sábado, 25 de agosto de 2012

Reproduzindo...

Religiosidade diminuirá no Brasil, diz escritor e psicólogo americano
Terra - 24 de agosto de 2012 07h32 atualizado às 08h50  


Michael Shermer vem ao Brasil para disseminar a dúvida e o questionamento na 6ª edição do Fronteiras do Pensamento. Foto: Byrd Williams/Divulgação
Michael Shermer vem ao Brasil para disseminar a dúvida e o questionamento na 6ª edição do Fronteiras do Pensamento
Foto: Byrd Williams/Divulgação

Diretor da Sociedade Cética, criador da revista Skeptic e articulista semanal da Scientific American, o psicólogo e escritor americano Michael Shermer vem ao Brasil para disseminar a dúvida e o questionamento na 6ª edição do Fronteiras do Pensamento. Na mala, o cientista traz a certeza de que o ceticismo pode melhorar o planeta. De fato, ele prevê o arrefecimento da religiosidade da população brasileira com o aumento da prosperidade: "As pessoas se voltam para a religião quando seus governos não fornecem uma estrutura social sólida".

Shermer nem sempre foi tão cético quanto mostra uma das frases de sua entrevista ao Terra: "Eu duvido até que provem o contrário". Durante o ensino médio, ele batia de porta em porta para propagar a palavra do Evangelho. No curso de psicologia, porém, as certezas cristãs começaram a ruir. Por fim, em 1983, competindo como ciclista em um desafio chamado Race Across America, ele percorreu mais de 2 mil km em 83 horas sem dormir e, absolutamente exausto, passou a delirar.

Quando seu time de apoio finalmente pediu que ele parasse para descansar, o ciclista pensou que eram alienígenas conduzindo-o para a nave-mãe. Algumas horas de sono o curaram - a nave, afinal, não passava de um motor home bem americano. Essa confusão o levou a estudar com afinco as razões pelas quais os indivíduos encontram explicações estranhas para eventos que não conseguem entender com a razão.

Seu livro mais recente, The believing brain - o qual será lançado em breve no País com o título A mente e a crença, pela JSN Editora - trata exatamente disso. Nele, o autor delineia um panorama das associações e dos processos envolvidos na mecânica cerebral da crença. "O cérebro é uma máquina de crenças", diz Shermer. "A partir dos dados sensoriais que fluem através dos sentidos do cérebro, naturalmente se começa a procurar e encontrar padrões, e então se infundem significados a esses padrões".

Para explicar suas teorias e fomentar o ceticismo, o mestre em Psicologia Experimental e Ph.D. em História da Ciência espera ser recebido por pessoas "curiosas e apaixonadas por compreender o mundo" em Porto Alegre, dia 27, e São Paulo, dia 29.
Confira a seguir a entrevista completa com Shermer.

Terra - O que significa ser cético?
Michael Shermer - Ceticismo significa investigação cuidadosa. É manter a mente aberta, mas não tão aberta que seu cérebro caia fora e você passe a acreditar em tudo. Ceticismo é ciência, e os cientistas são céticos porque a maioria das ideias acaba se revelando falsa. Assim, a posição padrão da ciência e do ceticismo é a dúvida: eu duvido até que provem o contrário.
Os céticos acreditam na ciência, na razão e na racionalidade. Os céticos acreditam que a mente humana é capaz de resolver problemas e melhorar nossas vidas através da razão. Os céticos são otimistas que têm esperança para o nosso futuro contanto que possam usar a razão e a ciência.

Terra - Qual é o objetivo da ciência em um mundo que procura tanto o sobrenatural?
Shermer - Ciência é um método para responder perguntas sobre o mundo natural com explicações naturais (não sobrenaturais). Ciência é um método sistemático para testar hipóteses acerca do mundo, métodos que podem ser empregados em qualquer lugar, por qualquer pessoa, a qualquer momento. A ciência é aberta e provisória; não Verdades (com V maiúsculo), mas conclusões provisórias baseadas em evidências que podem ser derrubadas se novas evidências surgirem.

Terra - Como pode um cientista ser religioso?
Shermer - Muitos cientistas são religiosos, mas eu acho que eles empregam o que eu chamo de logic-tight compartments (NR: compartimentos cerebrais impermeáveis à lógica) quando eles têm crenças conflitantes. A religião faz coisas que a ciência não faz (como grupos que cozinham sopa e cuidam das pessoas pobres e necessitadas), e a ciência faz coisas que a religião não faz (como a execução de experimentos e coleta de dados para testar hipóteses sobre o mundo).

Terra - O que você acha de James Randi, que oferece US$ 1 milhão para quem provar ser um verdadeiro paranormal?
Shermer - Eu amo o James Randi. Ele é meu amigo e mentor. James Randi é o padrasto do movimento cético moderno. Seu desafio de 1 milhão é uma das coisas mais importantes na história do ceticismo.

Terra - Sobre o seu livro Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas (Why People Believe Weird Thing), há uma resposta fácil para esta pergunta? Por que as pessoas acreditam em coisas como horóscopo, tarô, médiuns, óvnis?
Shermer - A principal razão para as pessoas acreditarem em coisas estranhas é porque nós precisamos acreditar em coisas, no geral. Nós fazemos isso procurando padrões na natureza. Nós somos buscadores de padrões. Eu chamo isso de "padronicidade", a tendência de encontrar padrões significativos em ruídos sem sentido. Ufólogos veem um rosto em Marte. Religiosos veem a Virgem Maria ao lado de um edifício. Paranormais ouvem pessoas mortas falarem com eles através de um receptor de rádio. Os téoricos da conspiração acham que o 11 de setembro foi obra da administração do presidente Bush. É claro que alguns padrões são reais: os germes causam doenças, o DNA é a base da hereditariedade e o presidente Lincoln foi assassinado por uma conspiração. Então a dificuldade está em determinar a diferença entre os padrões verdadeiros e falsos.
Quando nós enganosamente acreditamos ter encontrado um padrão, existem dois tipos de erro: o erro tipo 1, o falso positivo, é acreditar que algo é real quando não é; o erro tipo 2, o falso negativo, é não acreditar que algo é real quando é. Por exemplo, acreditar que o farfalhar da grama é um predador perigoso quando é apenas o vento é um erro tipo 1. Isso não é um grande problema, mas acreditar que um predador perigoso é apenas o vento é um erro tipo 2, que pode custar a vida de um animal. Portanto, teria havido uma seleção natural na evolução dos animais (incluindo primatas como os nossos ancestrais hominídeos) por simplesmente acreditar que todos os padrões são reais. Tais padronicidades, então, significam dizer que as pessoas acreditam em coisas estranhas por causa da nossa necessidade evoluída de acreditar em coisas não estranhas.

Terra - Há quem afirme enxergar espíritos, ouvir vozes e até conversar com seres que já faleceram. Esse tipo de relato é mentiroso?
Shermer - As experiências que as pessoas têm são reais. O que essas experiências representam é algo completamente diferente. A maioria das pessoas não são mentirosas - elas acreditam naquilo que elas pensam ter visto. Mas, na maioria dos casos, elas interpretam erroneamente a experiência.

Terra - Em uma outra entrevista, você comentou sobre a diminuição da religiosidade na Europa e nos EUA. Aqui no Brasil, no entanto, não se nota essa tendência. Qual é o motivo?
Shermer - Eventualmente, a religiosidade vai diminuir no Brasil e nos outros países da América do Sul, à medida que cresce a prosperidade e a confiança das pessoas nos sistemas políticos e econômicos. Uma razão pela qual a religião ainda cresce no Brasil, e em outros países, é que os níveis de confiança entre as pessoas nestes países sul-americanos é baixa, segundo os economistas. As pessoas se voltam para a religião quando seus governos não fornecem uma estrutura social sólida.

Terra - Em seu livro mais recente, The believing brain, você sintetiza 30 anos de suas pesquisas a respeito de como as pessoas formam suas crenças. Dá para sintetizar ainda mais?
Shermer - Minha tese é simples: nós produzimos nossas crenças por uma variedade de razões subjetivas, pessoais, emocionais e psicológicas no contexto de ambientes criados por familiares, amigos, colegas de trabalho, da cultura e da sociedade em geral; após a formação de nossas crenças, nós então defendemos, justificamos e racionalizamo-as com uma série de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais. Crenças vêm em primeiro lugar, e as explicações para as crenças, a seguir.
O cérebro é uma máquina de crenças. A partir dos dados sensoriais que fluem através dos sentidos, o cérebro começa a procurar e encontrar padrões, e então se infundem significados a esses padrões. O primeiro processo eu chamo padronicidade: a tendência para encontrar padrões significativos em ambos os dados, significativos e sem sentido. O segundo processo eu chamo agenticidade: a tendência de infundir padrões com significado e intenção. Nós não podemos evitá-lo. Nossos cérebros evoluíram para ligar os pontos do nosso mundo em padrões significativos que explicam por que as coisas acontecem. Estes padrões significativos se tornam crenças.
Uma vez que as crenças são formadas, o cérebro começa a procurar e encontrar evidências que confirmem e apoiem essas crenças, o que acrescenta um impulso emocional de mais confiança nas crenças e, assim, acelera o processo de reforçá-las, e o processo se transforma em um retorno positivo de confirmação da crença. Bem como, ocasionalmente, as pessoas formam crenças a partir de uma única experiência reveladora em grande parte livre de seu passado pessoal ou da cultura em geral. Mais raro ainda, há aqueles que, ao pesar cuidadosamente as evidências a favor e contra uma posição que já possuem, ou que eles ainda têm de formar uma opinião a respeito, calculam as probabilidades e tomam uma decisão drástica, sem emoção, e não olham para trás.
Essas reversões de crenças são tão raras na religião e na política, que geram manchetes de jornais quando envolvem alguém de destaque, como um clérigo que muda de religião ou um político que muda de partido. Isso acontece, mas é tão raro quanto um cisne negro. Reversões de crenças acontecem com mais frequência na ciência, mas não tão frequentemente como se poderia esperar da visão idealizada do exaltado "método científico", no qual apenas os fatos contam. A razão para isso é que os cientistas são pessoas também, não menos sujeitos aos caprichos da emoção e à força dos traços cognitivos que moldam e reforçam crenças.

Terra - Você está trabalhando em algum novo livro?
Shermer - Meu próximo livro é The Moral Arc of Science: How Science Has Bent the Arc of the Moral Universe Toward Truth, Justice, Freedom, & Prosperity. O livro trata do arco da moral do universo que se volta na direção da verdade, da justiça, da liberdade e da prosperidade, graças à ciência - o tipo de pensamento que envolve razão, racionalidade, empirismo e ceticismo. A Revolução Científica liderada por Copérnico, Galileu e Newton foi tão transformadora, que os pensadores de outros campos conscientemente buscaram revolucionar o mundo social, político e econômico usando os mesmos métodos da ciência. Isso levou à Idade da Razão e do Iluminismo, que por sua vez criou o mundo moderno secular de democracias, direitos, justiça e liberdade.

Terra - Quem você espera que vá te assistir no Fronteiras do Pensamento?
Shermer - Espero que pessoas interessadas em ciência e no pensamento, pessoas que sejam curiosas e apaixonadas por compreender o mundo.

Fronteiras do Pensamento
Concebido em 2006, o Fronteiras do Pensamento é um seminário que reúne conferencistas de diversas áreas da ciência. O foco de 2012 é a participação efetiva do pensador na mudança social.
27 de agosto
Onde: Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama 110 - Bairro Farroupilha - Porto Alegre/RS)
Horário: 19h30
29 de agosto
Onde: Sala São Paulo (Praça Júlio Prestes, 16 - Santa Cecília São Paulo - SP)
Horário: 20h30


Comentário do Coisa cético:  "A Revolução Científica liderada por Copérnico, Galileu e Newton foi tão transformadora, que os pensadores de outros campos conscientemente buscaram revolucionar o mundo social, político e econômico usando os mesmos métodos da ciência. Isso levou à Idade da Razão e do Iluminismo, que por sua vez criou o mundo moderno secular de democracias, direitos, justiça e liberdade." - Também criou uma idade das diferenças sociais brutais, do individualismo excessivo e da crença no "deus mercado financeiro" e todas as suas consequencias.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Como vinho coisa nenhuma

Até virtualmente meus heróis estão envelhecendo comigo.
Max Payne está na meia idade e além de alcoólatra está viciado em analgésicos.



Os Mercenários 2 juntou todos os brucutus geriátricos que nos divertiam na década de 80.


Mestre Arnold, você sempre será O cara!

A quarta década é uma fase esquisita, talvez a mais esqusita de todas.
Da adolescência pra idade adulta temos problemas completamente idiotas dignos de uma mente vazia e imatura.
Dos 60 em diante lida-se com os "finalmentes". Os que não tiveram a 'não-vida' de trabalho nas corporações não passam pela depressão da "inutilidade", já que sabem que ainda podem ter uma vida (quase) interessante.

Mas a passagem da barreira dos 40 é cheia de quebras de paradigmas e, principalmente, mudança de identidade.

Durante duas décadas (conscientemente no meu caso), construi um 'eu' que combinava comigo e me protegia bem: a do grandão mal humorado que ajudava 'frascos e comprimidos'.
Não é atoa que o apelido de Coisa surgiu no IFUSP, aonde o grandão mal encarado cuidava dos gatos que lá viviam. Touro Ferdinando, João Pequeno, etc.

Fui muito bem sucedido.
Fiz bons amigos, clientes e até, apesar de não ser o Brad Pitt, atraí as mulheres e porque não dizer, os homens.
Sujeito contido, de poucas palavras, que abomina piadas, frases feitas e a idolatria ao senso comum.
Do humor me restou a corrosividade.
Do otimismo nada.
O sentir-me mal com a decadência física é natural.

Não sou hipócrita em achar isso bom, mas sei que é a desconstrução do meu personagem que mais me afeta.
Encontrar um 'novo eu' ou apenas achar odioso a falência do anterior?
Não acho nenhuma das hipóteses ruins em si mesmas, são apenas opções.
Estou "retificando" o pulso esquerdo e os dois ombros, desgastados precocemente. O corpo cobra os abusos do passado.
Retirado um caroço no peito ainda restaram as protusões lombares e um cotovelo calcificado.

Não me parece um futuro promissor, apesar de, paradoxalmente, eu não acreditar em futuro.
Restariam-me para esse tempo à frente a inteligência?
Vários dizem sim, eu lamentavelmente não acredito.

Uma criança prodígio que andou e falou com 10 meses, explicava máquinas mecânicas e termologia básica aos amiguinhos.
Um adolescente promissor que aprendia fácil e bem cedo se aventurou com sucesso no mundo da eletrônica.
Um jovem que escreveu livros e empreendeu com facilidade.

Mas no fim um adulto confuso, perdido em pensamentos 'improdutivos', que usa exclusivamente a lente do realismo cru e com auto-estima discutível. E para coroar, não fui o 'Einstein' que gostaria.
Cada vez mais misantropo e desgostoso com a raça humana.

Resta-me torcer (nada mais inútil) para que, cruzando os 50, as coisas fiquem mais leves e uma nova identidade seja encontrada.

De fato, mais leve eu já estou ficando... hehe... humor negro de um 'old bodybuilder' decadente...

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lá se foi mais um

Assisti Jon Lord tocar umas 3 ou 4 vez no Brasil com o Deep Purple, uma delas no Concerto para Grupo e Orquestra.
Tecladista excepcional, compositor e pianista clássico, começou no piano aos 5 anos.



Morreu hoje aos 71 anos, deixando 2 filhos de 2 casamentos e uma legião de fãs e admiradores pelo mundo todo.

Cada vez menos há gente boa no mundo...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Fé. Sempre fé.

Ultimamente perdi a fé na amizade.

As pessoas no fundo parecem que tem uma convivência social conveniente. No mundo corporativo e virtual isso fica mais evidente. Nem sei mais se existem exceções.
Nossa sociedade monetário-mercantil criou ou tornou essa relação assim doentia.

Se o que nos separa dos demais animais é a razão, nada mais racional (ops!) que tornar as relações ‘convenientes’ mais do que qualquer outro tipo de 'atração'.

O grupo humano é dividido em três grades subespécies, os homo sapiens, os pagodeiros e os sertanejos. O primeiro está em extinção e os demais dizem que são as emoções que nos tornam humanos.
Uma grande bobagem.

Nossas emoções são bastante primitivas assim como nos nossos outros 'primos complexos'. In natura poderíamos dizer que existem o medo, a raiva e a empatia. Apenas criamos recentemente essas bobagens como amor, paixão, felicidades e tristezas viscerais.

Na realidade (ou algo que interpretamos assim), a vida é bastante cinza e sem graça. Não que isso seja ruim, as coisas são apenas o que são.

Filmes colorizados também tem esse aspecto fake.

Não sou um existencialista e nem um essencialista, acho essa categorização outro maniqueísmo idiota.

Somos uma mistura dos dois em infinitas proporções individuais.

Somos um universo chamado ‘corpo’, onde vários sistemas atuam completamente à margem do que você imaginaria chamar de “eu”. E nem se pode afirmar o quanto o “eu quero fazer isso” é biológico, cultural ou manipulado por uma torrente de impulsos elétricos e químicos provenientes de algum desses subsistemas completamente alheios ao nosso controle.

Talvez por isso não chegue a achar deprimente essa volatilidade da amizade.

No fim, como ter a pretensão de querer direcionar a Via Láctea?

Somos todos psicopatas travestidos de personagens de novelas mexicanas (não sei por que se fala em nossos primos latinos se as nossas novelas são ‘mais mexicanas’ que as deles?!).

Sinto muito, mas olhar pra alguém e “cair de paixão” é tão real quanto os elfos do Senhor dos Anéis.

É tão real quanto cair em tristeza profunda pelo filho do Leonardo (da dupla... umas das 193 mil). Se Deus existisse eu diria que ele às vezes tem uns ataques de bom gosto. Quem sabe o moço se salva mas fica mudo...

Mas é isso aí, mude de trabalho ou residência e veja as paixões se esmaecerem aos poucos. Sem problemas, é o rumo caótico do universo.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O inferno é mais em baixo... ou mais em frente

Por fim tudo passou. Ou quase.

Passei por mais um aniversário vivo, essa data horrível que me lembra da decreptude imposta pelo tempo.

Junto com o fim do ano (quer época mais deprimente?) e o início do ano cuja morte do meu pai me assobra (bem captado pela 'patroinha'), atravesso a época mais detestável do ano.

Ainda não cheguei lá, vivo o limbo dos 40, mas não tenho essas babaquices da melhor idade e dos animados jogos de bocha, ou ainda, dos velhinhos radicais que vão saltar em tandem de paraquedas (já fiz isso solo mais de uma vez).

O corpo desmancha e o cérebro se petrifica.
Nada a ver com a aparência, isso não me importa, e ainda por cima a genética me foi generosa.

Quanta bobagem dizer quem a "experiência" e a maturidade vem com a idade, confundir o inevitável acúmulo de conhecimento da passagem do tempo com alguma espécie de vantagem da velhice.

Dizer que a "outra alternativa" é pior ou então "porque não se mata?" é ainda mais ridículo.
Se a não vida é uma não existência, não há "outra alternativa". A vida em si é uma ditadura.

Quase não há (aliás, no momento não lembro de nenhum - deve ser a velhice) grande insights feitos depois dos 50.

Uma das maiores (talvez a maior) mente humana simplesmente enrijeceu com a idade. Einstein uniu de maneira coerente e sólida o tempo e o espaço e também a matéria e energia. Dois pares que sempre andaram completamente separados no senso comum. 

Já com 'certa idade' e até seu fim, se recusou a aceitar a física quântica, mesmo sendo a sua própria teoria fotoelétrica a 'mãe' da dita cuja.

Não aceito a citação da criação artística mesmo a respeitando e a admirando, pois ela é uma reciclagem pessoal e abstrata de n realidades. Quase uma não criação. Uma crítica a determinado momento histórico-cultural e fim. Não que isso seja pouco, mas não é algo muito evolucionário.

Num mundo recheado de conceitos hipócritas e mercantilistas de "natureza", ecologia e sustentabilidade, afirmar que morrer de velho é "natural" chega a ser absurdo.

Vou vivendo. É o que todos fazem.

Mas não me diga que tem algo de bom e desmilinguir-se com o tempo.

Espero que os neurônios, apesar de carcomidos, preservem a dignidade de reconhecer a hora de jogar a toalha.

terça-feira, 20 de março de 2012

Carta aos jovens amigos

Após divagações sobre música e vida com alguns jovens amigos, disparei meu último email a eles:
 
 
 
Tentando esclarecer algumas “brigas” diversas e possíveis interpretações errôneas sobre minhas posições controversas, e, aproveitando nossas divagações sobre música, gostaria de deixar claro que a obra (especialmente de um Roger Waters por exemplo) de um artista deva ser compreendida muito mais do que simplesmente ‘consumida’.

Como vcs são mais jovens do que eu, e porque terão filhos, deveria ser mais importante ainda, enfatizo a a importância de refletir sobre consumo, trabalho e dinheiro. Indo bem mais fundo do que simplesmente achar que se compra algo porque “gosta” e se “pondera bem sobre o custo/benefício”, que são verdadeiras falácias e desculpas furadas para se integrar a esse modelo sócio-econômico.

 Gostaria que vcs lessem toda a minha mensagem.

Para pensar muito e sem preconceitos e amarras, além de Zeitgeist, sugiro “Da servidão humanatexto e/ou vídeo de Jean-François Brient (gratuito) ou no site.

Posso gerar os DVD’s se quiserem e tiverem coragem e capacidade para refletir.

São a boa síntese do PVL*.

Faz anos que debato isso.
Faz anos que me libertei (quase totalmente) e prefiro ficar à margem (daí vem o termo marginal) desse sistema.
Faz anos que perco amigos para corporações e fictícios modelos de vida.

Não posso fazer nada além de tentar advertir os mais jovens sobre o ‘personagem’ que estão assumindo e a vida única que estarão jogando fora.
Fantasias de paraísos de mil virgens e espíritos não resolverão o amargor de uma não vida, um devaneio dessa ‘matrix’ criado pelo capital.

Corro o risco de parecer pretencioso. Não tem problema, vale a pena por algumas pessoas.

Não existe um “a pessoa é feliz assim”.
O corpo cobrará (hipertensão, tumores, gastrite, obsesidade, síndromes metabólicas, etc).
A mente cobrará (ansiedade, depressão, síndrome do pânico, etc – as pandemias modernas).
E essa casca do que você imagina ser você não suportará.

Na face dessas pessoas, num momento de relaxamento e “baixa de guarda”, se estampa essa amargura, a despeito de todo o marketing do “eu sou feliz”.

Alguns são escravos a vida toda, dissolvidos nessa ‘pasta social’, com suas ‘fotinhos de família feliz na Disney’ e trabalhadores ‘bem sucedidos’.
Outros poucos acordarão quando já é tarde, ao fim de uma vida que é curtíssima.
Menos ainda serão os que conseguirão observar o rídiculo e patético teatro que não são obrigados a participar.

Vocês são jovens, recém chegados ao mercado de consumo, emergentes.
É compreensível que sintam ‘orgulhosos’ e encantados por esse novo ‘poder’ que o capital parece conceder.
Mas a grande questão será SE e QUANDO descobrirão que esse suposto poder é na verdade escravidão.

Alguns perceberam que não quero mais conviver com as pessoas.
É fato.

Prefiro a amizade eterna na lembrança de alguém por quem eu nutria afeto e respeito do que a decepção e o desagrado de conviver com ‘bonecos de arlequim’ que nada mais sabem sobre si mesmos.

Minha dureza com alguns é o desespero de quem sabe que pode perder mais amigos, pois não se é duro com quem ignoramos ou somos indiferentes.
Essas perdas são verdadeiras mortes. Vivo um luto cada vez que isso ocorre.
Aquela pessoa interessante deixou de existir.

Agora existe apenas uma “coisa” travestida daquele ser humano que você conhecia.

Parafraseando Jean-François Brient, que sintetizou algumas sensações minhas:

“Meu otimismo está baseado na certeza que esta civilização vai desmoronar.
Meu pessimismo em tudo aquilo que ela faz para arrastar-nos em sua queda.”



*Nota: PVL = Projeto Vida Longa, grupo antigo mas dinâmico de amigos.