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quarta-feira, 25 de maio de 2016

A quem interessa a satanização dos impostos e o mito da austeridade

Se não aprendemos com a história antiga, talvez com a recente... a falácia da satanização dos impostos e o mito da austeridade...

Nem os liberais toleram os ultraliberais... se voe não entende deveria reler Adam Smith e claro incluir seus ensaios sobre a moralidade humana...
 

Em busca dos booms perdidos –Paul Krugman

23/5/2016 – Da Folha (antes que proíbam de acessar...)
 
Se Hillary Clinton vencer em novembro, Bill Clinton ocupará um papel duplo único na história política dos Estados Unidos, tornando-se não só o primeiro Primeiro Marido, mas também o primeiro Primeiro Cônjuge que um dia foi presidente. É evidente que ele não passará seu tempo fazendo bolos. O que ele fará, então? 
 
Na semana passada, Hillary Clinton causou muitos comentários ao sugerir que Bill Clinton teria como tarefa "revitalizar a economia". Pode-se entender por que ela desejaria fazer uma afirmação como essa, já que as pessoas ainda se lembram de como as coisas eram boas quando seu marido era presidente. No entanto, a forma pela qual esse papel seria definido na prática, hoje, é muito menos clara. 

Mas pouco importa. O que quero fazer aqui é falar sobre as lições que o boom de Clinton 1º pode oferecer para a administração da segunda Clinton. 

Para começar, foi realmente um boom impressionante, e de certa maneira é estranho que os democratas não falem mais sobre ele. Afinal, os republicanos evocam constantemente os milagres de São Reagan para justificar sua fé na teoria econômica do supply-side. Mas a expansão da era de Clinton ultrapassou a economia da era Reagan em todas as dimensões. Bill Clinton não presidiu só sobre uma criação de empregos maior ou a um crescimento mais rápido; seus dois mandatos também foram caracterizados por algo que esteve notoriamente ausente na era Reagan: um aumento significativo nos salários reais dos trabalhadores comuns. 

Mas por que a economia era tão boa na era Clinton? Não foi porque o presidente tivesse um toque mágico, ainda que ele tenha feito um bom trabalho na resposta a crises. O principal é que ele teve a sorte de estar no poder quando coisas boas estavam acontecendo por motivos que não se relacionam à política. 

Especificamente, os anos 90 foram a década em que as empresas norte-americanas enfim compreenderam o que fazer com computadores —a década na qual os escritórios se interconectaram em redes, na qual grupos de varejo como a Wal-Mart aprenderam a usar a tecnologia da informação para administrar estoques e coordenar atividades com os fornecedores. Isso levou a uma grande disparada na produtividade, que havia crescido apenas lentamente nas duas décadas precedentes. 

A decolagem da tecnologia também ajudou a alimentar uma disparada nos investimentos em negócios, que por sua vez produziu criação de empregos em ritmo que, pelo final dos anos 90, havia resultado em verdadeiro pleno emprego para os Estados Unidos. E o pleno emprego foi a força que causou a alta dos salários nos anos 90. 

Oh, e, sim, houve uma bolha da tecnologia no final da década, mas ela representou parte bem pequena da história e, porque não aconteceu grande alta no endividamento privado, o dano causado quando a bolha da tecnologia estourou foi muito menor do que a calamidade deixada pela bolha da habitação nos anos Bush. 

Mas de volta ao boom: qual foi o papel de Bill Clinton? Na verdade, foi bastante limitado, porque não foi ele que causou a decolagem da tecnologia. Por outro lado, suas políticas obviamente não se puseram no caminho da prosperidade. 

E vale lembrar que, em 1993, quando Clinton aumentou os impostos dos ricos, os republicanos uniformemente previram um desastre. O aumento "matará a recuperação e nos colocará de novo em recessão", previu Newt Gingrich. A economia será colocada "na sarjeta", previu John Kasich. Nada disso aconteceu, o que não impediu as mesmas pessoas de fazerem as mesmas predições quando o presidente Obama aumentou os impostos em 2013— decisão seguida pelo maior crescimento no emprego desde os anos 90.
 
Uma grande lição do boom dos anos Clinton, portanto, é de que a conclusão que os conservadores desejam que você extraia de sua constante idolatria a Reagan —a de que cortar os impostos dos ricos é a chave para a prosperidade, e que qualquer alta na alíquota paga pelas pessoas de alta renda atrairá represálias da mão invisível— é complemente falsa. 

Hillary Clinton está propondo cerca de US$ 1 trilhão a mais em impostos sobre o 1% mais rico dos norte-americanos, para pagar por novos programas. Se ela vencer e tentar implementar essa política, os habituais suspeitos farão os usuais alertas funestos, mas não existe qualquer razão para acreditar que a agenda dela prejudicaria a economia. 

A outra grande lição do boom dos anos de Bill Clinton é que embora haja muitas coisas que as autoridades econômicas possam e devam fazer para elevar os salários, a ajuda mais importante que podem dar aos trabalhadores é buscar o pleno emprego.
Infelizmente, não poderemos contar com nova disparada espontânea no investimento privado, movida pela tecnologia, para propelir a criação de empregos. Mas algumas formas de investimento privado poderiam crescer rapidamente se tomarmos medidas já muito postergadas de combate à mudança do clima. 

E, de qualquer forma, nem todo investimento produtivo é privado. Precisamos desesperadamente reparar e melhorar nossa infraestrutura; enquanto isso, o governo federal pode capturar recursos a custo incrivelmente baixo. Assim, existem argumentos esmagadores em favor de uma alta no investimento público, e um benefício colateral de uma alta como essa seria o pleno emprego, que pode produzir uma nova era de alta de salários.
Assim, Bill Clinton desempenhará papel importante caso Hillary Clinton vença? Não faço ideia, e nem me importa muito. Mas será importante lembrar o que deu certo, e por quê, no governo de Bill. 


Um pouco mais sobre o mito da “austeridade” e sobre quem vai pagar a conta novamente: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/06/opinion/1446812749_342441.html

Pois já interpreta bem qualquer Smithiano, que ser contra o ultraliberalismo não é ser contra o liberalismo: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/15/economia/1452864526_260183.html

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Extirpando o lugar comum

Os três últimos livros que li foram excepcionais.
Tem os componentes que eu amo, ou seja, os tornam uma boa ferramenta para o desenvolvimento intelectual e os dão credibilidade: são multidisciplinares, utilizam sólida pesquisa e portanto tem extensa bibliografia e, claro, são muito bem escritos e desprezam qualquer explicação simplória e reducionista.

O primeiro foi o do Marcelo Gleiser, "A Ilha do Conhecimento". Dos três o mais fraco. Apesar de ser a área que adoro, a Física, e talvez também por isso, ou seja, já ter lido bastante e estudado sobre o assunto, é que achei que faltou aprofundamento em alguns tópicos que ele estava a propor.
Extenso demais na "revisão" da astronomia e da base da física quântica, acabou pecando por explorar menos a formação da consciência e do conhecimento que era o alvo da obra.
Mas como a física sempre me manteve atento aos limites do senso comum e está aberta (como toda boa ciência) a novas perspectivas sem perder o ceticismo (já dizia o grande Carl Sagan: a pior falha da humanidade é a fé, a maior virtude é a dúvida) seus grandes autores são sempre bem vindos.

O segundo foi o "Demônio da Meia Noite" de Andrew Solomon, um tratado espetacular sobre a depressão que vai muito além do que se espera. Utilizando-se de conhecimentos e pesquisas tanto da psicologia, psiquiatria e neurobiologia, Solomon debulha a mente humana vasculhando as origens (tanto históricas quanto biológicas) da depressão, as contribuições das condições sociais, econômicas e políticas, os tratamentos convencionais e alternativos, as ramificações e questões dos sem teto, violência, suicídio, etc.
Apesar do tema foco, vale muito a pena para todos que gostam de estudar o comportamento humano e a consciência (essa misteriosa entidade cuja fronteira do físico e do metafísico nunca foi bem desvendada), além de derrubar uma série de mitos a respeito da depressão, ansiedade e suicídio.

O terceiro (sobre o qual já postei) foi o "Capital no Século XXI" de Thomas Piketty, um jovem, premiado e conceituado economista francês.
Economia nunca foi algo que me atraiu, muito pela pobreza dos economistas tecnicistas que esquecem que a economia é uma ciência humana e portanto, tratá-la de modo isolado da sociedade e da história faz com que suas obras percam grande parte do sentido.

Resolvi estudar porque somos continuamente bombardeados por manchetes e informações "recortadas" de termos econômicos que achamos serem bons ou ruins, mas que no fim não compreendemos seu significado, fazendo com que assumamos um discurso que não é nosso e muitas vezes nos é prejudicial.

Estou ainda na fase da economia, onde li Stiglitz (Nobel em 2001 - na verdade achei um pouco tedioso, apesar de muito bom, seu "The Price of Inequality"), Krugman (Nobel em 2008 - apenas alguns artigos) e agora comprei dois do Amartya San (economista indiano e Nobel em 1999).
Como tenho pouca referência em economia (meus amigos mais próximos são filósofos, físicos e engenheiros), fui estudar a lista dos laureados pela academia para buscar livros.
Curiosamente, mas não por acaso, notei que a academia mistura a premiação entre " economistas sociais" (os que não esquecem que a economia é uma ciência humana) e os tecnicistas (os economistas reducionistas que se atém à teoria econômica como se ela fosse algo que devesse privilegiar números e não pessoas).

Para mim nada pode se afastar das pessoas. 
A própria Física é mais emocionante do que se pensa e conecta mais as pessoas e o universo do que qualquer religião, pois longe dos dogmas e crendices, nos conecta a um universo como ele é e não como gostaríamos que fosse, ainda que, como lembra Gleiser, esse "é" é uma aproximação sujeita a melhorias e de acordo com a nossa interpretação.

Dito isso, minhas escolhas para estudo da economia são de autores que contemplem a economia inserida num contexto sócio cultural.

Citei esse "apanhado" de informação para ilustrar a importância de estudarmos TUDO mais profundamente, de modo a não cair (ou ao menos tentar) nas soluções simplistas e "manchetes", muitas vezes colocadas de modo tendencioso ou simplesmente incompetente. Veja, a versão de lê-las nas vitrines das bancas e de ler as "orelhas" de livros foram substituídas pelo Google, Wikipedia e afins. 

Vamos observar alguns discursos simplórios comuns:

  •  "O dólar subiu" como algo ruim. Por que? O equilíbrio entre os gastos com insumos balizados pelo dólar, a queda dos preços dos produtos nacionais no mercado externo (aumento das exportações) e o aumento de gastos de estrangeiros no país são de uma dinâmica grande para simplesmente se colocar esse fato como ruim. Apenas para pontuar, a China, a economia que mais cresce no mundo nos últimos anos continuamente opera com grande desvalorização de sua moeda.
  • "O PIB só cresceu x%" como algo ruim. Por que? O PIB em valores absolutos (e mesmo seu melhor substituto que é em dólar de paridade de compra) não reflete a condição social. O PIB do Japão esta negativo pelo segundo ano seguido, o da Dinamarca foi negativo também, assim como o dos países baixos que vem capengando desde 2008, e tem muito mais dentro dos países top no ranking do IDH, portanto, cuidado com as "leituras jornalísticas" de índices econômicos e também dos discursos de economistas tecnicistas, pois para um matemático que esquece do mundo humano, um monte de bilhões é bom/eficiente quando acrescido de outros montes independente de para quem ou qual seu objetivo.
  • "A economia cresceu apenas 1%". "Apenas" por que? Com matemática financeira básica descobrimos que esses "módicos 1%" correspondem a mais de 30% em uma geração (em torno de 30 anos) o que é muito! Sem avaliar como o crescimento demográfico e as tecnologias impactam nessas estatísticas o "muito" ou "pouco" passa a ser completamente arbitrário e analisando a médio prazo, nota-se que crescimentos maiores são insustentáveis (Piketty 2014)!
  • "O crescimento econômico leva automaticamente à melhoria da população". Por que? Mágica? Essa é a maior falácia do discurso tecno-economico! Não existe, eu repito, não existe qualquer fonte histórica que demonstre isso! As melhorias na distribuição de renda SEMPRE dependeram de intervenções políticas não apenas na democratização do conhecimento como em políticas fiscais agressivas. Apenas para pontuar: a classe média patrimonial surgiu na metade do século XX graças a várias intervenções políticas do estado, principalmente no modelo tributário progressivo, ou seja, o discurso meritocrático fazia (ainda que pouco) sentido há 50 anos atrás! Os EUA hoje (devido às constantes políticas neoliberais a partir do anos 80 que incluem redução tributária constante) tem a mesma mobilidade social da África subsaariana.
  • "Imposto é ruim". Por que satanizamos os impostos? Nunca assuma esse discurso tão simplório pois ele só interessa a quem detém a maior parte das riquezas. Impostos não são absolutamente bons ou ruins, porém, bem escalonados são a ÚNICA forma de redistribuir riquezas. Todas as séries históricas demonstram isso. EUA e Grã Bretanha chegaram a taxar em até 98% as grandes fortunas. A França em até 70%. E ainda hoje existem os chamados impostos solidariedade inclusive de caráter expropriatório nos principais países capitalistas. A própria tributação de heranças (ainda que alguns digam que tem pouco impacto na arrecadação) é importante a longo prazo e NUNCA desestimulou a aquisição de bens.
  • "Programas de renda mínima acomodam a população". Quem disse? Isso é completamente absurdo entre os estudiosos. A Europa já aprovou um estatuto e agora estuda a operacionalização do mesmo em seus países e os EUA já buscam soluções semelhantes.
  • "Lutar contra o neoliberalismo e o estado mínimo é coisa de comunista!". Essa é a mais patética de todas e se não fosse trágico seria cômico. Os principais economistas (CAPITALISTAS!) da atualidade como Stiglitz, Krugman, Piketty e Sen lutam contra o estado mínimo e defendem (demonstrando brilhantemente) o retorno da moralidade ao capitalismo (como interpreta bem, por exemplo, Yvone Roberts do The Guardian) afirmando ipsis litteris que isso é impossível com o liberalismo a la Friedman.
  • "Se já dirige o vota com 16 tem que ir pra cadeia também!". Pra não ficarmos só na economia temos essa tosquice da atualidade. Vários países do mundo que adotaram essa prática estão revendo suas posições e fora vários outros argumentos, ficarei apenas no básico: sem rapidez e transparência no judiciário, educação e o retorno da meritocracia à economia, não solucionaremos nada com leis, ademais, elas já existem em abundância. Para exemplificar, tomamos o estatuto dos crimes hediondos de 1990 que "iria resolver ou amedrontar" possíveis praticantes. Resultado: a taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes mais do que duplicou.

Enfim, o que quis apresentar, e é o que a ciência nos ensina, não é essa ou aquela "verdade", mas sim, que muitas vezes adotamos um discurso de outros com interesses escusos que muitas vezes nos causam mal e, acima de tudo, nos faz  passar por tolos que emitem opiniões sem o menor embasamento.

Toda leitura de qualidade é válida, mas em tempos de turbulência econômica e social, estudar economia é uma boa forma de ficar atento a determinados discursos prontos e manchetes simplórias que na maioria das vezes nos afastam da raiz dos problemas e portanto de soluções efetivas.

Vamos queimar os discursos simplistas!!!

sexta-feira, 13 de março de 2015

O "crítico" de Piketty

Eu já escrevi sobre como a ignorância é atrevida (o grande Dráusio Varella é mais enfático, "passei da idade de me surpreender com a estupidez humana") e realmente eu não me surpreendo mais com isso. Sempre tem algo ainda mais impressionante, porém não mais uma surpresa.

Em uma discussão num fórum qualquer, um sujeito disse que o livro do Piketty ("O Capital no século XXI") era uma porcaria e que muita gente qualificada desmerecia o livro. Para coroar ele disse que Piketty era um comunista (?!) e blá, bla, blá...

Pedi que ele me mandasse referências às críticas a Piketty, pois acho importante avaliar todos os lados.
O sujeito disse que "era muita fácil de encontrar" bastava eu procurar a crítica de um Nobel recente.

Como esse tipo de gente se informa por orelhas de livros e resenhas tendenciosas (no popular "ouvi o passarinho cantar e não sabe onde"), fui atrás.

Supus se tratar de Joseph Stiglitz.
Primeiro devemos lembrar que "crítica" é uma análise e não um desmerecimento à obra como um todo, posto isso, comprei o livro "O preço da desigualdade" de Stiglitz e li sua "crítica" a Piketty.

Resumindo, a crítica que ele faz a Piketty é em relação a algumas análises de dados, nada mais. O que mais chama atenção é que ambos são críticos ferrenhos do neoliberalismo (o que Stiglitz chama de "fundamentalistas de livre mercado) e no fim, defendem a mesma coisa.

Como nos lembra a economista Monica de Bolle, Global Fellow do Woodrow Wilson Center: 

"Não existe contradição entre o que o Stiglitz afirmou e o livro de Piketty.

São perspectivas diferentes para o mesmo problema, não existe contradição. Stiglitz vê a diferença na distribuição de riqueza ligada à abundância de crédito, que possibilita a formação de bolhas. Quando a bolha estoura, uns têm capacidade maior de se defender que outros. Fala da situação dos Estados Unidos e olha principalmente os anos mais recentes, desde a crise de 2008. Isso não é inconsistente com a teoria de Piketty."

O mais absurdo do atrevimento da ignorância é que o sujeito veio me "jogar na cara" algo que corroborava minha argumentação e a da Piketty!!!

Como minha compra (o livro de Stiglitz ainda não chegou), deixo uma pequena resenha de Nuno Ramos de Almeida - Jornal I de Portugal:

"O livro de Stiglitz é uma espécie de relatório de CSI deste processo. O cadáver é a economia do país capitalista mais desenvolvido, os Estados Unidos da América, e a autópsia não é nada simpática: 

“a) O recente crescimento dos rendimentos nos EUA ocorre essencialmente no 1% de topo da distribuição dos rendimentos; 
b) Em resultado disso, verifica-se uma crescente desigualdade; 
c) Os cidadãos da base e da classe média vivem hoje pior do que viviam no início do século; 
d) As desigualdades de riqueza são ainda maiores que as desigualdades de rendimentos; 
e) As desigualdades são evidentes não só nos rendimentos, mas também em muitas outras variáveis que refletem os padrões de vida, como a insegurança e a saúde; 
f) A vida é particularmente difícil para a classe mais baixa e a recessão tornou--a muito pior; 
g) Tem-se verificado um certo esvaziamento da classe média; 
i) Existe pouca mobilidade dos rendimentos – a ideia dos EUA enquanto terra de oportunidades não passa de um mito.” 

Stiglitz mostra com muita clareza que, embora os cidadãos dos EUA acreditem no “sonho americano”, segundo uma sondagem da Pew Foundation, quase sete em cada dez americanos acreditam no seu sucesso econômico. A realidade é que a sociedade norte-americana tem índices de mobilidade social comparáveis com as plutocracias de África. Os ricos serão mais ricos e os pobres ainda mais miseráveis.

Para o Prêmio Nobel da Economia de 2001 esta situação não é inevitável nem decorre da existência de uma entidade, encarada como sobrenatural e imutável, que seriam os mercados. Stigliz demonstra de uma forma muito clara que os mercados resultam de um processo de construção social e devem-se na sua atual configuração a uma relação de forças política que dá excessivo poder aos ricos e desvirtua a democracia. “Os mercados não existem no vácuo. São moldados pelas nossas políticas, muitas vezes de forma a beneficiar os do topo”, observa. Para ele a economia tem de responder aos problemas da totalidade da população. Ela não existe como um jogo virtual que dá prêmios aos do costume, mas como uma atividade que deve servir a humanidade. Deste ponto de vista, as nossas sociedade preparam-se para uma explosão descontrolada quando mantêm milhões de pessoas no desemprego em países em que há necessidades para preencher e trabalho que deveria estar a ser feito. 

Como escreve na abertura do seu prefácio Joseph Stiglitz: “Há momentos na história em que os povos de todo o mundo parecem erguer-se para afirmar que algo está mal. Foi isso que aconteceu nos tumultuosos anos de 1848 e 1968. Cada uma destas datas de convulsão social marcou o início de uma nova era.” Fica o aviso."

segunda-feira, 2 de março de 2015

Economia

Todos deveríamos compreender os mecanismos da economia, afinal ela nos afeta diretamente.

O livro ‘O Capital no século XXI’ de Thomas Piketty é uma excelente fonte.
Primeiramente devo enfatizar que não é um livro anticapitalista (segundo o próprio autor ele está mais do que “vacinado contra discursos retrógrados”), não é atôa que veículos como o The Economist e o The Guardian e até mesmo, pasme, o Bill Gates elogiam enfaticamente o livro.
No campo acadêmico é redundante falar que o livro já é referência, fortemente cotado para o livro de economia da década e quem sabe uma referência do século XXI como foi David Ricardo/Marx no século XIX e Kuznets no século XX.
Algumas coisas que tornam o livro interessantíssimo para todos:
- abordagem multidisciplinar da economia, nunca deixando de lado os rigores científicos mas sem abandonar as ciências humanas (da onde o autor crê que a economia nunca deveria ter saído);
- estudo histórico fantástico, com a inclusão de pesquisas oficiais (World Incomes Databases, registros fiscais e várias outras fontes oficiais) e obras antigas. Uns 20 ou 30 pesquisadores por todo o mundo colaboraram na pesquisa/análise de dados (foram 15 anos pesquisando);
- pouco ou quase nenhum viés ideológico (não existe 100% de imparcialidade em nenhum humano, porém, o importante é manter em sua maioria a integridade das análises);
- excelentes referências bibliograficas;
- ótima escrita (evidentemente devo dar mérito à tradutora também).
Síntese (bem micro mesmo) de alguns pontos:
- na crítica à Marx pode-se pontuar o (possível) erro do desfecho do capitalismo por excesso de influência ideológica e claro a impossibilidade de conhecer os impactos da tecnologia no decorrer do século XX/XXI, porém sem tirar o mérito da obra e sua fabulosa intuição (em 1930 Harrod e Dogmar introduziram uma das leis do capitalismo: g=s/B supondo que a relação captital/renda (B) fosse constante em 5% e, por exemplo, com uma poupaça interna s em 10% o crescimento g seria de 2%, porém estudos posteriores (Solow – 1956) demonstraram que B é variável inclusive pelo crescimento demográfico e portanto, foi aceito que a razão dinâminca de capital/renda corresponderia a B=s/g, onde um crescimento estrutural igual a 0 levaria fatalmente a razão B ao infinito, fazendo com o rendimento do capital (r) se torne cada vez mais proximo de 0 e sua participação - outra lei do capitalismo a = r x B - devore a totalidade da renda nacional – portanto, sem intervenção externa o capitalismo rui pelas suas próprias contradições – lembrando que em ciências sociais, as equações são um modelamento dinâmico aproximado de longo prazo. O crescimento demográfico e de produtividade e a difusão do conhecimento permitiu, por hora, evitar o apocalipse marxista, mas não modificou as estruturas profundas do capital.);
- na crítica a Smith/Kuznets pode-se pontuar as suas falhas na análise reducionista dos dados (ou nenhum dado no caso de Smith) que resultaram na “economia do otimismo” (em oposição a “economia do pessimismo” de Marx/David Ricardo) e na imagem completamente sem sentido, sem evidências e sem ocorrências históricas do “mercado se ajustar sozinho de maneira mágica” (aliás, intuitivamente isso já parece uma barbaridade, mas tem gente que acredita em duendes então...);
- coloca a concentração de renda excessiva como algo que compromete a democracia e abre espaço a regimes totalitários e/ou nacionalistas (vide Hitler, Hugo Chaves, etc) ou a graves convulsões sociais;
- demonstra que os mega salários, ganhos de capital de renda acima de ganhos de capital produtivo e as heranças não somente degradam os valores do mérito como contribuem de maneira decisiva para a concentração de renda (sem grandes demonstrações posso usar a lógica: se os pais tem mérito em construir patrimônio, que mérito tem os filhos em ganhar o mesmo? Soma-se a isso a herança social, ou seja, educação formal e informal e a estabilidade afetiva/emocional que já é por si, uma plataforma a mais sobre quem não as teve);
- derruba de maneira definitiva a idéia de que sem intervenção (excetuando-se os casos de guerras, revoluções e grandes tragédias) a concentração de renda diminua;
- demonstra que somente acesso irrestrito à informação (especialização de mão-de-obra, etc) e a liberdade não são capazes de reduzir significativamente a concentração individual de renda (parece funcionar para as nações como um todo) e sem taxação e outras intervenções políticas esses perfis não são significativamente alterados (curiosidade: o IGF, imposto sobre grandes fortunas ja está na constituição brasileira, faltando apenas sua regulamentação. Uma das tentativas de regulamentá-la foi a do então senador Fernando Henrique Cardoso);
- derruba o mito da estatização ineficiente. Não afirma que é positivo, mas demonstra que não se pode dizer que é negativo. Mostra que na Europa, constantemente houveram ondas de estatizações e privatizações (este sempre a preços inferiores dos de mercado – pagamos sempre a conta), sem necessariamente algo ser absolutamente ruim ou bom (por exemplo: atualmente a Renault continua com 20% estatal, assim como a Volkswagen. Outro exemplo é mostrar que o ativo fixo de uma estatal - por definição - não é contabilizado no PIB e quando a empresa se privatiza ele passa a ser contabilizado, dando falsa melhora no PIB);
- expõe o caso do “capitalismo do Reno” ou o “capitalismo social” (Alemanha) como um caso de estudo, onde as empresas privadas tem ações mais baixas que a média mundial (por causa dos conselhos: trabalhadores, governo e órgãos do meio ambiente tem direito a voto deliberativo mesmo sem ter nenhuma ação) porém tem muita estabilidade e solidez (achei interessantíssimo! Curiosidade: até hoje os alugueis sofrem pesado controle governamental.);
- mostra os erros de se avaliar condições macro economicas pelo PIB (a análise das relações de capital/renda referenciais ao poder de compra local é melhor, apesar de ainda aproximada);
- mostra que os crescimentos da ordem de 1% ou próximos não são ruins (geram mais de 35% em uma geração!) e que os alegados ideais de 3% ou 4% é que são exceções ao longo da história e ainda por cima completamente insustentáveis (exceções como a China tem explicações muito específicas);
- aliás, mostra que controle de capital (como na China e outros países asiáticos) não impacta no crescimento econômico de maneira significativa;
- em vários momentos ele deixa claro que sendo dados oficiais, é muito mais provável que altas rendas estejam subdimensionadas do que as baixas (cita dados preliminares dos paraísos fiscais, portanto,  o escândalo do HSBC são daquelas surpresas que não são supresas);
- conclui que: “A marcha em direção à racionalidade econômica e tecnológica não implica, necessariamente, uma marcha rumo à racionalidade democrática e à meritocracia. A raíz central é simples: a tecnologia, assim como o mercado, não tem limite ou moral... Se desejarmos, de fato, fundar uma ordem social mais justa e racional, baseada na utilidade comum, não basta contar com os caprichos da tecnologia.”
“As distinções sociais só podem se fundamentar na utilidade comum.” –Artigo 1, Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, França, 1789.
O pensamento classe média carece de racionalidade em grande parte causada por duas fontes:
- a primeira pela mesquinharia de achar que vai perder algo;
- a segunda pela inocência de achar que tem algo.
Agora, se passar pela sua cabeça que alguém está defendendo regimes totalitários, socialismo ou qualquer discurso sem pé nem cabeça desse nível esqueça tudo isso. Possivelmente vc se enquadra no parágrafo anterior...


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Uma bela aula de economia e história

O historiador e professor de Harvard, Niall Fergusson, escreveu o excelente documentário "Ascenção do Dinheiro".
A obra disposta em 6 episódios trata de toda a história da moderna economia desde a adoção maciça dos numerais árabes (na verdade indianos) por volta de 1200 DC até os dias atuais.
Mostra quando e como foram criados o crédito, mercado de ações, derivativos, câmbio, seguros, "bolhas econômicas", crashes, mercado imobiliário/propriedade, etc.
Além de argumentos históricos incontestáveis, explica como os mesmos funcionam o com quais intuitos e motivações foram criados além da óbvia motivação do lucro.

Independente de você ser um marxista do PC do B ou um neoliberal fundamentalista tucano vale a pena assistir com atenção.

As legendas em português de Portugal estão disponíveis no botão "Legendas" no canto inferior direito.

Material de excelente qualidade. Não deixe de ver!

Se depois de tudo você ainda acreditar na "meritocracia" (no tal esforço/mérito) ou você é um multi bilionário com óbvios motivos para que se perpetue a crença ou apenas um tolo.