sábado, 3 de julho de 2010

A um amigo - um soco e um afago


Meu caro amigo espírita (pasme, tenho todo tipo de amigo - e eles me suportam!) você me perguntou se não era mais difícil suportar as dificuldades sendo ateu.

Achei muito interessante a sua pergunta.
Na verdade te acho um "ateu preguiçoso". Você já sabe que sou meio "direto", apesar de evitar pontos afetivos potencialmente dolorosos. Dr. House não é nada original, aliás nem eu.
   
Pedi para que refletisse se de fato acredita em Deus e re-encarnação ou se era apenas uma covardia e um suporte a dor e a frustração.
Tú tens uns 10 anos a menos, um "quase-típico" classe média. Previsível o tipo de educação que teve, e daí a concluir algum grau de ignorância emocional é fácil e óbvio.
O básico egoncentrismo antropocêntrico classe média.
   
Te sugeri Billions and Billions do Carl Sagan. Pra facilitar, apenas o capítulo "No Vale da Sombra".
Sou um admirador incondicional de Carl Sagan desde que assisti Cosmos no início da década de 80.
Foi ele quem me apresentou a astronomia e a física e sempre serei redundante e repetitivo em citar seu nome e suas obras.
   
"No Vale da Sombra" foi finalizado no hospital, em sua batalha final contra o câncer.
Quase a mesma pergunta que tú me fez, meu amigo, foi feita a ele, algo do tipo "como é encarar a morte não acreditando em vida eterna?".
   
"Aprendi muito com essas confrontações - especialmente sobre a beleza e a doce pungência da vida, sobre a preciosidade dos amigos e da família e sobre o poder transformador do amor. Na verdade, quase morrer é uma experiência tão positiva e construtora de caráter, que a recomendaria a todos - não fosse, é claro, o elemento irredutível e essencial do risco."

"Gostaria de acreditar que, ao morrer, vou viver novamente... mas por mais que deseje acreditar nisso, e apesar das antigas tradições culturais difundidas, não sei de nada que me sugira que essa afirmação não passa de wishfull thinking*." (*difícil tradução - algo como tomar o desejo por realidade).

"Durante anos mantive perto do meu espelho de barbear um cartão postal de um tal de William John Rogers em que se lia, 'Caro amigo, apenas uma linha para dizer que estou vivo e levando a vida que pedi a Deus'. No seu verso uma foto do Titanic. Sabemos que 'levando a vida que pedi a Deus' pode ser o mais temporário e ilusório dos estados."

Numa parte cita Einstein: "Não consigo conceber um deus que recompense e puna as suas criaturas, nem que tenha uma vontade do tipo que experimentamos em nós mesmos. Não consigo, nem quero conceber um indivíduo que sobreviva à sua morte física; que as almas fracas, por medo ou egoísmo absurdo, alimentem esses pensamentos. Eu me satisfaço com o mistério da eternidade da vida e com o vislumbre da maravilhosa estrutura do mundo real, junto com o esforço diligente de compreender uma parte, por menor que seja, da Razão que se manifesta na natureza."

Mesmo com suas crenças um tanto discrepantes das da maioria, houve vigília em vários pontos do mundo por sua recuperação.
Cartas e telefonemas de sacerdotes hindus, cristãos, judeus, etc, pois basicamente, Sagan era bom. Bom no sentido que o tamanho da palavra não exprime. Do tipo que se preocupa de fato com as mulheres que sofrem violência ou dos americanos que não tem acesso ao sistema de saúde. Que democratiza o conhecimento e usa sua influência para o bem comum.
Sua esposa Ann Druyan escreveu o epílogo, numa breve recuperação, o "veranico" (a trégua do corpo antes da luta final), escreveu:
 
"É uma vigília de morte - me disse Carl calmamente. 'Não!' protestei. Com uma mistura de fino bom humor e ceticismo, mas, como sempre, sem nenhum vestígio de autopiedade, disse ironicamente 'bem, vamos ver quem tem razão desta vez'."

"Ao contrário das fantasias dos fundamentalistas, não houve conversão no leito de morte, nenhum refúgio de última hora numa visão consoladora do céu ou de uma vida após a morte. Para Carl, o que mais importava era a verdade, e não apenas aquilo que poderia fazer com que nos sentíssemos melhor..."

"Estou cercada por pacotes do correio, cartas de pessoas de todo o planeta que lamentam a perda de Carl. Muitos lhe dão o crédito por tê-los despertado. Alguns dizem que o exemplo de Carl os inspirou a trabalhar pela ciência e pela razão contras as forças da superstição e do fundamentalismo. Esses pensamentos me consolam e me resgatam de minha dor. Permitem que eu sinta, sem recorrer ao sobrenatural, que Carl vive." - Ann Druyan / 1997.

Por tanto meu amigo, a péssima educação "à prova de frustração" é lenha para crendices.
Mas a Ciência não é nada fria e desalmada, e a Razão tem seus providenciais momentos de cegueira, afinal sou seu amigo.