sexta-feira, 13 de março de 2015

O "crítico" de Piketty

Eu já escrevi sobre como a ignorância é atrevida (o grande Dráusio Varella é mais enfático, "passei da idade de me surpreender com a estupidez humana") e realmente eu não me surpreendo mais com isso. Sempre tem algo ainda mais impressionante, porém não mais uma surpresa.

Em uma discussão num fórum qualquer, um sujeito disse que o livro do Piketty ("O Capital no século XXI") era uma porcaria e que muita gente qualificada desmerecia o livro. Para coroar ele disse que Piketty era um comunista (?!) e blá, bla, blá...

Pedi que ele me mandasse referências às críticas a Piketty, pois acho importante avaliar todos os lados.
O sujeito disse que "era muita fácil de encontrar" bastava eu procurar a crítica de um Nobel recente.

Como esse tipo de gente se informa por orelhas de livros e resenhas tendenciosas (no popular "ouvi o passarinho cantar e não sabe onde"), fui atrás.

Supus se tratar de Joseph Stiglitz.
Primeiro devemos lembrar que "crítica" é uma análise e não um desmerecimento à obra como um todo, posto isso, comprei o livro "O preço da desigualdade" de Stiglitz e li sua "crítica" a Piketty.

Resumindo, a crítica que ele faz a Piketty é em relação a algumas análises de dados, nada mais. O que mais chama atenção é que ambos são críticos ferrenhos do neoliberalismo (o que Stiglitz chama de "fundamentalistas de livre mercado) e no fim, defendem a mesma coisa.

Como nos lembra a economista Monica de Bolle, Global Fellow do Woodrow Wilson Center: 

"Não existe contradição entre o que o Stiglitz afirmou e o livro de Piketty.

São perspectivas diferentes para o mesmo problema, não existe contradição. Stiglitz vê a diferença na distribuição de riqueza ligada à abundância de crédito, que possibilita a formação de bolhas. Quando a bolha estoura, uns têm capacidade maior de se defender que outros. Fala da situação dos Estados Unidos e olha principalmente os anos mais recentes, desde a crise de 2008. Isso não é inconsistente com a teoria de Piketty."

O mais absurdo do atrevimento da ignorância é que o sujeito veio me "jogar na cara" algo que corroborava minha argumentação e a da Piketty!!!

Como minha compra (o livro de Stiglitz ainda não chegou), deixo uma pequena resenha de Nuno Ramos de Almeida - Jornal I de Portugal:

"O livro de Stiglitz é uma espécie de relatório de CSI deste processo. O cadáver é a economia do país capitalista mais desenvolvido, os Estados Unidos da América, e a autópsia não é nada simpática: 

“a) O recente crescimento dos rendimentos nos EUA ocorre essencialmente no 1% de topo da distribuição dos rendimentos; 
b) Em resultado disso, verifica-se uma crescente desigualdade; 
c) Os cidadãos da base e da classe média vivem hoje pior do que viviam no início do século; 
d) As desigualdades de riqueza são ainda maiores que as desigualdades de rendimentos; 
e) As desigualdades são evidentes não só nos rendimentos, mas também em muitas outras variáveis que refletem os padrões de vida, como a insegurança e a saúde; 
f) A vida é particularmente difícil para a classe mais baixa e a recessão tornou--a muito pior; 
g) Tem-se verificado um certo esvaziamento da classe média; 
i) Existe pouca mobilidade dos rendimentos – a ideia dos EUA enquanto terra de oportunidades não passa de um mito.” 

Stiglitz mostra com muita clareza que, embora os cidadãos dos EUA acreditem no “sonho americano”, segundo uma sondagem da Pew Foundation, quase sete em cada dez americanos acreditam no seu sucesso econômico. A realidade é que a sociedade norte-americana tem índices de mobilidade social comparáveis com as plutocracias de África. Os ricos serão mais ricos e os pobres ainda mais miseráveis.

Para o Prêmio Nobel da Economia de 2001 esta situação não é inevitável nem decorre da existência de uma entidade, encarada como sobrenatural e imutável, que seriam os mercados. Stigliz demonstra de uma forma muito clara que os mercados resultam de um processo de construção social e devem-se na sua atual configuração a uma relação de forças política que dá excessivo poder aos ricos e desvirtua a democracia. “Os mercados não existem no vácuo. São moldados pelas nossas políticas, muitas vezes de forma a beneficiar os do topo”, observa. Para ele a economia tem de responder aos problemas da totalidade da população. Ela não existe como um jogo virtual que dá prêmios aos do costume, mas como uma atividade que deve servir a humanidade. Deste ponto de vista, as nossas sociedade preparam-se para uma explosão descontrolada quando mantêm milhões de pessoas no desemprego em países em que há necessidades para preencher e trabalho que deveria estar a ser feito. 

Como escreve na abertura do seu prefácio Joseph Stiglitz: “Há momentos na história em que os povos de todo o mundo parecem erguer-se para afirmar que algo está mal. Foi isso que aconteceu nos tumultuosos anos de 1848 e 1968. Cada uma destas datas de convulsão social marcou o início de uma nova era.” Fica o aviso."