao parar no pedágio (uma das máquinas neoliberais de gerar milionários), um dos muitos rapazes que vendem coisas ali me pediu uma carona.

Nos pedágios do sistema Anchieta-Imigrantes é 'normal' esse comércio. O que não era normal eram os pedidos de carona.

Há um tempo me incomodava de fazer esse trajeto sozinho no carro. Acho uma certa indescência ter lugares vagos e saber que tem gente que paga - quando consegue - quase R$40,00 para fazer esse trajeto.

Uma pausa: R$ 80,00 ida e volta de ônibus é praticamente a mesma coisa que um motorista de carro gasta de combustível e pedágio para fazer este trajeto, o que, para não dizer outra coisa, é bastante "estranho", já que num coletivo, como a própria palavra designaria, o valor seria solidário entre os passageiros e portanto deveria ser bem mais barato. Sim, mais uma vez, algum asqueroso do "livre" comércio enriquece com exploração, legal, porém amoral.

Voltando ao causo, disse ao jovem que ele poderia embarcar.
Ele me diz que sua família também iria e aí não pude manter a oferta pois tinha um rolo de fórmica no banco de trás. Pra quem não sabe os laminados desse tipo vem num rolo grande, não podem ser dobrados e são mais ou menos delicados.

Ele agradeceu e eu segui viagem pensando no episódio.

Fora nossas pequenas canalhices cotidianas como essas individualidades recheadas de preconceito (sim, devemos assumir que boa parte da questão 'segurança' vem dele), conveniências e auto indulgências, me perguntei por que após tantos anos passando ali agora me pediram carona?



Ontem ao fazer o mesmo trajeto uma menina bem jovem me pede carona no mesmo ponto. Dessa vez não havia nada no carro e eu mais ou menos sabia que ela não viria sozinha.
Eu disse que encostaria o carro para não atrapalhar ninguém um pouco mais à frente e ela e seu marido poderiam carregar suas coisas e entrar no carro.

No porta malas colocamos seus itens de venda: seu isopor e suas embalagens de chocolates e salgadinhos.

De certa maneira fiquei um pouco apreensivo.
O massacre midiático (apesar de eu não ter televisão em casa) e os preconceitos nos rondam constantemente.

O máximo do perigo foi o rapaz adormecer segurando a cabeça no banco da frente e a moça ficar pescando no banco de trás.

Um casal muito jovem. Não diria mais do que 18 ou 19 anos se tanto.
Ela mulata pequenininha e ele um rapaz branco magrinho de feições comuns.

Estavam com certo odor forte, claro, um dia inteiro trabalhando na estrada sem banheiro e nenhuma outra condição digna qualquer um estaria.

Antes deles entrarem naquele estado de sonolência perguntei como era a condução e tal. Eu queria compreender o por que desse 'fenômeno' da carona estar aparecendo.

O jovem me disse que antes as vans davam carona pra eles porém agora eles cobram R$ 20,00 de cada um.

Vejam a que ponto a indecência humana em forma de monetização pode chegar!
Um 'empreendedor de vans' parte para explorar o inexplorável!
Talvez R$ 20,00 seja tudo (ou talvez nem isso) o que o rapaz consiga faturar no dia!

Paramos no caminho no bairro de Humaitá, à beira da estrada.
Eles desceram, me agradeceram e me ofereceram água e bolacha.
Neguei pois não seria justo surrupiar seu 'estoque' e nem dentro do conceito da generosidade e da dádiva a que tanto reclamo faltar no mundo. 
Um aperto de mão foi o que fiz questão de aceitar. De um humano a outro. Sem mais nem menos. Sem valoração, monetização ou julgamento.

Lembrei do meu jovem 'amigo' com seu discurso meritocrático e fascista, típico da atualidade.
Um sujeito branco, de família razoavelmente estável financeira e emocionalmente, numa sociedade que conspira para que ele tenha acesso a tudo, além da sorte e do acaso. Ele é o corredor bem nutrido, treinado e vestido que sai na frente da 'plebe' (que além de não ter nada disso nem sequer tem o "querer" incutido em sua criação) e depois branda alto seus supostos méritos.

Acabava de deixar dois brasileiros na estrada, que realmente trabalham, numa luta desigual e desumana pela sobrevivência.
Dois jovens cujos piores castigos sem razão - a não ser a cor da pele e as suas origens - a que são submetidos são a desesperança e a ausência de sonhos.

Bem nos lembra Amartya Sen, liberdade substantiva é algo mais amplo do que a simples liberdade formal (essa de ficção que temos). Sem a primeira não há justiça e portanto NINGUÉM pode arrotar suas supostas conquistas.

Não sei qual o limite da perversidão a que esse sistema sócio-econômico nos meterá.