Voltei a escrever pra ninguém, pra deixar esse feedback pra mim mesmo.
E lá se foram mais de 10 anos após conhecer ecovilas e comunidades intencionais.
Já postei sobre o assunto várias vezes, começando mais ou menos por aqui e aqui.
Resumindo antes de continuar: ainda acho a única saída pras pessoas e principalmente para o planeta, digo, a vida.
O que se passou nesses anos?
Quando resolvi vender meu único bem pra viabilizar isso, eu tinha duas frentes: comprovar que as pessoas (generalizando) são "fogo de palha" e, obviamente, tornar meu ideal uma realidade.
Muitos grupos diziam (dizem) que só faltava a grana pra 'acontecer'. Meu primeiro ponto. Quando levantei a verba, tchan! Muita gente enrolou aqui ou ali. O que queriam era apenas a masturbação mental da vida no campo.
Eu já escrevi sobre a dificuldade das pessoas em restaurar um senso de comunidade, principalmente que o coletivo tenha alguma prioridade em suas vidas e que o diálogo (incluindo frustrações, negativas e conflitos) seja de fato amplo.
Mas percebi um complicador adicional: muita gente não tem a menor ideia sobre si e o que querem.
Claro, diremos, "ah, mas isso eu já sabia". Bem, esses mesmos que "já sabiam" não sabem de si.
Mesmo o mais riponga dos caras pode sair (sair mesmo) culpando os outros.
E tem os sujeitos que dizem barbaridades como "eu quero viver como um mendigo", numa tentativa de fazer um marketing pessoal da sua simplicidade. Além de um desrespeito a quem passa por tal situação, tem a mentira descarada sobre si mesmo. Resultado: desistem e "saem atirando" ou permanecem como espectadores.
Pessoalmente sigo tocando o barco.
Meus estranhamentos só foram nas minhas próprias sensações.
Nunca achei que só seriam flores, vida bucólica e idealismos infantis de "vida natural", aliás, por ser cético sempre fui acusado de pessimismo e até de "energias negativas" sabe-se lá que bobagem é essa.
A tal natureza (isso que convencionamos chamar de natureza) é indiferente a nós e, portanto, apesar da vida incrivelmente prosperar quando não é perturbada, ela não prospera como desejamos ou sob nossa vontade. A morte e a dor estão sempre à espreita.
Mas se vc aceitar isso, a experiência vale a pena sim. E muito.
E vc vai entender que a morte não está à espreita na cidade, vc já está morto nela e não sabe; a dor é constante na cidade, vc que a naturalizou.
Aprender é a primeira satisfação. Uma miríade de coisas numa sala de aula real da vida real.
Desde o acompanhamento da fauna e flora à resolução de problemas cotidianos que requerem técnica e ferramentas. Daria pra escrever capítulos nessa parte.
Suas necessidades mudam (e tem que mudar mesmo!) e seu senso estético e higienista também.
Mas a sensação de reconexão com o "tempo lento" e o "espaço aberto" é algo meio inexplicável.
Esses dois 'fatores' (pra quem sabe contemplar e aproveitar) afetam nosso pensamento e afetos de maneira estranha. As dimensões se ampliam e a linearidade de uma vida de trabalho/consumo se dissolvem. E não é possível quebrar esse ciclo na cidade, local hermético, sólido, linear, setorizado e, em todas as interpretações, sem horizontes.
Só isso já bastaria pra compensar as "inconveniências" (o que a sua zona de conforto e a naturalização solidificaram como conveniências) da vida rural.
E se o seu 'grupo' da cidade se esfarela, um grupo local se forma quando vc é solicito e amistoso.
Com a exponencial degradação ambiental, mais e mais faz sentido readquirir (um pouco) de poder e independência, coisa só possível pra quem tem terra.
E dizer que se trabalha mais no campo só pode ser compreendido se a afirmação se refere a um empregado/explorado do agronegócio ou se vc acha "natural" a exploração da vida mecânica na cidade e sua miríade de doenças civilizatórias. Como dizia Masanobu Fukuoka, gosto da minha agricultura porque trabalho pouco.
Seriam muitas páginas a escrever numa época que só se lê mensagens de whatsapp e tweeter. Enfim, quis alimentar meu diário tantos anos depois.