terça-feira, 23 de outubro de 2012

Somos tão... "de bem".

Os terroristas são todos loucos não?
Os nazistas uns psicopatas não?
Nossa e esses pedófilos todos!

Nós brancos cristãos não. Somos corretos e de bem.
Uma 'cruzadinha' aqui e outra ali.
Uma 'inquisiçãosinha' básica.
Um 'aparteidisinho' pra variar.
Um limpezinha étnica durante as colonizações.

No continou extermínio, espropriação de terras e aculturação dos nossos indígenas, continuamos em nossa justificada busca pelo progresso e pelos lucros.

 

Do blog do Bob Fernandes.
Link para o original no título.
 
 
Nas últimas semanas, além do futebol de sempre, dois assuntos ocuparam as manchetes: o julgamento do chamado "mensalão" e, na campanha eleitoral em São Paulo, o programa de combate à homofobia, grotescamente apelidado de "Kit Gay". Quase nenhuma importância se deu a uma espécie de testamento de uma tribo indígena. Tribo com 43 mil sobreviventes.
A Justiça Federal decretou a expulsão de 170 índios da terra em que vivem atualmente. Isso no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, à margem do Rio Hovy. Isso diante de silêncio quase absoluto da chamada grande mídia. (Eliane Brum trata longamente do assunto no site da revista Época nesta segunda-feira, 22). Há duas semanas, numa dramática carta-testamento, os Kaiowá-Guarani informaram:
- Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui, na margem do rio, quanto longe daqui. Concluímos que vamos morrer todos. Estamos sem assistência, isolados, cercados de pistoleiros, e resistimos até hoje (…) Comemos uma vez por dia.
Em sua carta-testamento os Kaiowá-Guarani rogam:
- Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais.
Diante dessa história dantesca, a vice-procuradora Geral da República, Déborah Duprat, disse: "A reserva de Dourados é (hoje) talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo".
Em setembro de 1999, estive por uma semana na reserva Kaiowá-Guarani, em Dourados. Estive porque ali já se desenrolava a tragédia. Tragédia diante de um silêncio quase absoluto. Tragédia que se ampliou, assim como o silêncio. Entre 1986 e setembro de 1999, 308 índios haviam se suicidado. Em sua maioria, índios com idade variando dos 12 aos 24 anos.
Suicídios quase sempre por enforcamento, ou por ingestão de veneno. Suicídios por viverem confinados, abrutalhados em reservas cada vez menores, cercados por pistoleiros ou fazendeiros que agiam, e agem, como se pistoleiros fossem. Suicídios porque viver como mendigo ou prostituta é quase o caminho único para quem é expelido pela vida miserável nas reservas.
 
Italianos e um brasileiro fizeram um filme-denúncia sobre a tragédia. No Brasil, silêncio quase absoluto; porque Dourados, Mato Grosso, índios… isso está muito longe. Isso não dá ibope, não dá manchete. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 habitantes para cada 100 mil. No Iraque, esse índice é de 93 pessoas para cada 100 mil.
Desde fins de 1999, quando, pela revista Carta Capital, estive em Dourados com o fotógrafo Luciano Andrade, outros 555 jovens Kaiowá-Guarani se suicidaram no Mato Grosso do Sul, descreve Eliane Brum. Sob aterrador e quase absoluto silêncio. Silêncio dos governos e da chamada mídia. Um silêncio cúmplice dessa tragédia.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

De volta para o futuro

Apesar de minha mudança para uma cidade menor, visando qualidade de vida e menor contato humano, a minha descrença com o ser humano só aumenta.
Ok, é meio bobagem dizer isso, mas é bobagem completa tantas outras coisas que me deixa dessa maneira cético em relação aos meus "companheiros do sindicato dos humanos".
 
Minha esposa é tradutora, e pela habilidade com a escrita e a língua pátria, acaba fazendo "tarefas" de faculdade para alunos desmiolados, TCC e teses.
 
Isso me incomoda profundamente.
 
Não com ela, já que seu trabalho é bem feito e nada mais é do que um trabalho de escrita como outro qualquer, além do mais ela nunca faz plágio ou outras coisas que a desabone.
 
O que me incomoda é esse monte de pessoas que não querem ler (as desculpas são as mais esfarrapadas possíveis), e em seu desespero por um dipRoma atropelam o fato de serem analfabetos funcionais. Isso sim é deprimente.
 
E não pensem que são faculdades xurupita apenas.
Posso citar FGV e Uncamp como alguns nomes conhecidos.
E a desgraça não para apenas deste lado da carteira, já que os orientadores em muitas vezes também são uma catástrofe.
Os comentários, diretivas e análises são qualquer nota (ops, desculpem o trocadilho infame).
O descarado eu faço de conta que leio e você que escreve.
 
Se já estamos sendo atingidos pelo mar de maus profissionais hoje o que dizer daqui a alguns anos.
 
Ser otimista numa conjuntura dessas é no mínimo curioso.
 
A despeito de todo discurso sociológico e antropológico, a eternidade, ou o para sempre ou ainda o para o resto da minha vida significam atualmente para mim, sendo aí sim otimista, entre 25 ou 30 anos, e não há nenhuma evidência que sustente possíveis melhoras no mundo, ou me restringindo mais, ao Brasil.
 
Não posso generalizar claro, a estatística é falha e cheia de armadilhas, mas eu não apostaria minha vida numa roleta russa com um revólver sem apenas uma bala.
Você apostaria?
 
 
 
 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O milagre e os deuses

Há quase um ano apareceu um "calombo" no lado interno do meu pulso.
Causava um leve incômodo que aumentava quando me apoiava nele ou estava na fase de grandes pesos na academia.
 
Suspeitei logo de cara ter sido causado pela "pegada errada" no supino, algo comum nas academias quando pegamos a barra com o polegar no mesmo sentido dos demais dedos e não ao redor da barra como oposição que ele deve fazer.
Isso faz com que tenhamos que  dobrar mais o punho para trás e fatalmente o sobrecarregando.
 
Indo no ortopedista (meu cauvário) fui diagnosticado como portador de um quisto sinovial, quando o líquido sinovial intra-articular vaza para os arredores dos tendões ou  a membrana sinovial fica inchada.
Seja lá o que for exatamente, todos os médicos disseram que ele não desaparecia sozinho e que era necessário uma cirurgia.
 
Durante os exames pré-operatórios tive uma das minhas crises de lombalgia e fiquei de molho por um tempo.
 
Praticamente de uma hora para outra (e quase isso mesmo!), contrariando os deuses da sabedoria, o calombo no punho desapareceu.
 
Daí realmente admiti que os deuses fazem milagres, mesmo que indiretamente.
O 'deus' médico faz uma assertiva absurda que induz a algum maluco qualquer rezar ou apelar pra qualquer outra bobagem, e se há cura ou melhora então foi operado um milagre.
 
A estupidez fomentando a estupidez.
Ok, discurso meio Dawkins admito.
 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A ganância empresarial

Do blog do Rizzato Nunes.
Numa sociedade onde o lucro justifica tudo, é bom ver alguém falar sobre o "fundamentalismo de livre-mercado".
Excelente texto, mas necessitamos de ética mais do que leis.

A ganância empresarial e o direito do consumidor: a sede de ganho sem limites


 O Código de Defesa do Consumidor (CDC) faz 22 anos no próximo dia 11 de setembro (Lei 8078/90). Não preciso chover no molhado para dizer o quão importante essa lei foi e é para todos os consumidores brasileiros e também para os estrangeiros que estejam no território nacional. Aliás, não só para os consumidores como para os próprios fornecedores que souberam e souberem bem aproveitar as normas firmadas. Aproveito, então, essa comemoração de aniversário para abordar um aspecto preocupante que aflorou no mercado de consumo abertamente nos últimos anos, para que possamos fazer uma reflexão sobre a questão do consumidor nos tempos atuais.
Falarei da ganância, a sede de ganho sem limites.

Michael J. Sandel, no livro intitulado Justiça: o que é fazer a coisa certa, conta que, no verão de 2004, o furacão Charley invadiu o Golfo do México causando sérios danos à população da Flórida. A tempestade matou 22 pessoas e causou prejuízos de 11 bilhões de dólares.

No livro citado, Sandel diz que, após a passagem do destrutivo furacão, em “um posto de gasolina em Orlando, sacos de gelo de dois dólares passaram a ser vendidos por dez dólares. Sem energia para refrigeradores ou ar-condicionado em pleno mês de agosto, verão no hemisfério norte, muitas pessoas não tinham alternativa senão pagar mais pelo gelo. Árvores derrubadas aumentaram a procura por serrotes e consertos de telhados. Prestadores de serviços cobraram 23 mil dólares para tirar duas árvores de um telhado. Lojas que antes vendiam normalmente pequenos geradores domésticos por 250 dólares pediam agora 2 mil dólares. Por uma noite em um quarto de motel que normalmente custaria 40 dólares cobraram 160 a uma mulher de 77 anos que fugia do furacão com o marido idoso e a filha deficiente”.
Esse tipo de conduta não é novo nem surpreendente e já se verificou no Brasil inúmeras vezes. Apenas para ficar com dois exemplos: Recentemente, no mês de março p.p., alguns donos de postos de combustíveis em São Paulo, aproveitando-se da escassez provocada pela greve dos caminhoneiros, aumentaram (e muito) o preço da gasolina e do álcool nas bombas; em janeiro de 2011, alguns comerciantes da região serrana do Estado do Rio de Janeiro aumentaram abusivamente os preços dos gêneros de primeira necessidade, logo após os deslizamentos de terra nas cidades de Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e outras e que deixaram centenas de mortos e milhares de desabrigados.

São práticas abusivas proibidas pela legislação protecionista do consumidor e, evidentemente, odiosas, mas que apenas confirmam a mentalidade atrasada e as ações ilegais perpetradas por certos empresários e colocam à mostra defeitos terríveis da natureza humana. Daí que a ganância não é nova nem desconhecida. Aliás, é um dos sete pecados capitais como desdobramento da avareza; trata-se de um vício humano, sempre combatido.

Mas, o que chama a atenção no episódio do furacão na Flórida não é tanto a ganância, mas a incrível e aberta defesa feita por muitos economistas do ato ganancioso como elemento intrínseco do sistema e – pasme-se – positivo!

Dentre os vários “teóricos de mercado” que fizeram esse tipo de defesa naquela oportunidade, refiro, por todos, o economista Thomas Sowell para quem o termo “extorsão”, utilizado pelas vítimas dos comerciantes, não passava de uma “expressão emocionalmente poderosa porém economicamente sem sentido, à qual a maioria dos economistas não dá atenção, porque lhes parece vaga demais“. Veja o que escreveu Sandel sobre a fala dele: “Preços mais altos de gelo, água engarrafada, consertos em telhados, geradores e quartos de motel têm a vantagem, argumentou Sowell, de limitar o uso pelos consumidores, aumentando o incentivo para que empresas de locais mais afastados forneçam as mercadorias e os serviços de maior necessidade depois do furacão. Se um saco de gelo alcança dez dólares quando a Flórida enfrenta falta de energia no calor de agosto, os fabricantes de gelo considerarão vantajoso produzir e transportar mais. Não há nada injusto nesses preços, explicou Sowell; eles simplesmente refletem o valor que compradores e vendedores resolvem atribuir às coisas quando as compram e vendem.”

Trata-se de um sofisma ridículo e pueril, pois obviamente os fabricantes de gelo somente se motivariam se o preço se mantivesse nas alturas de forma constante. No caso, o preço foi elevado excessivamente, fixado para um curto período de tempo e imposto contra consumidores desesperados.

Esse tipo de argumento poderia passar despercebido, não fosse algo consistentemente defendido por diversos e diferentes setores empresariais e seus inúmeros asseclas “teóricos”.

Parece mesmo que uma característica desses últimos vinte, trinta anos na sociedade capitalista é a falta de vergonha na cara, do surgimento da possibilidade do “cara de pau” falar qualquer coisa. Defender a ganância é apenas um dos exemplos desse descaramento que pensa e propõe o mercado funcionando como um Deus capaz de tudo resolver.

Aliás, e a propósito, é isso mesmo: na concepção cristã, como disse acima, a avareza é um dos sete pecados capitais porque o avarento (e na hipótese, o ganancioso) prefere os bens materiais ao convívio com Deus. Mas, no capitalismo selvagem atual, faz sentido, na medida em que, como disse, o mercado funciona como um Deus. E é nesse aspecto, inclusive, que tem se usado a expressão “fundamentalismo de livre-mercado”.

Os estudiosos da sociedade capitalista têm dito e também demonstrado que o capitalismo da segunda metade do século XX para cá é eminentemente fundamentalista. É o chamado fundamentalismo de livre-mercado (do inglês free-market fundamentalism), expressão usada criticamente e que denota a injustificada e exagerada crença de que os mercados livres são capazes de propiciar a maior prosperidade possível e que qualquer interferência nos processos de mercado reduz o bem estar social. Ou seja, os livre-mercados seriam capazes de resolver, de per si, todos os problemas que afetam uma sociedade.

Eis, pois, uma mostra de um dos aspectos mais perniciosos da sociedade capitalista contemporânea mas, que, de todo modo, acaba ajudando a realçar a importância de nossa lei protecionista do consumidor, editada há 22 anos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Feriadão novamente

Feriadão é um show de horrores.
O pessoal larga de mão geral.
 
 

Você meu caro paulistano típico, imagine-se num supermercado por aí e se deparar com um tigrão com a pansa peluda à mostra e o indefectível chilelo de dedo (ou até mesmo os pezões de fora)?
Patético não?
Pois é, é isso que nós que moramos no litoral temos que olhar nos feriados.
 
E aquela mocréia gorda de biquininho e canga parecendo um botijão de gás com capa plástica acompanhando o indivíduo?
Assombroso não?
 
Wandercleisson, Charlene, Cleberson Carlos, Andréia Cristina e amigos.
 
 
A 'madama' de chapinha, maquiagem e celular na praia?
(NT - nota trágica: meu Deus, porque mulher cisma com alisamento?)
 
A molecada, esperança nacional, é um capítulo à parte.
Óculos escuro num dia nublado, prancha pra cá e pra lá pra pegar as marolas, enchem o saco de tudo o que é mulher e não comem ninguém.
 
Desfile de carros de "tunados" com aquele festival de mal gosto em alto volume e todo mundo sendo obrigado a escutar. Geralmente funk, pagode ou música sertaneja.
 
Faltou o adesivo: "se comesse alguém não precisaria chamar atenção".

Curiosamente lembro que antigamente não era bem tunning o nome mas sim uma designação peculiar nada politicamente correta que era atribuída aos taxistas e carreteiros colocavam na alavanca de câmbio aquela  esfera transparente com um caranguejo dentro.
 
Sinal dos tempos: essa manopla e uma porta cheia de zarcão deveria ser tunning também.

Praia Grande, Peruíbe ou Riviera de São Lourenço no final é tudo a mesma coisa. Gente normalmente massacrada pelo trabalho e pela rotina que acha que um feriado é capaz de amenizar suas frustrações e infelicidades.
Pelo menos alguma coisa no mundo é realmente democrática.

O retorno pra casa?
Que delícia, aquele congestionamento básico tradicional pra não perder o hábito do dia a dia.
 
 
 
Uma musiquinha pra animar...
 
 

sábado, 25 de agosto de 2012

Reproduzindo...

Religiosidade diminuirá no Brasil, diz escritor e psicólogo americano
Terra - 24 de agosto de 2012 • 07h32 • atualizado às 08h50  


Michael Shermer vem ao Brasil para disseminar a dúvida e o questionamento na 6ª edição do Fronteiras do Pensamento. Foto: Byrd Williams/Divulgação
Michael Shermer vem ao Brasil para disseminar a dúvida e o questionamento na 6ª edição do Fronteiras do Pensamento
Foto: Byrd Williams/Divulgação

Diretor da Sociedade Cética, criador da revista Skeptic e articulista semanal da Scientific American, o psicólogo e escritor americano Michael Shermer vem ao Brasil para disseminar a dúvida e o questionamento na 6ª edição do Fronteiras do Pensamento. Na mala, o cientista traz a certeza de que o ceticismo pode melhorar o planeta. De fato, ele prevê o arrefecimento da religiosidade da população brasileira com o aumento da prosperidade: "As pessoas se voltam para a religião quando seus governos não fornecem uma estrutura social sólida".

Shermer nem sempre foi tão cético quanto mostra uma das frases de sua entrevista ao Terra: "Eu duvido até que provem o contrário". Durante o ensino médio, ele batia de porta em porta para propagar a palavra do Evangelho. No curso de psicologia, porém, as certezas cristãs começaram a ruir. Por fim, em 1983, competindo como ciclista em um desafio chamado Race Across America, ele percorreu mais de 2 mil km em 83 horas sem dormir e, absolutamente exausto, passou a delirar.

Quando seu time de apoio finalmente pediu que ele parasse para descansar, o ciclista pensou que eram alienígenas conduzindo-o para a nave-mãe. Algumas horas de sono o curaram - a nave, afinal, não passava de um motor home bem americano. Essa confusão o levou a estudar com afinco as razões pelas quais os indivíduos encontram explicações estranhas para eventos que não conseguem entender com a razão.

Seu livro mais recente, The believing brain - o qual será lançado em breve no País com o título A mente e a crença, pela JSN Editora - trata exatamente disso. Nele, o autor delineia um panorama das associações e dos processos envolvidos na mecânica cerebral da crença. "O cérebro é uma máquina de crenças", diz Shermer. "A partir dos dados sensoriais que fluem através dos sentidos do cérebro, naturalmente se começa a procurar e encontrar padrões, e então se infundem significados a esses padrões".

Para explicar suas teorias e fomentar o ceticismo, o mestre em Psicologia Experimental e Ph.D. em História da Ciência espera ser recebido por pessoas "curiosas e apaixonadas por compreender o mundo" em Porto Alegre, dia 27, e São Paulo, dia 29.
Confira a seguir a entrevista completa com Shermer.

Terra - O que significa ser cético?
Michael Shermer - Ceticismo significa investigação cuidadosa. É manter a mente aberta, mas não tão aberta que seu cérebro caia fora e você passe a acreditar em tudo. Ceticismo é ciência, e os cientistas são céticos porque a maioria das ideias acaba se revelando falsa. Assim, a posição padrão da ciência e do ceticismo é a dúvida: eu duvido até que provem o contrário.
Os céticos acreditam na ciência, na razão e na racionalidade. Os céticos acreditam que a mente humana é capaz de resolver problemas e melhorar nossas vidas através da razão. Os céticos são otimistas que têm esperança para o nosso futuro contanto que possam usar a razão e a ciência.

Terra - Qual é o objetivo da ciência em um mundo que procura tanto o sobrenatural?
Shermer - Ciência é um método para responder perguntas sobre o mundo natural com explicações naturais (não sobrenaturais). Ciência é um método sistemático para testar hipóteses acerca do mundo, métodos que podem ser empregados em qualquer lugar, por qualquer pessoa, a qualquer momento. A ciência é aberta e provisória; não Verdades (com V maiúsculo), mas conclusões provisórias baseadas em evidências que podem ser derrubadas se novas evidências surgirem.

Terra - Como pode um cientista ser religioso?
Shermer - Muitos cientistas são religiosos, mas eu acho que eles empregam o que eu chamo de logic-tight compartments (NR: compartimentos cerebrais impermeáveis à lógica) quando eles têm crenças conflitantes. A religião faz coisas que a ciência não faz (como grupos que cozinham sopa e cuidam das pessoas pobres e necessitadas), e a ciência faz coisas que a religião não faz (como a execução de experimentos e coleta de dados para testar hipóteses sobre o mundo).

Terra - O que você acha de James Randi, que oferece US$ 1 milhão para quem provar ser um verdadeiro paranormal?
Shermer - Eu amo o James Randi. Ele é meu amigo e mentor. James Randi é o padrasto do movimento cético moderno. Seu desafio de 1 milhão é uma das coisas mais importantes na história do ceticismo.

Terra - Sobre o seu livro Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas (Why People Believe Weird Thing), há uma resposta fácil para esta pergunta? Por que as pessoas acreditam em coisas como horóscopo, tarô, médiuns, óvnis?
Shermer - A principal razão para as pessoas acreditarem em coisas estranhas é porque nós precisamos acreditar em coisas, no geral. Nós fazemos isso procurando padrões na natureza. Nós somos buscadores de padrões. Eu chamo isso de "padronicidade", a tendência de encontrar padrões significativos em ruídos sem sentido. Ufólogos veem um rosto em Marte. Religiosos veem a Virgem Maria ao lado de um edifício. Paranormais ouvem pessoas mortas falarem com eles através de um receptor de rádio. Os téoricos da conspiração acham que o 11 de setembro foi obra da administração do presidente Bush. É claro que alguns padrões são reais: os germes causam doenças, o DNA é a base da hereditariedade e o presidente Lincoln foi assassinado por uma conspiração. Então a dificuldade está em determinar a diferença entre os padrões verdadeiros e falsos.
Quando nós enganosamente acreditamos ter encontrado um padrão, existem dois tipos de erro: o erro tipo 1, o falso positivo, é acreditar que algo é real quando não é; o erro tipo 2, o falso negativo, é não acreditar que algo é real quando é. Por exemplo, acreditar que o farfalhar da grama é um predador perigoso quando é apenas o vento é um erro tipo 1. Isso não é um grande problema, mas acreditar que um predador perigoso é apenas o vento é um erro tipo 2, que pode custar a vida de um animal. Portanto, teria havido uma seleção natural na evolução dos animais (incluindo primatas como os nossos ancestrais hominídeos) por simplesmente acreditar que todos os padrões são reais. Tais padronicidades, então, significam dizer que as pessoas acreditam em coisas estranhas por causa da nossa necessidade evoluída de acreditar em coisas não estranhas.

Terra - Há quem afirme enxergar espíritos, ouvir vozes e até conversar com seres que já faleceram. Esse tipo de relato é mentiroso?
Shermer - As experiências que as pessoas têm são reais. O que essas experiências representam é algo completamente diferente. A maioria das pessoas não são mentirosas - elas acreditam naquilo que elas pensam ter visto. Mas, na maioria dos casos, elas interpretam erroneamente a experiência.

Terra - Em uma outra entrevista, você comentou sobre a diminuição da religiosidade na Europa e nos EUA. Aqui no Brasil, no entanto, não se nota essa tendência. Qual é o motivo?
Shermer - Eventualmente, a religiosidade vai diminuir no Brasil e nos outros países da América do Sul, à medida que cresce a prosperidade e a confiança das pessoas nos sistemas políticos e econômicos. Uma razão pela qual a religião ainda cresce no Brasil, e em outros países, é que os níveis de confiança entre as pessoas nestes países sul-americanos é baixa, segundo os economistas. As pessoas se voltam para a religião quando seus governos não fornecem uma estrutura social sólida.

Terra - Em seu livro mais recente, The believing brain, você sintetiza 30 anos de suas pesquisas a respeito de como as pessoas formam suas crenças. Dá para sintetizar ainda mais?
Shermer - Minha tese é simples: nós produzimos nossas crenças por uma variedade de razões subjetivas, pessoais, emocionais e psicológicas no contexto de ambientes criados por familiares, amigos, colegas de trabalho, da cultura e da sociedade em geral; após a formação de nossas crenças, nós então defendemos, justificamos e racionalizamo-as com uma série de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais. Crenças vêm em primeiro lugar, e as explicações para as crenças, a seguir.
O cérebro é uma máquina de crenças. A partir dos dados sensoriais que fluem através dos sentidos, o cérebro começa a procurar e encontrar padrões, e então se infundem significados a esses padrões. O primeiro processo eu chamo padronicidade: a tendência para encontrar padrões significativos em ambos os dados, significativos e sem sentido. O segundo processo eu chamo agenticidade: a tendência de infundir padrões com significado e intenção. Nós não podemos evitá-lo. Nossos cérebros evoluíram para ligar os pontos do nosso mundo em padrões significativos que explicam por que as coisas acontecem. Estes padrões significativos se tornam crenças.
Uma vez que as crenças são formadas, o cérebro começa a procurar e encontrar evidências que confirmem e apoiem essas crenças, o que acrescenta um impulso emocional de mais confiança nas crenças e, assim, acelera o processo de reforçá-las, e o processo se transforma em um retorno positivo de confirmação da crença. Bem como, ocasionalmente, as pessoas formam crenças a partir de uma única experiência reveladora em grande parte livre de seu passado pessoal ou da cultura em geral. Mais raro ainda, há aqueles que, ao pesar cuidadosamente as evidências a favor e contra uma posição que já possuem, ou que eles ainda têm de formar uma opinião a respeito, calculam as probabilidades e tomam uma decisão drástica, sem emoção, e não olham para trás.
Essas reversões de crenças são tão raras na religião e na política, que geram manchetes de jornais quando envolvem alguém de destaque, como um clérigo que muda de religião ou um político que muda de partido. Isso acontece, mas é tão raro quanto um cisne negro. Reversões de crenças acontecem com mais frequência na ciência, mas não tão frequentemente como se poderia esperar da visão idealizada do exaltado "método científico", no qual apenas os fatos contam. A razão para isso é que os cientistas são pessoas também, não menos sujeitos aos caprichos da emoção e à força dos traços cognitivos que moldam e reforçam crenças.

Terra - Você está trabalhando em algum novo livro?
Shermer - Meu próximo livro é The Moral Arc of Science: How Science Has Bent the Arc of the Moral Universe Toward Truth, Justice, Freedom, & Prosperity. O livro trata do arco da moral do universo que se volta na direção da verdade, da justiça, da liberdade e da prosperidade, graças à ciência - o tipo de pensamento que envolve razão, racionalidade, empirismo e ceticismo. A Revolução Científica liderada por Copérnico, Galileu e Newton foi tão transformadora, que os pensadores de outros campos conscientemente buscaram revolucionar o mundo social, político e econômico usando os mesmos métodos da ciência. Isso levou à Idade da Razão e do Iluminismo, que por sua vez criou o mundo moderno secular de democracias, direitos, justiça e liberdade.

Terra - Quem você espera que vá te assistir no Fronteiras do Pensamento?
Shermer - Espero que pessoas interessadas em ciência e no pensamento, pessoas que sejam curiosas e apaixonadas por compreender o mundo.

Fronteiras do Pensamento
Concebido em 2006, o Fronteiras do Pensamento é um seminário que reúne conferencistas de diversas áreas da ciência. O foco de 2012 é a participação efetiva do pensador na mudança social.
27 de agosto
Onde: Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama 110 - Bairro Farroupilha - Porto Alegre/RS)
Horário: 19h30
29 de agosto
Onde: Sala São Paulo (Praça Júlio Prestes, 16 - Santa Cecília São Paulo - SP)
Horário: 20h30


Comentário do Coisa cético:  "A Revolução Científica liderada por Copérnico, Galileu e Newton foi tão transformadora, que os pensadores de outros campos conscientemente buscaram revolucionar o mundo social, político e econômico usando os mesmos métodos da ciência. Isso levou à Idade da Razão e do Iluminismo, que por sua vez criou o mundo moderno secular de democracias, direitos, justiça e liberdade." - Também criou uma idade das diferenças sociais brutais, do individualismo excessivo e da crença no "deus mercado financeiro" e todas as suas consequencias.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012