terça-feira, 21 de setembro de 2010

Breaking the law*


Há uns dias peguei um pote de sobra de massa de bolo batido e tasquei o dedo pra lamber os restos.
Delícia!
Relíquias de uma época em que isso era divertido, gostoso e não era assombrado pelos fantasmas das 'bactérias' e 'germes'.

Eu e meus amigos jogávamos bolinha de gude no chão de barro e tomávamos água da torneira quando dava sede. Sem copo, na mão mesmo. Estamos todos aqui, e diga-se de passagem, mamãe Coisa nunca pensou na criatura de quase dois metros que as "bactérias" iriam ajudar a criar.

Fim de semana era a loucura de descer a serra de bicicleta e na volta tomar uma "tubaína" com as moedas do bolso. Ninguém foi sequestrado, estuprado ou morto... outras épocas alguns irão dizer... sim, época com menos paranóia, com moleques que ouviam 'não' mas sabiam se defender.

Quando queríamos nos aventurar mais longe pegávamos o "busão" (saíamos da terra do presidente) pra jogar fliperama na Xavier de Toledo, perto do Mappin. Vários e vários minutos namorando as máquinas, jogávamos uma ou duas fichas (a única quantidade que podíamos comprar) e íamos embora realizados.
Na época era proíbido para menores, não sei se ainda é assim.
Mesmo nesse "antro da perdição" ninguém virou um junkie. Ou pelo menos, quase nenhum. :o)

Estávamos indo da sétima para a oitava série, já eramos "quase adultos". Nos dávamos o direito de levar aquele gravador cassete com trinta pilhas pra "rolar" o British Steel do Judas Priest* no meio da aula. Os "metaleiros da pesada" acabavam cedendo às professoras, coisa de respeito, certa disciplina.

Mas estávamos bem, afinal, ouvíamos clássicos e não Justin Bibas (que não vai virar clássico nem para a mãe dele) da vida - "coisas" como forró universitário e sertanejoromanticobrega eu nem vou citar - e muito menos, pois nem existia, deixávamos celulares ligados.

Já nessa época meus amigos sempre diziam que eu tinha algumas moedas a mais por causa dos bicos. Eu era o mais pobre da turma mas desde os 13 anos já "consertava uns toca-fitas" pra descolar um troco.
E depois gastava tudo no Jumbo Eletro ou no Mappin com uns LP's ou na Santa Efigênia (um dia ela não foi uma sucursal de Cuidad del este) com 'tranqueiras de eletrônico'.

Como bom hiperativo, não só fazia as aulas de educação física com prazer, mas completava todos os outros dias da semana com treinos de outros esportes. Um bodybuilder começa cedo! :o)

Olhando meus amigos quarentões hoje, vejo que não mudamos nada.
Cabelos "prateando", a maioria com suas "saliências abdominais", mas no fundo, todos iguais.
Um "revestimento de homem de família" foi instalado na maioria, um verniz que acharam necessário passar para atender aos anseios da sociedade.

Numa inversão de valores bastante sintomática, algumas "patroas" deles dizem que "fazem amor" e "amam dinheiro".

Informados da minha mudança, que há tempos ensaiava, me indagaram "horrorizados" sobre o que eu faria no litoral. Em termos de trabalho, uma atividade abominável que todos foram catequizados para "gostar", eu disse: "Nada como sempre. Ou no máximo, o mínimo."

Presenciei reações bastante engraçadas e adversas.
Como em "Revolutionary Road", alguns se sentiram traídos, outros ofendidos, alguns surpresos. 
Apesar de nunca ter estado propriamente neste esquema, a grande expressão de olhos arregalados era: como eu deixaria para trás as 'maravilhas' da metrópole, das corporações, da competição e, claro, dos hospitais?
No fundo, tudo o que eles sabem que não tem sentido.

Projetavam o medo deles como para um navegador do século XIV que iria até o "fim do mar"  numa Terra, claro, plana.

Lembrei a eles que "Vida Besta" do Premê ("...pensando no futuro comprei um terreninho no cemitério...") também passou pela nossa época e "Ouro de Tolo" do Raul também.

Sudosismo? Imaturidade? Complexo de Peter Pan?
Não, apenas a realidade de que são as "idiotices" que sempre nos deram boas sensações.