sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Grupos? Que grupos?

E cá estou eu na tentativa de formar um grupo coeso e de bom caráter para, quem sabe, criar uma ecovila (ou seja lá o nome que queiram dar a isso).
Na verdade está sendo bastante frustrante.
Minha tranquilidade reside no fato de que, apesar de indesejável, posso fazer meu instituto de preservação e vida alternativa sozinho, aliás, está ultima parte já está bastante sólida há uns anos...

Entre as pessoas “do meio” que converso a maioria com algum grupo em formação ou já formado são de pessoas conhecidas entre si: amigos, parentes, colegas de classe, etc.
As pessoas que estão na luta de formar um grupo “entre desconhecidos” parece que estão sempre atoladas. Um grupo do Rio está com 8 pessoas há uns 2 anos apesar de ter tido mais de 1000 no facebook (blergh!).
No meu grupo do facebook (blergh!) já passaram quase 500 pessoas e apesar de uma meia dúzia ter tido a coragem de se conhecer pessoalmente, nem sei se esses de fato encaram tal empreitada.
Até uma simples pesquisa no grupo retorna meia dúzia de interações. Bem alertava Guy Debord...

Quase ninguém quer sair da zona de conforto e se expor ao outro como seres sociais deveriam fazer, e os que participam de “grupos de conhecidos” se expõem (em parte) porque sabem que praticamente não haverá conflitos, coisa que provoca pesadelos na maioria esmagadora.
Uma educação deficitária e a ideologia vigente os tornaram impermeáveis à discussão sadia, ao embate de ideias e a tolerância à frustração e crítica.

É a geração do “ativismo digital da bunda na cadeira”, do discurso em dissonância da prática da vida, da tolerância de araque e do falso incentivo à diferença.
Isso me faz lembrar minha juventude e meus amigos “engajados” e “ativistas crônicos”. Todos (não generalizando injustamente, todos mesmo!) viraram protótipos de mauricinhos pai de família, com carreira certinha, esposinha, filhinhos, patrimônio, tranqueiras tecnológicas, discurso moralista puritano, etc.
São esses mesmos, pasmem, que participaram do “Diretas já”, manifestações pró democracia e legalização de partidos, “fora Collor”, “salvem as baleias”, Greenpeace, blábláblá....

A ideologia do capital fez um estrago enorme. O capitalismo fundamentalista tem essa capacidade incrível de sequestrar vidas numa síndrome de Estocolmo premeditada.
Estando ela como estado e fatalmente como órgão de educação parece que teremos um longo e tenebroso caminho para alternativas sociais mais justas e igualitárias.




“Vida alternativa. Alter vida. Outra vida. Isto não só é possível como é a única e gigantesca tarefa deixada para as pessoas que não aceitam a realidade como ela é e caem no mundo na esperança de modificá-la”. (GABEIRA, 1985, p. 85)

“Nesses debates, vimos que adotar um caminho alternativo e solidário pode ser muito mais difícil e conflituoso do que seguir a maneira habitual de ação. Solidário e conflituoso não sendo, portanto, conceitos opostos, pois saber lidar com o conflito de forma respeitosa e acolhedora é o que faz um caminho solidário – e não a supressão do conflito.” (Richard Sennett)

“Podemos afirmar, assim, que ecovila Andorinha se apresenta como um movimento de resistência e, ao mesmo tempo, de proposição de uma cultura alternativa por meio da construção de novos valores e novas formas de ação, novas sensibilidades e novos questionamentos morais. Moralidade entendida aqui não como regras instituídas de conduta, mas como respostas singulares às perguntas: Como devemos viver? e O que é uma ‘boa vida’?. Encontramo-nos aqui, portanto, com sujeitos-criadores cujas práticas demonstram as inúmeras possibilidades de vida que podemos criar. Quando adotamos uma atitude aberta e desarmada, o encontro com esses sujeitos pode nos fazer repensar nossas opiniões e atitudes, e a revisitar nossos valores e intuições.

A busca de um caminho alternativo apresenta inúmeros desafios para os caminhantes: a dificuldade em romper com o trabalho e outras instituições citadinas; assumir os trabalhos coletivos voluntários com maior responsabilidade e assiduidade; saber acolher as diferenças; negociar o que o grupo tem em comum; abandonar hábitos internalizados por uma cultura extremamente hierarquizada;
aprender a dialogar com indivíduos que não compartilham dos mesmos valores éticos e estéticos, provenientes de experiências e classes sociais diferentes; erradicar a distinção entre trabalho (e trabalhador) intelectual e braçal; canalizar seu potencial transformador em ações políticas; etc. Pois todas essas mudanças exigem a construção de novas capacidades culturais e novos hábitos corporais, processo que demanda tempo e um trabalho de atenção. Tomar consciência desses desafios, discuti-los e problematizá-los em conjunto deve ser o primeiro passo para a sua superação.

A resistência oferecida pelos ecovilenses estudados não significa, por conseguinte, uma ruptura total com a cultura dominante, nem mesmo um extremismo ideológico. Trata-se de uma resistência gestada no cotidiano, nas pequenas coisas, em seu próprio ritmo. São artistas, portanto, e não engenheiros, como ressalta Jasper, que desconfia dos sistemas ideológicos que buscam reduzir a complexidade do mundo ao oferecer uma resposta unificada e ao exigir uma brusca ‘conversão’. A mudança cultural proposta pelos ecovilenses, ao contrário, se mostra gradual e singular, num processo que é único para cada indivíduo. Uma mudança entendida como um processo contínuo de busca, sem ponto de chegada, sempre em curso, sempre em movimento – exatamente como Alfredo Bosi entende o termo cultura: trabalho, processo, movimento.

De qualquer forma, ao embarcarem nesse movimento de busca, nessa reinvenção do mundo que passa pela reinvenção de si mesmos, os ecovilenses estão realizando o potencial de liberdade que os seres humanos realmente possuem: a capacidade de criar, de moldar poeticamente suas vidas. Movimento de busca que, quando efetuado em comunhão, tem mais chances de se corporificar e de transbordar para além da esfera daquela comunidade, tanto espacialmente – servindo de modelo e inspiração para outras pessoas de fora da comunidade – como temporalmente – servindo como referência de vida para as futuras gerações.” (REBECA ROYSEN – 2013)