segunda-feira, 1 de junho de 2015

Quem precisa de Deus para ser espiritualizado?

Sam Harris trata disso no seu "Espiritualidade sem Deus" e Carl Sagan sempre era sereno ao responder sobre a morte ("um sono sem sentido") e sobre seu ateísmo cético quando era indagado sobre esses assuntos durante seus últimos meses críticos com câncer.

Mas vamos a esse belo texto extraído de um manual da Transictions Network: 

Conexão com a Terra – a jornada lírica do átomo do carbono

O carbono é o tijolo do edifício da vida e aqui veremos uma das fases desta interminável jornada, em uma adaptação de um ensaio de Primo Levi. 
Se alguma vez você pensou que estava desconectado com este planeta, este ensaio vai lhe esclarecer, pois você tem cerca de 700.000.000.000.000.000.000.000.000 (setecentos septilhões) de átomos de carbono no corpo (que representam 10% da massa corporal), sendo que cada um já executou incontáveis danças, não diferentes desta que vamos ver agora... 

"Nosso átomo de cabono se mantém há milhões de anos ligado a três átomos de oxigênio e um de cálcio, sob a forma de calcário, não muito distante da superfície da Terra.
A qualquer momento, um golpe de picareta pode soltá-lo para levá-lo a uma caieira (forno de cal), lançando-o no mundo das coisas que se alteram. Ele é assado e, ainda junto a seus companheiros de oxigênio, é lançado pela chaminé e encontra o caminho do ar. Sua história, que antes era estática, se tornou tumultuada. 

Ele foi apanhado pelo vento, arremessado à terra e lançado a dez quilômetros de altura. Foi respirado por um falcão, desceu até seus íngremes pulmões, mas não penetrou no sangue e foi expelido.

Foi dissolvido três vezes pela água do mar, chegou às águas de uma torrente caudalosa e mais uma vez foi expelido. Viajou com o vento durante oito anos: algumas vezes no alto, outras, mais baixo, no mar ou entre nuvens, sobre florestas, desertos e a interminável imensidão do gelo, até tropeçar e cair preso na aventura orgânica.

O átomo de que estamos falando nasceu com o vento perto de uma fileira de videiras. Ele teve a sorte de se esfregar numa folha, penetrar nela e se fixar ali por um raio de sol.
Agora nosso átomo formou parte de uma molécula de glicose. Viajou da folha para o caule e dali desceu para um cacho de uvas quase maduras. O que aconteceu depois foi da responsabilidade dos vinicultores.

O destino do vinho é ser bebido. Quem o bebe fica com a molécula no fígado durante mais de uma semana, bem enroscada e tranquila, como uma reserva de energia para um esforço súbito, uma esforço que terá de fazer no domingo que vem, perseguindo um cavalo em disparada...

O átomo foi arrastado para fora da corrente sanguínea e foi parar numa minúscula fibra muscular do quadril... e, depois, como dióxido de carbono, foi expirada e voltou ao ar.
Mais uma vez com o vento, mas desta vez mais longe, ele cruzou os Apeninos e o mar Adriático, passou pela Grécia, pelo mar Egeu e por Chipre: estamos sobre o Líbano. E a dança se repete.

O átomo agora penetra e fica preso ao respeitável caule de um cedro, um dos últimos. Ele pode ficar no cedro até 500 anos, mas vamos dizer que, depois de vinte, uma larva de caruncho se interessou por ele e o engoliu.

A larva de caruncho se tornou uma pupa e, na primavera, surgiu sobre a forma de mariposa que agora morre sob o sol, confusa e fascinada pela beleza do dia. Nosso átomo está em um dos mil olhos do inseto.

Quando o inseto morre, ele cai no chão e é enterrado sob a vegetação rasteira da floresta. Aqui entra em ação o onipresente, incansável e invisível microrganismo do húmus. A mariposa lentamente se desintegrou e o átomo mais uma vez ganhou asas. 
E alçou vôo... até chegar a um momento de descanso na superfície do mar, e então lentamente afundou. Uma alga marinha de passagem se apropria do átomo para construir a extremamente delicada concha de carbonato de cálcio. Ele logo morre e desliza até o fundo do oceano, onde se compacta com trilhões de companheiros e seus átomos de carbono.

Passada uma era geológica, os movimentos da placa tectônica trouxeram esse sedimento - agora um penhasco cretáceo - para a superfície da terra, expondo nosso átomo mais uma vez à possibilidade de voar na complexa dança da vida."

Agora olhe para a sua mão – uma cicatriz, talvez, ou uma unha. Pense nisso como menos que uma mão, mais como um lugar de descanso temporário para incontáveis átomos de carbono. Um lugar em que eles estão fazendo uma pequena pausa antes de prosseguir na vasta e interminável jornada que passa pelas profundezas dos oceanos, o céu mais alto, os dinossauros que viveram antes de você e as criaturas com que nem sonhamos e que virão depois de nós.


Já se sente conectado?