segunda-feira, 11 de março de 2013

A vingaça dos velhos headbangers - Lado B

Meu post anterior me fez pensar mais sobre o fato de termos (os velhos headbangers) virado um clássico.
O rock'n roll surgiu nos anos 50 como evolução (leia-se adaptação/reação a um momento histórico) do blues e foi também o nascimento de uma ruptura, onde "a música dos filhos é uma e a dos pais é outra".

A longevidade e a qualidade do Metal curiosamente trouxe o rock de volta a toda família. Como disse Alice Cooper, um dos precursores do Shock Metal, "agora eu sou um entreteinimento familiar e os avós vem com os netos nos meus shows".

Por que viramos um clássico?
Bom, não tenho a pretensão de fazer um tratado histórico-cultural acadêmico sobre o tema, mas resumir a evolução dessa música e trazer alguns elementos que a fizeram perdurar décadas e a forjar (bom termo pro assunto! rs) seu lugar na história da boa música.

Os principais pais do rock são Chuck Berry, Bo Diddley e Little Richard, tendo os expoentes brancos muito mais papel na sua divulgação/propagação do que propriamente na música (o nascimento em si, não negando contribuições musicais importantes), cito principalmente Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Buddy Holly e Roy Orbison.

Sua evolução notadamente originada do rhythm and blues (lembrando que o termo R&B norte americano designa algo diferente do R&B britânico) a torna uma música de origem negra (usem a palavra politicamente correta que quiserem), ou seja, uma black music.
Segundo o próprio Little Richard, basicamente adicionou-se o boogie-woogie ao blues. 
Ray Manzarek (The Doors) diz: "Se não fossem os negros norte-americanos estaríamos fazendo minueto e dançando na ponta dos dedos".

A distorção nas guitarras apareceu com Jeckie Brenston and the Delta Cats, quando o produtor San Philips decidiu usar o som de um alto-falante rachado durante a gravação no amplificador da guitarra, em Memphis, Tennessee, 1951.
Em Londres na década de 60, quando altos volumes (e aí devemos citar Jim Marshall, fundador da Marshall Amplifiers), a distorção e os demais elementos do rock'n roll foram misturados e 'acelerados', assim como influências diretas do blues e do jazz foram integrados criou-se o hard rock, onde destaco The Kinks, The Who e claro, a "Santíssima Trindade do Rock": Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath.

Enquanto isso nos EUA, Jimmy Hendrix levou a guitarra a caminhos nunca trilhados e expandiu o horizonte musical desse instrumento, sendo que o mesmo foi levado a incríveis velocidades através, principalmente, de Dick Dale, da surf music.
O garage rock americano contribui com a expontaniedade e a agressividade bad boy, onde destaco Ted Nuggent, Steppenwolf, MC5 e Blue Cheer. 

Em 70, as tours, que começaram por absoluta falta de dinheiro pra gravar um disco, não aceitação das gravadoras e (in)visibilidade nas rádios, ficaram famosas com o Kiss. Porém, no fim dessa década a (porcaria da) música disco invadiu os EUA e quase arruinou com o rock de lá.

O Big Rock (definição dos próprios) do Van Halen apareceu ainda na década de 70 pra resistir ao disco no EUA.

Voltando ao outro lado do Atlântico, em 70 o R&B e o Hard Rock britânico estavam em alta e sem dúvida, a "Santíssima Trindade do Rock", em especial o Black Sabbath, "pariram" o Heavy Metal.

O Led Zeppelin era a banda de R&B mais "pesada", com a guitarra distorcida de Jimmy Page, o front man estiloso Robert Plant e seus fortes elementos de blues e folk.
O Deep Purple trouxe grande qualidade musical com os riffs lendários de Ritchie Blackmore, a bateria pesada e rápida de Ian Pace e claro, a erudita influência dos teclados de Jon Lord, associados aos grandes letristas Ian Gillan e Roger Glover.

Mas foi o Black Sabbath, com os tons jazzísticos de Geezer Buttler e  Bill Ward, o vocal perturbado de Ozzy Osbourne, as experimentações clássicas da pesada guitarra de Tonny Iommi (a clássica música "Black Sabbath" foi inspirada em Mars, de Gustav Holst), o tom sinistro e o visual sombrio, que foi o pai, ou pelo menos o padrinho do heavy metal.
O ambiente sombrio, opressor e pobre de Birmingham foi o berço e evidentemente a influência do que alguns chamam, indo além da paternidade, de a primeira banda de heavy metal do mundo.

Rainbow, ACDC, Rush, Van Halen e várias outras bandas firmariam o heavy metal como estilo musical, mas foi o Judas Priest que consolidou o que seria o heavy metal moderno, com as roupas de couro preta, o abandono definitivo do blues de 12 compassos e usando 2 guitarristas em perfeita simbiose.

Depois da onda punk no final da década de 70 atrapalhar o metal (o punk sempre foi mais um movimento social do que propriamente um estilo musical, sendo que os próprios punks assumem que os 'metaleiros' é que faziam música), uma nova geração de metaleiros estourou no mundo todo no início dos anos 80, fazendo com que o heavy metal virasse um fenômeno mundial, sendo essa onda conhecida como "New Wave of British Heavy Metal", destacando-se aí o Iron Maiden (acredito eu, a maior banda de heavy metal do mundo. up the irons!*), Saxon, Motorhead e Def Leppard.

Até hoje com alguns pequenos sustos - porcarias mesmo - como o Glam Metal (ainda nos 80) e a maior parte do Nu Metal (talvez Sepultura seja a única coisa a ser mencionada) e do Grunge, o heavy metal e suas vertentes se estabeleceram como uma forma clássica de música e até mesmo, como movimento cultural e social.

Não entendeu ainda?
Vá ouvir com paciência até aprender.

Se você perceber o virtuosismo de Niccolo Paganini em Eddie Van Halen (Van Halen) e Yngie Malmsteen por exemplo, não é mera coincidência.

Se você notar a teatralidade e o alcance vocal do Pavarotti em Rob Halford (Judas Priest), Bruce Dickinson (Iron Maiden) e Geoff Tate (ex-Queensryche) por exemplo, não é mera coincidência.

Se você achar Richard Wagner ou Gustav Holst em Black Sabbath, não é mera coincidência.

Se você viajar para a idade média com Ritchie Blackmore (Rainbow) por exemplo, não é mera coincidência.

Se você sentir Howlin' Wolf em James Hattfield (Metallica) não é mera coincidência.

Se você ouvir Robert Johnson em Led Zeppelin por exemplo, não é mera coincidência.

Se você for atingido por Buddy Rich através de Dave Lombardo (ex-Slayer) por exemplo, não é mera coincidência.

Se você tiver alguma alucinação visual com uma ópera ao ouvir Pink Floyd ou Rush por exemplo, não é mera coincidência.

Esses assuntos mereceriam livros. Muita coisa boa foi omitida.
Quis apenas desenrolar um pouco do porque fomos "acusados" de sermos velhos patéticos ouvindo música clássica.




 *up the irons é uma expressão usada pelos fãs e admiradores do Maiden. Uma espécie de grito de guerra, um trocadilho com a tradução da expressão ao pé da letra, o estilo musical e claro, o nome da banda.

sábado, 2 de março de 2013

A vingaça dos velhos headbangers

Há uns dias atrás junto com um velho amigo, relembrava nossa juventude nos anos 80, quando descobrimos o heavy metal.
Era 1983, 12 para 13 anos, quando ele chega com um EP (é um LP pequeno com menos músicas) desconcertantemente agressivo para a época, o Maden Japan do Iron Maiden.
As coisas chegavam por aqui com um ou dois anos de atraso mas fomos arrebatados pela música, estilo e claro, nessa mistura, o contestador e anárquico conteúdo.

Logo depois ele apareceu com o Piece of Mind, também do Iron Maiden, quando juntamos com o British Steel do Judas Priest de outro amigo, o Gratest Hits do Queen (ok, não é metal, mas como diz a música, "os metaleiros também amam" - e como podemos ver, tem senso de humor - além disso fazem parte da pré-história do metal) e o Crusader de Saxon meus e por fim, mas sendo só o começo, o Metal Health do Quiot Riot de um outro.

Devorávamos o que aparecia e juntávamos todas os parcos trocados para correr atrás de material novo e se possível importado (as prensagens de bolachão de rock no Brasil eram bastante precarias).
Iron Maiden, Judas Priest e Saxon foram os detonadores, e apartir daí Whitesnake, Van Halen, AC DC, Twisted Sister, Kiss e por aí vai.

Posteriormente esse caldo nos remeteu às origens e as variantes do bom rock e daí foram lotes de Deep Purple, Led Zeppelin, Black Sabbath, Pink Floyd, Rush, Who, Cream, Secos & Molhados, Jethro Tull, Mutantes, Hendrix, Plebe Rude e zilhões de outras coisas. Claro que jazz e blues mais tarde seriam inevitáveis.

Gravávamos algumas coisas em K7 e levávamos para dentro da sala de aula, mas os "anarquistas" que botavam fogo na lanchonete, roubavam pilhas nos mercados e saiam na porrada de vez em quando, no fim, respeitavam bastante os professores, não matavam os pais e nem uns aos outros.

No fim da história, ou melhor, do início pro meio dela, olhando nossos amigos, fomos nós que os professores e diretores mais gostavam e fomos os que, de um jeito ou de outro, criamos algo diferente do padrão pra vida.

O buraco musical dos anos 90 e início dos anos 2000 pareceu enterrar o heavy metal (glam metal e nu metal foram vertentes bastante amaldiçoadas por nós), mas os quarentões não se rendem tão facilmente e influenciando uma nova geração que não sucumbiu as mediocridades das divas e dos astros mauricinhos, resgataram seus heróis e junto com eles uma nova leva de grupos promissores aparecem nos últimos anos.

Como lembra o antropólogo Sam Dunn, a cultura heavy metal continua sendo a cultura dos excluídos.

Outro velho amigo brincou dizendo que somos velhos patéticos ouvindo música clássica.
De fato, nossos ídolos passaram para o "clássico", mas como não deixar de comparar duas ou três gerações que contestavam uma série de coisas para outras cujo máximo da rebeldia é comprar ipod's, usar anel de compromisso e fazer promessas de casamentos puros (sim, virgens!)?!

Fico feliz em ver que nossas escolhas foram boas o bastante para sobreviver à história. Fico feliz em ter sido um adolescente que descobriu isso bem naquela época.
O nascimento do heavy metal nos subúrbios industriais londrinos e sua adoção quase instantânea na região do ABC paulista, na época, um subúrbio metalúrgico de São Paulo.

É divertido ver em que irmandade se tornou o heavy metal e suas vertentes.
É gostoso ver os sessentões ou setentões cuspindo sangue e voando por cima da platéia ainda ou simplesmente vestindo um jeans e uma camiseta, fazerem uma música consistente e de qualidade, enchendo locais com gente de todas as idades.

Por outro, foi deprimente ver o que algumas bandas se tornaram ao entrar pro mundo dos contratos milionários. É difícil ver alguma dessas bandas manter o espírito do rock e principalmente do heavy.
Dee Snider do Twisted Sister reconheceu que é complicado fazer um som agressivo e de protesto quando se mora numa mansão, o que nos remete a Lacan que diz que a angústia é a única fonte de criação.

Seja como for, parodiando o pequeno-grande Ronnie James Dio (aliás o inventor do tal símbolo "manual" do heavy metal), "long live rock'n roll"!

E que meus amigos não fiquem surdos nem com cirrose para podermos celebrar etilicamente, mesmo que em cadeiras de rodas e com fraldões geriátricos, o bom e velho metal.

Up the irons!!








sábado, 23 de fevereiro de 2013

Justiça brasileira é "Noticias Populares"

O julgamento de Gil Rugai foi ridículo, uma sucessão de erros e coisas suspeitas.
Esse país talvez seja o único dentre as chamadas democracias ocidentais onde o sujeito tem que provar que é inocente ao invés do conjunto polícia investigativa e técnica forense fazerem o contrário.

Não afirmo que Gil Rugai seja inocente ou culpado, mas sim que em nenhum tribunal descente ele seria condenado.

Provas circunstanciais, evidencias que somem, delegado que força um depoimento, DHPP que coloca fogo na guarita de uma testemunha, principal testemunha que se contradiz várias vezes, possibilidade do pai do acusado ter sido eliminado por queima de arquivo (a alguns indícios de seu envolvimento com tráfico de drogas e seu conhecimento de desvio da mesma por policiais), etc.

Enfim, para condenarmos alguém basta apelar ao juízo deturpado do público, contar com "jornalistas" do calibre de José Luiz Datena e Marcelo Rezende e levar a juri popular. Pronto, após o linchamento moral é só aguardar a condenação.

Não posso crer que não se anule esse julgamento no supremo. Seria a gota d'água para, de fato, não se confiar minimamente nesta "justiça".

Reze para nenhuma criancinha desmiolada não falar pros pais que você a bolinou, pois mesmo uma acusação falsa dá um ótimo Ibope, mas já não podemos dizer o mesmo quando se absolve alguém. Lembram do caso da Escola Base?

E ainda existe gente que defende a pena de morte.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A ciência hoje

Marcelo Gleiser hoje, para mim, pode ser a síntese da ciência moderna.
Um bom exemplo do que a ciência estuda, de como ela realiza esses estudos, de como ela está relacionada com a vida cotidiana e com as outras áreas do conhecimento humano.

Usa nobremente o seu recém adquirido status de pop star brasileiro (apresentou programas de TV, ministrou palestras, autor de best sellers, professor universitário e cientista respeitado) para divulgar, entre outras coisas, a ciência moderna, a necessidade de investimento público em educação (ele cobra dos colegas cientistas essa postura e já foi ao senado) e a necessidade de se cuidar do planeta.

É acessível, didático e carismático, um verdadeiro discípulo do Carl Sagan.

Nesses vídeos ele apresenta as inovações da ciência moderna, quebra os paradigmas nacionais sobre a educação norte-americana (eu não sabia, mas a universidade americana é mais ou menos o que eu defendia de modelo aqui no Brasil), demonstra a importância da física teórica para o cotidiano e tenta responder aos anseios teístas do lugar de Deus na vida.

Gosto de seu posicionamento a perguntas típicas. Por exemplo, sem meias palavras ele diz: não há necessidade de um criador para o universo e as probabilidades da existência de vida inteligente fora da Terra são quase desprezíveis (importante citar que ele defende que para a vida, a inteligência não é essencial e muito menos de alguma forma é importante).

No programa da Marília Gabriela:




E na Band em 5 partes:




Estou ansioso pelo seu novo livro, que parece tratar de um assunto que me interessa muito, o que é a realidade, como construímos a realidade e como ela pode ser construída por outros seres vivos.

Alguns dizem que a ciência é uma religião.
Sob certo aspecto pode ser, mas não conheço nenhum físico que tenha defendido a fusão a frio tenha feito um atentado a bomba a outro grupo que o desqualificava, nunca ouvi falar de universidades que foram a luta armada por posições divergentes e desconheço alguma religião que assuma a impossibilidade de verdades absolutas e muito menos de conhecimentos acumulativos.

Mas se quiserem assim a definir, sim, até que me demonstrem uma mais adequada esta é a minha "religião".

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Depressão como mal contemporâneo

Segue sugestão de um excelente texto acadêmico (ebook de Leandro Anselmo Todesqui Tavares) que, mais do que sobre depressão, trata do indivíduo na sociedade pós-moderna.
Uma síntese da perversidão que o modelo monetarista-mercantil aliado à 'sociedade espetáculo' trouxeram a individuos 'ajustados' ou não.

"A realização de pequenos e fugazes prazeres (sempre que possíveis) torna-se um ímpeto aos indivíduos, e ao contrário do que se poderia pensar, presenteia-os com sensações eternas de tédio, insatisfação e 'mal estar' típicos de nossa atualidade."

A "facebookização" dos relacionamentos (a "Sociedade Espetáculo" de Guy Debórd) é muito bem sintetizada.

"No início do capitalismo, a dialética subjetiva dos indivíduos consistia em uma degradação do ser para o ter. O sucesso naquele momento específico, bem como as realizações e conquistas satisfatórias para o ego, dependia de quanto poderia acumular-se em bens e dinheiro. Ter posses que representassem sua riqueza capital era o que movia os indivíduos em termos de dinâmicas subjetivas na sociabilidade daquela época, enquanto hoje em dia, ter já não representa muito se isto de fato não servir para a aparição diante do cenário espetacular. Temos então, na atualidade, um deslizamento do ter para o parecer  ou (a)parecer diante do espaço social e, neste sentido, toda realidade individual torna-se social." 

"O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos de seu 'valor monetário'. Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmos, e por essa singularidade) estão quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor." (Bauman - 2004)

Da medicalização excessiva:

"Os psicofármacos, pelo enorme efeito antidepressivo e tranquilizante, visam a transformar esses miseráveis sofredores em seres efetivos da sociedade espetáculo. Com isso, silenciam-se as cavilações pesadas e as ruminações 'excessivamente' interiorizadas dos deprimidos, e eles são transformados em seres 'legais' do universo espetacular."

Traduz bem porque o Coisa não acredita mais, de maneira geral, em amizade:

"Predominantemente, as relações estabelecidas pela lógica consumista, que evidenciam o individualismo em nossa cultura narcisista, acabam, por fim, tornando o exercício da sociabilidade uma condição propícia para a exploração do outro, em relações vazias de sentido e significados cujos vínculos são, na maioria das vezes, frágeis, supérfluos e meramente ocasionais."

Pincela a violência em nossa época:

"O sujeito contemporâneo personifica de forma caricaturada a verdadeira representação de um 'homem-bomba', em um sentido subjetivo que em sua relação empobrecida com o outro pode, enfim, concretizar variadas práticas de violência no que diz respeito aos seus envolvimentos sociais"

"Os destinos do desejo assumem, pois, uma direção marcadamente exibicionista e autocentrada, na qual o horizonte intersubjetivo se encontra esvaziado e desinvestido das trocas inter-humanas. Esse é o trágico cenário para  aimlosão e a explosão da ciolência que marcam a atualidade" (Birman - 2001)

"É na defesa contra o sofrimento e o desprazer que habita o próprio sofrimento e 'mal-estar' em si." (Freud - 1930)



Ou acesse: http://www.culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=106


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Extravase se sentir necessidade

Dia 31 de dezembro, um dia como outro qualquer transformado em um transbordamento de felicidade histérica.
Fogos, promessas, brindes, gritaria e aquele desespero por ser feliz.

As pessoas no geral tem um ano tão abominável e cheio de frustrações que querem se livrar dele rapidamente e esperar pelo novo ano, como se o novo fosse de fato novo.

Uma eterna repetição de uma vida medíocre de trabalho e compensação (chame de consumo se quiser). Uma rotina de parecer o que não é e corresponder às expectativas dos outros.
O infinito processo da não vida, na esperança de que outro ano ou até mesmo outra vida compense a atual.

Gritem bastante, gargalhem alto, aumentem o som do player, soltem fogos e infernizem a vida dos que desejam apenas a serenidade do dia a dia que vocês não tem, mas por favor retornem logo para banalidade de suas vidas rápido e deixem a minha cidade assim que seus trabalhos desprezíveis o requisitem, já com um belo engarrafamento pra mostrar que nada mudou.



sábado, 1 de dezembro de 2012

Um dia de 48 horas

Antes de mais nada devo avisar que essa é uma história real, sem teatralidades ou exageros, mas sim, é digna de um roteiro do Mr Hullot.

Nesta quinta-feira dia 29/11 fiz minha habitual penitência de subir a serra e ir pra sampa (ABC, mas considero a mesma porcaria).
Sai contrariado e infeliz da minha bela casa, na minha bela e tranquila cidade litorânea para o inferno, com o objetivo de cumprir uma pequena obrigação de trabalho.

Minha 'patroinha' foi junto, pois depois da visita ao meu cliente iríamos visitar sua mãe, ou seja, minha sogra. Os problemas já começariam aí.

Já no ap chique (impossível um ap ser considerado um lar, pois mesmo com 1000m² é sempre um gaveteiro de gente tamanho família) da minha sogra, a 'patroinha' chega trazendo uma amiga. Mais tarde eu saberia que ela faria o favor de levá-la pra casa.
Um pequeno adendo: "ela levaria" significa "eu levaria", uma espécie de favor terceirizado. Outro detalhe é que minha sogra mora no Itaim, o que facilmente - dentro do que se considera fácil em São Paulo - me faria pegar a rodovia dos Imigrantes e voltar alegremente para casa, mas sua amiga mora em Santo André completamente fora do caminho de retorno.

Bem, após momentos tensos entre mãe, filha e irmã - minha esposa desequilibrada e sua família pior ainda  (meu próximo casamento se houver será com um homem) - resolvemos pedir uma pizza, o tradicional cachimbo de paz paulistano.
Sendo minha sogra moradora dos Jardins, Itaim, etc, sabemos das porcarias elitistas, fúteis e meramente de cunho simbólico (status) dos quais esse povo gosta, mas como estávamos na casa dela pagaríamos a conta como gentileza.

Resultado: uma pizza de muzarela e uma de calabresa - sim desses simples mesmo - por módicos CENTO E TRINTA E SEIS REAIS. Não, você não leu errado: R$ 136,00.
O local da extorsão foi a pizzaria Camelô (trocadilho - é Camelo).

Já havia ido lá antes e sei que a pizza é um lixo (digna dos bons classe média paulistanos), pequena e parecendo uma bolacha água e sal com queijo (pouco). Fora a frescura do local.

Já refeito do susto graças a um espumante Brut fornecido pela sogra resolvemos 'vazar'.
Vamos destino à Santo André entregar a mala, digo, a amiga da patroa.
Apesar dos km adicionais rodados essa parte transcorreu até sem problemas já que resolvi não entrar na casa dela.

Na volta, na altura de São Vicente, quando minha esposa discursava que eu deveria trocar de carro (eu odeio trocar de carro, sei que parece estranho para a maioria, mas eu odeio todo o processo envolvido nessa coisa medíocre e por fim, eu não ligo a mínima pra este objeto de fetiche e status da maioria dos mortais), e eu argumentava que isso era besteira porque o carro era confiável, caput, o motor apaga sem avisos maiores.

Uma hora ou mais da manhã da sexta-feira na rodovia Pe Manoel da Nóbrega eu vou ao SOS (o ponto de chamada de resgate da Ecovias) e aciono o botão.
Na placa lê-se: "Aperte o botão e aguarde".
A caixa parece um comunicador, inclusive com uma área vazada como se tivesse um alto falante, daí, o tonto que vos escreve resolve tentar falar com a máquina.

Pare de rir. Descobri depois que todo mundo faz isso.
Nada ocorre e acho que a máquina está quebrada já que ninguém "fala" comigo.
Vou até a passarela uns 500 metros a frente enquanto ligo para minha irmã apenas solicitando o telefone da Ecovias, já que não queria incomodar ninguém.

Do outro lado da pista observamos o guincho da Ecovias ao lado do carro. Saímos correndo de volta percebendo que bastava apenas acionar o botão do SOS e aguardar o resgate e não alguém falar alguma coisa.

O motorista gentilmente vai à frente nos pega e retorna de ré pela rodovia.
Ele nos leva até um posto 24 horas e diz que só pode fazer isso.
No posto havia um hotel (daqueles "dá hora") que podíamos ficar até o dia seguinte quando acionaríamos um mecânico.

Resolvo junto com um 'curioso local' (vulgo mecânico) abrir a bagaça. Nessa minha irmã já havia se colocado em trânsito rumo ao local. Peruíbe para São Vicente.
Conhecendo um pouco a coisa (carros não mudam muito desde a sua invenção, uma lata com uma coisa que explode para gerar energia cinética), descubro que é a parte elétrica o problema, uma pequena peça de R$ 18,00.

Já batia 2 horas da manhã, minha irmã que veio com a outra irmã se perdeu no caminho mas já estava conosco, resolvemos ir embora e deixar la machina lá mesmo.

Às 3:30 chego em Peruíbe, meu lar,  e depois de um banho capoto na cama.
Às 9 horas acordo para voltar a minha jornada de volta ao posto onde me encontraria com o 'curioso local' para trocar a peça.

Muito precavido passo numa auto peça e compro o tal item defeituoso para, evidentemente, levar comigo. Para o destino pego emprestado o carro da minha irmã.

Uns 6 ou 7 km antes, num posto policial, fui parado e o policial me avisa que o documento estava vencido. Minha irmãzinha desmiolada esqueceu de licenciar o carro.
O policial preenche a papelada (enquanto contamos a história que devia parecer completamente uma mentira) e nos oferece uns cartões de taxis da região.

Ao ligarmos para dois taxistas eles nos informam que deveria custar entre R$ 50,00 e R$ 70,00 a corrida. Detalhe: como citei anteriormente, o posto policial onde estávamos era 6 ou 7 quilômetros do posto de gasolina onde o carro estava.

Aviso minha irmã que ela deveria seguir para Santos no único Poupa Tempo da baixada santista para tentar retirar a liberação no mesmo dia, e assim evitar correr o risco de 'coisas desagradáveis' acontecerem com o carro no páteo. Ela vai de ônibus pra lá e eu levaria os papéis da apreensão pra lá (sabe-se lá porque motivo tem que estar de posse da proprietária já que eles nem olham).

Minha esposa (mais mão de vaca que eu) e eu resolvemos não pagar nada e ir a pé. Nessa, um motorista de uma seguradora nos ofereceu uma carona, mas o policial se oferece para nos levar lá.
Fomos de viatura para lá. Até que foi a parte divertida.

Chegamos ao posto de gasolina e o carro ainda estava lá e intacto.
Obviamente o 'curioso local' não estava lá (apesar de termos combinado), abro o capô e tchan! A peça não servia.

Fomos a duas lojas no entorno e nada. Tentamos umas oficinas próximas e nada.
Ligo pro tal 'curioso local' e ele diz que já estaria a caminho (nunca apareceu).
Resolvo pegar um busão e ir pro centro de São Vicente.

Subo no busão, vejo um leitor de cartões e pergunto ao motorista se ele aceita dinheiro. Depois de uns 15 ou 20 anos sem pegar busão achava que estávamos no século XXI. Ele me olha como quem vê um marciano e responde que sim.

Peço a ele para me avisar quando estiver próximo a alguma auto peça no centro e ele gentilmente me diz que parará na frente da maior loja de São Vicente.
Sigo em pé claro.
No caminho sobe um idoso e uma moça gentilmente oferece seu lugar ao senhor. Surpresa, já que na capitaR é um "pega pra capa". Nesta novela toda, a única coisa interessante e surpreendente foi que todas as pessoas envolvidas foram muito gentis e solícitas comigo. 

Vaga um lugar e uma moça me diz, sente você que é "grandão".
Agradeço e arrumo comovido meus 1,90m da melhor maneira possível. No caminho ainda ela vai me contando sobre como é melhor pegar um ônibus para o centro, como e onde é o local, etc.

A loja me surpreende. Realmente é imensa, não lembro de ter entrado em alguma do porte em São Paulo (e olha que 40 dos meus quase 43 anos passei lá).
Muito bem atendido pego a peça e volto.
Num carrinho de doces no ponto de ônibus uma senhora gentilmente me informa que era melhor ir a um determinado lugar para pegar uma lotação mais rápido.

Emfim, quase 3 horas depois, estou de volta ao meu carro, coloco a peça e fim de papo. Ou quase.
Alimentado com um "enrolado de presunto e queijo" de uma lanchonete morfética (o desespero nos faz crer ardentemente em nosso sistema imunológico) saímos de lá rumo a Santos.

Santos é uma São Paulo com mar, ou seja, trânsito insuportável, alta densidade demográfica, motoristas neuróticos, mal cheiro, sujeira e um mar em algum lugar que não avistei.
Olha, essa parte da burocracia kafkaniana brasileira vou pular.

Resumindo, sexta-feira, 18 horas e o "Poupa Tempo" libera o carro da minha irmã. Chama "Poupa Tempo" porque ele (quase) poupa um tempo que a própria buRRocracia brasileira faz você perder.

19:00 da sexta-feira em casa. Tudo resolvido. Em termos, já que o carro da minha irmã só sai do páteo (esperamos inteiro e completo como foi) só na segunda-feira.

Diretores e roteiristas de humor que queiram entrar em contato estejam a vontade.