sexta-feira, 7 de março de 2014

Dieta do trigo, milagre ou fato?

Sempre defendi que deveríamos eliminar os carboidratos da dieta, ou no mínimo restringir seu consumo ao máximo. Para mim e inúmeros pesquisadores, a pirâmide nutricional aceita como dogma deveria ser quase o oposto do que ela é.

Não costumo dar muita atenção para dietas da moda, mesmo porque, como marombeiro contumaz (admito que há meses em pausa forçada) sempre li sobre biomecânica, educação física e nutrição, o que elimina as místicas soluções alimentares.

Li apenas dois livros sobre dietas, o primeiro foi "A solução anabólica para fisiculturistas" do Dr Mauro di Pasquale, que demonstra cientificamente a eficiência das opções já utilizadas por vários bodybuilders há décadas. Dr Mauro é médico e ex-atleta.
Essa eu testei e aprovei, tanto do ponto de vista estético quanto de saúde.

O segundo foi "Barriga de trigo" do Dr William Davis, que me despertou curiosidade graças a mente científica do autor, quebra de dogmas e investigação a respeito dos transgênicos.
Ao contrário da maioria dos médicos que não estuda mais depois que se gradua (a tradicional burocracia acadêmica - o que pouco tem a ver com ciência), Dr Willian Davis estuda e mantém seu espírito científico, o que permite questionar pesquisas, buscar informações longe dos holofotes e ter a confiança em suas posições até para testar em si mesmo suas teorias (adoro fazer isso!).

Como diria o professor Carl Sagan, seja cético inclusive com o ceticismo.

São mais de 300 páginas recheadas de pesquisas científicas, relatos de casos médicos e excelente biografia.
Além de falar do trigo, trata dos problemas com a gordura visceral, segurança dos transgênicos e alternativas nutricionais
Sinteticamente o que ele expõe:
  • é seguro dizer que o trigo está presente na alimentação humana desde os natufianos perto do final do Pleistoceno, mais ou menos em 9500 AC.
  • o que comemos hoje como trigo, é tão trigo como nós somos primatas. O trigo einkorn e emmer são as variedades originais quase extintas.
  • apesar da hibridização ter começado há muitos séculos, as manipulações genéticas datam apenas do século XX, por volta dos anos 40 (a posterior adoção maciça do trigo transgênico coincide mais ou menos com a explosão nos casos de obesidade).
  • com intuito de aumentar a produtividade, tornar o trigo resistente aos herbicidas, facilitar sua colheita e aumentar a maleabilidade dos grãos, várias proteínas, mais precisamente polímeros,  foram adicionados, incluindo glútens (que são polímeros das famílias das gliadinas a das gluteninas) nunca antes existentes.
  • essas alterações também fizeram do trigo o cereal com a mais alta dose de amilopectina A, um carboidrato de altíssimo índice glicêmico (IG), que portanto eleva brutalmente a insulina no sangue e consequentemente a famigerada "bóia" abdominal.
  • em mais uma prova de sua mente científica, dr Willian Davis coloca: "o porque do corpo preferir a região abdominal para armazenar gordura e não o topo da cabeça ou o ombro esquerdo ainda é um completo mistério para a ciência médica". Lembrem-se que simplesmente alegar que é porque ali tem mais células adiposas não revela a origem do problema.
  • o pão branco (com trigo moderno) tem um IG de 69, enquanto o açucar comum tem um IG de 59. Você fiel consumidor de pães integrais pasme: o pão de trigo integral tem IG de 72!
  • tendo o próprio autor sensibilidade ao trigo, ele correu o mundo atrás do eikorn para colocá-lo à prova: consumindo exatamente 100 gr de pão de eikorn (massa mais compacta, com coloração mais amarelada e gosto levemente "castanhado"), sua glicose foi de 84 mg/dL para 110 mg/dL (uma alteração esperada) e sem consequências físicas posteriores; no dia seguinte, consumindo 100 gr  de pão de trigo moderno, sua glicose foi dos mesmos 84 mg/dL para 167 mg/dL, acompanhado pouco tempo depois de náuseas, cólicas e insônia, além de dificuldade de conentração, com duração dos sintomas de até 36 horas.
  • graças a sua alta dose de amilopectina A, o consumo dos derivados de trigo estão intimamente ligados à obesidade e a diabetes.
  • o aumento de casos de doença celíaca (há indícios de que os casos - por percentual da população - da mesma quadruplicaram por volta dos anos 40) parecem estar diretamente ligado à inclusão de novos glútens e o aumento da quantidade dos previamente existentes.
  • o glúten, ao passar pelo processo de digestão transforma-se numa mistura de polipeptídios, sendo que os predominantes atravessam a barreira hematoencefálica e ligam-se a receptores de morfina, da mesma maneira que as drogas opiáceas, portanto, o trigo vicia mais do que outros carboidratos.
  • os relatos documentados de seus pacientes e vários outros grupos estudados incluem ligações em diversos níveis com psicoses, depressão, TDAH, inflamações gástricas e intestinais, artrites, doenças auto-imunes, diabetes entre outros.
Minhas conclusões?

O livro é bastante coerente e repleto de boas fontes. 
É bastante plausível colocar nosso trigo 'biônico' na mira, assim como outros transgênicos, afinal essas manipulações visam apenas o lucro, porém admito ser bastante difícil ficar longe deles.
Quando o capital entra pomposo pela porta da frente a ética sai escorraçada pela porta dos fundos.
Monsanto, Cargill, ADM e outras gigantes com certeza não concordam com essas pesquisas.
Devemos lembrar que não são apenas dietas ricas em carboidratos que elevam a insulina no sangue. Dietas de restrição calórica, principalmente longos períodos sem alimentação, também fazem com que a insulina suba rapidamente com qualquer comida, que aliado a perda de massa magra, provocará a médio prazo a diminuição ou estagnação da perda de gordura devido a queda no metabolismo basal.

Praticamente metade do livro trata dos malefícios da gordura visceral e da diabetes, o que definitivamente não se pode atribuir somente ao trigo. O fato dele ser o cereal mais consumido no mundo e compôr a maior parte do carboidrato ingerido pelas pessoas o coloca em uma situação de alvo fácil.

Também devemos levar em consideração que o consumo de derivados de trigo nos EUA é bem maior que aqui. Se Vênus é um vislumbre da Terra sob efeito estufa, os EUA são um vislumbre do Brasil se continuarmos trocando nosso feijão com arroz por massas e aumentando dramaticamente o consumo de bolachas, muffins e outras porcarias.

Por fim, para quem consome carboidratos com moderação e salvo casos muito específicos, um pãozinho francês ou umas fatias de pizza devem fazer tão mal quanto um copo de refrigerante ou um porre de vez em quando, afinal somos humanos... eu acho.