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segunda-feira, 2 de março de 2015

Economia

Todos deveríamos compreender os mecanismos da economia, afinal ela nos afeta diretamente.

O livro ‘O Capital no século XXI’ de Thomas Piketty é uma excelente fonte.
Primeiramente devo enfatizar que não é um livro anticapitalista (segundo o próprio autor ele está mais do que “vacinado contra discursos retrógrados”), não é atôa que veículos como o The Economist e o The Guardian e até mesmo, pasme, o Bill Gates elogiam enfaticamente o livro.
No campo acadêmico é redundante falar que o livro já é referência, fortemente cotado para o livro de economia da década e quem sabe uma referência do século XXI como foi David Ricardo/Marx no século XIX e Kuznets no século XX.
Algumas coisas que tornam o livro interessantíssimo para todos:
- abordagem multidisciplinar da economia, nunca deixando de lado os rigores científicos mas sem abandonar as ciências humanas (da onde o autor crê que a economia nunca deveria ter saído);
- estudo histórico fantástico, com a inclusão de pesquisas oficiais (World Incomes Databases, registros fiscais e várias outras fontes oficiais) e obras antigas. Uns 20 ou 30 pesquisadores por todo o mundo colaboraram na pesquisa/análise de dados (foram 15 anos pesquisando);
- pouco ou quase nenhum viés ideológico (não existe 100% de imparcialidade em nenhum humano, porém, o importante é manter em sua maioria a integridade das análises);
- excelentes referências bibliograficas;
- ótima escrita (evidentemente devo dar mérito à tradutora também).
Síntese (bem micro mesmo) de alguns pontos:
- na crítica à Marx pode-se pontuar o (possível) erro do desfecho do capitalismo por excesso de influência ideológica e claro a impossibilidade de conhecer os impactos da tecnologia no decorrer do século XX/XXI, porém sem tirar o mérito da obra e sua fabulosa intuição (em 1930 Harrod e Dogmar introduziram uma das leis do capitalismo: g=s/B supondo que a relação captital/renda (B) fosse constante em 5% e, por exemplo, com uma poupaça interna s em 10% o crescimento g seria de 2%, porém estudos posteriores (Solow – 1956) demonstraram que B é variável inclusive pelo crescimento demográfico e portanto, foi aceito que a razão dinâminca de capital/renda corresponderia a B=s/g, onde um crescimento estrutural igual a 0 levaria fatalmente a razão B ao infinito, fazendo com o rendimento do capital (r) se torne cada vez mais proximo de 0 e sua participação - outra lei do capitalismo a = r x B - devore a totalidade da renda nacional – portanto, sem intervenção externa o capitalismo rui pelas suas próprias contradições – lembrando que em ciências sociais, as equações são um modelamento dinâmico aproximado de longo prazo. O crescimento demográfico e de produtividade e a difusão do conhecimento permitiu, por hora, evitar o apocalipse marxista, mas não modificou as estruturas profundas do capital.);
- na crítica a Smith/Kuznets pode-se pontuar as suas falhas na análise reducionista dos dados (ou nenhum dado no caso de Smith) que resultaram na “economia do otimismo” (em oposição a “economia do pessimismo” de Marx/David Ricardo) e na imagem completamente sem sentido, sem evidências e sem ocorrências históricas do “mercado se ajustar sozinho de maneira mágica” (aliás, intuitivamente isso já parece uma barbaridade, mas tem gente que acredita em duendes então...);
- coloca a concentração de renda excessiva como algo que compromete a democracia e abre espaço a regimes totalitários e/ou nacionalistas (vide Hitler, Hugo Chaves, etc) ou a graves convulsões sociais;
- demonstra que os mega salários, ganhos de capital de renda acima de ganhos de capital produtivo e as heranças não somente degradam os valores do mérito como contribuem de maneira decisiva para a concentração de renda (sem grandes demonstrações posso usar a lógica: se os pais tem mérito em construir patrimônio, que mérito tem os filhos em ganhar o mesmo? Soma-se a isso a herança social, ou seja, educação formal e informal e a estabilidade afetiva/emocional que já é por si, uma plataforma a mais sobre quem não as teve);
- derruba de maneira definitiva a idéia de que sem intervenção (excetuando-se os casos de guerras, revoluções e grandes tragédias) a concentração de renda diminua;
- demonstra que somente acesso irrestrito à informação (especialização de mão-de-obra, etc) e a liberdade não são capazes de reduzir significativamente a concentração individual de renda (parece funcionar para as nações como um todo) e sem taxação e outras intervenções políticas esses perfis não são significativamente alterados (curiosidade: o IGF, imposto sobre grandes fortunas ja está na constituição brasileira, faltando apenas sua regulamentação. Uma das tentativas de regulamentá-la foi a do então senador Fernando Henrique Cardoso);
- derruba o mito da estatização ineficiente. Não afirma que é positivo, mas demonstra que não se pode dizer que é negativo. Mostra que na Europa, constantemente houveram ondas de estatizações e privatizações (este sempre a preços inferiores dos de mercado – pagamos sempre a conta), sem necessariamente algo ser absolutamente ruim ou bom (por exemplo: atualmente a Renault continua com 20% estatal, assim como a Volkswagen. Outro exemplo é mostrar que o ativo fixo de uma estatal - por definição - não é contabilizado no PIB e quando a empresa se privatiza ele passa a ser contabilizado, dando falsa melhora no PIB);
- expõe o caso do “capitalismo do Reno” ou o “capitalismo social” (Alemanha) como um caso de estudo, onde as empresas privadas tem ações mais baixas que a média mundial (por causa dos conselhos: trabalhadores, governo e órgãos do meio ambiente tem direito a voto deliberativo mesmo sem ter nenhuma ação) porém tem muita estabilidade e solidez (achei interessantíssimo! Curiosidade: até hoje os alugueis sofrem pesado controle governamental.);
- mostra os erros de se avaliar condições macro economicas pelo PIB (a análise das relações de capital/renda referenciais ao poder de compra local é melhor, apesar de ainda aproximada);
- mostra que os crescimentos da ordem de 1% ou próximos não são ruins (geram mais de 35% em uma geração!) e que os alegados ideais de 3% ou 4% é que são exceções ao longo da história e ainda por cima completamente insustentáveis (exceções como a China tem explicações muito específicas);
- aliás, mostra que controle de capital (como na China e outros países asiáticos) não impacta no crescimento econômico de maneira significativa;
- em vários momentos ele deixa claro que sendo dados oficiais, é muito mais provável que altas rendas estejam subdimensionadas do que as baixas (cita dados preliminares dos paraísos fiscais, portanto,  o escândalo do HSBC são daquelas surpresas que não são supresas);
- conclui que: “A marcha em direção à racionalidade econômica e tecnológica não implica, necessariamente, uma marcha rumo à racionalidade democrática e à meritocracia. A raíz central é simples: a tecnologia, assim como o mercado, não tem limite ou moral... Se desejarmos, de fato, fundar uma ordem social mais justa e racional, baseada na utilidade comum, não basta contar com os caprichos da tecnologia.”
“As distinções sociais só podem se fundamentar na utilidade comum.” –Artigo 1, Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, França, 1789.
O pensamento classe média carece de racionalidade em grande parte causada por duas fontes:
- a primeira pela mesquinharia de achar que vai perder algo;
- a segunda pela inocência de achar que tem algo.
Agora, se passar pela sua cabeça que alguém está defendendo regimes totalitários, socialismo ou qualquer discurso sem pé nem cabeça desse nível esqueça tudo isso. Possivelmente vc se enquadra no parágrafo anterior...


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sabesp, o dogma da iniciativa privada e a lenda da meritocracia

Discutindo sobre a necessidade do domínio do estado sobre os serviços críticos ao ser humano (segurança, educação, saúde e saneamento básico) e seus impactos sobre a atual crise hídrica, fiquei pasmo com a argumentação contrária de meu interlocutor, um grande amigo: de que a corrupção não existe em serviços privados e só é necessário transparência e regulamentação.

Independente do fato de que onde o lucro é o objetivo, o ser humano nunca o será (e pode-se argumentar facilmente sobre isso), o que mais me deixa pasmo é o grau de fé em sua afirmação, portanto, absolutamente distante da lógica.

Quem corrompe?
Estão aí as "Camargo Correas" da vida que não me deixam mentir.
Não há como o corruptor ser menos responsável que o corrupto e adicionalmente a isso, a corrupção exige dinheiro público envolvido e claro, isso diretamente não existirá na iniciativa privada, porém, toda forma de "comissionamento suspeito" e demais formas similares de atividades onde a ética ficou atrás do muro são quase corriqueiras.

Agora adiciona-se a isso, segundo ele mesmo, que a privatização requer transparência e regulamentação, e aí mesmo é que ficamos aparentemente na mesma.

Se negociatas existem em ambos e transparência são necessários em ambos, esses fatores passam a ser irrelevantes na escolha, e o que sobrou foi o básico: se algo visa lucro fica mais caro para uma maioria para enriquecer uma minoria.

O caso da SABESP e a crise hídrica foi apenas um exemplo fácil da onde nos metemos quando deixamos o controle de certas coisas críticas na mão do capital.

Sem grandes teorias, usemos a lógica:

- por que investiria em estrutura para levar água a pequenos consumidores, lembrando que investir é reduzir o lucro dos acionistas e pequenos consumidores são pequenos lucros?
- por que me preocuparia com os desperdícios se a minha matéria-prima é gratuita?
- por que daria grandes descontos aos grandes consumidores em plena estiagem e penalizaria os pequenos consumidores dificultando ilegalmente o acesso a essa lista?

Isso é só pra começar com o básico.

O escândalo do HSBC, o segundo maior banco do mundo, foi a cereja do bolo para demonstrar a eficiência do setor privado em desviar e lavar dinheiro.
Esse escândalo coloca no chinelo qualquer escândalo estatal em qualquer país do mundo (não que eu ache justificável os problemas públicos).

8 mil brasileiros tem essas contas bilionárias na Suíça, a maioria (70%) com numeração sem identificação (por que será não?).

Estudos iniciais indicam que somam 20 bilhões de Reais!

Estimativas otimistas indicam que o Brasil perde 400 bilhões de Reais em sonegação anualmente!

Pois é, a "livre iniciativa" não me parece tão livre assim, e como sempre, para os tubarões, nada limpa.
Se alguns tem tratamento diferenciado, democracia é conversa pra boi dormir.
Se bem que até para os gregos a democracia era para alguns apenas, pois o populos grego era na verdade a sua aristocracia.

Deixo bem claro, como empreendedor que chegou a fazer e vender 'gelinhos' com 10 anos, escreveu seu primeiro livro com 19 e abriu sua primeira empresa com 21, que defendo a liberdade sim, a de verdade e não essa ilusão atual supostamente meritocrática.

Pode-se discutir muito sobre "O Capital no século XXI" de Thomas Piketty, mas negar a totalidade de sua obra beira a insanidade. Uma obra aclamada por laureados por prêmios Nobel e especialistas em várias áreas adjacentes à economia.

Nela, com sólidas pesquisas, (sendo superficial - ainda não acabei de ler o livro) é demonstrado a crescente curva da acumulação de riquezas na mão de uma pequena parcela da população (até a ABIMAQ já escrevia sobre isso) e como o neoliberalismo (posto a todo vapor com Reagan/Tacher) acentuou essa curva, tornando isso um problema tão grave que o autor (e outros) afirma ser uma das mais graves ameaças à democracia no mundo.

É aí que entra o Estado forte (nada a ver com totalitário), aquele que atua na real acepção da palavra, ou seja, garantindo a segurança da coletividade, a real liberdade às iniciativas pessoais e protegendo o trabalho e a produção dos dentes do capital exploratório.

É função do Estado fazer com que os ganhos de capital (a multiplicação sem sentido e sem lastro) sejam controlados e que os grandes acúmulos sejam novamente distribuídos (não existe outra forma além das taxações).

Sobre taxação, um outro amigo disse "que não se pode punir os ricos e sim dar condições aos pobres". Divertido não?!
Se riqueza não se cria (é como energia) não há como dar acesso a nada pois quase tudo já tem dono (obtido e mantido de maneira discutível), fora isso, o que a de meritocrático em deixar patrimônio para descendentes e manter fortunas que nem em 10 vidas alguém conseguiria gastar?!

Não é só uma argumentação irracional como é uma defesa de algo vil!

Piketty afirma que atualmente vivemos numa sociedade tão aristocrática quanto há séculos atrás, já que, grosseiramente, os bens familiares são acumulados, mantidos e usados como ferramenta de poder e de ascensão a mais bens.

Também demonstra a insustentabilidade (isso não é novidade, vide Marx - e pelo amor de Deus, leia Marx como um filósofo/sociólogo! Esqueça comunismo ou outros "ismos"!) de um sistema onde os ganhos de capital superam o de produção.

Mais uma vez deve ficar claro que Estado forte não é totalitário, mas sim livre do controle do capital como ocorre hoje, onde mais do que controle, o Estado virou o privado.

O Estado forte garante a distribuição de renda, taxando grandes fortunas, ganhos de capital e heranças (uma coisa nojenta que na minha opinião sequer deveria existir), fomentando a produção com crédito justo e democrático, estimulando a prática ética do trabalho e controlando diretamente o que é essencial ao ser humano como segurança, educação, saúde, energia e saneamento básico.

Veja o exemplo da saúde universalizada (pública) do Canadá, de Cuba (ops, é pecado falar qualquer coisa boa de Cuba) ou da Inglaterra.


Meus amigos classe média sofrem de uma miopia típica, uma mistura de mesquinharia e inocência.
A mesquinharia de achar que vão perder algo que não querem abrir mão de jeito nenhum e a inocência de achar que estão entre os 1% que concentram a maior parte das riquezas.

Infelizmente as pessoas confundem alhos com bugalhos.
Falar mal do neoliberalismo virou pecado, e sabe-se lá o que se passa nessas cabecinhas, sinônimo de comunismo...
Dizer que a meritocracia é inexistente ofende a maioria que acha que medíocres ações individuais (não é uma afirmativa ofensiva e sim no sentido do individual para o coletivo) podem ser estendidas a uma sociedade inteira no modelo que ela se apresenta atualmente...







Algumas referências para um assunto específico:


Imposto sobre grandes fortunas: a difícil tarefa do Congresso
Imposto sobre grandes fortunas: por que criar?

Imposto sobre Grandes Fortunas: se não agora... quando?



Notem que os pouco argumentos contrários aos impostos às grandes fortunas e patrimônios são o desestímulo à aquisição e a evasão de divisas. Outros problemas jurídicos são de fácil contorno. 
Desestímulo à aquisição não é problema e sim solução. Se as riquezeas não girarem não servem para nada a não ser seu próprio acumulador.
Evasão de divisas é balela pois outros impostos incidirão sobre esta operação e não a nada que um acumulador mais odeia que ficar longe dos seus tostões, fora isso, até nos EUA, berço do neoliberalismo, quando houve esse tipo de tributação (mesmo que com outro nome como é o caso da França atualmente), isso não ocorreu e houve decréscimo na taxa de concentração de renda.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cognição animal e delírios de um DDA

Há umas semanas atrás discuti com uns amigos filósofos sobre cognição animal, e coincidentemente, há uns dias atrás vi um programa sobre o mesmo assunto.
Nele pesquisadores testaram diversos animais (gatos, cachorros, aves, roedores, macacos, e outros) para avaliar comportamentos e raciocínios tidos como exclusivamente humanos, sem o viés especiocêntrico.

Para quem tem um parente de outra espécie (o que não é o mesmo que ter um "bicho de estimação") as conclusões não foram novidade.

Na verdade, os estudos que foram além da avaliação puramente comportamental remontam o início da década de 90.

Se somos geneticamente quase idênticos a algumas espécies ditas "próximas" (macacos por exemplo) e muito semelhantes a espécies ditas "distantes" (moscas talvez), agora outra barreira foi por água abaixo.

Enfim, o que se concluiu, resumidamente, foi que saudades, afeto, violência em grupo organizada, divisão de tarefas para um objetivo comum (sem experiência anterior), ciumes, tristeza, punição à falta de ética (aqui representada pelo agir pelo bem comum) no grupo, emoções conflituosas no deparar com a morte, etc, não são exclusivamente humanos.

Meu conhecimento é meio precário, mas creio que essa divisão intransponível entre o humano e o "animal" remonta Descartes.

O interessante é que na Idade Média os animais eram julgados pelos seus crimes (um cão que morde seu dono, por exemplo, ia a julgamento) o que mostra um reconhecimento, ou aceitação, do raciocínio de outras espécies.

Roberto Marchesini em "Intelligenze plurime" (Inteligências plúrimas) e "Il tramonto dell'uomo" (O declínio do homem) coloca em discussão a centralidade do "homo sapiens", destacando como na esfera do "bios" não há hierarquias, mas sim especializações relativas aos contextos.

Essas discussões levam a outro patamar o direito dos "animais" e nossa posição no mundo.

Alberto Giovanni Biuso, professor de Filosofia da Mente na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Catânia, na Itália, escreveu um artigo sobre as falhas e contradições do paradigma humanista:

"Mover-se rumo a um antropodescentramento do conhecimento significa, simplesmente, entender melhor a vida, tanto em sentido biológico como em sentido ético. São muitas as formas em que o antropocentrismo se expressa, do antropomorfismo, que tende a assimilar a cognição animal à humana, à reificação, que nega que nos animais não humanos haja inteligência. Em ambos os casos, é ignorado o fato de que a inteligência, é uma função biológica que - como a sensorialidade, a anatomia das artes, a digestão - se apresenta no universo animal de modo plural com uma multiplicidade de vocações e atitudes não sobreponíveis entre si".

Acho muito interessante filósofos modernos estarem discutindo sobre outras bases, ou seja, que nossa construção da realidade talvez não seja tão importante e muito menos única.

Com todos esses estudos e quebras de paradigmas, me parece que somente os 'símbolos' são exclusividade nossa.
Os criamos e nos tornamos escravos deles.

Não que outras espécies não o façam ou não possam fazer, mas ao que parece, simplesmente não importa a eles, pois suas percepções de mundo são construídas com base em inúmeros sentidos, e a "falsidade", entre eles, de fato tem "pernas curtas".

Esse assunto se estende e quero divagar sobre outras coisas ligadas ao assunto (cognição animal) e esses sentidos.

Eu entro correndo em casa de repente, ainda com meu capacete. A Cindy (minha gata) me olha com cara de "que diabos esse panaca está fazendo?" e não se abala. Ou então, um copo tomba na cozinha sem ninguém lá e o Klaus (meu gato) fica em estado de alerta, mas quando o mesmo copo tomba mas outra pessoa conhecida está lá ele não se abala.

Interessante como eles constroem a realidade deles.
Me parece que nós construímos nossa realidade de maneira visual, quase que exclusivamente, mesmo sendo nosso sentido limitado em alcance e espectro de frequência. Note que até mesmo um cego de nascença parece tender a isso.
Talvez seja resultado do nosso processo evolutivo. Uma limitação nossa mais do que influência cultural.

Os gatos, assim como outras espécies (mas felinos e outros predadores principalmente), usam uma vasta variedade de sentidos sem que algum deles tenha mais importância.

Mas veja como a Cindy construiu aquele momento. Ouviu com um alcance e profundidade superior, sentiu os infrasons com os bigodes e os pelos, viu em espectro superior e sentiu o cheiro, tudo isso resultou num modelo de mim em sabe-se lá em quantas dimensões e sabe-se lá em que formato visual teria para nós.

Mas mesmo com roupas estranhas, algo cobrindo a cabeça inteira e sem falar uma palavra ela me reconheceu instantaneamente.
Nenhum símbolo foi levado em consideração. Absolutamente nenhum.
Lá estava eu, nu diante dela, sabe-se lá sob qual formato construído.

Nossa limitação de sentidos e nossa importância aos símbolos talvez nos limite a capacidade de pensar, de fugir do senso comum.

Imagine Marx, Freud e Einstein. Será que eles não conseguiam extrapolar certas limitações?

Einstein a meu ver teve o maior insigth de toda a história da humanidade.
Ele criou algo contrário a toda a sua formação cultural e a todo o conhecimento científico até então. Algo que foi além de uma pura especulação e superficialidade (como os átomos de Epicuro - filósofo pela qual tenho grande simpatia). Algo que continha elementos de dimensões completamente fora do senso comum.

Em suas famosas "experiências mentais" ele criou um tecido onde o espaço e o tempo são interligados e deformáveis, e a partir daí, por exemplo, imaginou que um corpo muito massivo e de altíssima densidade poderia deformar esse tecido a ponto de a própria luz ser "engolida" por ele (hoje conhecido como "Buraco Negro").

Poderia essa importância aos símbolos e essa "tendência visual" estar nos tirando muito mais do que um senso de justiça, ética e felicidade?

Vishi, aonde eu fui parar...
Eu juro que não bebi nada... ainda...


sexta-feira, 12 de março de 2010

Los 3 que serão 2

Glauco não era dos meus cartunistas preferidos. A bem da verdade, estava longe disso, mas claro que lamento e acho trágica a sua morte.

A "religião" do Santo Daime, que prega a paz e a tolerância religiosa, gerou mais um possível ato de intolerância, como toda religião, como eu já postei. 

Violência sempre é um ato de intolerância. 

Mesmo sabendo que o suspeito teve (ou tem) envolvimento com drogas, família desagregada e problemas psiquiátricos (qualquer religião pra mim já é um indício disso), não creio que a tal ceita não tenha sua parcela de culpa.

Detalhe importante: no último pebiscito perdemos a oportunidade de banir as armas de fogo da sociedade, ou pelo menos torná-las ilegais definitivamente, pois elas, de fato, só servem para matar.

Mais uma vez, uma arma na mão de um desequilibrado —QUE PODERIA, SIM, ser qualquer um de nós— acabou em tragédia.

Agora choverão os discursos neonazistas de extermínio de criminosos e coisas do gênero.

Violência não se combate com repressão, e sim com educação, reforma social e mudança de valores.
Se existisse um policial por habitante isso não garantiria a inexistência de violência e aposto que nem a reduziria significativamente.

Numa sociedade individualista que nos educa a competir e ostentar, a ética foi abandonada faz tempo, e como eu sempre gosto de frisar, nem tudo o que é legal (de legalidade) é ético.

As nuances entre obter o máximo de sucesso financeiro sem levar em consideração suas implicações morais e sociais são muito pequenas em comparação a "eliminar" outro ser humano que te impeça de alcançar algo ou te frustre de alguma maneira.

Não quero me estender em aprofundamentos sociológicos da violência urbana. Há zilhões de fontes boas de consulta para isso.

Gosto de ser mais prosaico. Uma tentativa utópica e quase ingênua de achar que eu posso contribuir para mudar algo usando linguagem mais acessível.
Como disse Karl Marx: "Os filósofos tem somente interpretado o mundo de várias maneiras; a questão, entretanto, é mudá-lo".

"Falcão, os meninos do tráfico"


Esse documentário servirá para eu demonstrar de modo prático (mesmo sabendo que ele mostra apenas uma das faces da convulsão social), que repressão e "homicídio legalizado" não resolvem nem amenizam o problema da violência.

Vi esse documentário quando foi lançado e algo me chamou muita atenção.

Quase todos (ou talvez todos, se não me falha a memória) os meninos citaram a mãe de uma maneira ou outra como justificativa para o crime.
Não estou justificando o crime.

O Coisa que vos escreve perdeu o pai quando tinha 5 anos, algo comum no mundo das comunidades carentes (que não era o meu caso), onde a morte e o abandono são presenças constantes nessas famílias desmontadas.

Antes de mais nada, vale salientar que eu nunca me lamentei nem achei que tivesse sido prejudicado por isso apesar de que, numa sociedade machista, famílias que perdem o mantenedor homem nunca conseguem manter o mesmo padrão de vida. 

 
E por saber o quão duro é para elas a vida de chefe de família, fica a minha eterna admiração e orgulho incontestável pela minha mãe e minha avó, que também perdeu o marido cedo.
As retirantes, sejam elas nordestinas ou européias como as minhas, dão um show de força real nesse mundo truculento, e masculino.

Como único filho homem e massacrado pela sociedade em que vivemos, onde o macho da família é que deve ser o provedor, a primeira coisa que sentimos é culpa, vergonha e impotência.

Não lembro de pedir algo pra minha mãe, evitava ao máximo. Com nenhuma idade. Tinha vergonha. Não queria submetê-la à infelicidade de não poder dar.

Se, com razoável racionalidade, caráter e formação sociocultural esse peso é enorme, o que dirá um menino que vive num ambiente sem perspectiva, segregado e marginalizado?

Seria fácil apenas "eliminar" ou "isolar" determinados elementos da sociedade sem nem sequer imaginar como eles surgiram e o que eles deixam para trás.


CQD, discursos simplórios sobre a violência não resolvem nada, muito pelo contrário, adiam uma discussão mais ampla e escondem a culpa de todos nós.
É fácil querer "eliminar" a sujeira que criamos para debaixo do tapete.