quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Somos todos perdedores

Levante a mão quem está de saco cheio de histórias edificantes.

Com o final dos jogos olímpicos resta um fio de esperança de uma redução desses discursos.

"Quem sonha sempre alcança...",  "todos podem vencer...", "basta querer e focar...", blablabla.

O esporte, como não poderia deixar de ser, reflete o panorama social, e assim, sua ideologia.
Perdeu-se o esporte como atividade de socialização e confronto simulado saudável, para se ter um vencedor e um séquito de vencidos.
Criou-se o esporte de "alto nível" ou "profissional" onde, mais uma vez, criam-se canais para o escoamento de riquezas no tradicional sistema de convergência de capital.

Um mar de cidadãos gerando lucros exorbitantes para meia dúzia de indivíduos, em especial cartolas e patrocinadores, sem praticamente (ou totalmente) nenhum retorno a não ser uma histeria temporária que alivia frustrações e cria uma suposta identificação grupal.

Panem et circenses do ultraliberalismo. Um circo pago e um pão caríssimo e de má qualidade.



E a falácia da meritocracia desfila soberana, colocando a culpa sempre no "perdedor", como se os demais competidores "quisessem menos" ou "sonharam com menos intensidade".

É como o milagre religioso.
Claro que ele acontece, se não acontecer para você é porque você não teve fé o suficiente ou não foi abençoado.

Estranho é que nunca vi ou ouvi relatos confiáveis de um braço ou perna que crescem novamente num amputado.
Talvez nenhum deles tenha fé o suficiente...

Numa entrevista recente, Zygmunt Bauman se diz um pessimista a curto prazo e otimista a longo prazo. O caso incide em se o 'curto prazo' irá viabilizar algum 'longo prazo', ainda que ambos sejam conjecturas.
Supondo um 'curto prazo' entre quatro ou cinco gerações (que em termos históricos é um pulo) posso garantir que o otimismo passa a habitar a grande zona da ignorância e fatalmente da inexistência.

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."

Eu seria muito hipócrita (para não dizer filho da puta mesmo) se eu falasse para meu filho (se ele existisse) que basta ele sonhar e trabalhar arduamente para atingir seus objetivos.
O mundo atual foi feito para que esses burricos que correm atrás da cenoura carreguem os 1% nas costas, e a nossa "cenoura" são esses discursos edificantes e meritocráticos.


Não nego os méritos das pequenas conquistas nem a existência de uma ínfima amostragem de indivíduos que romperam o sistema de castas sociais, mas afirmar isso como realidade social e sistema justo e igualitário é uma insanidade.

Se até o desejar e o sonhar são aprendidos (vamos com Sartre), nada mais interessante que perpetuar uma ilusão do "pensar positivo", da "fé inabalável" e atualmente, das "energias positivas".



No fim todos falhamos. Somos todos perdedores.
Os maiores tiranos também foram depostos e/ou degolados pelos seus oprimidos e explorados, mas até lá muita desgraça é feita.
Ao menos gostaria de ouvir menos balelas e não ser obrigado a votar em quem me é oferecido na outra falácia: a de que vivemos numa democracia.