sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz ano novo na idade das trevas pós-moderna

Este fim de ano, 'travado' por meus problemas de discos intra vertebrais, resolvi assistir, de novo, Cosmos, do brilhante Carl Sagan.

Obtive uma versão comemorativa e atualizada há uns anos, pois só lembrava de fragmentos assistidos ainda na adolescência, quando acordava cedo aos domingos e esperava ansioso pelo início.

É sempre uma poesia e uma viagem assistí-lo.

Continua emocionante e com a mesma visão 'espiritualizada' da astronomia que somente Sagan conseguia fazer, sem ficar piegas ou falsamente mística. Sua condução gentil, não conflituosa e não provocativa (a não ser no intelecto), mas sem perder peso em sua argumentação, é o retrato de um dos mais renomados e respeitados astrônomos do mundo moderno, que sempre foi reverenciado não só por cientistas mas por líderes religiosos dos mais variados tipos, mesmo sendo um ateu (no sentido de um Deus criador) assumido.

Fiquei conjecturando o tamanho da importância de sua iniciativa, influenciando gerações de pessoas ligadas ou não à Física à buscar o conhecimento de maneira mais imparcial possível, com os rigores da ciência moderna e ao mesmo tempo com uma profunda relação de comunhão com o universo.

É curioso, mas ainda vivemos numa idade das trevas nas ciências da vida.

A educação continua atrelada ao século XIX, com 'pinceladas' mal feitas de atualizações.

As ciências do século XX em diante são simplesmente ignoradas, sendo apenas repaginadas dentro do conceito utilitário do nosso arcabouço educacional, que mal assistida pelo jornalismo de massa, que a 'interpreta' toscamente, chega aos ouvidos dos leigos e especialmente dos nossos jovens de maneira tropega e repleta de vícios.

Me espanta a quantidade de amigos com (suposta) boa carga educacional que simplesmente desconhecem completamente a física moderna, atirando pérolas como "como algo pode ser duas coisas ao mesmo tempo?" (numa 'interpretação' ridícula de conceitos partícula/onda), ou "os cientistas não sabem nada já que eles mesmo dizem não poder ter certeza de não influírem nos resultados" (outra 'interpretação' ridícula do princípio da incerteza e talvez uma mistura confusa com o efeito foto-elétrico), ou ainda, pérolas como a "partícula de Deus" e por aí vai.

Não acho que a Física seja a disciplina mais importante do mundo (como acontece se referindo as suas disciplinas, com meus amigos advogados, filósofos, médicos e outros), mas acho que a introdução de seus conceitos modernos logo no início da educação seria de grande ajuda na formação desses jovens.

A mente humana se limita em conjecturar quase que totalmente sobre os nossos sentidos, principalmente a visão, uma limitação inerente à evolução, mas que pode ser contornada "adicionando-se" sentidos logo cedo, durante a formação escolar dos jovens, e aí a física sempre foi muito bem sucedida.

Nossa tão alardeada imaginação é uma mera criação do cérebro, e ela extrapola nossos limites sempre dentro de outros limites. Quando criança imaginava o quão distante estaria Júpiter de mim: seria quantas vezes a distância de São Bernardo à capital? Talvez 1000 vezes? Ou 1.000.000? E o tempo pra chegar até lá? Demoro "uma eternidade" de uma hora (bons tempos) pra chegar na capital... deve ser umas 1.000.000 de vezes mais também...

Com mais "sensações" incorporadas a nossa formação, novos sensos de distância e tempo, o quão mais próximo das respostas estaria? Que tipo de questões mais interessantes levantaríamos?

Até mesmo as artes e a filosofia abstraem no emocional, mas tem dificuldades em abstrair fora dos sentidos humanos mas ainda dentro de alguma realidade, que apesar de não poder ser vista ou tocada, seus efeitos podem ser captados no universo que nos cerca, e nada de místico ou metafísico há nisso.

Ao assimilar aos nossos sentidos todas as formas de luz além do espectro visível, de sons além do espectro audível, distâncias e tempos de ordem astronômica e dimensões subatômicas, logo na época escolar, de grande influência na formação do raciocínio, incorpora-se toda uma nova gama de sentidos às débeis e ultrapassadas capacidades humanas, e com isso amplia-se o horizonte do pensamento de forma natural.

Interessante observar como muito dos "cultos" que conheço, mal educados nas modernas ciências da vida, ainda, por exemplo, projetam a imagem de uma partícula como uma "bolinha" ou do Big Bang como uma explosão, numa clara demostração de como suas mentes continuam presas a formas cartesianas de pensamento (algo que tanto criticam).

E, para mim (não pesquisei algum autor sobre isso), "incorporar novos sentidos" logo cedo pode permitir abstrações muito mais criativas e refinadas, pois seria como nascer com amplos sentidos, o que do ponto de vista evolutivo seria muito demorado, mas dentro da capacidade do cérebro humano seria 'no ponto certo', já que depois dessa fase jovial e adaptativa, infelizmente, nos tornamos mentalmente mais engessados.

Como dizia Sagan, há colunas semanais de astrologia nos jornais, mas nenhuma coluna de astronomia. Acho que ele devia rir das "interpretações" jornalísticas que costumam aparecer por aí.

Apesar de um pouco desatualizado, acho que vou fazer uma campanha "Cosmos nas escolas já!"

Sagan escreveu, entre outros, "Um mundo assolado pelos demônios".

Acho que ainda somos assolados por eles, mas de modo muito mais sutil.

Vendo ele dar algumas aulas de astronomia para crianças boquiabertas, tenho certeza que de lá saíram não só físicos, mas poetas, músicos, químicos, etc.

Mais um ano entrará. Mais uma translação da Terra.

Nada muito diferente, mas no fim, de fato, uma nova viagem. Poético sim.

No conhecimento humano não existem as barreiras maniqueístas da ignorância, que separa de modo ridiculamente reduzido as "humanas" das "exatas", como chamamos aqui desde a era militar. Não devemos ser tão dissociados.

"Somos matéria estelar que tomou seu destino nas próprias mãos." - Carl Sagan