quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Uma busca, um ideal, um projeto

Continuo estudando as ecovilas e comunidades intencionais e naturalmente tive boas e más impressões a cerca delas.
As más são que em geral há um viés meio dogmático em todas, seja por religiões formais em si ou através de misticismo oriental, orientações alimentares, etc. Para um cético/racional como eu isso é um tormento.

Porém as boas impressões superam as más e no mais, antes uma comunidade de gente esperando alienígenas do que uma metrópole cheia de neo yuppies com tendências faraônicas de acúmulo e todas as atitudes não éticas ligadas ao lucro a qualquer custo.
Soma-se a isso o fato de que existem outros céticos como eu e pessoas com algumas incongruências na estrutura de pensamento mas que não querem te “converter” a suas crendices. O respeito (de fato e não o da boca pra fora) se dá quando há tolerância e  reconhecimento de que sobre tudo pode se perguntar por que, quando e como, afinal, ser um cético ateu não o impede de acreditar (a base do significado da palavra fé) em solidariedade, compaixão e bem querer, e acima de tudo, algo que começou a ser discutido seriamente bem antes de quase todas as religiões conhecidas na atualidade: a ÉTICA.

Apesar de já desgastado, dado o encampamento do capitalismo, continuarei a usar o termo ecovila para efeitos de referência do projeto da comunidade intencional.

Particularmente o que significa tudo isso? O que espero de um projeto desses?
Sem ordem de importância e sabendo que há uma segurança/garantia apenas relativa em tudo eu colocaria da seguinte maneira:
  • um espaço preservado longe das mãos do capital.
  • me desfazer da pouca coisa que tenho pois acho o conceito de particular/propriedade e herança um completo absurdo.
  • uma área com mais liberdade de ações (exemplos pífios: numa área rural posso construir praticamente o que bem entender sem as regras oficiais; posso conseguir uma fonte de água alternativa sem burocracias; posso gerar minha energia elétrica sem maiores empecilhos; posso ter plantações/criações que reduzem minha dependência do mundo monetarista).
  • um grupo que não só divide tarefas cotidianas como zela pela sua segurança e troca afeto e informação.
  • racionalizar o uso de tudo, pois em grupo se compartilha mais recursos e fatalmente se consome menos.
  • realizar projetos sociais e ambientais maiores do que os possíveis quando se faz sozinho.
  • recuperar o conhecimento ancestral e uni-lo com o moderno.

Nos meus estudos da permacultura e ecovilas e sua viabilidade no meu entorno e com as pessoas que imagino serem boas aliadas, criei algumas bases referências para este projeto. ATENÇÃO! Base de referência é um começo de discussão e não regra ou imposição.

Estruturalmente até me parece fácil, muitas referências estão bem descritas nos manuais das ecovilas e da permacultura:
  • uns 100 mil m2 de área para cada 20 famílias/grupos.
  • famílias/grupos residenciais de até 5 pessoas.
  • área privada (lote, cristal, pétala, ou seja lá como chamar essa área destinada ao morador, associado, ecoaldeano, etc) de uns 500m2 com até 200m2 de “uso impermeabilizado”.
  • acesso a água, energia elétrica e telecomunicação.
  • obrigatoriedade de tratamento dos seus resíduos.
  • obrigatoriedade de construções de baixo impacto dentro da realidade/possibilidade prática atual.
  • possibilidade de captação de água natural.
  • mínimo de 50% de área nativa para fins de preservação.
  • acesso relativamente fácil, apesar de subjetivo,  entendo como um centro urbano acessível em uns 20 minutos de veículo motorizado, já que muitos, talvez a maioria, necessitem manter vínculos com a “cidade”.
  • área comum para encontros, eventos, reuniões, etc.
  • área agrícola para uma busca da autossuficiência (aqui lembrando que acho praticamente impossível alcançar esse propósito, uso ‘autossuficiência’ como minimização de dependência externa).
  • área de criação animal (dentro do tratamento ético dos animais não há restrições em tê-las e nem mesmo em consumi-las, além de não haver restrições nos manuais das ecovilas e da permacultura, lembro que o ato de nascer já é um processo de morte e destruição e, mais uma vez, seus dogmas não devem ser encarados como verdade absoluta e nem exclusividade moral).
  • redução da “pegada ambiental” sem maluquices xiitas, afinal, de novo, estamos vivos, e isso em si já é um impacto ambiental.

É socialmente, como sempre, que me parece haver os maiores desafios:
  • sabendo que toda a ecovila bem sucedida teve origem num grupo de pessoas afetivamente conectadas, como manter esse vínculo sem obrigatoriedades? Exemplo: sabemos que eventos sociais são os “adubos” do vínculo afetivo, mas como tê-los sem a rigidez de encontros obrigatórios para isso ou aquilo?
  • tendo cada pessoa algumas habilidades e ou condição física específicos, como evitar que se criem os mesmos vícios atuais da monetização de tudo, ou seja, o risco de alguém virar uma espécie de “subempregado” dos demais?
  • sabendo que na diversidade podem haver pessoas que morem e vivam integralmente na ecovila bem como as que trabalham integralmente fora e as que misturam ambos, como conciliar as contribuições de todos para a ecovilas sem cair na monetização da questão?
  • como evitar que pequenas desavenças (e sempre são pequenas) virem uma mágoa desestabilizante?

Enfim, dadas evidências históricas e as experiências presentes pode-se dizer que há solução e ou consenso para tudo.
Confuso, dinâmico e cheio de “mas”, “se`s” e “talvez”, mas um início de discussão.


Nestes 3 posts tem um pouco mais sobre o que li/interpretei das ecovilas, etc:

http://coisafilosofica.blogspot.com.br/2015/04/representatividade-e-alternativas-de.html
http://coisafilosofica.blogspot.com.br/2015/05/representatividade-e-alternativas-de.html 
http://coisafilosofica.blogspot.com.br/2015/05/representatividade-e-alternativas-de_12.html