domingo, 26 de abril de 2015

Representatividade e alternativas de vida - Parte I

Há poucos dias resolvi ir a uma sessão de votação na câmara de vereadores aqui da minha cidade.
Como sempre morei em grandes cidades e estive imerso em sua realidade (uma delas é usar o próprio sistema para se desculpar pela falta de "tempo"), nunca fui a nenhuma. Como queria de fato essa vivência sem viés, resolvi ir a uma dessas sessões.

Era a votação de um relatório dos transportes públicos no município.
Depois de muito blablabla na "casa do povo", um dos membros da mesa lê o relatório inteiro da reunião entre vereadores e proprietários das empresas de transporte público e no fim, resumindo, ele conclui (literalmente, não é nada eufemístico ou subentendido) que houveram umas 5 ou 6 infrações graves às leis da administração pública passiveis de cassação do mandato.

Não há cochichos ou reuniões secretas em gabinetes, colocado em votação, dos 13 vereadores, simplesmente 8 se abstém (obviamente por motivos escusos), 2 se ausentam (também por motivos escusos) e apenas 3 votam a favor, sendo que esses, juntamente com a população presente, ficam esbravejando e falando com as paredes.

Por fim, depois de cortes "democráticos" de microfone, o presidente da mesa lê que "aqui na casa do povo" fica decidido que o relatório deve ser arquivado.




Evidentemente o processo histórico no qual resulta essa falta de representatividade pode ser estudado até de maneira bastante acessível.
Saber que a população (em especial a classe média) é de uma tosquice intelectual e duma mesquinharia atróz também é facilmente demonstrável.

Mas o que me cabe fazer?
Minha militância se foi faz anos, mas meu estarrecimento com essas "espécies" (o povo mesquinho e ignorante e seus representantes) me incomoda brutalmente.
Se a representatividade é nula, e na maior parte das vezes o objetivo é tortuoso ou até nefasto, protestar para que?

Não sendo um burrico que corre atrás da cenoura e valorizando meu pouco tempo de vida (temos todos pouco tempo), me integrar ao sistema medíocre e surreal do trabalho e acúmulo já foi coisa que deixei para trás, então aonde eu me encaixo?

Bem, como eu já disse, minha primeira providência foi abandonar os grandes centros urbanos e largar o processo empreendedor e acumulativo.
Claro, a ideologia é poderosa. As culpas e os medos que ela nos inflige é um fantasma que tenho que conviver, o que não tolero são desculpas e hipocrisias para justificarem as escolhas.

Até entre meus amigos classe média virei uma espécie de lenda (um estúpido para alguns, um visionário ou apenas um desequilibrado para outros). Errado ou certo são conceitos morais descabidos na discussão, mas ser um "outro caminho" é uma felicidade que carrego comigo, afinal, para a mediocridade não existe caminhos alternativos.

Fazer um downsizing (usando um termo tipicamente corporativo) da vida é um processo desafiador.
E agora, já num patamar intermediário venho estudando faz algum tempo as eco vilas e comunidades sustentáveis.

No próximo post vou detalhar algumas conclusões...




quarta-feira, 1 de abril de 2015

Extirpando o lugar comum

Os três últimos livros que li foram excepcionais.
Tem os componentes que eu amo, ou seja, os tornam uma boa ferramenta para o desenvolvimento intelectual e os dão credibilidade: são multidisciplinares, utilizam sólida pesquisa e portanto tem extensa bibliografia e, claro, são muito bem escritos e desprezam qualquer explicação simplória e reducionista.

O primeiro foi o do Marcelo Gleiser, "A Ilha do Conhecimento". Dos três o mais fraco. Apesar de ser a área que adoro, a Física, e talvez também por isso, ou seja, já ter lido bastante e estudado sobre o assunto, é que achei que faltou aprofundamento em alguns tópicos que ele estava a propor.
Extenso demais na "revisão" da astronomia e da base da física quântica, acabou pecando por explorar menos a formação da consciência e do conhecimento que era o alvo da obra.
Mas como a física sempre me manteve atento aos limites do senso comum e está aberta (como toda boa ciência) a novas perspectivas sem perder o ceticismo (já dizia o grande Carl Sagan: a pior falha da humanidade é a fé, a maior virtude é a dúvida) seus grandes autores são sempre bem vindos.

O segundo foi o "Demônio da Meia Noite" de Andrew Solomon, um tratado espetacular sobre a depressão que vai muito além do que se espera. Utilizando-se de conhecimentos e pesquisas tanto da psicologia, psiquiatria e neurobiologia, Solomon debulha a mente humana vasculhando as origens (tanto históricas quanto biológicas) da depressão, as contribuições das condições sociais, econômicas e políticas, os tratamentos convencionais e alternativos, as ramificações e questões dos sem teto, violência, suicídio, etc.
Apesar do tema foco, vale muito a pena para todos que gostam de estudar o comportamento humano e a consciência (essa misteriosa entidade cuja fronteira do físico e do metafísico nunca foi bem desvendada), além de derrubar uma série de mitos a respeito da depressão, ansiedade e suicídio.

O terceiro (sobre o qual já postei) foi o "Capital no Século XXI" de Thomas Piketty, um jovem, premiado e conceituado economista francês.
Economia nunca foi algo que me atraiu, muito pela pobreza dos economistas tecnicistas que esquecem que a economia é uma ciência humana e portanto, tratá-la de modo isolado da sociedade e da história faz com que suas obras percam grande parte do sentido.

Resolvi estudar porque somos continuamente bombardeados por manchetes e informações "recortadas" de termos econômicos que achamos serem bons ou ruins, mas que no fim não compreendemos seu significado, fazendo com que assumamos um discurso que não é nosso e muitas vezes nos é prejudicial.

Estou ainda na fase da economia, onde li Stiglitz (Nobel em 2001 - na verdade achei um pouco tedioso, apesar de muito bom, seu "The Price of Inequality"), Krugman (Nobel em 2008 - apenas alguns artigos) e agora comprei dois do Amartya San (economista indiano e Nobel em 1999).
Como tenho pouca referência em economia (meus amigos mais próximos são filósofos, físicos e engenheiros), fui estudar a lista dos laureados pela academia para buscar livros.
Curiosamente, mas não por acaso, notei que a academia mistura a premiação entre " economistas sociais" (os que não esquecem que a economia é uma ciência humana) e os tecnicistas (os economistas reducionistas que se atém à teoria econômica como se ela fosse algo que devesse privilegiar números e não pessoas).

Para mim nada pode se afastar das pessoas. 
A própria Física é mais emocionante do que se pensa e conecta mais as pessoas e o universo do que qualquer religião, pois longe dos dogmas e crendices, nos conecta a um universo como ele é e não como gostaríamos que fosse, ainda que, como lembra Gleiser, esse "é" é uma aproximação sujeita a melhorias e de acordo com a nossa interpretação.

Dito isso, minhas escolhas para estudo da economia são de autores que contemplem a economia inserida num contexto sócio cultural.

Citei esse "apanhado" de informação para ilustrar a importância de estudarmos TUDO mais profundamente, de modo a não cair (ou ao menos tentar) nas soluções simplistas e "manchetes", muitas vezes colocadas de modo tendencioso ou simplesmente incompetente. Veja, a versão de lê-las nas vitrines das bancas e de ler as "orelhas" de livros foram substituídas pelo Google, Wikipedia e afins

Vamos observar alguns discursos simplórios comuns:

  •  "O dólar subiu" como algo ruim. Por que? O equilíbrio entre os gastos com insumos balizados pelo dólar, a queda dos preços dos produtos nacionais no mercado externo (aumento das exportações) e o aumento de gastos de estrangeiros no país são de uma dinâmica grande para simplesmente se colocar esse fato como ruim. Apenas para pontuar, a China, a economia que mais cresce no mundo nos últimos anos continuamente opera com grande desvalorização de sua moeda.
  • "O PIB só cresceu x%" como algo ruim. Por que? O PIB em valores absolutos (e mesmo seu melhor substituto que é em dólar de paridade de compra) não reflete a condição social. O PIB do Japão esta negativo pelo segundo ano seguido, o da Dinamarca foi negativo também, assim como o dos países baixos que vem capengando desde 2008, e tem muito mais dentro dos países top no ranking do IDH, portanto, cuidado com as "leituras jornalísticas" de índices econômicos e também dos discursos de economistas tecnicistas, pois para um matemático que esquece do mundo humano, um monte de bilhões é bom/eficiente quando acrescido de outros montes independente de para quem ou qual seu objetivo.
  • "A economia cresceu apenas 1%". "Apenas" por que? Com matemática financeira básica descobrimos que esses "módicos 1%" correspondem a mais de 30% em uma geração (em torno de 30 anos) o que é muito! Sem avaliar como o crescimento demográfico e as tecnologias impactam nessas estatísticas o "muito" ou "pouco" passa a ser completamente arbitrário e analisando a médio prazo, nota-se que crescimentos maiores são insustentáveis (Piketty 2014)!
  • "O crescimento econômico leva automaticamente à melhoria da população". Por que? Mágica? Essa é a maior falácia do discurso tecno-economico! Não existe, eu repito, não existe qualquer fonte histórica que demonstre isso! As melhorias na distribuição de renda SEMPRE dependeram de intervenções políticas não apenas na democratização do conhecimento como em políticas fiscais agressivas. Apenas para pontuar: a classe média patrimonial surgiu na metade do século XX graças a várias intervenções políticas do estado, principalmente no modelo tributário progressivo, ou seja, o discurso meritocrático fazia (ainda que pouco) sentido há 50 anos atrás! Os EUA hoje (devido às constantes políticas neoliberais a partir do anos 80 que incluem redução tributária constante) tem a mesma mobilidade social da África subsaariana.
  • "Imposto é ruim". Por que satanizamos os impostos? Nunca assuma esse discurso tão simplório pois ele só interessa a quem detém a maior parte das riquezas. Impostos não são absolutamente bons ou ruins, porém, bem escalonados são a ÚNICA forma de redistribuir riquezas. Todas as séries históricas demonstram isso. EUA e Grã Bretanha chegaram a taxar em até 98% as grandes fortunas. A França em até 70%. E ainda hoje existem os chamados impostos solidariedade inclusive de caráter expropriatório nos principais países capitalistas. A própria tributação de heranças (ainda que alguns digam que tem pouco impacto na arrecadação) é importante a longo prazo e NUNCA desestimulou a aquisição de bens.
  • "Programas de renda mínima acomodam a população". Quem disse? Isso é completamente absurdo entre os estudiosos. A Europa já aprovou um estatuto e agora estuda a operacionalização do mesmo em seus países e os EUA já buscam soluções semelhantes.
  • "Lutar contra o neoliberalismo e o estado mínimo é coisa de comunista!". Essa é a mais patética de todas e se não fosse trágico seria cômico. Os principais economistas (CAPITALISTAS!) da atualidade como Stiglitz, Krugman, Piketty e Sen lutam contra o estado mínimo e defendem (demonstrando brilhantemente) o retorno da moralidade ao capitalismo (como interpreta bem, por exemplo, Yvone Roberts do The Guardian) afirmando ipsis litteris que isso é impossível com o liberalismo a la Friedman.
  • "Se já dirige o vota com 16 tem que ir pra cadeia também!". Pra não ficarmos só na economia temos essa tosquice da atualidade. Vários países do mundo que adotaram essa prática estão revendo suas posições e fora vários outros argumentos, ficarei apenas no básico: sem rapidez e transparência no judiciário, educação e o retorno da meritocracia à economia, não solucionaremos nada com leis, ademais, elas já existem em abundância. Para exemplificar, tomamos o estatuto dos crimes hediondos de 1990 que "iria resolver ou amedrontar" possíveis praticantes. Resultado: a taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes mais do que duplicou.

Enfim, o que quis apresentar, e é o que a ciência nos ensina, não é essa ou aquela "verdade", mas sim, que muitas vezes adotamos um discurso de outros com interesses escusos que muitas vezes nos causam mal e, acima de tudo, nos faz  passar por tolos que emitem opiniões sem o menor embasamento.

Toda leitura de qualidade é válida, mas em tempos de turbulência econômica e social, estudar economia é uma boa forma de ficar atento a determinados discursos prontos e manchetes simplórias que na maioria das vezes nos afastam da raiz dos problemas e portanto de soluções efetivas.

Vamos queimar os discursos simplistas!!!

sábado, 28 de março de 2015

Leds no fim do túnel

Empreendedorismo de esquerda?
Sim por que não.
Defender a democracia total (não a farsa democrática atual), melhor distribuição de renda, justiça social e serviços públicos com alto grau de eficiência administrativa não é incompatível com o empreendedorismo, muito pelo contrário.

O empreendedorismo ético pode ter como objetivo o ganho financeiro, porém não só isso e nem a qualquer custo, afinal, nunca poderemos nos considerar 'vencedores' se entramos numa luta injusta, fazendo uso de ferramentas no mínimo discutíveis e mergulhados numa sociedade em ruínas.
 
Acho que sempre fui um empreendedor. 
Aos 10 anos fazia "gelinhos" pra conseguir uns trocados pra comprar minhas linhas de pipa e revistas de eletrônica. Quando se é arrimo de família cedo (6 anos) em família pobre, a primeira coisa que se aprende é não pedir nada, pois além da frustração, o pior é deixar a sua mãe em frangalhos por não poder lhe proporcionar algo.

(Paragráfo TDAH: as feministas dizem que os homens são seus "inimigos" pois não sabem o que se passa realmente com elas. Concordo em parte, pois as mulheres (e nem outros homens) não sabem o que é ser arrimo de família muito cedo numa família pobre.)

Estudando eletrônica conseguia consertar toca-fitas e congêneres daqui ou dali pra fazer umas moedas que financiavam alguns "luxos" e mais revistas e componentes eletrônicos.

Com 19 anos escrevi meu primeiro livro e com 27 abri oficialmente minha primeira empresa.
Nunca perdi meus ideais de justiça social, portanto, nunca tive discursos toscos do tipo "eu se fiz por si pÓprio" - assim errado mesmo.

Mesmo não tendo nenhuma herança ou auxílio financeiro, eu tive uma herança social (educação, valores, mínima estabilidade emocional, etc) e sou homem, branco, alto, atlético e descendente de europeus, e isso, por si só, já é uma plataforma adicional.

Se é fato comprovado que, por exemplo, mulheres tem menos oportunidades e ganham menos na mesma função que homens, negros ganham menos nas mesmas funções que brancos, homossexuais tem sua vida íntima levada em consideração num emprego ou num negócio e pessoas gordas sofrem discriminação para conseguir uma vaga de trabalho, é fácil ver que não existe oportunidades iguais, a não ser, claro, que você acredite em papai noel.

Isso sem contar as próprias condições macroeconômicas que favorecem a quem já atingiu o ponto crítico onde o capital financeiro começa a se multiplicar por si só: conseguem rendimentos melhores, taxas menores, mais crédito, praticam trust descaradamente, etc.


Quando converso com amigos classe média eu sempre bato na tecla que meritocracia é uma piada, mas isso não tira méritos individuais de ninguém, porém, impede qualquer discurso de "vitória" e "superioridade", pois seria como cruzar uma linha de chegada numa prova de 100 metros recheado de esteroides.

Estando no mundo dos negócios, minha utopia definitivamente foi por água abaixo.
Distribuidores que fecham as portas deliberadamente deixando seus funcionários na mão (o conhecido double F - fecha e foge), discussões entre concorrentes para estabelecer certas  "metas de sonegação" (divirtam-se com o escândalo do HSBC), prática deliberada de lucros abusivos, e toda a sorte de práticas nada éticas em prol do lucro.

A título de exemplo, numa determinada área de negócios que não posso mencionar, eu presenciei os 4 maiores distribuidores combinando quais os percentuais do faturamento seriam "especiais" (sem nota fiscal).

Não acho possível para qualquer pessoa como mínimo de ética conviver num mundo desses.
E caso opte por ficar você será esmagado pois não há como concorrer quando você acha que não deve sonegar impostos, não deve combinar preços finais, não acha correto a prática de lucros abusivos e não acha decente pagar aos seus funcionários "o que o mercado paga" (desculpa de explorador).

A discussão de novas práticas políticas e econômicas são essenciais, e evidentemente parte de uma discussão maior sobre os valores sociais, mas por incrível que pareça, é um começo mais "fácil".

Em época tão turbulenta e com perspectivas de piora, aparece uma boa oportunidade para mudarmos esse paradigma desumano, começando por uma reforma política real, uma real transparência no judiciário, práticas comerciais éticas e muita, mas muita educação.

Isso seria um bom começo.







sexta-feira, 13 de março de 2015

O "crítico" de Piketty

Eu já escrevi sobre como a ignorância é atrevida (o grande Dráusio Varella é mais enfático, "passei da idade de me surpreender com a estupidez humana") e realmente eu não me surpreendo mais com isso. Sempre tem algo ainda mais impressionante, porém não mais uma surpresa.

Em uma discussão num fórum qualquer, um sujeito disse que o livro do Piketty ("O Capital no século XXI") era uma porcaria e que muita gente qualificada desmerecia o livro. Para coroar ele disse que Piketty era um comunista (?!) e blá, bla, blá...

Pedi que ele me mandasse referências às críticas a Piketty, pois acho importante avaliar todos os lados.
O sujeito disse que "era muita fácil de encontrar" bastava eu procurar a crítica de um Nobel recente.

Como esse tipo de gente se informa por orelhas de livros e resenhas tendenciosas (no popular "ouvi o passarinho cantar e não sabe onde"), fui atrás.

Supus se tratar de Joseph Stiglitz.
Primeiro devemos lembrar que "crítica" é uma análise e não um desmerecimento à obra como um todo, posto isso, comprei o livro "O preço da desigualdade" de Stiglitz e li sua "crítica" a Piketty.

Resumindo, a crítica que ele faz a Piketty é em relação a algumas análises de dados, nada mais. O que mais chama atenção é que ambos são críticos ferrenhos do neoliberalismo (o que Stiglitz chama de "fundamentalistas de livre mercado) e no fim, defendem a mesma coisa.

Como nos lembra a economista Monica de Bolle, Global Fellow do Woodrow Wilson Center: 

"Não existe contradição entre o que o Stiglitz afirmou e o livro de Piketty.

São perspectivas diferentes para o mesmo problema, não existe contradição. Stiglitz vê a diferença na distribuição de riqueza ligada à abundância de crédito, que possibilita a formação de bolhas. Quando a bolha estoura, uns têm capacidade maior de se defender que outros. Fala da situação dos Estados Unidos e olha principalmente os anos mais recentes, desde a crise de 2008. Isso não é inconsistente com a teoria de Piketty."

O mais absurdo do atrevimento da ignorância é que o sujeito veio me "jogar na cara" algo que corroborava minha argumentação e a da Piketty!!!

Como minha compra (o livro de Stiglitz ainda não chegou), deixo uma pequena resenha de Nuno Ramos de Almeida - Jornal I de Portugal:

"O livro de Stiglitz é uma espécie de relatório de CSI deste processo. O cadáver é a economia do país capitalista mais desenvolvido, os Estados Unidos da América, e a autópsia não é nada simpática: 

“a) O recente crescimento dos rendimentos nos EUA ocorre essencialmente no 1% de topo da distribuição dos rendimentos; 
b) Em resultado disso, verifica-se uma crescente desigualdade; 
c) Os cidadãos da base e da classe média vivem hoje pior do que viviam no início do século; 
d) As desigualdades de riqueza são ainda maiores que as desigualdades de rendimentos; 
e) As desigualdades são evidentes não só nos rendimentos, mas também em muitas outras variáveis que refletem os padrões de vida, como a insegurança e a saúde; 
f) A vida é particularmente difícil para a classe mais baixa e a recessão tornou--a muito pior; 
g) Tem-se verificado um certo esvaziamento da classe média; 
i) Existe pouca mobilidade dos rendimentos – a ideia dos EUA enquanto terra de oportunidades não passa de um mito.” 

Stiglitz mostra com muita clareza que, embora os cidadãos dos EUA acreditem no “sonho americano”, segundo uma sondagem da Pew Foundation, quase sete em cada dez americanos acreditam no seu sucesso econômico. A realidade é que a sociedade norte-americana tem índices de mobilidade social comparáveis com as plutocracias de África. Os ricos serão mais ricos e os pobres ainda mais miseráveis.

Para o Prêmio Nobel da Economia de 2001 esta situação não é inevitável nem decorre da existência de uma entidade, encarada como sobrenatural e imutável, que seriam os mercados. Stigliz demonstra de uma forma muito clara que os mercados resultam de um processo de construção social e devem-se na sua atual configuração a uma relação de forças política que dá excessivo poder aos ricos e desvirtua a democracia. “Os mercados não existem no vácuo. São moldados pelas nossas políticas, muitas vezes de forma a beneficiar os do topo”, observa. Para ele a economia tem de responder aos problemas da totalidade da população. Ela não existe como um jogo virtual que dá prêmios aos do costume, mas como uma atividade que deve servir a humanidade. Deste ponto de vista, as nossas sociedade preparam-se para uma explosão descontrolada quando mantêm milhões de pessoas no desemprego em países em que há necessidades para preencher e trabalho que deveria estar a ser feito. 

Como escreve na abertura do seu prefácio Joseph Stiglitz: “Há momentos na história em que os povos de todo o mundo parecem erguer-se para afirmar que algo está mal. Foi isso que aconteceu nos tumultuosos anos de 1848 e 1968. Cada uma destas datas de convulsão social marcou o início de uma nova era.” Fica o aviso."

segunda-feira, 2 de março de 2015

Economia

Todos deveríamos compreender os mecanismos da economia, afinal ela nos afeta diretamente.

O livro ‘O Capital no século XXI’ de Thomas Piketty é uma excelente fonte.
Primeiramente devo enfatizar que não é um livro anticapitalista (segundo o próprio autor ele está mais do que “vacinado contra discursos retrógrados”), não é atôa que veículos como o The Economist e o The Guardian e até mesmo, pasme, o Bill Gates elogiam enfaticamente o livro.
No campo acadêmico é redundante falar que o livro já é referência, fortemente cotado para o livro de economia da década e quem sabe uma referência do século XXI como foi David Ricardo/Marx no século XIX e Kuznets no século XX.
Algumas coisas que tornam o livro interessantíssimo para todos:
- abordagem multidisciplinar da economia, nunca deixando de lado os rigores científicos mas sem abandonar as ciências humanas (da onde o autor crê que a economia nunca deveria ter saído);
- estudo histórico fantástico, com a inclusão de pesquisas oficiais (World Incomes Databases, registros fiscais e várias outras fontes oficiais) e obras antigas. Uns 20 ou 30 pesquisadores por todo o mundo colaboraram na pesquisa/análise de dados (foram 15 anos pesquisando);
- pouco ou quase nenhum viés ideológico (não existe 100% de imparcialidade em nenhum humano, porém, o importante é manter em sua maioria a integridade das análises);
- excelentes referências bibliograficas;
- ótima escrita (evidentemente devo dar mérito à tradutora também).
Síntese (bem micro mesmo) de alguns pontos:
- na crítica à Marx pode-se pontuar o (possível) erro do desfecho do capitalismo por excesso de influência ideológica e claro a impossibilidade de conhecer os impactos da tecnologia no decorrer do século XX/XXI, porém sem tirar o mérito da obra e sua fabulosa intuição (em 1930 Harrod e Dogmar introduziram uma das leis do capitalismo: g=s/B supondo que a relação captital/renda (B) fosse constante em 5% e, por exemplo, com uma poupaça interna s em 10% o crescimento g seria de 2%, porém estudos posteriores (Solow – 1956) demonstraram que B é variável inclusive pelo crescimento demográfico e portanto, foi aceito que a razão dinâminca de capital/renda corresponderia a B=s/g, onde um crescimento estrutural igual a 0 levaria fatalmente a razão B ao infinito, fazendo com o rendimento do capital (r) se torne cada vez mais proximo de 0 e sua participação - outra lei do capitalismo a = r x B - devore a totalidade da renda nacional – portanto, sem intervenção externa o capitalismo rui pelas suas próprias contradições – lembrando que em ciências sociais, as equações são um modelamento dinâmico aproximado de longo prazo. O crescimento demográfico e de produtividade e a difusão do conhecimento permitiu, por hora, evitar o apocalipse marxista, mas não modificou as estruturas profundas do capital.);
- na crítica a Smith/Kuznets pode-se pontuar as suas falhas na análise reducionista dos dados (ou nenhum dado no caso de Smith) que resultaram na “economia do otimismo” (em oposição a “economia do pessimismo” de Marx/David Ricardo) e na imagem completamente sem sentido, sem evidências e sem ocorrências históricas do “mercado se ajustar sozinho de maneira mágica” (aliás, intuitivamente isso já parece uma barbaridade, mas tem gente que acredita em duendes então...);
- coloca a concentração de renda excessiva como algo que compromete a democracia e abre espaço a regimes totalitários e/ou nacionalistas (vide Hitler, Hugo Chaves, etc) ou a graves convulsões sociais;
- demonstra que os mega salários, ganhos de capital de renda acima de ganhos de capital produtivo e as heranças não somente degradam os valores do mérito como contribuem de maneira decisiva para a concentração de renda (sem grandes demonstrações posso usar a lógica: se os pais tem mérito em construir patrimônio, que mérito tem os filhos em ganhar o mesmo? Soma-se a isso a herança social, ou seja, educação formal e informal e a estabilidade afetiva/emocional que já é por si, uma plataforma a mais sobre quem não as teve);
- derruba de maneira definitiva a idéia de que sem intervenção (excetuando-se os casos de guerras, revoluções e grandes tragédias) a concentração de renda diminua;
- demonstra que somente acesso irrestrito à informação (especialização de mão-de-obra, etc) e a liberdade não são capazes de reduzir significativamente a concentração individual de renda (parece funcionar para as nações como um todo) e sem taxação e outras intervenções políticas esses perfis não são significativamente alterados (curiosidade: o IGF, imposto sobre grandes fortunas ja está na constituição brasileira, faltando apenas sua regulamentação. Uma das tentativas de regulamentá-la foi a do então senador Fernando Henrique Cardoso);
- derruba o mito da estatização ineficiente. Não afirma que é positivo, mas demonstra que não se pode dizer que é negativo. Mostra que na Europa, constantemente houveram ondas de estatizações e privatizações (este sempre a preços inferiores dos de mercado – pagamos sempre a conta), sem necessariamente algo ser absolutamente ruim ou bom (por exemplo: atualmente a Renault continua com 20% estatal, assim como a Volkswagen. Outro exemplo é mostrar que o ativo fixo de uma estatal - por definição - não é contabilizado no PIB e quando a empresa se privatiza ele passa a ser contabilizado, dando falsa melhora no PIB);
- expõe o caso do “capitalismo do Reno” ou o “capitalismo social” (Alemanha) como um caso de estudo, onde as empresas privadas tem ações mais baixas que a média mundial (por causa dos conselhos: trabalhadores, governo e órgãos do meio ambiente tem direito a voto deliberativo mesmo sem ter nenhuma ação) porém tem muita estabilidade e solidez (achei interessantíssimo! Curiosidade: até hoje os alugueis sofrem pesado controle governamental.);
- mostra os erros de se avaliar condições macro economicas pelo PIB (a análise das relações de capital/renda referenciais ao poder de compra local é melhor, apesar de ainda aproximada);
- mostra que os crescimentos da ordem de 1% ou próximos não são ruins (geram mais de 35% em uma geração!) e que os alegados ideais de 3% ou 4% é que são exceções ao longo da história e ainda por cima completamente insustentáveis (exceções como a China tem explicações muito específicas);
- aliás, mostra que controle de capital (como na China e outros países asiáticos) não impacta no crescimento econômico de maneira significativa;
- em vários momentos ele deixa claro que sendo dados oficiais, é muito mais provável que altas rendas estejam subdimensionadas do que as baixas (cita dados preliminares dos paraísos fiscais, portanto,  o escândalo do HSBC são daquelas surpresas que não são supresas);
- conclui que: “A marcha em direção à racionalidade econômica e tecnológica não implica, necessariamente, uma marcha rumo à racionalidade democrática e à meritocracia. A raíz central é simples: a tecnologia, assim como o mercado, não tem limite ou moral... Se desejarmos, de fato, fundar uma ordem social mais justa e racional, baseada na utilidade comum, não basta contar com os caprichos da tecnologia.”
“As distinções sociais só podem se fundamentar na utilidade comum.” –Artigo 1, Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, França, 1789.
O pensamento classe média carece de racionalidade em grande parte causada por duas fontes:
- a primeira pela mesquinharia de achar que vai perder algo;
- a segunda pela inocência de achar que tem algo.
Agora, se passar pela sua cabeça que alguém está defendendo regimes totalitários, socialismo ou qualquer discurso sem pé nem cabeça desse nível esqueça tudo isso. Possivelmente vc se enquadra no parágrafo anterior...


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sabesp, o dogma da iniciativa privada e a lenda da meritocracia

Discutindo sobre a necessidade do domínio do estado sobre os serviços críticos ao ser humano (segurança, educação, saúde e saneamento básico) e seus impactos sobre a atual crise hídrica, fiquei pasmo com a argumentação contrária de meu interlocutor, um grande amigo: de que a corrupção não existe em serviços privados e só é necessário transparência e regulamentação.

Independente do fato de que onde o lucro é o objetivo, o ser humano nunca o será (e pode-se argumentar facilmente sobre isso), o que mais me deixa pasmo é o grau de fé em sua afirmação, portanto, absolutamente distante da lógica.

Quem corrompe?
Estão aí as "Camargo Correas" da vida que não me deixam mentir.
Não há como o corruptor ser menos responsável que o corrupto e adicionalmente a isso, a corrupção exige dinheiro público envolvido e claro, isso diretamente não existirá na iniciativa privada, porém, toda forma de "comissionamento suspeito" e demais formas similares de atividades onde a ética ficou atrás do muro são quase corriqueiras.

Agora adiciona-se a isso, segundo ele mesmo, que a privatização requer transparência e regulamentação, e aí mesmo é que ficamos aparentemente na mesma.

Se negociatas existem em ambos e transparência são necessários em ambos, esses fatores passam a ser irrelevantes na escolha, e o que sobrou foi o básico: se algo visa lucro fica mais caro para uma maioria para enriquecer uma minoria.

O caso da SABESP e a crise hídrica foi apenas um exemplo fácil da onde nos metemos quando deixamos o controle de certas coisas críticas na mão do capital.

Sem grandes teorias, usemos a lógica:

- por que investiria em estrutura para levar água a pequenos consumidores, lembrando que investir é reduzir o lucro dos acionistas e pequenos consumidores são pequenos lucros?
- por que me preocuparia com os desperdícios se a minha matéria-prima é gratuita?
- por que daria grandes descontos aos grandes consumidores em plena estiagem e penalizaria os pequenos consumidores dificultando ilegalmente o acesso a essa lista?

Isso é só pra começar com o básico.

O escândalo do HSBC, o segundo maior banco do mundo, foi a cereja do bolo para demonstrar a eficiência do setor privado em desviar e lavar dinheiro.
Esse escândalo coloca no chinelo qualquer escândalo estatal em qualquer país do mundo (não que eu ache justificável os problemas públicos).

8 mil brasileiros tem essas contas bilionárias na Suíça, a maioria (70%) com numeração sem identificação (por que será não?).

Estudos iniciais indicam que somam 20 bilhões de Reais!

Estimativas otimistas indicam que o Brasil perde 400 bilhões de Reais em sonegação anualmente!

Pois é, a "livre iniciativa" não me parece tão livre assim, e como sempre, para os tubarões, nada limpa.
Se alguns tem tratamento diferenciado, democracia é conversa pra boi dormir.
Se bem que até para os gregos a democracia era para alguns apenas, pois o populos grego era na verdade a sua aristocracia.

Deixo bem claro, como empreendedor que chegou a fazer e vender 'gelinhos' com 10 anos, escreveu seu primeiro livro com 19 e abriu sua primeira empresa com 21, que defendo a liberdade sim, a de verdade e não essa ilusão atual supostamente meritocrática.

Pode-se discutir muito sobre "O Capital no século XXI" de Thomas Piketty, mas negar a totalidade de sua obra beira a insanidade. Uma obra aclamada por laureados por prêmios Nobel e especialistas em várias áreas adjacentes à economia.

Nela, com sólidas pesquisas, (sendo superficial - ainda não acabei de ler o livro) é demonstrado a crescente curva da acumulação de riquezas na mão de uma pequena parcela da população (até a ABIMAQ já escrevia sobre isso) e como o neoliberalismo (posto a todo vapor com Reagan/Tacher) acentuou essa curva, tornando isso um problema tão grave que o autor (e outros) afirma ser uma das mais graves ameaças à democracia no mundo.

É aí que entra o Estado forte (nada a ver com totalitário), aquele que atua na real acepção da palavra, ou seja, garantindo a segurança da coletividade, a real liberdade às iniciativas pessoais e protegendo o trabalho e a produção dos dentes do capital exploratório.

É função do Estado fazer com que os ganhos de capital (a multiplicação sem sentido e sem lastro) sejam controlados e que os grandes acúmulos sejam novamente distribuídos (não existe outra forma além das taxações).

Sobre taxação, um outro amigo disse "que não se pode punir os ricos e sim dar condições aos pobres". Divertido não?!
Se riqueza não se cria (é como energia) não há como dar acesso a nada pois quase tudo já tem dono (obtido e mantido de maneira discutível), fora isso, o que a de meritocrático em deixar patrimônio para descendentes e manter fortunas que nem em 10 vidas alguém conseguiria gastar?!

Não é só uma argumentação irracional como é uma defesa de algo vil!

Piketty afirma que atualmente vivemos numa sociedade tão aristocrática quanto há séculos atrás, já que, grosseiramente, os bens familiares são acumulados, mantidos e usados como ferramenta de poder e de ascensão a mais bens.

Também demonstra a insustentabilidade (isso não é novidade, vide Marx - e pelo amor de Deus, leia Marx como um filósofo/sociólogo! Esqueça comunismo ou outros "ismos"!) de um sistema onde os ganhos de capital superam o de produção.

Mais uma vez deve ficar claro que Estado forte não é totalitário, mas sim livre do controle do capital como ocorre hoje, onde mais do que controle, o Estado virou o privado.

O Estado forte garante a distribuição de renda, taxando grandes fortunas, ganhos de capital e heranças (uma coisa nojenta que na minha opinião sequer deveria existir), fomentando a produção com crédito justo e democrático, estimulando a prática ética do trabalho e controlando diretamente o que é essencial ao ser humano como segurança, educação, saúde, energia e saneamento básico.

Veja o exemplo da saúde universalizada (pública) do Canadá, de Cuba (ops, é pecado falar qualquer coisa boa de Cuba) ou da Inglaterra.


Meus amigos classe média sofrem de uma miopia típica, uma mistura de mesquinharia e inocência.
A mesquinharia de achar que vão perder algo que não querem abrir mão de jeito nenhum e a inocência de achar que estão entre os 1% que concentram a maior parte das riquezas.

Infelizmente as pessoas confundem alhos com bugalhos.
Falar mal do neoliberalismo virou pecado, e sabe-se lá o que se passa nessas cabecinhas, sinônimo de comunismo...
Dizer que a meritocracia é inexistente ofende a maioria que acha que medíocres ações individuais (não é uma afirmativa ofensiva e sim no sentido do individual para o coletivo) podem ser estendidas a uma sociedade inteira no modelo que ela se apresenta atualmente...







Algumas referências para um assunto específico:


Imposto sobre grandes fortunas: a difícil tarefa do Congresso
Imposto sobre grandes fortunas: por que criar?

Imposto sobre Grandes Fortunas: se não agora... quando?



Notem que os pouco argumentos contrários aos impostos às grandes fortunas e patrimônios são o desestímulo à aquisição e a evasão de divisas. Outros problemas jurídicos são de fácil contorno. 
Desestímulo à aquisição não é problema e sim solução. Se as riquezeas não girarem não servem para nada a não ser seu próprio acumulador.
Evasão de divisas é balela pois outros impostos incidirão sobre esta operação e não a nada que um acumulador mais odeia que ficar longe dos seus tostões, fora isso, até nos EUA, berço do neoliberalismo, quando houve esse tipo de tributação (mesmo que com outro nome como é o caso da França atualmente), isso não ocorreu e houve decréscimo na taxa de concentração de renda.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

I Am - mais um documentário que vale a pena

"Do diretor de "O Mentiroso", "O Professor Aloprado", "O Todo-poderoso" e "Ace Ventura: Um Detetive Diferente", chega um surpreendentemente poderoso e inspirador filme. I AM é a história de Tom Shadyac, um diretor de sucesso em Hollywood, que após um perigoso ferimento na cabeça e experimenta uma jornada para tentar descobrir e responder duas questões bem básicas: "O que está errado no mundo?" e "Que podemos fazer sobre isso?" Com uma equipe de quatro pessoas, Tom visita algumas das grandes mentes dos dias de hoje, incluindo escritores, poetas, professores líderes religiosos e cientistas (Howard Zinn, Lynn McTaggart, Desmond Tutu, Thom Harmann, Coleman Barks), buscando descobrir o fundamental problema endêmico que causa todos os outros problemas, refletindo simultaneamente em suas próprias escolhas de excesso, ambição e possível cura. E se a solução para os problemas do mundo estivesse bem na nossa frente o tempo todo?"