sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um ofício na informática lascada

Recentemente me encontrei com um jovem amigo - nunca pensei que alguém nascido no fim da década de 80 falasse - que me perguntou intrigado e espantado se de fato eu largaria a informática.
Seu espanto para mim não é novidade.
Até os desconhecidos ficam desconcertados com alguém que não quer mais trilhar a rota da "área nobre do mundo".

Mais espantados ainda ficam quando sabem que eu recebo bem pelo pouco que faço e "manjo pra cacete" - opinião de terceiros, não a minha.

Qualquer um que gosta de criar, divagar e ter um trabalho construtivo muito mais do que lucrativo vai entender.

Desde o início do século (fica bem dramático não?!), desenvolver software não tem a mesma graça e virou linha de produção.

Meu primeiro computador (com 11 anos), foi montado (montado mesmo! soldando componentes, construindo gabinete e adaptando a TV P&B da mãe) a partir de um kit da revista Nova Eletrônica (NE nº  56 de 1981 que ainda tenho!).


Tinha os íncriveis 8Kbytes de memória e um super gravador cassete pra armazenar os programas, sem falar nos excelentes 64 x 44 pontos de modo gráfico!




Software nunca existiu sozinho, era coisa de "eletrônico maluco", e sinceramente, foi graças a essa mediocridade maníaca da especialização é que virou uma "carreira".

Os bons desenvolvedores eram bem malucos, meio hippies e nada tinham de nerds ou geeks.
Nerds são os novos CDF's, e de inteligência aí não existe nada, exceto o bom desempenho burocrático acadêmico.
Geeks são apenas mauricinhos consumistas.

Para se ter uma idéia, um dos editores da NE foi o grande Cláudio César Dias Baptista, um dos criadores dos Mutantes, aliás, foi dele o fantástico "Curso de Áudio" publicado na mesma revista.

Criar qualquer coisa complexa em assembler era uma tarefa bem doida e muito divertida.
Cada um fazia de um jeito e depois confrontavam-se as soluções pra ver de que maneira mais criativa alguém havia chegado lá.

Jogos com o Z80 era um desafio (citei o "Combate Aéreo" num post antigo)!
Fazer as "fantásticas" naves (de quadradinhos) dispararem ("-") contra mísseis ("A") ou antingir os possos de petróleo ("$") no solo com as bombas ("*") era uma viagem!


O Basic veio pra dar uma ajuda.
Como qualquer outra linguagem de alto nível facilitava algumas partes, mas criar algo era sempre lúdico e desafiador.

Depois vinha a parte da eletrônica.
Adaptar um circuito qualquer para acender uma lâmpada ou programar a batedeira da mãe pra ligar e desligar num determinado horário.

PLC, iHouse, casa inteligente...você acha isso novidade?! Bullshit!

E por favor, não me venha dizer que aquele seu filho, primo ou seja lá o que for "entende tudo disso" porque baixa e instala/desinstala isso ou aquilo ou troca as "pRaca"...  qualquer símio bem treinado faz essas coisas.

Mas enfim, a produtividade e a lucratividade atropelaram a criação e a diversão.

Agora eu quero outro ofício.