terça-feira, 12 de maio de 2015

Representatividade e alternativas de vida - Parte III (Final)

No primeiro post desta série eu citei um exemplo da falta de representatividade crônica que vivemos, ou seja, se a decisão e o poder não emanam do povo, o ato mecânico de votar pouco faz para que nossa suposta democracia difira de uma ditadura qualquer.

Se associarmos isso à individualidade, competitividade, falta de qualidade de vida e completa falta de racionalidade no uso dos recursos naturais pelo modelo sócio-econômico vigente, o crescimento do movimento das ecovilas descritos no post anterior não é surpresa.

Pessoas que param de correr atrás do próprio rabo, reavaliam suas reais necessidades, refletem sobre seus valores pessoais e praticamente viram as costas à sociedade. Uma espécie de desobediência civil pacífica.

O processo histórico e a análise dos motivos de como chegamos a este modelo de organização social não cabe aqui (tanto foge aos objetivos como seria por demais simplório uma única postagem pretender realizar esse feito), mas de qualquer modo, ao que parece, muitas pessoas se cansaram de estudar os porque's e de lutar por alguma mudança (no sentido "panfletarista" da coisa e do voto que tem valor nulo dada a perda de representatividade já exposta).

Neste último post sobre esses assuntos quero apenas pontuar algo sobre o idílico e o possível.

A maioria das ecovilas (na sua real definição, ou seja, a de comunidades auto sustentáveis - ou quase) são organizadas por jovens, porém não é incomum encontrar pessoas de meia idade e até idosos.

Uma boa referência no planejamento de ecovilas está aqui.

Os jovens tem a característica da urgência, da pressa e do enorme idealismo.
As ecovilas bem sucedidas equilibram a urgência com o planejamento, e o idealismo com o pragmatismo e à realidade da complexidade humana.

Somos criaturas passionais, com uma confusa mistura de paixão, ódio, alegria e tristeza, com uma carga cultural majoritariamente feita nesta sociedade a que eles tanto repudiam e portanto, cujas influencias não podem nem devem ser ignoradas.

Como bem lembrou o historiador Leandro Karnal, se meditar garantisse a paz e o equilíbrio não teríamos as atrocidades que os países de ascendência budista demonstraram em sua história (recentemente vimos os monges tibetanos reagindo violentamente a ordem chinesa), e que a vida rural, como mostra a história, não é garantia de uma vida idílica e bucólica.

Estar atento as nossas características garante que diferenças não sejam ignoradas e que conflitos possam, ao menos em parte, serem prevenidos e os que aparecerem (sempre existem e fazem parte de um grupo auto gerido) resolvidos com cordialidade e discussão civilizada.
Partindo dessa realidade, criar um conjunto de regras que não pré suponham a bondade, a justiça e a cooperação humana como algo "natural" (estamos sempre pendulando entre Hobbes e Rousseau). Se essas virtudes acontecerem sem a aplicação do estatuto melhor, mas em caso contrário, as regras estarão explicitamente descritas e pactuadas.

Aliás, falando em "natural", deve-se estar atento ao que designamos de "natureza".
A natureza variou ao logo da existência do planeta e ela nunca foi "boa" ou "má" para nós ou outros animais, ela apenas existiu dinamicamente a despeito da existência ou não de vida qualquer que seja ela.

Sendo assim, a natureza que defendemos é a que estrategicamente nos é útil e na qual  queremos minimizar nosso impacto por razões bastante mesquinhas (deixemos de lado a hipocrisia). A extinção dos dinossauros, por exemplo, foi uma maravilha para nós (e a maioria dos mamíferos). 

Uma vida "natural" poderia ser aquela em que a expectativa de vida era de 25 anos, ou na qual morríamos de cólera, ou ainda, na qual um leão nos comesse, portanto, queremos o "natural" mas nem tanto.

Assumir a postura de defender a natureza que nos é interessante (deixando de lado discursos hipócritas e polianas), deixando claro a importância e a urgência dessas ações, pois para a natureza a nossa existência não é relevante. Quem precisa dela somos nós e não o contrário. Aliás, pelas evidências, ela "nos quer mortos". Resumindo, da forma com que conhecemos ou não, a natureza existirá a despeito da nossa existência.

Tendo essa clareza já se percebe que uma área de agricultura e criação que contemple todo o desejo humano, mesmo que simplificando o modo de vida, é bastante difícil ou pouco plausível.
O mais viável é ter como objetivo uma minimização na dependência externa e uma redução drástica de custos de vida, o que já gera boa segurança e independência, além de tornar opcional a aquisição de áreas muito extensas.
Cultivar e criar alguns "elementos chave" e dar margem a iniciativas econômicas, ainda que no contexto da ética e da responsabilidade social e ambiental.

O respeito ao momento privado é imprescindível, devendo haver equilíbrio entre a vida comunal sadia e a necessidade humana de momentos de privacidade e solidão.
O mesmo respeito se aplica a seus credos religiosos, sua vida sexual e suas preferências alimentares, pois não existe nem de longe consenso muito menos alguma verdade absoluta nesses temas, apesar de, convenhamos, algumas afirmações sem nenhuma condição de plausibilidade sejam discursadas aos sete ventos. De qualquer modo essas maluquices estão no direito privado de qualquer um.


Resumindo, o movimento das ecovilas é muito válido e repleto de qualidades e virtudes, mas negar completamente as características humanas e várias conquistas civilizatórias é uma insanidade.
O fundamental é o movimento de alternativa de vida proposta por elas, onde tecnologia, ética e humanismo devem ser o objetivo e o meio, ao contrário do lucro a qualquer custo e ao acúmulo doentio vigentes no sistema atual.

Já existindo aos milhares pelo mundo, elas são um movimento de resistência e oposição silenciosa, porém, são mais agressivas não dizendo nada, virando as costas ao invés de fazendo passeatas. Mas a contracultura já tem mais de 40 anos e achar que a juventude é o momento de ouro da vida e pode realizar tudo já faz "parte de uma época" e, saliento, que ignorar a complexidade humana e ter uma irracional (e hipócrita) visão da natureza torna essas iniciativas altamente passíveis de fracasso.



Algumas ecovilas/comunidades: