sexta-feira, 12 de março de 2010

Los 3 que serão 2

Glauco não era dos meus cartunistas preferidos. A bem da verdade, estava longe disso, mas claro que lamento e acho trágica a sua morte.

A "religião" do Santo Daime, que prega a paz e a tolerância religiosa, gerou mais um possível ato de intolerância, como toda religião, como eu já postei. 

Violência sempre é um ato de intolerância. 

Mesmo sabendo que o suspeito teve (ou tem) envolvimento com drogas, família desagregada e problemas psiquiátricos (qualquer religião pra mim já é um indício disso), não creio que a tal ceita não tenha sua parcela de culpa.

Detalhe importante: no último pebiscito perdemos a oportunidade de banir as armas de fogo da sociedade, ou pelo menos torná-las ilegais definitivamente, pois elas, de fato, só servem para matar.

Mais uma vez, uma arma na mão de um desequilibrado —QUE PODERIA, SIM, ser qualquer um de nós— acabou em tragédia.

Agora choverão os discursos neonazistas de extermínio de criminosos e coisas do gênero.

Violência não se combate com repressão, e sim com educação, reforma social e mudança de valores.
Se existisse um policial por habitante isso não garantiria a inexistência de violência e aposto que nem a reduziria significativamente.

Numa sociedade individualista que nos educa a competir e ostentar, a ética foi abandonada faz tempo, e como eu sempre gosto de frisar, nem tudo o que é legal (de legalidade) é ético.

As nuances entre obter o máximo de sucesso financeiro sem levar em consideração suas implicações morais e sociais são muito pequenas em comparação a "eliminar" outro ser humano que te impeça de alcançar algo ou te frustre de alguma maneira.

Não quero me estender em aprofundamentos sociológicos da violência urbana. Há zilhões de fontes boas de consulta para isso.

Gosto de ser mais prosaico. Uma tentativa utópica e quase ingênua de achar que eu posso contribuir para mudar algo usando linguagem mais acessível.
Como disse Karl Marx: "Os filósofos tem somente interpretado o mundo de várias maneiras; a questão, entretanto, é mudá-lo".

"Falcão, os meninos do tráfico"


Esse documentário servirá para eu demonstrar de modo prático (mesmo sabendo que ele mostra apenas uma das faces da convulsão social), que repressão e "homicídio legalizado" não resolvem nem amenizam o problema da violência.

Vi esse documentário quando foi lançado e algo me chamou muita atenção.

Quase todos (ou talvez todos, se não me falha a memória) os meninos citaram a mãe de uma maneira ou outra como justificativa para o crime.
Não estou justificando o crime.

O Coisa que vos escreve perdeu o pai quando tinha 5 anos, algo comum no mundo das comunidades carentes (que não era o meu caso), onde a morte e o abandono são presenças constantes nessas famílias desmontadas.

Antes de mais nada, vale salientar que eu nunca me lamentei nem achei que tivesse sido prejudicado por isso apesar de que, numa sociedade machista, famílias que perdem o mantenedor homem nunca conseguem manter o mesmo padrão de vida. 

 
E por saber o quão duro é para elas a vida de chefe de família, fica a minha eterna admiração e orgulho incontestável pela minha mãe e minha avó, que também perdeu o marido cedo.
As retirantes, sejam elas nordestinas ou européias como as minhas, dão um show de força real nesse mundo truculento, e masculino.

Como único filho homem e massacrado pela sociedade em que vivemos, onde o macho da família é que deve ser o provedor, a primeira coisa que sentimos é culpa, vergonha e impotência.

Não lembro de pedir algo pra minha mãe, evitava ao máximo. Com nenhuma idade. Tinha vergonha. Não queria submetê-la à infelicidade de não poder dar.

Se, com razoável racionalidade, caráter e formação sociocultural esse peso é enorme, o que dirá um menino que vive num ambiente sem perspectiva, segregado e marginalizado?

Seria fácil apenas "eliminar" ou "isolar" determinados elementos da sociedade sem nem sequer imaginar como eles surgiram e o que eles deixam para trás.


CQD, discursos simplórios sobre a violência não resolvem nada, muito pelo contrário, adiam uma discussão mais ampla e escondem a culpa de todos nós.
É fácil querer "eliminar" a sujeira que criamos para debaixo do tapete.