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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O verdadeiro médico e o juramento de Hipócrates

Quando o que importa são as pessoas e não os consultórios na Faria Lima...

Por Marcos Pacheco, médico sanitarista, secretário de Estado de Políticas Públicas, bacharel em direito, mestre e doutor em Políticas Públicas e professor universitário.
A decisão de retirada dos colegas médicos cubanos da Atenção Primária em Saúde vai agravar mais ainda a já recorrente tendência de elevação das taxas de morbimortalidade infantil no Brasil. Para se ter uma ideia do que isso representa, sairão de cena mais de oito mil médicos, todos (sem exceção) atuando em comunidades rurais, ribeirinhas, quilombolas, aldeias indígenas e bairros periféricos de grandes cidades brasileiras, em cenários de alta vulnerabilidade sociossanitária.
Mas, quem são esses médicos cubanos e por que farão tanta falta?
Na condição de secretário de Estado de Políticas Públicas, por dever de ofício, participei em 2016 de uma das muitas acolhidas que fizemos aos colegas cubanos que chegaram ao Maranhão para trabalhar na nossa interlândia. A sessão de acolhimento foi realizada na Unidade Básica de Saúde do bairro Vicente Fialho, em São Luís, onde, inclusive, trabalho como médico desde 2005. Eram uns 20 colegas médicos (todos cubanos). Sentamos em círculo, sob a frondosa mangueira que sombreia a unidade e começamos uma roda de conversa.
Cada um foi falando de suas expectativas aqui no Maranhão. Identifiquei-me logo com os que iriam para a região de Barra do Corda, Arame, Itaipava, Jenipapo dos Vieiras e Fernando Falcão, todos municípios que eu conhecia muito bem; trabalhei naquela região por mais de 15 anos. Fomos trocando algumas ideias, falei-lhes da presença indígena, das etnias Tenetehara (Guajajaras) e Ramkakromeká (Canelas), que ali têm seus territórios. Meus colegas cubanos mostravam-se (estranhamente) motivados. Via-se em suas faces uma disposição pelo desafio de fazer medicina na ponta, no campo, medicina capilarizada, medicina social, medicina da atenção primária.
Enquanto conversávamos, eu perguntava-me o que levaria médicos a deixar seu país e virem trabalhar em comunidades pobres ou entre indígenas. Lugares remotos, onde normalmente só Deus e o povo estão. Que espírito missionário é esse que acorre a médicos vindo de um regime comunista, portanto, ateu. Que vocação desvairada é essa? Somente aos poucos eu fui entendendo que se tratava de um tipo específico de formação médica. São formados para servir. São preparados para fazer ‘medicina de ponta’, exercer a clínica do cuidado onde a medicina é mais necessária, onde estão os mais necessitados.
Lembrei-me da visita que fizera no ano anterior à Havana, em 2015, na companhia do então ministro da saúde, Arthur Chioro. De fato, na Escola Latino Americana de Medicina (ELAM), em Cuba, o que vemos são jovens estudantes sem nenhuma marca de aristocratização. Muitos estrangeiros, egressos de famílias simples e humildes de seus países de origem, dos vários países de toda a América Latina, muitos do Brasil; jovens egressos daqui, da escola pública, impedidos de acessar uma das concorridíssimas vagas nas faculdades de medicina do Brasil, onde disputam com jovens egressos de escolas privadas, numa concorrência francamente desigual e injusta.
E foi um desses cubanos que encontrei na zona rural de Primeira Cruz, sentado na calçada de um Posto de Saúde, no final do expediente, já sem pacientes para atender, mas, como se ainda quisesse ficar mais um pouco ali naquela “igrejinha” de sua missão. Após os cumprimentos, perguntei-lhe como estava a situação de saúde ali naquele povoado de mais de mil famílias, onde só se conseguia chegar de barco. Ele sorridentemente foi dizendo “tudo bien”. E completou: “acompanho todas as gestantes, conheço todos os meninos de até cinco anos, vejo regularmente todos os hipertensos e diabéticos daqui e estamos tratando os poucos casos de hanseníase e tuberculose que identificamos”. Perguntei-lhe sobre casos graves, ele disse: “Meu trabalho é não deixar agravar”.
Agradeci-lhe pela disponibilidade e tive, com aquele cubano, uma lição da mais pura medicina efetiva, de baixíssimo custo e de altíssima resolutividade. Lembrei da nossa Força Estadual de Saúde do Maranhão (Fesma), programa do Governo do Maranhão que busca fazer esse tipo de assistência, focada em grupos prioritários a partir de parâmetros epidemiológicos, mas fundamentada em uma consciência social crítica e em uma competência clínica solidificada. Sem aristocratização, mas, sim, com muita dedicação e opção preferencial pelos socialmente mais vulneráveis.
Para atuar nas condições de saúde em que vive uma expressiva parte da população brasileira, camponeses, ribeirinhos, indígenas, quilombolas e moradores de bairros mais periféricos nas nossas grandes metrópoles, não basta ser médico, precisa ser um vocacionado. Saber lidar e reverter condições adversas, onde pobreza extrema se mescla com uma diversidade sociocultural muito extensa. Por isso não podem ficar desassistidos, não podemos deixá-los à mercê de sua própria sorte. Espero que tenhamos aprendido um pouco dessa lição que emerge da missionária vocação de ser médico sob qualquer condição. De fato, vamos precisar de todo mundo para varrer do mundo a opressão.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Mais auto-testes

Fiz um pequeno exame de sangue há poucos dias.
Os outros exames, para fins do que desejo defender, não vem ao caso.
 
Primeiramente deve-se considerar que sou um ser humano “normal” praticamente igual a todos os meus pares de espécie. Nada muito diferente existe entre nós, exceto em alguns POUCOS (percentualmente) casos de doenças hereditárias, má formações genéticas, etc.
 
Há muitos tempo sou contrário a pirâmide nutricional convencional (pouca gordura, médios carbos, muitos vegetais) e aos dogmas alimentares sustentados em boa parte pela indústria alimentícia, pesquisas financiadas pelas mesmas e um mar de médicos inaptos ao exercício da profissão
 
Sempre fui um praticante contumaz de atividades físicas e consumidor ávido de proteínas e gorduras com pouco ou em algumas épocas nenhum carboidrato. Nunca tive nenhuma alteração considerada “anormal” em minhas taxas de triglicérides, colesterol, etc.
 
Há dois anos parei completamente TODA atividade física. Uma sequência de lesões culminando com diagnósticos bastante péssimos com diferentes especialistas me deu a perspectiva de que só poderia fazer atividades leves.
 
Como não sou muito a feito a coisas “leves” optei pelo ‘foda-se’ e aproveitei para fazer outros testes comigo mesmo, para comprovar que Darwin realmente estava certo.
Imaginei que, sendo uma pessoa não submetida ao stress da sociedade competitiva (vivo de maneira simples como escolhi por isso me dou ao luxo - isso sim é luxo - de trabalhar muito pouco e ter muito tempo livre), nada que eu comesse (desde que bem pouco) me faria mal, ainda que completamente sedentário.
 
Evoluímos para sobreviver e passar privações, porém nos últimos 100 anos em especial fomos educados a termos todos os desejos realizados e a não sermos submetidos a frustrações sem compensação.
A nossa biofísica indica que evoluímos para comer qualquer coisa que nos forneça energia para sobreviver e quase nada nos faz mal (evidentemente que estamos falando de coisas que os animais comem e livres de venenos ou substâncias notadamente tóxicas), porém, em quantidades bem pequenas, pois era o que conseguimos obter na competição direta com outros animais.
 
Como eu disse, nos últimos dois anos a atividade física foi ZERO. Nem sequer atravessar a rua eu fiz.
A dieta foi a do tipo tosca, com muita pizza, cachorro quente cheio de maionese, miojo, pururuca, frango frito, omelete e por aí vai. Fora a ausência completa de horários e regras. A única regra foi a que, seja lá o que comesse, que fosse pouco.
 
Alguns dias chegava a fazer apenas uma refeição no dia.
 
Resultado (primeiro o obtido depois o desejado):
 
  • DOSAGEM DE ÁCIDO ÚRICO:  5.2 mg/dL - MASCULINO: 2.5 a 7.0 mg/dL
  • HDL - COLESTEROL: 69 mg/dL - Superior a 40 mg/dL
  • LDL - COLESTEROL: 90 mg/dL - Ótimo: Inferior a 100 mg/dL
  • DOSAGEM DE COLESTEROL: 182 mg/dL  - Desejável: Inferior a 200 mg/dL
  • DOSAGEM DE GLICOSE: 101 mg/dL - 70 a 99 mg/dL
  • TRIGLICÉRIDES : 116 mg/dL – Ótimo: Inferior a 150 mg/dL
  • HORM. TIREOESTIMULANTE (TSH) : 0.847 uUI/mL - 0.270 a 4.50 uUI/mL
 
Os resultados, até para o que eu esperava, foram surpreendentemente bons. A dosagem de glicose foi ligeiramente acima do máximo. Além de poder ser uma oscilação normal devemos acrescer às tolerâncias das medições.
 
Evidentemente que isso não é uma pesquisa válida e nem sequer uma sugestão de vida, porém, associados ao que se temos notícias dos grandes longevos do mundo, a uma forte indicação que não é a comida nem o sedentarismo nosso grande vilão, mas sim, a maldita sociedade competitiva e individualista em que estamos (estão, eu tô com um pé fora) submetidos.
 
A longo prazo o que aconteceria (ou o que vai acontecer)?
Ninguém pode afirmar, nem ao menos as péssimas pesquisas dirigidas que temos.
Apenas como exemplo, quando ler uma pesquisa verifique quem fez, qual o instituto e qual o patrocinador direto e indireto. Soma-se a isso a péssima (intencional ou não)  amostragem, que é sempre muito homogênea: populações urbanas culturalmente semelhantes e submetidos à mesma insalubridade.
Por que não pegar 1000 inuítes, 1000 paulistanos, 1000 guaranis, 1000 aborígenes, 1000 etíopes, etc?
 
Agora, se você for no tal médico reducionista, se for início de diabetes te darão metformina, se for colesterol alto te darão alguma estatina, se o T3 tiver baixo te darão alguma tiroxina, e por aí vai.
 
O comum em toda a recomendação vai ser o chavão: "dieta e exercícios".

A vida das pessoas ficou péssima. Gente sujeita a stress diário, relacionamentos ruins, intolerância à frustração, falta de significância no trabalho, falta de atividades criativas e intelectuais e uma completa incompreensão da diferença de trabalho e labor.

E a culpa, veja só, é do toucinho...
 
 

domingo, 14 de agosto de 2011

A medicina mata mais do que cura?

O médico Vernon Coleman diz que os hospitais mais matam do que curam e que é preciso ser muito saudável para sobreviver a um deles
Por Sérgio Gwercman

Um selo colado na testa advertindo sobre os perigos que podem causar à saúde. Se dependesse do inglês Vernon Coleman, esse seria o uniforme ideal dos médicos. Dono de um diploma em medicina e um doutorado em ciências, Coleman abandonou a carreira após dez anos de trabalho para ganhar a vida escrevendo livros com títulos sugestivos do tipo Como Impedir o seu Médico de o Matar. 

Autor de 95 livros, o inglês é um auto-intitulado defensor dos direitos dos pacientes. Em seus textos, publicados nos principais jornais do Reino Unido, costuma atacar a indústria farmacêutica - para ele, a grande financiadora da decadência - e, principalmente, os médicos que recusam tratamentos que excluam a utilização de remédios e cirurgias. Dono de opiniões polêmicas, Coleman ainda afirma que 90% das doenças poderiam ser curadas sem a ajuda de qualquer droga e que quanto mais a tecnologia se desenvolve, pior fica a qualidade dos diagnósticos.

Como um médico deve se comportar para oferecer o melhor tratamento possível a seu paciente?
Os médicos deveriam ver seus pacientes como membros da família. Infelizmente, isso não acontece. Eles olham os pacientes e pensam o quão rápido podem se livrar deles, ou como fazer mais dinheiro com aquele caso. Prescrevem remédios desnecessários e fazem cirurgias dispensáveis. Ao lado do câncer e dos problemas de coração, os médicos estão entre os três maiores causadores de mortes atualmente. Os pacientes deveriam aprender a ser céticos com essa profissão. E os governos, obrigá-los a usar um selo na testa dizendo "Atenção: este médico pode fazer mal para sua saúde".


Qual a instrução que pacientes recebem sobre os riscos dos tratamentos?
A maior parte das pessoas desconhece a existência de efeitos colaterais. E grande parte dos médicos não conhece os problemas que os remédios podem causar. Desde os anos 70 eu venho defendendo a introdução de um sistema internacional de monitoramento de medicamentos, para que os médicos sejam informados quando seus companheiros de outros países detectarem problemas. Espantosamente, esse sistema não existe. Se você imagina que, quando uma droga é retirada do mercado em um país, outros tomam ações parecidas, está errado. Um remédio que foi proibido nos Estados Unidos e na França demorou mais de cinco anos para sair de circulação no Reino Unido. Somente quando os pacientes souberem do lado ruim dos remédios é que poderão tomar decisões racionais sobre utilizá-los ou não em seus tratamentos.


Você considera que os médicos são bem informados a respeito dos remédios que receitam a seus pacientes?
A maior parte das informações que eles recebem vem da companhia que vende o produto, que obviamente está interessada em promover virtudes e esconder defeitos. Como resultado dessa ignorância, quatro de cada dez pacientes que recebem uma receita sofrem efeitos colaterais sensíveis, severos ou até letais. Creio que uma das principais razões para a epidemia internacional de doenças induzidas por remédios é a ganância das grandes empresas farmacêuticas. Elas fazem fortunas fabricando e vendendo remédios, com margens de lucro que deixam a indústria bélica internacional parecendo caridade de igreja.


E o que os pacientes deveriam fazer? Enfrentar doenças sem tomar remédios?
É perfeitamente possível vencer problemas de saúde sem utilizar remédios. Cerca de 90% das doenças melhoram sem tratamento, apenas por meio do processo natural de autocura do corpo. Problemas no coração podem ser tratados (não apenas prevenidos) com uma combinação de dieta, exercícios e controle do estresse. São técnicas que precisam do acompanhamento de um médico. Mas não de remédios.


Receber remédios não é o que os pacientes querem quando vão ao médico?
É verdade que muitos pacientes esperam receber medicamentos. Isso acontece porque eles têm falsas idéias sobre a eficiência e a segurança das drogas. É muito mais fácil terminar uma consulta entregando uma receita, mas isso não quer dizer que é a coisa certa a ser feita. Os médicos deveriam educar os pacientes e prescrever medicamentos apenas quando eles são essenciais, úteis e capazes de fazer mais bem do que mal.


Que problemas os remédios causam?
Sonolência, enjôos, dores de cabeça, problemas de pele, indigestão, confusão, alucinações, tremores, desmaios, depressão, chiados no ouvido e disfunções sexuais como frigidez e impotência.


Em um artigo, você cita três greves de médicos (em Israel, em 1973, e na Colômbia e em Los Angeles, em 1976) e diz que elas causaram redução na taxa de mortalidade. Como a ausência de médicos pode diminuir o risco à vida?
Hospitais não são bons lugares para os pacientes. É preciso estar muito saudável para sobreviver a um deles. Se os médicos não matarem o doente com remédios e cirurgias desnecessárias, uma infecção o fará. Sempre que os médicos entram em greve as taxas de mortalidade caem. Isso diz tudo.


Muitas pessoas optam por terapias alternativas. Esse é um bom caminho?
Em diversas partes do mundo, cada vez mais gente procura práticas alternativas em vez de médicos ortodoxos. De certa maneira, isso quer dizer que a medicina alternativa está se tornando a nova ortodoxia. O problema é que, por causa da recusa das autoridades em cooperar com essas técnicas, muitas vezes é possível trabalhar como terapeuta complementar sem ter o treinamento adequado. Medicina alternativa não é necessariamente melhor ou pior que a medicina ortodoxa. O melhor remédio é aquele que funciona para o paciente.


Em um de seus livros, você afirma que a tecnologia piorou a qualidade dos diagnósticos. A lógica não diz que deveria ter acontecido o contrário?
Testes são freqüentemente incorretos, mas os médicos aprenderam a acreditar nas máquinas. Quando eu era um jovem doutor, na década de 70, os médicos mais velhos apostavam na própria intuição. Conheci alguns que não sabiam nada sobre exames laboratoriais ou aparelhos de raio X e mesmo assim faziam diagnósticos perfeitos. Hoje, os médicos se baseiam em máquinas e testes sofisticados e cometem muito mais erros que antigamente.


Você faz ferrenha oposição aos testes médicos realizados com animais em laboratórios. De que outra maneira novas drogas poderiam ser desenvolvidas?
Faz muito mais sentido testar novas drogas em pedaços de tecidos humanos que num rato. Os resultados são mais confiáveis. Mas a indústria não gosta desses testes porque muitos medicamentos potencialmente perigosos para o homem seriam jogados fora e nunca poderiam ser comercializados. Qual o sentido de testar em animais? Existe uma lista de produtos que causam câncer nos bichos, mas são vendidos normalmente para o uso humano. Só as empresas farmacêuticas ganham com um sistema como esse.


O que você faz para cuidar da saúde?
Eu raramente tomo remédios. Para me manter saudável, evito comer carne, não fumo, tento não ficar acima do peso e faço exercícios físicos leves. Para proteger minha pressão, desligo a televisão quando médicos aparecem na tela apresentando uma nova e maravilhosa droga contra depressão, câncer ou artrite que tem cura garantida, é absolutamente segura e não tem efeitos colaterais.